Tuesday, February 28, 2023

"Fill yourself with the beautiful stuff of the world. Have fun. Get amazed"

Como posso viver a vida ao máximo e não desperdiçar o meu potencial?, perguntou Ruben, de 13 anos, ao músico Nick Cave, através do (maravilhoso) site "The Red Hand Files". 


A resposta é fantástica. Serve para o Ruben e serve para todos nós. É exactamente isto.


"Dear Ruben, 


When I read this question, my initial thought was that the kid who wrote this has nothing to worry about, they’re going to be all right. Ruben, you are very smart, you are engaged with the world and I’m not sure what your creative interests are, but you can certainly already write. Not only that, you are also reaching out for answers. At thirteen, this is all brilliant! Luckily for you, Ruben, I have some! So here goes!


Read. Read as much as possible. Read the big stuff, the challenging stuff, the confronting stuff, and read the fun stuff too. Visit galleries and look at paintings, watch movies, listen to music, go to concerts –  be a little vampire running around the place sucking up all the art and ideas you can. Fill yourself with the beautiful stuff of the world. Have fun. Get amazed. Get astonished. Get awed on a regular basis, so that getting awed is habitual and becomes a state of being. Fully understand your enormous value in the scheme of things because the planet needs people like you, smart young creatives full of awe, who can minister to the world with positive, mischievous energy, young people who seek spiritual enrichment and who see hatred and disconnection as the corrosive forces they are. These are manifest indicators of a human being with immense potential.


Absorb into yourself the world’s full richness and goodness and fun and genius, so that when someone tells you it’s not worth fighting for, you will stick up for it, protect it, run to its defence, because it is your world theyre talking about, then watch that world continue to pour itself into you in gratitude. A little smart vampire full of raging love, amazed by the world – that will be you, my young friend, the earth shaking at your feet.


Love, Nick"

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Monday, February 27, 2023

"Tár": sobre o poder

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As opiniões dividem-se sobre Tár. Uma crítica terrível, publicada na New Yorker, aquando da estreia do filme de Todd Field, fez-me pensar muito. Mas também li outras críticas muito positivas. As opiniões dividem-se sobre Tár e eu fico do lado daqueles que gostaram muito. 


O filme acompanha a maestrina Lydia Tár, soberbamente interpretada por Cate Blanchett, personagem de ficção, é preciso sublinhar, figura de topo da música clássica contemporânea, amplamente elogiada e premiada, a primeira mulher a assumir o cargo de maestra principal da Filarmónica de Berlim. Uma mulher com poder num meio geralmente dominado por homens, um meio elitista e muito fechado. Tár é lésbica e casada com a primeiro violino da orquestra, Sharon, com quem tem uma filha. Moram numa casa moderna e luxuosa, um ambiente higienizado e quase não-humano. Mas Lydia mantém o seu antigo apartamento, num prédio familiar, aonde vai para ensaiar ou quando quer estar sozinha (ou com outras companhias). Tár, vamos descobrindo, conquistou o seu lugar também graças a uma atitude brava (masculina?), sem fazer concessões, sem grande empatia pelos outros. Tár, vamos descobrindo, usa o seu poder para manipular os que a rodeiam, levando-os a corresponder aos seus caprichos (veja-se a relação com a sua assistente pessoal) e para seduzir outras mulheres, sobretudo jovens em início de carreira (veja-se, mais uma vez, mas não só, a relação com a sua assistente pessoal). Autoritária e determinada, Tár sabe bem o poder que tem e não admite ser contrariada. Mas, de repente, o feitiço vira-se contra o feiticeiro. Uma antiga aluna, com quem Tár terá tido um relacionamento e que se sente abandonada, tenta desesperadamente entrar em contacto com ela e acaba por se suicidar. Os alunos de uma masterclass na Juilliard publicam nas redes sociais um vídeo de Tár, editado, no qual ela aparece a fazer declarações politicamente incorrectas. Os músicos da orquestra ficam desagradados com as alterações feitas ao programa para dar destaque a uma instrumentista nova, por quem Tár se mostra interessada. Sharon já não acredita quando ela nega os seus casos extra-matrimoniais. As denúncias chegam à direção da orquestra, que confronta Tár. Entre as acusações verdadeiras e as falsas, Tár não sabe como reagir. Desvaloriza, com alguma soberba. Habituada a estar no controlo da situação, ela perde o controlo (e o resto vão ter de ver).


Isto é, em traços largos, o que acontece. Mas, depois, há muito mais que se discute por ali, a propósito de música e de relações de poder. Há diálogos extraordinários. E muitos debates que podem surgir sobre o politicamente correcto e a cultura woke, a importância das redes sociais e a justiça dos cancelamentos.


Os críticos do filme apontam o óbvio: que Field toma o ponto de vista de Tár, uma vez que o filme dá apenas a sua visão dos acontecimentos, sem nos permitir criar uma ligação com as vítimas. Que os abusos de Tár nunca são afirmados claramente, resta sempre uma dúvida. Que o discurso de Tár é inevitavelmente igual ao discurso do poderoso-homem-branco, habituado a usar os outros e que de repende se vê confrontado com denúncias de abuso de poder (e sexual).


Mas o que eu vi não foi uma defesa do abuso. Pelo contrário. O que eu vi foi uma mulher claramente abusadora, habituada a silenciar os outros com o seu olhar, as suas palavras ou um simples gesto, uma mulher por quem dificilmente sentiremos qualquer empatia. A cena da masterclass e a sua interacção com o estudante que tenta confrontá-la tem tanto de brilhante (por toda a argumentação, de um lado e de outro) como de confrangedora: sim, parece que ela é a "vencedora" da discussão, mas fá-lo através da humilhação do outro e exercendo um certo despotismo, uma sobranceria que parece despropositada numa maestrina no topo de carreira perante um jovem-ninguém (porque se sentiu ela ameaçada?). A intolerância de Tár aos outros que são diferentes dela vai-se acentuando ao longo do filme. Sejam os vizinhos que a incomodam ou todos os que não a bajulam indiscutivelmente. Sim, ela é adorável com a filha. Mas repararam na maneira como ameaçou a coleguinha dela, uma criança? Ou na forma dissimulada como afasta o maestro-assistente? Isto diz muito da forma como esta mulher está habituada a lidar com os contratempos.


"In the end, however, she cannot bend other people’s experiences of her to fit her image. She cannot delete all the evidence. She cannot escape a younger generation’s system of accountability—and years of rarefied success have left her unable to withstand her own defenselessness. Her devotion to art did not translate to genuine self-respect, a set of ethics, nor the ability to take responsibility for her actions. In the grand tradition of the toxically masculine she lapses into violence, attacking another conductor onstage and securing her own demise", escreve Tavi Gevinson, num outro texto que me trouxe mais mil perguntas.


Portanto, não, não senti que houvesse uma defesa cabal de Lydia Tár. Senti que havia ali muito material para pensar, muitas pontas por onde puxar, muitas perguntas por responder. Até porque ser intolerante com os abusadores não quer dizer que aceitemos por completo todas as exigências da cancel culture. Ou porque prefiro filmes que me obrigam a tomar uma posição àqueles que são simplesmente pedagógicos.


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Friday, February 24, 2023

Um ano depois, ainda a tentar perceber

"Não há dúvidas de que o comunismo foi uma época terrível para a Rússia, mas o que temos hoje ainda é pior", escreveu Anna Politkovskaya em 2004. Pouco depois, em 2006, a jornalista russa foi assassinada à porta de casa. Tinha 49 anos e dedicara grande parte da sua carreira a denunciar as atrocidades e as injustiças cometidas no seu país, em particular na Chechénia. O livro A Rússia de Putin foi publicado em Portugal no ano passado e é um documento incrível e uma premonição. Estava lá tudo. O fim do comunismo e a tentativa fracassada para construir uma democracia. O poder enorme dos olicargas e das máfias. O desprezo de Putin pelo seu povo. A guerra como forma de manter o poder. A ambição desmedida. A corrupção incrustada na sociedade. A lei do mais forte. Os líderes ocidentais a fecharem os olhos e a darem apertos de mão, porque também lhes convinha. A pobreza das pessoas. O desalento. E, por fim, a necessidade de denunciar, de continuar mesmo sabendo - porque tinha que saber, porque ela própria contou essas histórias - que quem desafia o poder põe a sua vida em risco.


A luta contra a corrupção e por uma democracia do povo era a bandeira de Alexei Navalny. O advogado e político russo, da oposição, seria o maior concorrente a Vladimir Putin nas eleições presidenciais. Mas foi preso várias vezes e foi alvo de uma tentativa de assassinato, por envenamento, em agosto de 2020. O documentário Navalny, que está disponível na HBO e que está nomeado para um Óscar, encontra-o precisamente durante a recuperação, na Alemanha. Apesar de estar longe de casa, Navalny e a sua equipa continuaram a fazer oposição, determinados em fazer com que o mundo soubesse a verdade sobre a Rússia e sobre Putin, convictos de que o apoio internacional poderia evitar o pior. Talvez tenha sido assim: Navalny foi novamente preso no momento em que aterrou na Rússia e, desde então, tem sido certamente torturado e mal tratado de muitas formas; mas não foi morto. O documentário termina com a sua prisão, a 17 de janeiro de 2021, com as imagens incríveis de uma multidão que o esperava feliz mas acabou a levar bastonadas, com os telemóveis a gravarem a detenção de um cidadão apenas porque criticava o governo e denunciava os abusos de poder.



Passa hoje um ano sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia. Uma guerra que está longe de terminar. E se há coisa que este livro e este filme deixam bem claro é que esta guerra não foi uma surpresa para quem acompanhava o que se passava na Rússia. E é por isso que quase todos os líderes ocidentais são culpados disto que veio a acontecer - por terem sido coniventes com uma ditadura, por não terem sabido impor os limites quando deveriam tê-lo feito. Já vimos isto acontecer antes, que nos sirva de lição para o futuro. Com ditadores não pode haver diálogo.


Hoje é um dia bom para ler jornais e para percorrer os sites de informação. Há muita coisa boa para ler e para ver. Escolham bem as vossas fontes de informação e aproveitem. Há muitas histórias bem contadas, histórias de pessoas reais, de gente como nós que foi apanhada no meio de uma guerra. De gente que poderemos vir a ser nós, um dia destes.


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Mariupol, 9 de março de 2022


Fotografia de Evgeniy Maloletka/AP

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Tuesday, February 21, 2023

"Os Espíritos de Inisherin"

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"Os Espíritos de Inisherin", de Martin McDonagh, é um filme sobre a amizade. Mais precisamente, sobre a amizade entre dois homens - estava a pensar se isto seria relevante, se fossem mulheres seria diferente?, não tenho uma resposta definitiva mas tenho tendência para achar que sim, que há ali qualquer coisa de não-dito que é muito típico da amizade dos homens, mas talvez seja só eu a estereotipar e a generalizar. Também é um filme sobre a solidão  - e isto, sim, é relevante, porque em princípio quando temos amigos sentimo-nos menos sozinhos. A solidão de uma mulher que vive numa ilha e não tem um único amigo. A solidão de um rapaz que sente que ninguém o compreende. A solidão das pessoas que precisam das vidas e das histórias dos outros para se ocuparem. A solidão de um homem cujo melhor amigo decide, de um dia para o outro, que já não gosta dele e, assim, ele fica sem companheiro de conversas e de passeios, com quem se sentar a beber uma cerveja, alguém que o ouça, mesmo que o que ele tenha para dizer não tenha interesse nenhum (o que, até ver, é a melhor definição de amigo). A solidão de um outro homem que percebe que talvez já não viva muito tempo e decide que não quer perder tempo com pessoas que não lhe interessam, que quer ter mais tempo para si e para a sua solidão. O resto é paisagem - literalmente. O filme passa-se numa ilha da Irlanda, de extensas planícies e enormes pedregulhos, rodeada por um mar pouco convidativo. Uma paisagem bonita mas agreste.


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Óptimos diálogos. Boas interpretações de Colin Farrell, Brandon Gleeson, Kerry Condon e Barry Kehogan. Gostei muito e não achei um aborrecimento, como alguns me avisaram que seria. 


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Monday, February 20, 2023

"Elvis": I can't help falling in love with you

Andei a adiar ver o Elvis. Porquê? Porque eu sempre gostei muito do Elvis Presley, sempre tive um fascínio por aquele miúdo de sorriso maroto e movimentos atrevidos que pôs as miúdas a gritarem de excitação, tornou-se uma estrela e acabou gordo e decadente a cantar para senhoras ricas com colares de pérolas e casacos de peles nos casinos de Las Vegas. Toda a história dele é fascinante. E olhem que quando eu comecei a gostar do Elvis e tinha a cara dele em postais colados na parede do quarto não havia internet e não era assim tão fácil saber os pormenores destas histórias, era preciso ir apanhando umas coisas aqui e outras ali, as imagens de Elvis a cortar o cabelo mil vezes repetidas sempre que se falava dele na televisão, os filmes pirosos que passavam nas matinés de domingo na RTP, as fotografias do casamento com a Priscilla nas revistas de fofocas, as ancas apenas imaginadas no Ed Sullivan Show, as ancas em todo o seu esplendor no Jailhouse Rock , o Elvis dengoso a cantar com colares de flores hawaianos ao pescoço. Aquela voz, mesmo nos últimos tempos, aquela voz poderosa. 


Andei a adiar ver o Elvis porque quando se gosta assim de uma figura na adolescência não há filme nenhum que lhe possa fazer justiça, isso eu já sabia. Mas, agora que já vi, posso dizer-vos que não é assim tão mau quanto eu imaginei. Temos que admitir que Austin Butler faz um bom trabalho, percebe-se que investiu muito para que as suas ancas não mentissem. Também gostei do facto de o filme explorar todo o background cultural, sobretudo a relação de Elvis com a música negra. E não deixa de ser interessante que o filme seja contado do ponto de vista do agente, o "coronel Parker", que, para mim, era uma figura praticamente desconhecida. Por outro lado, parece-me imperdoável que três das cenas mais importantes - o concerto de 4 de julho, a gravação do especial de natal e o despedimento de Parker - sejam quase completamente inventadas. Eu sei, eu sei, aquilo é um filme, tem as suas próprias regras e é só inspirado na realidade, há que apimentar as coisas e o essencial é não fugir ao espírito original dos factos. Mas, ainda assim, custa-me. E, depois, pronto, é o Baz Luhrmann a realizar e dá para sentir aquele cheirinho de Moulin Rouge, aquele excesso de luzes e de cores, de glamour nas roupas e teatralidade nas cenas. E, o que francamente mais me custa, todo o tom de tragédia anunciada, como se a vida de Elvis tivesse ficado decidida no momento do nascimento (e da morte do irmão gémeo), com aquela irritante voz off de um Tom Hanks em overacting e over-caracterização, a estafada comparação com os ilusionistas do circo, a vida dos artistas é sempre uma mentira e blá blá blá. Hmmmmm. Não é tão mau como pensei que seria mas não fiquei satisfeita. Acabei o filme e fui para o YouTube ver o real Elvis para me confortar. Só por isso já valeu a pena.


Em 1956, com 21 anos:



Em 1977, pouco antes de morrer aos 42 anos:


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Tuesday, February 14, 2023

E daqui para a frente?

O trabalho da Comissão Independente que investigou os abusos sexuais de menores na igreja católica portuguesa é importantíssimo. Aquelas pessoas fizeram um trabalho difícil com grande seriedade e apresentaram resultados concretos num prazo curto: um relatório feito sem papas na língua nem meios termos, doa a quem doer (e imagino que doa muito aos muitos bons católicos, que os há). Um trabalho necessário para que se tente, quando possível e na medida do possível, reparar as vítimas, punir os culpados e, também muito importante, evitar que os abusos continuem. Para que nos possamos encarar uns aos outros, enquando comunidade, independentemente da nossa religião, porque, não se iludam, o problema é de todos nós, dos que permitiram, dos que sabiam e não disseram nada, dos que fingiam que não sabiam, dos que preferiram não saber, dos que deram palmadinhas nos ombros, dos que olharam para o outro lado, dos que disseram "cala-te, não inventes", o problema é de todos nós, que durante tanto tempo, em tantas situações, e ainda hoje, quantas vezes, desculpamos e protegemos agressores, violadores, abusadores.


É ler o texto do meu amigo João Miguel, com quem nem sempre concordo, mas que desta vez diz tudo o que penso.


É impossível ouvir ou ler aqueles testemunhos sem nos revoltarmos por dentro. Alguém se questionava ao meu lado: mas era mesmo necessário sabermos estes pormenores todos? Acredito que sim. Que se fossem só números, só descrições vagas, as pessoas não iriam dar tanta importância, iriam ouvir e esquecer. Às vezes é mesmo preciso um murro no estômago. Um acordar para a realidade. Se nos sentimos desconfortáveis com aqueles testemunhos é porque eles estão a cumprir a sua função. É porque a coragem que aquelas pessoas tiveram para falar não foi em vão. 


A partir de agora, ninguém pode dizer que não sabe. 


Resta saber o que vamos fazer com isto.

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Monday, February 13, 2023

A vida pula e avança: dois filmes, dois livros, dois espectáculos, duas reportagens

Um post para correr atrás do prejuízo. Porque não quero esquecer algumas das coisas boas que têm acontecido.


Dois filmes


Aftersun é uma pequena maravilha. Trata-se da primeira longa-metragem de Charlotte Wells, que, aparentemente, se inspira em parte na sua infância. A ação passa-se talvez nos finais dos anos 90 ou início dos 2000 (estou a calcular, pela banda sonora, que inclui a Macarena e os Blur). Um pai (Paul Mescal, que conhecemos de Normal People), recentemente divorciado e a braços com vários problemas materiais e emocionais, leva a filha de onze anos (Frankie Corio) para umas férias de verão num resort turístico na Turquia. As conversas entre eles são deliciosas, os silêncios ainda mais. Não sei se foi por ter essa experiência, de passar tanto tempo com os meus filhos, sem mais adultos por perto, mas emocionei-me muito porque sei bem o tanto que ali se passa, naqueles silêncios, em que pai e filha partilham cumplicidades e cuidam um do outro, com pequenos gestos, pequenos nadas que são tudo. 



No dia em que fui ao cinema ver Ursos não há, o realizador iraniano Jafar Panahi encontrava-se preso desde julho do ano pasado. Foi libertado dias depois, a 4 de fevereiro. Tal como tem vindo a fazer, Panahi continua a trabalhar a autoficção, apresentando-se a si mesmo no ecrã e às dificuldades que enfrenta como realizador num país onde não existe liberdade de expressão e que, além disso, se rege por tradições ancestrais, patriarcais e castradoras. A vigilância não é só policial, é também exercida pela comunidade. Estas circunstâncias levam-no a interrogar o seu trabalho, a importância das imagens e o papel do cinema. Ursos não há, mas as ameaças e o medo podem ser reais.



Dois livros


Com Nora Webster, de Colm Tóibin, conheci uma mulher que fica viúva e de repente se vê sozinha a braços com a vida e os filhos. A ação passa-se em Enniscorthy, na Irlanda, no final da década de 60. Mas podia ser aqui e agora (houve ali momentos - por exemplo quando, cheia de sentimentos de culpa, ela tem de deixar os filhos pequenos desacompanhados durante algumas horas para ir trabalhar - em que podia perfeitamente ser eu). Nora procura o seu próprio caminho, sem medos. Isso implica tomar decisões que vão parecer aberrantes vistas de fora. Tem de libertar-se das suas obrigações perante a comunidade, do peso da religião, do enorme fardo das aparências. Às vezes, temos forças que nem sabíamos que tínhamos. 


Shuggie Bain, de Douglas Stuart, chegou-me através da Sónia, que me assegurou que tinha sido um dos melhores livros que já tinha lido. É, de facto, muito bom. Um mergulho de cabeça nas dificuldades das classes mais baixas de Glasgow, na Escócia, nos anos 80. A miséria contada a partir da história de um miúdo, Shuggie Bain, que cresce a assistir à luta da mãe, Agnes, contra as injustiças do mundo, contra os homens que a exploram e contra o vício do álcool. E que ao mesmo tempo vive também a sua própria luta, a tentar perceber porque é que não é como os outros rapazes. Da alegria de comer um chocolate à tristeza de não ter mais o que comer. Maravilhosamente escrito, com pormenores que nos vão fazer chorar mas também sorrir, que às vezes me fizeram sentir uma enorme revolta. O livro foi o vencedor do Booker Prize em 2020 (e acho que tem tudo para vir a ser um filme).


Dois espectáculos


Onde é que eu ia?, monólogo de Nuno Artur Silva (na verdade, não é, está lá o António Jorge Gonçalves, a dialogar com desenhos, mas, vá), espécie de stand-up comedy mas num tom e num ritmo muito próprios, humor umas vezes mais aguçado, noutras mais light, umas vezes mais confessional, noutras mais desbragado. Gosto muito de ouvir pessoas inteligentes, mais ainda se forem capazes de rir de si mesmas. 


Massa Mãe, espectáculo da minhota Sara Inês Gigante, com a amiga também minhota Carolina Vieira, uma viagem pelas suas memórias de criança, passando pelas brincadeiras com a cadela Pancas, as festas da Senhora da Agonia, o ouro pendurado ao pescoço, os lenços dos namorados, o fato da avó Cândida e os conselhos da tia Maria. E as perguntas todas que surgem quando olhamos para as tradições. A vida é como o ciclo do pão de milho - semea-se, cuida-se, apanha-se, desfolha-se, mói-se, amassa-se, coze-se, come-se. Mas, tal como com a "massa mãe", deixamos sempre algo para os que vêm a seguir.


Vendo bem, são duas criações em modo "a minha vida dava um espectáculo". Cada um à sua maneira. E também por isso - porque sou esta pessoa que se pensa e se narra e se questiona e se memorializa por aqui - me agradaram tanto e me levantaram tantas questões.


Duas reportagens


"Estou a lutar pela vida e agora vou falar de sexo?" Após o diagnóstico de cancro, os doentes experienciam geralmente uma diminuição da líbido, o que se agrava com os sintomas da doença e, depois, os efeitos dos tratamentos. Na maioria das vezes, vivem com este problema em silêncio, têm vergonha de falar do assunto com os médicos pois temem que as outras pessoas achem que não é adequado pensar em sexo quando se está em risco de morrer. 


Na Mouraria, uma cama num quarto partilhado por seis pessoas pode custar 200 euros. Andei pelas ruas dos bairro, acompanhada pela Farhana, a tentar perceber as dificuldades dos imigrantes que ali moram. “Se as pessoas vivem em condições tão miseráveis é porque não têm alternativas”, disse-me o Farid. Se a habitação é um problema tão grande na nossa sociedade actual, imaginem para aqueles que acabaram de chegar a um país novo, que não têm rede de apoio nem falam a língua, que podem até não ter um trabalho nem documentação legal.


Mouraria_019.JPG Fotografia de Rodrigo Cabrita

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