Friday, September 26, 2025

Alma minha

A primeira vez que andei de avião foi em 1991, quando no final do 11º ano fomos à Alemanha num intercâmbio do liceu. Conseguem imaginar a excitação? Um grupo de miúdos vindos do Alentejo profundo a delirar com os toalhetes para lavar as mãos e as marmitas com lombo de salmão. Só voltei a entrar num avião quando já estava a trabalhar. Sou do tempo em que ainda se podia fumar lá atrás, ao pé das casas-de-banho; em que se servia café e amendoins à borla a bordo; em que ninguém nos tentava impingir raspadinhas. Depois vieram as low cost. Tornou-se quase corriqueiro. Malas de rodinhas a deslizar pelos aeroportos de todo o mundo, embalagens de champô em miniatura, check-in online. Vou de fim-de-semana a Paris como quem vai ao Algarve. Mas há coisas que não mudam: sempre (sempre) que sinto o avião a descolar, a lançar-se com mais ou menos turbulência nos céus, toda eu por dentro me agito e revolto, atacada por uma sensação de insegurança, um e se for desta?, e se for desta que isto corre mal e acaba-se tudo já aqui? Fecho os olhos e respiro. Não faço cenas, não entro em pânico. É só um pensamento que se atravessa à minha frente e ao qual não consigo escapar. E não vale a pena falarem-me das estatísticas e virem dizer-me que tinha mais hipóteses de morrer na A2 do que num avião. Não adianta tentar racionalizar. É o que é. E é assim. Passados esses momentos iniciais, depois de tapar o nariz umas quantas vezes para desentupir os ouvidos, geralmente consigo abstrair-me do facto de estar a dez mil metros de altitude. A não ser que aquilo comece tudo a abanar e se acendam as luzes para pormos os cintos, os assistentes apressados a mandarem-nos recolher as mesinhas. Ladies and gentlemen, this is your captain speaking. Se fosse uma pessoa de fé, este seria o momento para me pôr a encomendar esta alma ao criador. Como não, respiro outra vez profundamente e tento disfarçar. Só descanso novamente quando sinto os solavancos das rodas a baterem na pista. Aliviada, só não me ponho a bater palmas como fiz em 1991 porque entretanto alguém me explicou que isso era um bocadinho foleiro. 


Já passou. 


Pelo menos até à próxima.


IMG_8746.jpg 


Não fotografei essa primeira viagem de avião. Outros tempos, não havia telemóveis e não nos lembrávamos de fotografar tudo e mais alguma coisa. Mas guardei alguns bons momentos num dos meus queridos álbuns


*


Há outras almas a vaguear pelo largo:


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1 Comments:

Anonymous Inês said...

Um tesouro. Também sinto esse medo e a vontade de bater palmas quando o avião aterra e correu tudo bem...

9:31 PM  

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