Leituras boas e leituras falhadas
Perguntaram-me outro dia, num jantar com pessoas que gostam de livros, que livro mais tinha gostado de ler recentemente. Respondi de imediato, sem hesitar, que tinham sido todos os livros da Leila Slimani. A Leila, que foi a minha autora preferida de 2024, continuou a acompanhar-me este ano. Além de ter terminado a trilogia, li finalmente No Jardim do Ogre, que é um livro já de 2013 - talvez se note, um pouco, que é um livro escrito antes dos outros [escrito quando a autora era mais nova, talvez seja mais correcto dizer assim], mas é também muito bom e muito surpreendente.
Nessa noite, vim para casa a pensar no que tenho lido. Tem sido um ano atípico, sinto que tenho lido menos do que habitualmente, menos do que desejaria, e nem sequer tenho vindo aqui falar sobre os livros, o que se calhar também contribui para esta sensação. Mas será verdade? Pus-me então a fazer mentalmente uma lista.
Concluo que continuo, com algumas boas exceções, a ler muitos mais livros escritos por mulheres do que por homens.
Além da Leila, li dois livros de autoras brasileiras de que gostei bastante: Meus Desacontecimentos, de Eliane Brum, que é um livro de autoficção, ou seja, onde a autora cria uma narrativa a partir da sua vida; e Se não fossem as sílabas do sábado, de Mariana Salomão Carrara, que me prendeu não só pelo inesperado ponto de partida - um homem cai do seu andar e, ao morrer, mata também o homem que ia a sair do prédio; a tragédia aproxima as duas viúvas, vizinhas que até aí não se conheciam e que se tornam amigas - mas também pela escrita algo poética da autora.
Aliás, fiquei tão fascinada com este livro que decidi comprar um outro livro da Mariana Salomão Carrara, É sempre a hora da nossa morte amém. E devo ter falado tanto dela que, nessa mesma altura, me ofereceram o seu livro mais recente, A árvore mais sozinha do mundo. Acontece que nenhum destes livros conseguiu cumprir as expectativas que tinha para eles. O primeiro aborreceu-me imenso, com as suas repetições; ainda me esforcei, avancei umas páginas na esperança que melhorasse, cheguei a meio mas não consegui terminá-lo. Com o outro foi ainda pior: não consegui mesmo envolver-me com a história daquela família de agricultores e penso que a culpa é do facto de a história ser contada por uma árvore e por alguns objectos. Alguém me disse: se insistires, acabas por gostar. Mas, sinceramente, aquelas páginas que li custaram-me tanto que não me apeteceu continuar.
Percebo agora que este ano foi pródigo em leituras falhadas.
Tentei o muito elogiado A Breve Vida das Flores, da francesa Valéri Perrin, e não consegui de todo. Disseram-me, então, que dela deveria ler o Querida Tia, e eu, obediente, tentei. Achei um pouco melhor, ainda resisti uns quantos capítulos, mas acabou por me desinteressar. Mais uma vez, o ponto de partida da história era muito bom, o que me afastou foi o estilo de escrita da autora. Não vos consigo explicar, sei dizer apenas que é uma escrita que não me agrada, parece-me tudo muito básico e ao mesmo tempo muito forçado.
O melhor exemplo disso são as gravações deixadas pela tia: mas alguém, alguma vez, falaria assim? Aquilo começou a complicar-me muito os nervos. Acertar no tom de uma fala em discurso directo é muito difícil. Imaginar diálogos ou cartas escritas por alguém é um dos grandes desafios da ficção, são poucos os que o conseguem fazer bem.
Essa foi também uma das coisas que me incomodou no romance de estreia da Luísa Sobral, Nem Todas as Árvores Morrem de Pé, que, no geral, achei muito fraco e sem qualquer densidade. Se não fosse ter-me comprometido a lê-lo por motivos profissionais não teria passado das primeiras páginas.
Ler um mau livro (um livro de que não estou a gostar) é algo muito penoso para mim. Começo a engonhar, a arranjar desculpas para não ler, passam os dias e eu tenho cada vez menos vontade de lhe pegar. Quando percebo que isso está acontecer, o melhor é desistir e passar para outro.
Felizmente, houve outros livros bons este ano. Irei falar deles já a seguir.

Labels: Livros

2 Comments:
Concordo, quando não estamos a gostar, o melhor é desistir e passar para outra leitura.
Eu costumava insistir , não queria desistir dum livro. Mas agora , não aprecio, deixo :)
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