A vida luminosa

A Vida Luminosa, primeira longa-metragem de ficção de João Rosas, é um filmezinho bem fofinho. Li muito boas críticas e fui aconselhada por amigos, e isso é o pior porque uma pessoa cria expectativas muito elevadas e depois acaba por sair do cinema desiludida, o que é uma injustiça. A verdade é que, apesar não o achar uma obra extraordinária, gostei bastante deste filme que tem, pelo menos, a grande qualidade de fazer um retrato da cidade de Lisboa (de uma certa Lisboa) e da juventude (de uma certa juventude). E é também para isso que serve o cinema. Existe uma familiaridade com o que nos é mostrado, aquelas ruas, aquela luz, aquelas pessoas, aquelas estações de metro, que nos dá imediatamente a sensação de estarmos em casa, de estarmos a assistir a um bocado do quotidiano da cidade. O protagonista, Nicolau, tem 24 anos e é um jovem que anda de bicicleta, toca baixo num grupo com amigos, usa camisolas às riscas, frequenta a Cinemateca e circula em cafés e bares nas redondezas da Almirante Reis. Não sei se com esta descriçao conseguem imaginar, mas, para mim, é muito claro de que jovens estamos a falar. Se há palavra que descreve bem Nicolau e os amigos é precariedade. Mas não num mau sentido. Estão a crescer sem compromissos. Ao contrário do que acontecia há 30 anos, em que os jovens eram pressionados para tomar decisões definitivas, escolher a profissão para a vida, comprar uma casa, casar, "assentar" como então se dizia, estes jovens do século XXI vivem no presente. Não têm pressa em criar raízes. Vão e vêm, são estudantes de Erasmus ou nómadas digitais, podem viver em Portugal ou noutro país qualquer, podem viver agora num sítio e no próximo mês estar noutra cidade. E está tudo bem. Nicolau não sabe muito bem o que quer fazer da vida. Não tem qualquer pespectiva de carreira, mas arranja um emprego numa livraria. Depois de um ano a sofrer por uma relação que terminou, começa a interessar-se por outras pessoas. E sai de casa dos pais para morar num casa partilhada com outros jovens. Está naquele momento da vida em que tudo é possível, as portas estão todas abertas e o mais importante é experimentar e ir procurando a felicidade. Depois logo se vê. Conheço alguns jovens assim e é muito giro vê-los retratados num filme tão realista.
Não gostei particularmente da interpretação do actor Francisco Melo. Todos os outros actores são muito naturais, credíveis. Nicolau pareceu-me apático, curvado, pouco natural. Mas também pode ser, como me disse a amiga que se sentou ao meu lado no cinema, que seja assim de propósito, pois o Nicolau acumula frustrações e precisava mesmo de um abanão na sua vida.
Seja como for, acho que vale bem uma ida ao cinema.
Se quiserem saber mais, podem ler uma entrevista ao realizador. E um texto sobre o filme.
Lembrei-me do Baan, de Leonor Teles.
Labels: cinema

0 Comments:
Post a Comment
<< Home