Monday, January 05, 2026

"Sorry, baby"

Sorry, baby é um daqueles filmes onde, à superfície, parece que nada acontece. É só a vida pacata de uma jovem professora numa terrinha perdida da América, com o seu gato, um vizinho esquisito mas simpático, a amiga que entretanto mudou de cidade e casou mas continua a voltar para visitá-la. Mas, depois, Sorry, baby é muito mais do que isso. É um filme sobre uma violação. Sobre como ainda é difícil explicar aos outros o que se passou. Sobre a incompreensão. Sobre o desconforto das instituições que fingem que não vêem. É como se a agressão continuasse, mas de outra forma, uma e outra vez. É por isso que este é um filme sobre como lidar com o trauma. Sobre seguir em frente, ainda que doa. Ou entao fingir que se segue em frente quando, na verdade, não se consegue sair daquele lugar. Sobre as feridas que não saram. Sobre a amizade e como é importante ter quem nos vê como realmente somos e nos ouve e nos acolhe. Sobre isto de ser mulher. Sobre como continuamos a falhar às mulheres. Tudo isto contado sem pressas, com os diálogos reduzidos ao essencial e com a calma transmitida pela música original de Lia Ouyang Rusli.

A actriz Eva Victor, de 31 anos, estreia-se como argumentista e realizadora neste filme baseado na sua própria experiêcia e em que também é protagonista. E que boa estreia esta. 

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"Springsteen: Deliver me from nowhere"

Não é fácil meter a vida toda de uma pessoa qualquer num filme, quanto mais a vida de um artista. É por isso que muitos dos biopics acabam por ser filmes falhados, ficando-se quase só pela caricatura. Os melhores são aqueles que se focam num momento específico, num dilema, numa obra - como vimos no excelente filme sobre o Bob Dylan, de James Mangold. Não é só isso que faz um bom biopic, mas é já um começo de conversa. E é um bom começo de conversa para este Springsteen: Deliver me from nowhere, realizado pelo pouco conhecido Scott Cooper e protagonizado pelo mega-conhecido Jeremy Allen White (o actor de The Bear).

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Em vez de tentar abarcar toda a enorme carreira do The Boss, o filme fica-se pelos anos de 1981-82 quando Bruce Springsteen, depois de terminada a digressão The River Tour, se sente exausto e assoberbado pelo sucesso e decide regressar à sua terra, New Jersey, para compor aquele que viria a ser o seu álbum mais intimista, Nebraska. Sabemos entretanto, porque o músico o contou na sua autobiografia, que naquele período Bruce viveu momentos complicados de depressão, um problema com o qual tem lutado ao longo da vida. 

Li por aí que muita gente ficou desiludida com este filme. Eu gostei bastante. Em parte, talvez porque gosto do Bruce Springsteen e porque tenho vindo a aprender a gostar mais das suas músicas. Mas também porque me parece um filme bem feito, que conta bem a história que quer contar, com boas interpretações - embora não dê para ficar muito impressionada com o Jeremy Allen White porque afinal aquilo é mais ou menos uma versão do Carmy Berzatto, não é? 

Não é um filme que vá ficar para a história do cinema, está bem, mas é um bom filme. E pôs-me a ouvir o Nebraska. Só por isso já valeu a pena.

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Sunday, January 04, 2026

"Foi só um acidente"

A vida do realizador iraniano Jafar Panahi volta hoje ao banco dos réus, com a apreciação do recurso contra a sentença de um ano de prisão e dois anos de proibição de viajar, bem como a proibiçao de participar em grupos ou organizações políticas, que lhe foi aplicada a 1 de dezembro pelo Tribunal Revolucionário Islâmico de Teerão por actividades de propaganda contra o regime - julgado à revelia, uma vez que Panahi se encontrava no estrangeiro. Mostafa Nili, que é também advogado da activista Narges Mohammad, Prémio Nobel da Paz, representa o cineasta. 


Jafar Panahi, actualmente com 65 anos, continua a viver e a trabalhar no Irão embora passe grande parte do seu tempo em França. Já tinha sido proibido de fazer filmes, no entanto, continuou a fazê-los, clandestinamente, e sempre, cada vez mais, políticos. Depois de Três Rostos e do incrível Ursos não há, no início de 2025 ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes com o filme Foi só um Acidente, mais uma vez realizado sem autorizações oficiais, sem apresentar o argumento à censura iraniana, sem o uso do hijab obrigatório para as actrizes.


"Sem autorização, teve de filmar Foi só Um Acidente em apenas 25 dias. A rapidez é decisiva para uma equipa não deixar rastos nem assentar arraiais", conta Vasco Câmara, que entrevistou Panahi aquando da sua passagem por Lisboa, em novembro. "Por isso também não havia cópias do argumento, a não ser de um argumento falso. Os técnicos não o tinham, o produtor também não. E os actores só recebiam as suas páginas na véspera. Era uma forma de os proteger a todos: se fossem apanhados e interrogados, não poderiam mentir. Por isso, ainda, a equipa tinha de ser reduzida, não mais de cinco, seis pessoas, para caberem todos em dois carros."


Desta vez, Panahi não interpreta. Mas a sua experiência e as suas memórias estão no centro deste filme.


Jafar Panahi foi detido pela primeira vez em 2010. Esteve três meses preso. Foi libertado, mas com uma pena de seis anos a cumprir em casa e a interdição de filmar durante 20 se ensaiasse gestos que confirmassem a reincidência em "propaganda anti-islâmica". Em regime de prisão domiciliária realizou Isto Não é Um Filme (2011). Proibido de sair do país, não pôde ir a Cannes, em 2018, receber o prémio de melhor argumento atribuído a 3 Rostos.


No verão de 2022 ficou detido quando se deslocou à prisão de Evin, em Teerão, para protestar contra a detenção dos realizadores Mohammad Rasoulof e Mostafa Al-Ahmad, que haviam denunciado a violência na repressão policial de manifestações populares. Não assistiu por isso à exibição de No Bears/Ursos Não Há em Veneza 2022, onde recebeu o Prémio Especial do Júri.  Esteve sete meses encarcerado, até que entrou em greve de fome: dois dias depois foi libertado sob caução.


É das suas experiências na prisão - e das experiências que outros lhe contaram - que nasce Foi só um Acidente. As detenções políticas, tantas vezes aleatórias, o modo como os presos são tratados, os interrogatórios, a humilhação, a tortura - estas são experiências marcantes, que permanecem com as pessoas mesmo depois de serem libertadas, que determinam a sua vida. Ninguém fica o mesmo depois de ser privado da sua liberdade e de ser torturado. O trauma é real. O medo pode ser paralisante. A ansiedade por tornar-se crónica. O desejo de vingança pode só estar a aguardar uma oportunidade para se concretizar.


No filme, um pequeno acidente de automóvel cria essa oportunidade. E em volta dela junta-se um grupo de pessoas a braços com o passado, a tentar perceber como vão seguir no futuro. Foi só um Acidente é tanto sobre um regime totalitário que oprime os seus cidadãos como sobre o lugar em que as pessoas - no Irão, em todo o lado - se colocam (ou escolhem colocar-se) nesse regime. Sobre como a prisão e a tortura inflingem feridas profundas e nem sempre visíveis no íntimo de cada indivíduo e como superá-las. Sobre a liberdade individual, a liberdade interior, a liberdade de pensamento, aquele reduto que, mesmo nas condições mais adversas, acreditamos que é possível manter. E sobre a importância da comunidade e de sabermos que não estamos sozinhos nesta batalha. Nas ditaduras o trauma é individual e é colectivo. E é isso tudo que nos mostra este filme que é ao mesmo tempo duríssimo e poético e até, por vezes, cómico.


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O filme foi fortemente criticado pelas autoridades iranianas, claro. Mas a França apresentou-o como candidato à categoria de Melhor Longa-Metragem Internacional nos Óscares. Foi só um Acidente está também nomeado para os Globos de Ouro nas categorias de Melhor Filme Dramático e Melhor Filme Internacional.

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Saturday, January 03, 2026

"Batalha Atrás de Batalha": PTA no seu melhor

Correndo atrás do prejuízo dos filmes dos quais ainda não falei, começo com Batalha Atrás de Batalha, o extraordinário filme do Paul Thomas Anderson. Eu sou grande fã do senhor PTA e, portanto, fui ver o filme logo quando estreou nos cinemas - o que foi há já muito, muito tempo, entretanto o filme já está disponível na HBO e tudo. Quando entrei no cinema não sabia nada sobre o que estava prestes a assistir, não tinha lido nada, ia apenas levada pelo nome do realizador, e por isso confesso que ao início fiquei bastante surpreendida e até um pouco desorientada com aquela viagem a uma América em convulsão, onde grupos revolucionários armados defendem a "liberdade, igualdade, fraternidade" e tentam fazer justiça pelas suas próprias mãos. Depois do Licorice Pizza não estava nada à espera disto. Mas, assim que me deixei entrar no filme, tudo passou a fazer sentido.


Batalha Atrás de Batalha adapta Vineland, o livro de Thomas Pynchon. A primeira parte apresenta-nos Perfidia Beverly Hills e Bob Ferguson (interpretações de Teyana Taylor e Leonardo Di Caprio, respectivamente), um casal de fervorosos e apaixonados activistas nas suas actividades revolucionárias filmadas um pouco ao estilo blaxploitation. Mas quando Perfidia é detida, Bob tem de fugir com a filha bebé e passar a viver na clandestinidade.


Avançamos uns anos para encontramos Bob e Willa (interpretada por Chase Infiniti), a filha já uma jovem de 16 anos, com ideias próprias e a tentar escapar à paranoia controladora do pai. A sua vida é colocada de pantanas pelo terrífico coronel Steven Lockjaw (Sean Penn), o polícia de ideias ultra-conservadoras que tinha prendido Perfidia e que volta agora para resolver alguns assuntos pendentes. 


Não existem referências temporais especifícas, embora seja possível relacionar alguns eventos e algumas personagens com a América de Trump, a ideologia MAGA e as intervenções anti-imigrantes do ICE. O racismo é o grande motor do ódio. Mas, para além da crítica social e política, existem os conflitos e as relações pessoais. Desde logo a relação entre um pai sozinho e a sua filha. Devo dizer que não sou a maior apreciadora de Leonardo Di Caprio e esta interpretação entre o cómico e o dramático, mais a descair para a farsa, apesar de estar a ser muito elogiada, não fez mudar a minha opinião. Ainda assim, há momentos muitos bons e, no fundo, este é também um filme onde (como já vimos tantas vezes em tantos filmes de acção) um pai faz de tudo para salvar a sua filha, mostrando-nos que o amor, o tal do amor incondicional, é muito mais do que uma relação genética.


Na altura, quando tentei falar a alguns amigos sobre o filme que tinha acabado de ver, usei a expressão "tarantinesco". Quem me conhece sabe que eu tenho andado de candeias às avessas com o Tarantino. Portanto, um filme de PTA ser "tarantinesco" podia não ser uma coisa boa. Mas neste caso até é. É "tarantinesco" na forma explícita como mostra a violência, com tiros disparados à queima-roupa e as entranhas de fora, mas sem a banalização moral a que Tarantino nos habituou. Não sei bem como explicar isto, lamento. Mas parece-me que PTA consegue o equilíbrio perfeito nesta mistura entre violência e humor, entre crítica e comédia, entre realidade e ficçao. Fiquei presa ao ecrã e àquelas personagens durante 2 horas e 40 minutos e por toda a insane perseguição final na "River of Hills", uma estrada na Califórnia onde, como na vida, tão depressa seguimos confiantes e sorridentes como logo a seguir podemos enfrentar os nossos inimigos.


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Thursday, December 25, 2025

Para não perder a esperança

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The New Yorker at 100 é um documentário que está disponível na Netflix sobre a fantástica revista New Yorker, que está a celebrar os seus 100 anos. Para além de ficar a saber a história da revista, para um jornalista é incrível poder espreitar por dentro da New Yorker, conhecer um pouco as pessoas que lá trabalham e perceber como o fazem. É incrível e é ao mesmo tempo um bocadinho triste, diria. Se, por um lado, é muito bom saber que há redacções com um tal grau de exigência e de compromisso - veja-se o modo como verificam os factos, as discussões em cada reunião de fecho de um artigo ou até o debate sobre o livro de estilo da revista; veja-se os temas que elegem, a seriedade com que os abordam, a liberdade com que pensam -, por outro lado, é impossível não ficar um pouco deprimida ao constatar quão longe estamos (eu, nós, na minha empresa, no nosso país) desta realidade. Mesmo nos sítios melhores. Mesmo naqueles sítios que nos servem de farol. [senti mais ou menos o mesmo ao ver um outro documentário, há uns anos, sobre The New York Times]. O debate sobre o jornalismo que fazemos fica para outra ocasião. Em vez de entrar em depressão e me pôr para aqui com lamúrias, decidi aproveitar uma promoção e assinar a New Yorker por um ano. E que prazer tem sido. 



PS - Tenho uma lista de filmes vistos e sobre os quais ainda quero escrever. Não me tem apetecido escrever sobre filmes, não sei muito bem porquê. Mas a lista já vai longa e não tarda nada começa a época de prémios, por isso, prometo que me vou esforçar.

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Monday, November 17, 2025

Come see me in the good light

 “This is the beginning of a nightmare, I thought … my worst fear come true. But stay with me … because my story is about happiness being easier to find once we realize we do not have forever to find it."


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Come seem me in the good light é um documentário realizado por Ryan White que acompanha os últimos meses de vida da poeta Andrea Gibson, a quem foi diagnostiscado cancro nos ovários em 2021. Depois de uma cirurgia, vários ciclos de quimioterapia e outros tratamentos experimentais, Gibson morreu em julho de 2025, pouco antes de completar 50 anos. Encontramo-la fragilizada mas sempre a tentar aproveitar o máximo dos dias, apesar das dores, dos tratamentos, dos resultados pouco animadores das análises, da constatação de que as mestátases se tinham, finalmente, espalhado para o abdómen. Em todos estes momentos, Gibson conta com o apoio incondicional da sua companheira, a também poeta Megan Falley, com quem vive numa casa no campo em Longmont, Colorado. E encontra conforto no grupo de amigas, nos seus cães, no telefonema diário para a mãe, nas rolas que vêm cantar na árvore em frente do terraço. Num último espectáculo de spoken word, num teatro esgotado.


Como encarar a morte quando a sabemos ao virar da esquina? Como aceitar o fim sem rancor nem medo? As palavras de Gibson, a sua tranquilidade, o seu discernimento, o amor e a alegria que encontra em todas as pequenas coisas são uma inspiração.


Claro que é impossível falar da morte sem recorrer a clichés e só uma pessoa de coração de pedra conseguirá ver este filme sem chorar. Mas se é para ser lamechas, que seja aqui, que seja assim. 


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Sunday, November 16, 2025

O Agente Secreto: o cinema brasileiro diz ainda estou aqui

Não deve ser fácil ser o filme brasileiro que vem depois do sucesso de Ainda Estou Aqui.


O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, não pediu essa comparação e é injusto fazê-la, tenho plena noção disso. E, no entanto, aqui estamos, inevitavelmente. Porque é um filme brasileiro, e são poucos os filmes brasileiros que estreiam nas salas portuguesas. Porque é um filme brasileiro que se estreou em Cannes e tem sido premiado internacionalmente. Porque é o candidato brasileiro aos Óscares. Porque é um filme sobre a ditadura. 


A partir daqui, não há muito mais que una os dois filmes. 


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Wagner Moura (óptimo) interpreta Armando, um engenheiro viúvo que regressa ao Recife em pleno carnaval sob uma falsa identidade, para vir buscar o filho pequeno que vive com os avós maternos e ir com ele para o estrangeiro, fugindo das ameaças de morte. Enquanto espera pelos documentos, mora na casa de dona Sebastiana, uma velhota rija que alberga um grupo de gente em fuga, que não se enquadra nas regras vigentes, incluindo um gato com dois focinhos.


O Agente Secreto é um filme policial cuja acção se passa no Recife, em 1977. Kleber Mendonça Filho é muito bom a dar-nos o ambiente da época e do local. Os polícias corruptos, o carnaval que tudo permite, o suor nos corpos, a opressão da ditadura, a vida nas margens. A música, claro, a música é excelente e certeira. Como mosaico é um filme incrível. Só por isso vale a pena.


O realizador recorre à estética cinematográfica dos anos 70, sobretudo dos filmes de terror muito populares nessa época. Não é só Tubarão, de Spielberg, que é referido de diversas maneiras, causando pesadelos e influenciando o imaginário de todos, até mesmo daqueles que não viram o filme. Kleber Mendonça Filho traz para O Agente Secreto um pouco do gore de Bacurau, o seu filme de 2019, e muito dos Retratos Fantasmas, o seu documentário sobre as antigas salas de cinema do Recife. É como se o realizador juntasse aqui as suas memórias de infância e as duas grandes paixões: o cinema e a sua cidade. Parte da acção passa-se na sala de projecção do Cinema São Luiz, onde é exibido o primeiro King Kong e a plateia grita de medo a ver The Shining, de Kubrick. E parte da acção passa-se nas coloridas ruas do Recife, que com seus comércios diversos e personagens populares é palco de encontros, desfiles de carnaval e até perseguições (uma das melhores sequências do filme, diga-se). 


O Vasco Câmara chama-lhe um filme "sinuoso" e "tortuoso". O Eurico de Barros diz que "cultiva o suspense e o mistério pedindo um esforço de participação ao espectador na decifração do que está a ser contado, em vez de lhe servir a papinha toda feita". É uma análise certeira: O Agente Secreto é um filme exigente na duração (2 horas e 38 minutos) e na forma, com uma estrutura pouco linear e uma miríade de personagens e histórias secundárias, que nem sempre se percebe muito bem porque é que ali estão. Pessoalmente, dispensava o salto temporal para o presente (tal como o dispensava em Ainda Estou Aqui) e irritou-me a elipse precisamente num momento-chave da narrativa. Como assim, Kleber?, vamos ficar sem saber o que se passou?


Resumindo: gostei bastante. Mas duvido que haja Óscar para o Brasil este ano.


 


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Ando a especializar-me em contornar os temas do largo. Não é propositado. Tem sido só mesmo falta de imaginação para mais. Esta semana era "Ainda estou aqui". E eu quis mostrar que, apesar da falta de criatividade, ainda estou aqui.


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Thursday, September 11, 2025

Ucrânia, Bergen-Belsen, Portugal: isto está tudo ligado

Houve dois momentos da viagem em Lviv em que sentimos a guerra mesmo ali tão perto, e não, não foi quando ouvimos o alerta de ataque aéreo. 


O primeiro aconteceu logo no primeiro dia, na visita ao cemitério onde estão sepultados os militares e outras vítimas da guerra. É muito impactante, antes de mais, porque é um sítio muito colorido, cheio de bandeiras e flores, mas, sobretudo, porque rapidamente percebemos que muitos daqueles rapazes (são sobretudo rapazes) tinham pouco mais de 20 anos. As fotografias mostram-nos sorridentes, confiantes. Tantas vidas que ficaram por viver. Tantos filhos, irmãos, namorados, amigos, pais que se perderam.


O segundo momento foi a visita ao Unbroken Center, um centro de reabilitação que recebe feridos da guerra, vindos de todas as partes da Ucrânia, sobretudo pessoas afectadas por minas, explosões, tiros e que, muitas vezes, tiveram que ser amputadas. O trabalho com estas pessoas, que por cima de tudo isto têm certamente traumas psicológicos, é absolutamente incrível. Um dos terapeutas que nos guiou pelas salas equipadas com aparelhos de última geração disse-nos que por cada paciente que consegue lugar neste hospital há 60 que continuam em lista de espera. Aqueles que ali estão, que deslizam pelos corredores em cadeiras de rodas, a quem falta uma ou ambas as pernas, braços, bocados da cara ou tronco, aqueles são, afinal, privilegiados.


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What they found - O que encontraram é um documentário realizado por Sam Mendes a partir de imagens filmadas em 35 mm e sem som pelo sargento Mike Lewis e pelo sargento Bill Lawrie, da Unidade de Cinema e Fotografia do Exército Britânico, antes e durante a libertação do campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, em 1945, a que se juntaram partes do áudio de entrevistas realizadas em 1980 aos dois operadores de câmara. 


O filme, que está disponível no Filmin, tem apenas 36 minutos. Começa com a história dos dois homens, depois a chegada ao campo de concentração, o relato do que viram, o tratamento dado aos sobreviventes, as valas comuns onde foram depositados milhares de corpos. Lewis e Lawrie contam como se sentiram. E se as suas palavras são perturbadoras, o silêncio que se instala é-o ainda mais. As últimas imagens são poderosíssimas. Já vi vários documentários sobre o Holocausto e provavelmente até já tinha visto algumas destas imagens, no entanto fico sempre em choque. Não há maneira de me habituar a isto. Só me apetece chorar. Por todas as vítimas, por nós todos, por esta humanidade que parece não aprender nada com os seus erros.


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Antes de terminar as férias consegui dar um saltinho a Almada para ir ver a exposição Venham mais cinco, com 200 fotografias de fotógrafos estrangeiros que estiveram em Portugal logo a seguir ao 25 de Abril ou nos meses seguintes, a testemunhar o processo revolucionário. Mais uma vez: emociono-me sempre com as imagens da nossa Revolução, e aqui é uma emoção boa, comovo-me com a alegria dos militares nas ruas de Lisboa e das pessoas que os rodeavavam, as crianças curiosas, os jovens entusiasmados com o fim da ditadura, as senhoras que distribuíram café; comovo-me com a esperança que se vê nos olhos de toda a gente, a desfilar pelas ruas com cartazes, a reivindicar os seus direitos, à saída das prisões, nas reuniões sindicais, nas filas para votar pela primeira vez em democracia. As trabalhadoras do campo a entrarem na casa dos senhores e a tocarem ao de leve nas colchas das camas. Tanta ingenuidade. 


Sim, já vimos muitas imagens como aquelas, é verdade, mas vão ver estas também, que nunca são de mais, e parece-me que, nos dias que correm, estamos todos a precisar de uma boa dose de esperança e optimismo e de nos lembrarmos que todos juntos somos mais fortes e podemos mesmo mudar o curso dos acontecimentos.


A exposição está aberta até 23 de novembro, de quinta a domingo e a entrada é gratuita.


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Ocupação da herdade do Sol Posto, no Couço, Ribatejo, no dia 31 de Agosto de 1975, por Fausto Giaccone 

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Thursday, July 24, 2025

Elis & Tom

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Elis & Tom: só tinha de ser com você é uma daquelas pérolas que uma pessoa vê e apetece-lhe que não acabe nunca. Não consegui ir vê-lo ao cinema, mas vi-o agora no Filmin e estou deliciada. Aquele vídeo de Elis Regina e Tom Jobim a cantarem as Águas de Março já era um dos meus preferidos, por toda a cumplicidade que se sente entre eles, o Tom a dançar e a sorrir, a Elis mais solta do que era habitual, há ali um amor que quase conseguimos sentir na nossa pele. A canção já era incrível, mas depois de saber a história daquele encontro, tudo faz ainda mais sentido.


 


Já agora:


Ando numa fase muito light no que toca a escolhas cinematográficas (para desgraças já basta o mundo, não é?), de qualquer forma tenho visto algumas coisas bem interessantes no Filmin. Por exemplo: O Paraíso Queima, de Mika Gustafson, e O Amor Segundo Dalva, de  Emmanuelle Nicot - dois filmes sobre crianças vítimas de famílias disfuncionais, obrigadas a crescer cedo demais. Não tenho tempo para aprofundar, mas queria só deixar aqui a referência para não me esquecer deles. 

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Sunday, July 20, 2025

Como é que eu gosto de comédias românticas? Let me count the ways

1024 (1).jpgAlguém na CNN Portugal achou que seria boa ideia ter uma rubrica de verão onde as pessoas confessassem os seus guilty pleasures, e eu lembrei-me logo de umas três ou quatro coisas de que poderia falar. Escolhi as comédias românticas (e sei que não estou sozinha nisto). Não é bem o tipo de texto que costumo escrever no meu trabalho, mas que facilmente poderia ter escrito aqui no blog, por isso AQUI fica. Com um bocadinho de culpa, mas não muita.

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Saturday, July 12, 2025

A vida luminosa

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A Vida Luminosa, primeira longa-metragem de ficção de João Rosas, é um filmezinho bem fofinho. Li muito boas críticas e fui aconselhada por amigos, e isso é o pior porque uma pessoa cria expectativas muito elevadas e depois acaba por sair do cinema desiludida, o que é uma injustiça. A verdade é que, apesar não o achar uma obra extraordinária, gostei bastante deste filme que tem, pelo menos, a grande qualidade de fazer um retrato da cidade de Lisboa (de uma certa Lisboa) e da juventude (de uma certa juventude). E é também para isso que serve o cinema. Existe uma familiaridade com o que nos é mostrado, aquelas ruas, aquela luz, aquelas pessoas, aquelas estações de metro, que nos dá imediatamente a sensação de estarmos em casa, de estarmos a assistir a um bocado do quotidiano da cidade. O protagonista, Nicolau, tem 24 anos e é um jovem que anda de bicicleta, toca baixo num grupo com amigos, usa camisolas às riscas, frequenta a Cinemateca e circula em cafés e bares nas redondezas da Almirante Reis. Não sei se com esta descriçao conseguem imaginar, mas, para mim, é muito claro de que jovens estamos a falar. Se há palavra que descreve bem Nicolau e os amigos é precariedade. Mas não num mau sentido. Estão a crescer sem compromissos. Ao contrário do que acontecia há 30 anos, em que os jovens eram pressionados para tomar decisões definitivas, escolher a profissão para a vida, comprar uma casa, casar, "assentar" como então se dizia, estes jovens do século XXI vivem no presente. Não têm pressa em criar raízes. Vão e vêm, são estudantes de Erasmus ou nómadas digitais, podem viver em Portugal ou noutro país qualquer, podem viver agora num sítio e no próximo mês estar noutra cidade. E está tudo bem. Nicolau não sabe muito bem o que quer fazer da vida. Não tem qualquer pespectiva de carreira, mas arranja um emprego numa livraria. Depois de um ano a sofrer por uma relação que terminou, começa a interessar-se por outras pessoas. E sai de casa dos pais para morar num casa partilhada com outros jovens. Está naquele momento da vida em que tudo é possível, as portas estão todas abertas e o mais importante é experimentar e ir procurando a felicidade. Depois logo se vê. Conheço alguns jovens assim e é muito giro vê-los retratados num filme tão realista.


Não gostei particularmente da interpretação do actor Francisco Melo. Todos os outros actores são muito naturais, credíveis. Nicolau pareceu-me apático, curvado, pouco natural. Mas também pode ser, como me disse a amiga que se sentou ao meu lado no cinema, que seja assim de propósito, pois o Nicolau acumula frustrações e precisava mesmo de um abanão na sua vida.


Seja como for, acho que vale bem uma ida ao cinema. 


Se quiserem saber mais, podem ler uma entrevista ao realizador. E um texto sobre o filme.


Lembrei-me do Baan, de Leonor Teles. 


 

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Wednesday, April 16, 2025

"On Falling", sobre a queda

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Quando o filme terminou não consegui levantar-me. As luzes acenderam-se, a música a tocar, a ficha técnica a passar no ecrã, e eu ali, incapaz de fazer o que quer fosse, sentindo uma tristeza imensa, uma tristeza tão grande por Aurora e por nós todos, que raio de mundo este, a pensar nos meus filhos, no futuro que lhes estamos a deixar, nos valores que lhes queremos passar e, bolas, é Abril outra vez e aqui estamos, ainda, a lutar por termos todos vidas dignas. 


On Falling é a primeira longa-metragem de ficção de Laura Carreira, realizadora portuguesa que vive na Escócia há mais de dez anos. É em Glasgow que se passa este filme. Aurora (interpretada pela excelente Joana Santos) também é portuguesa e trabalha como "colectora" num grande armazém de e-commerce. Passa os seus dias sozinha, vagueando pelos sombrios corredores do armazém a recolher os items para as encomendas. Trabalha muito e vive contando o dinheiro para que chegue ao fim do mês (e às vezes não chega). O filme mostra-nos a repetição dos seus dias, um a seguir ao outro, um igual ao outro, enfiada num armazém inóspito, com uma máquina que apita se ela demora um pouco mais a cumprir a tarefa, num sistema que a vê como um número, um funcionário sem rosto, cuja performance é contabilizada por um computador. Uma vida sem sorrisos nem alegrias. Nos poucos tempos livres que tem, Aurora está quase sempre sozinha, fechada no seu quarto, a olhar para o telefone. Ou então acompanhada dos colegas de trabalho, no refeitório para a pausa do almoço, ou dos colegas de casa, na pequena cozinha onde todos prepararam as refeições - pessoas com quem tem uma intimidade forçada mas com quem não estabelece uma verdadeira relação, e, por isso, até nesses momentos, continua a refugiar-se no scroll infinito do seu telefone. Aurora não tem amigos, não tem abraços.


Quão triste é a vida de alguém quando a única coisa que faz no seu tempo livre é lavar a roupa?


Já tínhamos visto como podem ser as vidas desgraçadas dos emigrantes em Great Yarmouth. Aqui temos outra perspectiva. On Falling é, antes de mais, um filme sobre o capitalismo selvagem em que vivemos e sobre a quase escravatura a que muitos trabalhadores estão sujeitos. Onde o trabalho é um meio de sobrevivência precária mas que não permite qualquer sobre-vivência. "Trabalhar para ganhar a vida, porque é que a vida que se ganha tem de gastar-se a trabalhar (para ganhar a vida)", lembram-se da canção? Contas feitas, aqui não há vida ganha. Este é também um filme sobre a falta que nos faz essa vida fora do trabalho, a falta que nos faz o tempo para sermos outros além de funcionários, a falta que nos faz o convívio, a ligação aos outros, os afectos. É isso que nos mostra a cena final, a única em que se vislumbram sorrisos e alguma alegria.


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Monday, March 24, 2025

Num domingo qualquer

Depois de uma semana de muitas e fortes emoções, passei o fim-de-semana todo em casa, sozinha. Foi tempo para ler, escrever, ver filmes antigos, pensar na vida. Lá fora o vento e a chuva, de vez em quando uns raios de sol. Não adoro estar sozinha, mas sinto que, de vez em quando, também preciso destes momentos de silêncio e de confronto comigo mesma. É tudo uma questão de equilíbrio. No domingo à tarde temperei um frango e deixei-o a ganhar sabor durante horas, antes de o meter no forno por outras tantas horas. Quando os rapazes foram chegando, dos seus fins-de-semana, a cozinha estava quentinha e com aquele cheiro adocicado do assado. O frango ficou delicioso. Macio, húmido, a carne a soltar-se dos ossos. Um frango assado precisa de tempo. Não é possível fazer um bom frango assado no forno com pressa. Aquele frango precisou daquele domingo passado de pijama, das lágrimas que derramei enquanto acabava de ler o Somos o Esquecimento que Seremos, do colombiano Hector Abad Faciolince, da leveza de ver o Peggy Sue Casou-se, do Coppola (um filme de 1986 que não me lembrava de já ter visto, embora tudo aquilo me parecesse familiar), do espanto renovado ao reler passagens do António Lobo Antunes (tem coisas tão boas, caramba), da alegria de encontrar no Filmin A Ama de Cabo Verde, de Marie Amachoukeli, que queria ter visto no cinema mas acabei por deixar passar. Isto tudo até que finalmente nos sentámos os três a comer o frango tenrinho e saboroso e, entre conversas cruzadas e gargalhadas, olhámos para o calendário e fizemos planos para três meses (somos assim ambiciosos). Um jantar de família que não se vai repetir nos próximos dias, pois estarei a trabalhar à noite, e que cada vez acontece menos porque eles já não são crianças e temos todos as nossas vidas, com compromissos e actividades várias, mas talvez seja por isso que estes momentos são tão especiais. Ou então é o contrário, é por termos estes momentos tão bons juntos que, depois, podemos ir às nossas vidas descansados, sem dramas, sabendo que num domingo qualquer vamos encontrar-nos outra vez na cozinha, falar de coisas sem importância e ficar com as mãos sujas da gordura.

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Sunday, March 16, 2025

Um livro, um filme, uma série

Um livro


É engraçado quando vamos lendo livros de um autor e vamos percebendo qual é o seu universo, os temas de que gosta, o espaço onde se movimentam as suas personagens. No seu mais recente livro, Toda a Gente Tem um Plano, Bruno Vieira do Amaral continua a sua investida pelos bairros mais pobres da margem Sul para nos mostrar aqueles que tantas vezes parecem invisíveis. Continua, por exemplo, entre gente que veio de África (ou do Brasil) e gente que procura conforto em deus. Gosto muito da maneira como o autor construiu esta história, evitando a linearidade, fazendo-nos ir lá atrás no tempo, uma vez e outra vez, para conhecermos melhor este Calita e as curvas da sua vida. Também gosto muito do cuidado que põe na criação das personagens e dos contextos, quase como se nos transportasse para aqueles locais, como se aquelas pessoas fossem de carne e osso e nos pudéssemos ter cruzado com elas em algum momento. Gosto de me apegar às personagens, de compreender as suas fraquezas, de ficar a torcer por elas. De sofrer com elas quando elas sofrem.


Um filme


Já o vi há algum tempo, mas, depois, com o barulho dos Óscares e a crise política que nos caiu em cima, acabei por não ter tempo de vir aqui escrever sobre O Atentado de 5 de Setembro. O filme acompanha o atentado terrorista ocorrido nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, mas do ponto de vista dos jornalistas do canal americano CBS, que estavam na torre do satélite, a uma centenas de metros da aldeia olímpica. Admito que será um filme que talvez toque mais os jornalistas. E ainda mais os jornalistas que estejam ligados à televisão. Afinal, aquela foi não só a primeira vez que os jogos olimpicos foram transmitidos em directo, mas também a primeira vez que um atentado terrorista foi transmitido em directo pela televisão - com todas as questões que isso levanta. Mas acho que pode ser interessante para toda a gente. Posso dizer-vos que, mesmo sabendo como aquilo ia acabar, o filme conseguiu envolver-me completamente e até deixar-me nervosa.



Uma série


Adolescência é mesmo imperdível. O nome diz tudo: é uma minissérie sobre a adolescência, nos seus muitos aspectos. A pressão a que os jovens estão sujeitos, por parte dos outros jovens, agravada pelas redes sociais. A influência que alguns gurus e ideologias podem ter sobre os jovens. A relação com os pais. A escola. O desespero dos professores. A falta de perspectivas. A falta de empatia. A linguagem. Os telemóveis sempre na mão. As portas dos quartos fechadas. A impotência dos pais. A culpa. Está lá tudo, mas ao mesmo tempo é uma série muito diferente de todas as outras séries que já vimos sobre adolescentes. São quatro episódios muito bem feitos, muito bem realizados, muito bem interpretados. O primeiro episódio tem imensa tensão. O episódio da escola é bastante perturbador. O último é o mais tocante (pelo menos, para mim). Fez-me pensar tanto. Não quero estar a contar muito. Está na Netflix. Vejam que não se vão arrepender.


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Monday, March 03, 2025

Os Óscares não são assim tão importantes

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Só para pôr uns pontos nos is nesta história dos Óscares porque há gente que aparece aqui e não me conhece e fica a achar que eu sou uma maluquinha dos Óscares. Não sou, ok? Na verdade, não me interessa muito quem ganha o quê. Gosto de ver filmes. Gosto de discutir filmes e de pensar um bocadinho sobre eles. Divirto-me com isto. Vejos os filmes que consigo, há anos em que há filmes muito bons, a maioria são assim mais ou menos, tento evitar aqueles que me parece que não vou gostar mas mesmo assim às vezes ainda levo umas banhadas, mas de uma maneira geral divirto-me. 


Em toda a minha existência de 50 anos só fiquei 5 vezes acordada para ver a cerimónia: duas quando era mais nova, com a minha amiga Isabel, e três porque estava a trabalhar. Acho sempre uma seca. Não tenho paciência para os vestidos nem para os discursos emocionados nem para os números músicais. Não tenho sequer grande paciência para os prémios. Arrependo-me de ter perdido horas de sono e juro que nunca mais.


Os Óscares só são importantes para quem os ganha e para quem os perde.


Para quem vê filmes, o importante é o prazer que temos a ver os filmes. E o que tiramos dessa experiência.

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Sunday, March 02, 2025

Óscares: façam as vossas apostas

Isto este ano foi fraquinho, ou sou eu que não estou alinhada com o espírito do tempo?


Seria muito bonito se Ainda Estou Aqui ganhasse algum dos três Óscares para que está nomeado. Não por ser brasileiro, mas porque gostei mesmo do filme. Objectivamente, penso que não vai acontecer. Palpita-me que os filmes de que gostei menos são aqueles que vão ganhar mais prémios. Mas quem sabe?


Então, da lista de nomeados para Melhor Filme, temos:


Os meus preferidos



 


Até que gostei



 


Não são maus, mas 



 


Não gostei



 


Não vi, obviamente



  • Wicked

  • Dune: Part Two


 


De entre os nomeados para Filme Internacional, além de Ainda Estou Aqui e Emilia Pérez, só consegui ver A Rapariga da Agulha, de que gostei bastante. 


E queria também deixar aqui uma palavra para o documentário No Other Land. Dos nomeados, vi apenas outro, Sugarcane. Mas o No Other Land é, de longe, muito melhor. Escrevi sobre ele no sítio onde me pagam para escrever, vão ler para ficar a saber mais. Os realizadores - o palestiniano Basel Adra e o israelita Yuval Abraham - são esses que estão na fotografia.


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E, pronto, é tudo. Tarefa superada! Que seja uma cerimónia curtinha e que ninguém dê bofetadas em ninguém é o que peço para esta noite. E muito café para os guerreiros que vão ficar acordados.

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"A Complete Unknown": uma oportunidade para redescobrir Bob Dylan

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Quase que não ia a tempo de vê-lo (fui hoje à sessão das 12:30) e não ia entusiasmada por aí além, uma vez que várias pessoas me tinham dito que não era assim tão bom. Mas eis que, surpreendentemente, gostei muito de A Complete Unknown, o filme de James Mangold, onde o Timothée Chalamet interpreta muito bem o papel de um muito novinho Bob Dylan. 


Acho que em parte isto tem a ver com o facto de eu ser meia apaixonada pelos anos 60. Além de ser fã dos Beatles - as únicas pessoas que até têm direito a uma tag própria aqui - e de gostar de muita da música que se fazia nessa altura, também gosto muito de toda a onda hippie do "peace and love", das várias lutas pelas liberdades, da contra-cultura e do desafio à autoridade que geralmente associamos a essa época. Descobri a música The times they are a changin quando tinha uns 15 anos e ouvi-a em repeat durante algum tempo, acho que ainda hoje aquela letra fala muito para os jovens e para toda a revolta que sentimos com aquela idade. Até me emocionei um bocadinho nessa cena do filme.


Apesar de não ser a maior conhecedora da carreira do Bob Dylan, parece-me que o filme mostra bem a sua transformação, de miúdo do Midwest agarrado à guitarra para um cantor reconhecido, o impacto da fama e os seus dilemas criativos, a vontade de evoluir e a necessidade de se afastar dos seus ídolos da folk e seguir o seu próprio caminho. Não era propriamente um namorado cinco estrelas. Já o sabíamos através da Joan Baez. Fui entretanto à procura de mais sobre Sylvie.  O filme aldraba um bocadinho alguns factos, o que é normal, mas eu tenho passado à tarde entretida a ler coisas e a descobrir muitas histórias sobre o Bob Dylan e, só por isso, já valeu a pena. 


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"Nickel Boys": uma questão de pontos de vista

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O filme Nickel Boys, realizado por RaMell Ross a partir do romance de Colson Whitehead (que ganhou um dos seus dois Pulitzer com este livro), recua até à América de 1962, um momento de segregação racial e crescimento do movimento pelos direitos civis. Elwood Curtis é um jovem afro-americano abandonado pela mãe e educado pela avó, que gosta de ler, é bem comportado e óptimo aluno. Só que um dia tem o azar de apanhar boleia de um bandido. Apanhados pela polícia, Elwood é considerado cúmplice e enviado pelo tribunal para um centro de reeducação de jovens, a Nickel Academy. Ali dentro, tal como lá fora, negros e brancos vivem vidas separadas e têm tratamentos distintos. Os jovens negros comem pior, têm piores instalações, trabalham mais e são sujeitos a duros castigos corporais. A avó faz tudo o que pode para tentar tirá-lo de lá, mas não é bem sucedida. Elwood não tem uma vida fácil. Mas faz um amigo, Turner, com quem conversa e desabafa. Um dia, depois de Elwood ser severamente castigado, Turner teme que matem o seu amigo e decide que é tempo de fugirem do reformatório.


O filme é realizado com a câmara a assumir o ponto de vista, primeiro, de Elwood e, depois (opção que ficará justificada mais à frente da história), alternando entre Elwood e Turner. Este artifício começa por ser algo que diferencia o filme e o torna especial, mas às tantas confesso que me começou a enervar e a cansar. Ok, já percebemos a ideia, não dá para agora ter uma imagem como deve ser? A câmara treme, acompanhando os sobressaltos dos protagonistas, foca-se em rostos e pormenores, e depois desfoca-se, assume ângulos esquisitos, numa tentativa de mostrar aquilo que cada um dos rapazes vê. Mas a verdade é que isso só faz com que sintamos a câmara sempre presente. E em vez ver o filme e deixar-me levar pela história, fiquei ali super-consciente da câmara e dos seus erros. Não, nenhuma pessoa veria o mundo daquela forma, não, aquele enquadramento não corresponde ao que os olhos veriam.


Estou convencida que se o realizador tivesse filmado "normalmente" o filme seria muito melhor. Porque, tirando isso, é até bastante bom. A história é boa. O argumento é bom. Os actores são bons. A introdução de imagens e referências da época está bem conseguida. Há ali uma poesia. Mas talvez não fosse considerado "experimentalista" e não tivesse despertado a atenção de tantas pessoas. Talvez fosse só considerado bonzinho e não fosse tão elogiado pela crítica. Talvez nem fosse nomeado para os Óscares. Ainda assim, estou em crer que seria muito melhor.



(tinha este texto pronto nos rascunhos há uma semana, mas não tive tempo de olhar para ele e publicá-lo, assim está a minha vida. mas vou recuperar tudo a tempo e horas dos Óscares, vão ver)

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Thursday, February 20, 2025

"O Brutalista"

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(este texto contém spoilers)


A mim não me custou a extensão. São três horas e meia mas vê-se bem. Por aí já se vê que há coisas boas neste filme. A mim custou-me a falta de foco. O filme distrai-se por muitas personagens, pequenas histórias que, depois, são abandonadas e ficamos sem saber como acabam. Então, afinal, o que aconteceu ao milionário? E o filho violou a outra e? E a miúda começou a falar? Mas como? E ultrapassou os traumas e já está grávida e tudo? E afinal a mulher já anda? E que lhe aconteceu no fim? São muitas perguntas sem resposta. E claro que os filmes não têm que contar tudo, eu sei isso. Mas também é preciso saber dar esses saltos, não é assim de qualquer maneira. Para quê estar a investir naquelas personagens e em tantos pormenores para a seguir desprezá-las desta maneira? Na minha opinião, faltou ali um editor que cortasse as gorduras, como se dizia antigamente nas redacções dos jornais, e que orientasse um bocadinho a história. 


Mas tirando isso é um bom filme. A sério. Se não ligarmos a esses detalhes até é bastante bom. É a história de László Tóth, arquitecto húngaro, da escola Bauhaus, e judeu, sobrevivente do Holocausto, que emigra para os Estados Unidos em busca de uma nova vida e que enfrenta inúmeras dificuldades e até alguns preconceitos, contrariando um bocado aquela visão que os filmes americanos geralmente dão da "terra dos sonhos".  O Adrien Brody já sabe como é fazer de vítima da guerra e fá-lo na perfeição. Tóth acaba por ser contratado por um industrial rico, Harrison Van Buren (Guy Pearce), para construir um centro comunitário megalómano. A partir daí, começa a tensão entre as vontades do arquitecto e o orçamento de quem paga a construção. Todas as cenas em volta da arquitectura brutalista, do que Tóth imagina para o edifício que está a construir e da enormidade do projecto são muito interessantes. 


No fim não se percebe muito bem qual é o objectivo daquilo tudo, se é falar de arquitectura ou de imigração, se é mostrar a superação daquele homem que tanto sofreu ou mostrar os caminhos dos judeus após a guerra, se é falar da tensão de classes ou do modo como os ricos abusavam dos que estavam à sua volta sem lhes dar qualquer importância. Como eu dizia: falta de foco. Há tanta ponta por onde pegar e tanta ponta que fica solta que dá a sensação que o realizador Brady Corbet, também argumentista a meias com Mona Fastvold, deu um passo maior do que as pernas. 


Críticos respeitáveis deram-lhe cinco estrelas. Que este filme ande por aí a ganhar prémios e, possivelmente, vá ganhar Óscares, é coisa que não entendo. Mas isto acontece-me tanto que já não estranho.


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Wednesday, February 12, 2025

Mais uma mão cheia de filmes

Pequenas coisas como estas


Baseado no livro de Claire Keegan, realizado por Tim Mielants e protagonizado por Cillian Murphy. É um filme muito realista e bem feito e com tudo o que geralmente gosto nos filmes. Estamos na Irlanda dos anos 80 e o protagonista, Bill Furlong, é um homem honesto, trabalhador e sensível, que cresceu apenas com a mãe. Sabe por isso como as mães solteiras são mal vistas e mal tratadas pela sociedade, e sente que não pode ficar calado quando percebe o que acontece às jovens que são entregues no convento para não envergonharem as famílias, mas que acabam por ser afastadas dos filhos e a ser exploradas pela Igreja. Ele não fala muito, é no seu olhar e nos seus actos que está tudo o que precisamos saber. O que falha, então, neste filme? Nem eu sei bem, mas sinceramente não consegui adorar. No final ficou só assim aquele ok.


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Maria


Não sei quem é que olha para a Angelia Jolie e vê a Maria Callas. Eu não consegui. Sempre vi só a Angelina com uns óculos enormes a esforçar-se por ser Maria e a falhar. Também não faço ideia se o que ali se conta sobre a famosa cantora tem algum fundo de verdade ou não, mas achei tudo um aborrecimento pegado. Uma curiosidade: o filme é realizado por Pablo Larraín, que também já tinha contado a história de outra paixão de Onassis, Jackie.


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Aqui


E por falar em aborrecimento, o que é isto? Robert Zemeckis realiza e Tom Hanks faz de Tom Hanks em Aqui, um filme que até parte de uma ideia interessante: o que acontece num mesmo local ao longo do tempo. Um local que já foi uma floresta, onde depois se derrubaram as árvores para fazer uma plantação e para construir uma casa. Uma casa que foi habitada por diferentes famílias em diferentes tempos. Um dos problemas é que são tantas as histórias intercaladas e algumas contadas tão pela rama que é difícil ir além dos clichés sobre cada época. Outro dos problemas é o excesso de efeitos digitais que em alguns momentos nos levam a questionar se estamos a ver um filme em live action ou em animação. E depois, não é só a câmara fixa que é aborrecida, é tudo tão previsível e tão lamechas e tão pouco profundo, mesmo quando ou sobretudo nos momentos em que aspira a sê-lo.


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Babygirl


Talvez com outra actriz tivesse resultado, mas com a Nicole Kidman definitivamente que não resulta. É que não me ocorre pessoa mais sem graça, sempre consciente de si, sempre tão rígida, até nos momentos em que deveria entregar-se à paixão parece sempre que está a fingir. E, no entanto, tem estado nomeada para imensos prémios (só para que vejam como eu não percebo nada disto). O filme é realizado por Halina Reijn, que eu não conhecia, e mostra-nos uma mulher que tenta controlar os seus desejos e ser apenas uma excelente profissional, uma mãe extremosa e uma esposa dedicada, mas que a determinada altura não consegue resistir aos encantos de um estagiário da sua empresa (interpretado por Harris Dickinson). Se calhar sou eu que não preciso de um homem a dar-me ordens e não gosto de me sentir dominada em contexto nenhum, e muito menos na cama, e por isso não consegui compreender totalmente aquela relação nem achar graça àquele miúdo estranho e com tendências para stalker. E, sem querer ser spoiler, mas aquele final assim que meio a desculpá-la também estraga um bocado a intenção do filme, não? 


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Queer


Realizado por Luca Guadagnino a partir do livro de William S. Burroughs e protagonizado por Daniel Craig, Queer é um filme muito bom até ao momento em que eles deixam a Cidade do México. Craig surpreende com o seu James Bond (sim, sim, está lá ainda um pouco de Bond) em versão gay, cheio de músculos mas totalmente só, perdido, frágil. A banda sonora também é inesperada, mas muito bem escolhida. Não imaginaríamos ouvir aqui, por exemplo, Come As You Are, dos Nirvana, mas acaba por ser bastante apropriado já que falamos de aceitação e de solidão. Acho óptimo que se normalizem cada vez mais as cenas de intimidade homossexual a ver se caem alguns preconceitos, e este filme faz a sua parte. [Não cheguei a escrever aqui sobre isso, mas Passages, de Ira Sachs, é um excelente filme sobre relações (de todo o tipo) e também tem algumas cenas de intimidade muito reais, lembrei-me disso enquanto via Queer.]  O filme só me perdeu durante a viagem, sobretudo quando entram na selva e têm aquelas experiências psicadélicas. Claro que isso é Burroughs e se calhar para os fãs de Burroughs faz todo o sentido. 


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