Melancolia

Não li muito neste verão. Tenho lido coisas dispersas e tenho vários livros a meio. Mas esta Melacholia agarrou-me. Quem compra os livros do Francisco José Viegas é o meu pai. Foi ele que há muito tempo me falou do inspector Jaime Ramos e que até aprendeu a fazer o seu arroz de bacalhau. Eu vou lendo os livros emprestados, é já uma tradição. Não sei se os li todos, mas li vários, de cada vez deliciando-me com as palavras difíceis, com as descrições, com as muitas enumerações. Eu, que li muitos policiais na juventude, perco-me agora com estes livros que são exactamente o oposto desses: mais do que encontrar o culpado, aqui o crime é sobretudo um pretexto para olharmos para nós e para os outros, para viajarmos e reflectirmos. Desta vez, à medida que se anuncia uma pandemia e um confinamento, o inspector vai até à Póvoa do Varzim e infiltra-se no meio dos escritores, editores e críticos litrários que se encontram à beira-mar para massajar os egos e participar em mesas de discussão com nomes incompreensíveis. O autor ri-se baixinho de si mesmo e dos seus amigos. Os escritores também morrem e também matam, também têm segredos de família, amores escondidos, fotografias guardadas. Jaime Ramos está mais velho e continua rabugento, a contornar as regras da polícia e a fumar charuto. É afastado do cargo e colocado numa prateleira, enfrenta os seus medos. Resolver o crime - nem que seja só na sua cabeça - é a sua maneira de resistir. Para nós, que estamos a ler, é puro prazer.
Labels: Livros

1 Comments:
Uma das poucas compras que fiz e não gostei. Nem sequer o terminei. Coisas de sermos todos diferentes.
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