Friday, December 19, 2025

Dançar

Ah, dançar. Eu adoro dançar. Dançar era “a” minha cena, sabem? Fechar os olhos e dançar, ocupar a pista sem pensar, ignorar os olhos que me olham, mexer o corpo sem regras. Odeio coreografias, sou incapaz de dançar em par, agarrada a alguém, mas dançar, entregar-me à dança e deixar-me ir é qualquer coisa de extraordinário. Dançar desde os tempos da Fonte Velha, a primeira discoteca da minha terra, que abriu tinha eu uns 15 anos ou por aí, das primeiras vezes ia com o meu pai, só para terem ideia, eu era a miúda que tinha o pai fixe que levava a filha e as amigas à discoteca, bebíamos Ginger Ale e dançávamos com o mesmo empenho o “Pump Up the Jam” e os U2. Dançar e saber que os rapazes me olhavam, imitar os movimentos que via nos telediscos do Prince, ir pedir ao DJ para tocar o “Mistify”. Depois, na pista da Pandora, ainda no Alentejo, sem óculos, a ver tudo nublado e a cantar “Sit down next to me”. No Tóquio, na rua que ainda não era cor-de-rosa mas era das prostitutas, onde, já na faculdade, dançávamos Pixies e Cure e Violent Femmes e eu percebi, logo aí, a cantar em coro “Here comes your man”, que aquela era a minha tribo. Nos Três Pastorinhos, a pista cheia de jornalistas como eu estava ainda a começar a ser e foi mesmo o começo de tanta coisa. Ah, dançar. Fui tão feliz a dançar no Plateau. E no Captain Kirk. E no Roterdão. E no Frágil. Foi às seis da manhã, quando me levava a casa depois de horas e horas a dançar no Lux, que ele me perguntou: “Então, também gostas de música brasileira?”, e dois anos depois casámos. Foi no Jamaica, no antigo Jamaica, que afoguei muitas mágoas, depois de me separar, apertados como sardinhas em lata, corpos desconhecidos a roçarem-se, o cheiro a tabaco a entranhar-se nas roupas e no cabelo, os copos de gin a entornarem-se por cima das roupas, os sapatos a colarem ao chão e nós a dançarmos para nos esquecermos de tudo, outra vez. “Last night she said Oh, baby, I feel so down”. É ao Incógnito, àquela pista minúscula, por baixo dos globos espelhados, que volto ainda quando quero dançar, o que acontece cada vez menos - quando foi mesmo a última vez? Ah, dançar, eu adoro dançar, mas há muito que não tenho paciência para sair à noite, para as filas, para os encontrões, para as bebedeiras, para as multidões. Das últimas vezes, mesmo voltando para casa - relativamente - cedo, acordei na manhã seguinte a sentir-me um farrapo, o corpo moído, a cabeça a zumbir.  Tenho tantas saudades de dançar. Bora organizar matinés, sem álcool nem multidões, só nós, de olhos fechados, a cantar as letras todas e a dançar, a dançar, a dançar, o que me dizem, miúdas?


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Existe uma tag dançar neste blog. Existe até uma playlist com algumas (só algumas) músicas boas para dançar. E existe esta música, que diz isto tudo que estive para aqui a dizer, mas em bom.


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Atrasei-me uma semana a vir dançar ao largo, mas aqui estou. 


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1 Comments:

Anonymous blogdocaixote said...

Os meus sítios preferidos qd estudei em lx. Será que algum dia nos cruzámos no Jamaica ou no Tóquio? Impossível de saber, mas giro de imaginar!

9:36 AM  

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