Monday, September 15, 2025

"Nossos corpos também são pátria"

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Foi uma alegria muito grande ver Adilson, o espectáculo musical imaginado e encenado por Dino D'Santiago a partir do texto "Serviço Estrangeiro” de Rui Catalão e com direcção musical de Martim Sousa Tavares. O espectáculo acompanha um afrodescendente, filho de pais cabo-verdianos, nascido em Angola mas que vive há mais de 40 anos em Portugal sem nunca ter obtido cidadania portuguesa. Adilson passa horas à espera da sua vez em gabinetes e serviços, sofrendo humilhações por parte das autoridades, perdido no labirinto burocrático para provar que existe e que é português. A sua história - que é verdadeira - é a história de muitos dos que aqui moram e é também um pouco da história deste país. (Leiam este texto do Gonçalo Frota que está lá tudo explicado)


Que Adilson seja interpretado por uma rapariga jovem é apenas um dos muitos pormenores que fazem deste espectáculo um manifesto pela inclusão e um grito contra os regulamentos que insistem em impedir-nos de sermos quem realmente somos. Koffy tem apenas 19 anos e uma voz magnífica.


O espectáculo tem momentos de humor e outros mais sérios, tem momentos mais bem conseguidos e outros que poderiam estar melhor. Já a música é sempre boa, uma mistura de ritmos e de instrumentos, tudo unido pela poesia de Dino D'Santiago. 


No final, uma alegria enorme, sim, e um travo amargo na boca: temos ainda tanto por andar neste caminho pela igualdade e pela democracia plena. 


 


"Nas curvas do bairro

Aqui toda a gente senteTerra não é só lugar onde se nasceuÉ também o chão que trazemos na mente

Aqui toda gente é parenteMesmo quando se nasceu d'outro ventreChamamos mãe ao mesmo continente"

Esquinas, de Dino D'Santiago e Slow J

 


*


Estive a trabalhar no fim-de-semana, mas ainda assim, e apesar do cansaço acumulado, consegui aproveitar bem o meu tempo. No sábado ao final do dia fui ver Adilson no CCB, integrado no festival Boca. No domingo, saí do trabalho a correr e fui à Culturgest ver Nôt, o espectáculo de Marlene Monteiro Freitas. 


É muito fácil andar sempre ver as coisas que eu sei à partida que vou gostar e ficar confortável no meu lugar. Mas também preciso de me desafiar e de ver coisas que não me são óbvias. Não posso dizer que tenha adorado este Nôt. Achei os intérpretes todos incríveis e gostei mesmo de alguns pormenores da coreografia, há coisas que resultam muito bem. Gostei muito de alguns momentos. Mas na maior parte do tempo senti-me bastante perdida. Este texto, que só li depois, já em casa, ajudou-me um pouco. Acho que ainda estou a processar.


E não desisto. Da próxima vez, lá estarei. 


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