Sunday, December 07, 2025

Uma viagem a Lampedusa e outros livros de não-ficção

Quero falar-vos também dos livros de não-ficção, que são sempre uma parte importante das minhas leituras.


Destes, destaco Lampedusa, o livro da Ana França que é uma grande reportagem sobre a ilha italiana que se tornou a porta de entrada de muitos imigrantes na Europa. Ao longo dos últimos anos, a jornalista do Expresso fez várias viagens a Lampedusa, investigou, entrevistou muitas pessoas e, no final, dá-nos um livro muito bem escrito, que nos mostra o lado mais humano deste drama sem esquecer toda a informação factual. 


Muito interessante também é Líbano: uma biografia, o livro onde a Safaa Dib conta a história da sua família, desde a vida atribulada dos antepassados no Líbano aos horrores da guerra civil que levaram os seus pais a vir morar em Portugal. No entanto, como li este livro logo a seguir ao excelente Lampedusa, não pude evitar constatar que faltou aqui o talento (e talvez um certo distanciamento) para transformar esta incrível saga familiar num livro igualmente incrível, ou, pelo menos, faltou um bom editor que conseguisse limar algumas arestas.


Li ainda três biografias, todas monumentais:


Logo a seguir à morte da Maria Teresa Horta, mergulhei n'A Desobediente, a biografia de autoria de Patrícia Reis, que já tinha cá em casa mas ainda não tinha tido tempo para ler. É uma óptima biografia. A Patrícia não só entrevistou várias vezes a Teresa como se tornou sua amiga, e essa proximidade traz uma outra camada ao relato de uma vida já tão cheia e com tantas coisas para contar. Não sou a maior fã da poesia de Maria Teresa Horta mas foi uma mulher extraordinária, corajosa e curiosa. Era uma pessoa por quem eu já tinha um enorme carinho, do pouco contacto que tivemos, e de quem fiquei a gostar ainda mais.


Li também a biografia que o Joaquim Vieira fez de Francisco Pinto Balsemão. É um trabalho de grande investigação, com imensos testemunhos e pormenores sobre as várias facetas de Balsemão. O biografado odiou este livro e acabou por escrever as suas próprias memórias, como que a querer deixar a sua versão dos factos. Mas o livro de memórias - que também li assim em diagonal, por motivos profissionais, é uma grande seca, há que dizê-lo.


E, finalmente, comprei na Feira do Livro, com desconto, Integrado e Marginal, biografia de José Cardoso Pires escrita por Bruno Vieira do Amaral. Não sabia muito sobre o escritor, de quem li alguns (poucos) livros e recordo sobretudo o De Profundis Valsa Lenta, que adorei. Achei que a celebração do seu centenário seria uma bela oportunidade para ficar um bocadinho menos ignorante. Foi uma excelente leitura. Tal como a biografia da Maria Teresa Horta, este é um livro que se lê como se fosse romance - como se fosse um bom romance - e isto é um grande elogio.


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Fica a faltar falar de uns dois ou três livros, tentarei fazê-lo em breve. Não sou, como já se sabia, uma leitora voraz, e os booktookers que devem estar neste momento a ler o seu 50º livro do ano ficarão, seguramente, a rir-se de mim; mas, apesar de tudo, estou muito contente. 

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Leituras boas e leituras falhadas

Perguntaram-me outro dia, num jantar com pessoas que gostam de livros, que livro mais tinha gostado de ler recentemente. Respondi de imediato, sem hesitar, que tinham sido todos os livros da Leila Slimani. A Leila, que foi a minha autora preferida de 2024, continuou a acompanhar-me este ano. Além de ter terminado a trilogia, li finalmente No Jardim do Ogre, que é um livro já de 2013 - talvez se note, um pouco, que é um livro escrito antes dos outros [escrito quando a autora era mais nova, talvez seja mais correcto dizer assim], mas é também muito bom e muito surpreendente. 


Nessa noite, vim para casa a pensar no que tenho lido. Tem sido um ano atípico, sinto que tenho lido menos do que habitualmente, menos do que desejaria, e nem sequer tenho vindo aqui falar sobre os livros, o que se calhar também contribui para esta sensação. Mas será verdade? Pus-me então a fazer mentalmente uma lista.


Concluo que continuo, com algumas boas exceções, a ler muitos mais livros escritos por mulheres do que por homens.


Além da Leila, li dois livros de autoras brasileiras de que gostei bastante: Meus Desacontecimentos, de Eliane Brum, que é um livro de autoficção, ou seja, onde a autora cria uma narrativa a partir da sua vida; e Se não fossem as sílabas do sábado, de Mariana Salomão Carrara, que me prendeu não só pelo inesperado ponto de partida - um homem cai do seu andar e, ao morrer, mata também o homem que ia a sair do prédio; a tragédia aproxima as duas viúvas, vizinhas que até aí não se conheciam e que se tornam amigas - mas também pela escrita algo poética da autora.


Aliás, fiquei tão fascinada com este livro que decidi comprar um outro livro da Mariana Salomão Carrara, É sempre a hora da nossa morte amém. E devo ter falado tanto dela que, nessa mesma altura, me ofereceram o seu livro mais recente, A árvore mais sozinha do mundo. Acontece que nenhum destes livros conseguiu cumprir as expectativas que tinha para eles. O primeiro aborreceu-me imenso, com as suas repetições; ainda me esforcei, avancei umas páginas na esperança que melhorasse, cheguei a meio mas não consegui terminá-lo. Com o outro foi ainda pior: não consegui mesmo envolver-me com a história daquela família de agricultores e penso que a culpa é do facto de a história ser contada por  uma árvore e por alguns objectos. Alguém me disse: se insistires, acabas por gostar. Mas, sinceramente, aquelas páginas que li custaram-me tanto que não me apeteceu continuar.


Percebo agora que este ano foi pródigo em leituras falhadas. 


Tentei o muito elogiado A Breve Vida das Flores, da francesa Valéri Perrin, e não consegui de todo. Disseram-me, então, que dela deveria ler o Querida Tia, e eu, obediente, tentei. Achei um pouco melhor, ainda resisti uns quantos capítulos, mas acabou por me desinteressar. Mais uma vez, o ponto de partida da história era muito bom, o que me afastou foi o estilo de escrita da autora. Não vos consigo explicar, sei dizer apenas que é uma escrita que não me agrada, parece-me tudo muito básico e ao mesmo tempo muito forçado.


O melhor exemplo disso são as gravações deixadas pela tia: mas alguém, alguma vez, falaria assim? Aquilo começou a complicar-me muito os nervos. Acertar no tom de uma fala em discurso directo é muito difícil. Imaginar diálogos ou cartas escritas por alguém é um dos grandes desafios da ficção, são poucos os que o conseguem fazer bem.


Essa foi também uma das coisas que me incomodou no romance de estreia da Luísa Sobral, Nem Todas as Árvores Morrem de Pé, que, no geral, achei muito fraco e sem qualquer densidade. Se não fosse ter-me comprometido a lê-lo por motivos profissionais não teria passado das primeiras páginas.


Ler um mau livro (um livro de que não estou a gostar) é algo muito penoso para mim. Começo a engonhar, a arranjar desculpas para não ler, passam os dias e eu tenho cada vez menos vontade de lhe pegar. Quando percebo que isso está acontecer, o melhor é desistir e passar para outro.


Felizmente, houve outros livros bons este ano. Irei falar deles já a seguir.


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Thursday, August 28, 2025

Melancolia

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Não li muito neste verão. Tenho lido coisas dispersas e tenho vários livros a meio. Mas esta Melacholia agarrou-me. Quem compra os livros do Francisco José Viegas é o meu pai. Foi ele que há muito tempo me falou do inspector Jaime Ramos e que até aprendeu a fazer o seu arroz de bacalhau. Eu vou lendo os livros emprestados, é já uma tradição. Não sei se os li todos, mas li vários, de cada vez deliciando-me com as palavras difíceis, com as descrições, com as muitas enumerações. Eu, que li muitos policiais na juventude, perco-me agora com estes livros que são exactamente o oposto desses: mais do que encontrar o culpado, aqui o crime é sobretudo um pretexto para olharmos para nós e para os outros, para viajarmos e reflectirmos. Desta vez, à medida que se anuncia uma pandemia e um confinamento, o inspector vai até à Póvoa do Varzim e infiltra-se no meio dos escritores, editores e críticos litrários que se encontram à beira-mar para massajar os egos e participar em mesas de discussão com nomes incompreensíveis. O autor ri-se baixinho de si mesmo e dos seus amigos. Os escritores também morrem e também matam, também têm segredos de família, amores escondidos, fotografias guardadas. Jaime Ramos está mais velho e continua rabugento, a contornar as regras da polícia e a fumar charuto. É afastado do cargo e colocado numa prateleira, enfrenta os seus medos. Resolver o crime - nem que seja só na sua cabeça - é a sua maneira de resistir. Para nós, que estamos a ler, é puro prazer.

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Sunday, July 27, 2025

Voltar ao país de Leila Slimani

Depois de O País dos Outros, vieram Vejam Como Dançamos e, por fim, Levarei o Fogo Comigo. Ficou assim completa a trilogia de Leila Slimani. Li o segundo e o terceiro livros de seguida, sofregamente, e ao mesmo tempo desejando não acabar nunca porque sabia que me iria custar deixar aquela família e aquelas personagens, queria saber mais, o que será feito delas?, tiveram filhos? serão felizes? Ler estes livros foi como entrar num mundo diferente, como se pertencesse um pouco a esta família. É tão raro isto acontecer. Conseguir estar completamente lá.


Estes livros são inspirados na vida da autora e na sua família. Leila criou Mia e dar-lhe outro nome permite-lhe libertar-se das amarras da realidade, mas é a realidade que está na origem destes livros. Aquela é a história dos seus avós, dos seus pais, a sua história. Esta trilogia é sobre família e é sobretudo sobre as mulheres, e sobre a ideia que as mulheres têm dos homens. Mas é também sobre identidade, emigração, sentirmo-nos estrangeiros - seja uma europeia em Marrocos, seja uma marroquina na Europa. E é sobre o que levamos quando partimos e aquilo que não podemos, ou não conseguimos ou não queremos, deixar para trás.


AQUI escrevi sobre a escrita da Leila Slimani. 


Não consegui ir à sessão de apresentação, mas podem ler esta entrevista feita pela Anabela Mota Ribeiro nessa ocasião. E para conhecerem um pouco melhor a autora há também outra entrevista feita pela Isabel Lucas.


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Mulheres em Marraquexe, Marrocos, na década de 1970

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Friday, April 11, 2025

Purgatório

“Essa sensação de o tempo estar a escassear e uma pessoa ser demasiado medricas para fazer explodir a vida que leva.”


No livro De Quatro, Miranda July mostra como uma mulher de 45 anos enfrenta a sua crise de meia-idade (também conhecida como perimenopausa) e decide abanar a sua vida e o seu casamento tradicional para se permitir partir à descoberta daquilo que realmente gosta e quer para si. Antes que seja demasiado tarde. Ou seja, antes de o envelhecimento a desfigurar.


Há muito sexo em De Quatro. Há masturbação, sexo hetero e homossexual, fantasias, brinquedos sexuais, role play. É engraçado pormo-nos na cabeça de outra mulher. Porém, não gostei assim tanto quanto esperava deste livro, que me foi muito recomendado. Em parte acho que isso tem a ver com a escrita da autora, que não faz bem o meu estilo, e também com a tradução (que odiei). Não foi só isso, há também ali coisas naquela mulher que me causam alguma estranheza, tenho que admitir. Mas prefiro falar daquilo que gostei. Sendo um livro escrito por uma mulher sobre mulheres e envelhecimento é claro que há sempre algum momento onde nos reconhecemos. Por exemplo, na eterna questão: conseguiremos, apesar de todas as condicionantes sociais, ser quem realmente somos (ainda que para isso precisemos de ter um quarto-refúgio num motel a vinte minutos de casa, como esta mulher)? Ou na outra pergunta, que todas nos fazemos a determinada altura: como será a paixão (ainda haverá paixão) quando envelhecemos? 


Depois, achei interessante a relação dela com as amigas e as conversas com outras mulheres, como quem percebe que afinal não está sozinha. E gostei de toda a parte mais doméstica, da relação da protagonista com o marido e o filho, a vidinha que temos e que às tantas já nem sabemos se estamos ali porque queremos ou simplesmente porque nos habituámos a viver daquela forma.


Falando com amigos, apercebo-me da quantidade de gente que vive infeliz em casamentos e que não sabe o que fazer. Porque é mesmo muito difícil ficar uma vida inteira com uma pessoa. As pessoas crescem e evoluem e é normal que aos 50 anos já não sejamos exactamente a mesma pessoa que éramos quando nos apaixonámos e fizemos juras de amor aos 20 e tal. Talvez por isso são cada vez mais as pessoas que pura e simplesmente não casam, também as que não querem ter filhos. São cada vez mais as que procuram outras maneiras de viver o amor. Não é à toa que cada vez mais se fala de relações abertas, de poliamor, de casais que querem permanecer juntos, mas que precisam que essa relação seja diferente do que é. E finalmente são cada vez mais as pessoas que dizem chega! e se divorciam.


Infelizmente são, parece-me, também muitas aquelas que se deixam ficar na infelicidade, como se o casamento fosse um buraco do qual não conseguem sair. Por causa dos filhos. Por causa da estabilidade. Por causa das memórias. Por causa do compromisso. Por causa de um sonho por cumprir. Por causa de dinheiro. Por causa dos outros. Por causa do medo. Por medo da solidão e da velhice. Por não terem a certeza que sozinhos ficarão melhor. Cada pessoa tem as suas razões, e são todas válidas. Mas quão triste será viver nesta espécie de beco sem saída?


Não tenho respostas nem conselhos. Só perguntas. E, ainda que não tenha adorado, ler um livro que me deixa tantas perguntas nunca é tempo perdido.


A este propósito:



  • muito interessante o podcast 451 MHz sobre o livro;

  • no outro dia, a Tânia Graça falava um pouco sobre os motivos porque se fica numa relação em que não se é feliz;

  • também apanhei por acaso um artigo na The Atlantic com boas dicas para quem, como eu, tem dificuldades em fazer mudanças na sua vida: To Be Happier, Stop Resisting Change;

  • outra perspectiva engraçada aqui: "Para as mulheres, o melhor sexo pode chegar depois dos 50"

  • Não sabia quem era a Miranda July, tive que ir à procura. Nesta entrevista ela fala um pouco das suas motivações para escrever este livro. All Fours é um dos nomeados para o prémio britânico Women's Prize for Fiction, cujo vencedor será anunciado a 12 de junho; e também já se sabe que o livro vai ser adaptado para uma série de televisão.


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O que é que isto tudo tem a ver com "purgatório", que é o tema desta semana no largo? Ah, essa também é uma boa pergunta. Talvez encontrem respostas mais úteis aqui:


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Monday, March 24, 2025

Num domingo qualquer

Depois de uma semana de muitas e fortes emoções, passei o fim-de-semana todo em casa, sozinha. Foi tempo para ler, escrever, ver filmes antigos, pensar na vida. Lá fora o vento e a chuva, de vez em quando uns raios de sol. Não adoro estar sozinha, mas sinto que, de vez em quando, também preciso destes momentos de silêncio e de confronto comigo mesma. É tudo uma questão de equilíbrio. No domingo à tarde temperei um frango e deixei-o a ganhar sabor durante horas, antes de o meter no forno por outras tantas horas. Quando os rapazes foram chegando, dos seus fins-de-semana, a cozinha estava quentinha e com aquele cheiro adocicado do assado. O frango ficou delicioso. Macio, húmido, a carne a soltar-se dos ossos. Um frango assado precisa de tempo. Não é possível fazer um bom frango assado no forno com pressa. Aquele frango precisou daquele domingo passado de pijama, das lágrimas que derramei enquanto acabava de ler o Somos o Esquecimento que Seremos, do colombiano Hector Abad Faciolince, da leveza de ver o Peggy Sue Casou-se, do Coppola (um filme de 1986 que não me lembrava de já ter visto, embora tudo aquilo me parecesse familiar), do espanto renovado ao reler passagens do António Lobo Antunes (tem coisas tão boas, caramba), da alegria de encontrar no Filmin A Ama de Cabo Verde, de Marie Amachoukeli, que queria ter visto no cinema mas acabei por deixar passar. Isto tudo até que finalmente nos sentámos os três a comer o frango tenrinho e saboroso e, entre conversas cruzadas e gargalhadas, olhámos para o calendário e fizemos planos para três meses (somos assim ambiciosos). Um jantar de família que não se vai repetir nos próximos dias, pois estarei a trabalhar à noite, e que cada vez acontece menos porque eles já não são crianças e temos todos as nossas vidas, com compromissos e actividades várias, mas talvez seja por isso que estes momentos são tão especiais. Ou então é o contrário, é por termos estes momentos tão bons juntos que, depois, podemos ir às nossas vidas descansados, sem dramas, sabendo que num domingo qualquer vamos encontrar-nos outra vez na cozinha, falar de coisas sem importância e ficar com as mãos sujas da gordura.

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Friday, March 21, 2025

Vizinhos

Falei com a Nofouz uns dias depois dos actos terroristas do Hamas a 7 de outubro de 2023. Alguém deu o contacto a alguém que me perguntou se não estaria interessada em entrevistar uma palestiniana da Cisjordânia. Nem hesitei. Trocámos umas mensagens em inglês e combinámos um dia para falar. Pouco antes da hora, ela desmarcou. Trabalha num hospital em Hebron, a cidade onde mora, e estava com muito trabalho. Tentámos uma segunda vez. Numa pausa do trabalho, Nofouz falou comigo. Tinha na altura 23 anos e estava a terminar o curso de Medicina. Falava um inglês perfeito. De vez em quando calava-se para deixar passar os aviões. Emocionou-se algumas vezes. Mas sabia o que queria dizer. "Neste momento, tenho medo de que todas as pessoas que morreram tenham morrido por nada, que todas as crianças que passam por noites de bombardeamentos estejam a sofrer por coisa nenhuma. As pessoas de Gaza estão a lutar por todos nós. Eles não têm opção a não ser lutar. Eles estão a lutar pelo nosso futuro e eu temo que a situação fique na mesma, que, depois da guerra, nada mude", disse-me. Contei a história de Nofouz o melhor que soube, tentando mostrar as contradições de quem cresceu no meio de uma guerra, a maneira como o ódio vai aumentando contra todos os argumentos, como as pequenas humilhações e injustiças de todos os dias transformam as pessoas. De vez em quando, a ver as notícias, lembro-me dela. Trocamos mensagens esporádicas. No outro dia, celebrámos a vitória do filme No Other Land, que ganhou o Óscar de Melhor Documentário. Foi filmado numas aldeias perto de casa dela. Pareceu-me animada com a perspectiva de um acordo de paz. Falava em viajar.


Esta semana voltaram os bombardeamentos em Gaza. 


Sinto que o conflito israelo-palestino é demasiado complexo para se conseguir estar de um lado só. Tento ler opiniões de um lado e de outro. Tenho visto filmes, procuro informar-me. Andei a pesquisar sobre o movimento sionista e sobre como tantos judeus foram para aquela região quando Israel ainda não existia e os britânicos resistiam aos movimentos independentistas, quer de israelitas quer de palestinianos. Mas, um ano e meio depois, continuo sem ter uma posição definida. As soluções que parecem perfeitas no papel dificilmente resultarão quando postas em prática. Dois estados? Há demasiados subtextos, demasiada história, demasiados golpes e feridas por sarar, demasiado rancor acumulado para que a paz possa ser alcançada por vias diplomáticas. Ninguém quer ceder.


Acabei de ler O Coração Pensante, do escritor israelita David Grossman, que é muito crítico em relação a Netanyahu. A certa altura, diz: "Para quem vive em países onde a ideia de 'lar' é algo óbvio, devo explicar que para mim, para a minha consciência israelita, a palavra 'lar' cria um sentimento de segurança, protecção e pertença. Lar é um lugar onde posso existir em paz. Em que as fronteiras são reconhecidas por todos, e em particular pelos vizinhos. Mas tudo isto está envolto em nostalgia, em anseio de algo que, para mim ainda não se realizou totalmente. Por enquanto, sinto que a casa israelita é mais uma fortaleza do que um lar. Não há nela segurança nem paz, e os meus vizinhos acalentam muitas dúvidas e exigências sobre os meus quartos e paredes-fronteiras e, por vezes, sobre a sua própria existência. (...) Surge ainda um outro pensamento, o pensamento sobre os dois povos torturados: o israelita e o palestino, nos quais o trauma do refugiado é tão primário e fundamental, e apesar disso nenhum deles tem a mais leve compreensão pela tragédia do outro povo, para não falar compaixão."


Vizinhos. A maioria das guerras começa assim, entre pessoas que vivem lado a lado. De um lado ou de outro da fronteira. De um lado ou de outro da rua. Às vezes nem isso. Russos e ucranianos. Vietnamitas do norte e do sul. Sérvios e bósnios. Grupos étnicos diferentes no Ruanda. Facções opostas na Síria. Lembro-me de ver testemunhos de judeus que viviam na Alemanha antes da guerra, perfeitamente integrados, felizes, e de como, quase de um dia para o outro, passaram a ser mal tratados por aqueles com quem antes conviviam amigavelmente. Os vizinhos em quem confiavam tornaram-se seus inimigos. 


Está sempre a acontecer, e o que é mais incrível é que parece que não aprendemos nada.


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Crianças esperam a comida fornecida por uma organização humanitária em Beit Lahiya, no norte da Faixa de Gaza (AP Photo/Abdel Kareem Hana)


Neste largo, a vizinhança é boa e escrevemos sem conflitos:


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Sunday, March 16, 2025

Um livro, um filme, uma série

Um livro


É engraçado quando vamos lendo livros de um autor e vamos percebendo qual é o seu universo, os temas de que gosta, o espaço onde se movimentam as suas personagens. No seu mais recente livro, Toda a Gente Tem um Plano, Bruno Vieira do Amaral continua a sua investida pelos bairros mais pobres da margem Sul para nos mostrar aqueles que tantas vezes parecem invisíveis. Continua, por exemplo, entre gente que veio de África (ou do Brasil) e gente que procura conforto em deus. Gosto muito da maneira como o autor construiu esta história, evitando a linearidade, fazendo-nos ir lá atrás no tempo, uma vez e outra vez, para conhecermos melhor este Calita e as curvas da sua vida. Também gosto muito do cuidado que põe na criação das personagens e dos contextos, quase como se nos transportasse para aqueles locais, como se aquelas pessoas fossem de carne e osso e nos pudéssemos ter cruzado com elas em algum momento. Gosto de me apegar às personagens, de compreender as suas fraquezas, de ficar a torcer por elas. De sofrer com elas quando elas sofrem.


Um filme


Já o vi há algum tempo, mas, depois, com o barulho dos Óscares e a crise política que nos caiu em cima, acabei por não ter tempo de vir aqui escrever sobre O Atentado de 5 de Setembro. O filme acompanha o atentado terrorista ocorrido nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, mas do ponto de vista dos jornalistas do canal americano CBS, que estavam na torre do satélite, a uma centenas de metros da aldeia olímpica. Admito que será um filme que talvez toque mais os jornalistas. E ainda mais os jornalistas que estejam ligados à televisão. Afinal, aquela foi não só a primeira vez que os jogos olimpicos foram transmitidos em directo, mas também a primeira vez que um atentado terrorista foi transmitido em directo pela televisão - com todas as questões que isso levanta. Mas acho que pode ser interessante para toda a gente. Posso dizer-vos que, mesmo sabendo como aquilo ia acabar, o filme conseguiu envolver-me completamente e até deixar-me nervosa.



Uma série


Adolescência é mesmo imperdível. O nome diz tudo: é uma minissérie sobre a adolescência, nos seus muitos aspectos. A pressão a que os jovens estão sujeitos, por parte dos outros jovens, agravada pelas redes sociais. A influência que alguns gurus e ideologias podem ter sobre os jovens. A relação com os pais. A escola. O desespero dos professores. A falta de perspectivas. A falta de empatia. A linguagem. Os telemóveis sempre na mão. As portas dos quartos fechadas. A impotência dos pais. A culpa. Está lá tudo, mas ao mesmo tempo é uma série muito diferente de todas as outras séries que já vimos sobre adolescentes. São quatro episódios muito bem feitos, muito bem realizados, muito bem interpretados. O primeiro episódio tem imensa tensão. O episódio da escola é bastante perturbador. O último é o mais tocante (pelo menos, para mim). Fez-me pensar tanto. Não quero estar a contar muito. Está na Netflix. Vejam que não se vão arrepender.


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Friday, March 07, 2025

Recapitular fevereiro para esquecer janeiro já com os olhos em março

O mês mais curto foi cheio de coisas boas.


A começar pelos concertos de Ana Lua Caiano e Amélia Muge e de Samuel Úria e Manel Cruz. Foram ambos muito bons. E também uma oportunidade para estar com alguns amigos queridos. Geralmente evito ter programas em dias de semana porque sei que estarei cansada e não me vai apetecer e depois vou ficar ainda mais cansada. Mas foi tudo tão bom nestas duas noites que valeu muito a pena.


Fui moderar um painel numa conferência na Gulbenkian. Deus sabe o que me custa expor-me assim, as noites que passo sem dormir, os nervos que me atacam o corpo. Ainda assim, fiquei mesmo feliz quando recebi o convite e achei o tema tão interessante, tão a minha cara, que é claro que não podia dizer que não [o que é o pior que pode acontecer?, não é?]. Olhando para trás, odeio ver-me e ouvir-me, encontro mil erros, mil coisas que podiam ter sido melhores. Mas tive muita sorte com o meu painel, eram pessoas realmente interessantes e com quem gostei muito de conversar. 


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Foi o aniversário da Helena, que é uma das minhas pessoas preferidas. E foi um dia mesmo bom porque estive com as minhas amigas mais antigas e com quem não tenho tido muita oportunidade de estar, por motivo nenhum especial, apenas porque andamos desencontradas. Foi como se estivéssemos de volta à faculdade, com as conversas a sobreporem-se e a cumplicidade e a honestidade e a amizade de sempre. Gosto mesmo destas miúdas que me entendem bem, mesmo quando falamos pouco. Esse dia; a tarde em que, do nada, combinei com a Isabel irmos ouvir a escritora, Elizabeth Strout à Livraria Bucholz; a caminhada de duas horas pelos caminhos de Monsanto, que me deixou de corpo cansado mas de coração cheio. Foram todos momentos especiais. Não me canso de o dizer: os amigos verdadeiros são o meu oxigénio.


O espectáculo do Tiago Rodrigues, No Yogurt for the Dead, é simplesmente incrível. O texto é muito bom, com um tema muito duro mas ao mesmo tempo com um sentido de humor apurado, a fazer-nos rir e chorar quase ao mesmo tempo. As barbas, a música, a atriz que fala neerlandês, o humor, a montanha - as soluções que ele encontrou para nos falar da morte do pai, ao mesmo tempo emocionando-nos mas criando uma distância segura, são perfeitas. E que dizer daquelas duas actrizes, a Beatriz Brás e a Manuela Azevedo. Sim, a Manuela, dos Clã. Já a tinha visto noutras peças, mas aqui ela excede-se e, além de cantar como sabemos que canta, é uma actriz de corpo inteiro.


 Quem viu o espectáculo sabe como ele fala a todos os que já perderam alguém. É impossível não nos relacionarmos, não nos revermos em alguma das cenas. Ainda por cima, no natal tinha oferecido bilhetes à minha irmã e ao meu cunhado. Já estava contente por termos um programa juntos. Só depois reparei que o espectáculo era no mesmo dia do aniversário da morte da nossa mãe. Acabou por ser ainda mais especial.


Os problemas não se resolveram mas, este mês, parece que estiveram mais suportáveis. Os putos mais orientados. O trabalho menos odioso. Um bocadinho menos, vá. Ou então era eu que estava tão entretida a fazer planos para março que já não me chateei muito. Também há isso. 

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Tuesday, February 04, 2025

Maria Teresa Horta

Tuesday, December 31, 2024

“Posso morrer porque amei e fui amada"

Estive com a Adília Lopes uma única vez, há mais de vinte anos, num ensaio do espectáculo A Birra da Viva, de Lúcia Sigalho. Queria lembrar-me melhor desse espectáculo, desse momento. Tenho tão boas memórias das noites passadas no Armazém do Ferro. A Lúcia Sigalho e a Mónica Calle foram uma revolução na minha vida. Eu era ainda uma miúda, mal tinha começado a pensar nestas coisas, e elas a fazerem espectáculos sobre isto de ser mulher, a dizerem-me que o importante é sermos quem realmente somos, assumirmos os nossos desejos e deitarmos fora a culpa, elas a mostrarem-me o caminho. Devo-lhes tanto. Foi por causa da Lúcia e desse espectáculo sobre mulheres e mães e sobre corpos que dão vida e morte que fiquei com vontade de ler a Adília. Foi depois de a ver ali, de ouvir a maneira contida, desassombrada, crua como falava, que fui descobrir os seus poemas. A Adília Lopes morreu ontem e eu li a notícia e não queria acreditar. Tinha apenas 64 anos. Fiquei tão triste.  Chorei por ela e por mim e por todas as mortes que ficaram por chorar. 


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“Posso morrer porque amei e fui amada. Gostei de homens, de mulheres, de velhas (de velhos não), de bebés, de bichos, de plantas, de casas, de filmes, de concertos, de quadros, de teorias, de jogos, de pastéis de natas, de jesuítas, de russos, de hamburgers, de Paris e de Londres. Nunca fui a Nova York e gostava de ir, mas não me importo de morrer sem ter ido. Também nunca tive um orgasmo. Não me arrependo de nada. É claro que Nova York não se compara a um orgasmo. Um orgasmo é muito mais importante”


De Irmã Barata, Irmã Batata, de Adília Lopes


(na página 409 de Dobra, poesia reunida, 2021, Assírio & Alvim)

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Monday, December 30, 2024

Leila Slimani: da arte de contar histórias

A minha descoberta do ano é Leila Slimani, uma escritora franco-marroquina de 43 anos, que nasceu em Rabat e aos 17 se mudou para Paris, estudou Ciência Política e foi jornalista. Dela, li O Perfume das Flores à Noite, que é um ensaio nascido do convite para passar uma noite num museu em Itália, e é ok para o que é. Mas depois descobri a sua ficção e fiquei rendida.Canção Doce é um livro extraordinário e O País dos Outros não lhe fica muito atrás. Quero muito ler os outros livros dela. 


Canção Doce começa com um acontecimento trágico: uma ama mata as duas crianças de que é cuidadora. Voltamos depois atrás para conhecer a sua história. Estamos em Paris, em casa de um jovem casal de classe média culta, Paul e Myriam, não ricos mas com um bom nível de vida. Quando Myriam retoma a sua actividade profissional, como advogada, após o nascimento dos filhos, decidem contratar uma ama. Depois de várias entrevistas, a escolhida é Louise. A ama perfeita. Carinhosa com as crianças, boa dona de casa, excelente cozinheira, parece ter sempre tempo para fazer tudo e ainda brincar e dar atenção aos pequenos. Louise é a salvação daquela família. Mas, longe da vida de contos de fada da família, Louise também tem uma vida e tem os seus problemas, vive com dificuldades financeiras, sente-se sozinha, mal consegue dormir, há momentos em que a sua cabeça parece explodir. Aos poucos, a ama começa a ter comportamentos sufocantes, a relação com Myriam torna-se tóxica, tudo se desmorona até ao desfecho horrível.


Em O País dos Outros a acção passa-se em Meknés, em Marrocos, para onde os recém-casados Mathilde e Amine vão morar após a Segunda Guerra Mundial. Foi durante a guerra que Amine, marroquino que combateu no exército francês, conheceu Mathilde. Apaixonaram-se. Mas a vida em Marrocos acaba por ser um desafio enorme para esta jovem francesa, uma vez que, ali, as diferenças culturais tornam-se muito mais visíveis. A família instala-se numa quinta, Amine trabalha para que os campos produzam, Mathilde ocupa-se da casa, os filhos nascem e crescem ao mesmo tempo que o país inicia um processo revolucionário tendo em vista a independência. Mathilde sente-se sozinha. Amine teme pelo futuro. A relação nem sempre é pacífica, mas,  mesmo quando tudo corre mal, continuam juntos. A história, tanto quanto percebi, é inspirada na da família da autora.


O que torna estas histórias especiais é a maneira como Leila Slimani as conta, numa escrita clara mas sem facilitismo, recusando a linearidade, entrançando pequenas histórias e pequenos acontecimentos para dar corpo ao tronco principal da narrativa, desviando-se sempre que sente que é necessário porque nenhum desvio é tempo perdido, pelo contrário, como numa pintura, todos os pormenores fazem parte do quadro que se está a pintar. A mim encheu-me completamente as medidas. Gosto quando me sinto tão afundada nas histórias que estas quase me parecem reais, quando consigo imaginar os rostos das personagens, entender o que sentem, visualisar os seus gestos, mergulhar nos seus mundos. Gosto desta atenção aos detalhes. Que a acção principal seja simplesmente a vida a acontecer. Que não seja preciso explicar porque é que Louise cometeu um crime horrendo ou porque é que Mathilde fica, mesmo depois de ser espancada pelo marido. Que as personagens sejam tão humanas que quase nos pareçam familiares.


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Saturday, December 28, 2024

"Caruncho", uma história de ódio e vingança

Passado na Espanha durante a ditadura e atravessado pelas memórias da guerra civil e do franquismo, Caruncho, de Layla Carvalho, é um livro sobre mulheres e sobre pobreza, sobre classes sociais e privilégio, sobre violência de género e desamor. Além disso, muito bem escrito. E, no entanto, custou-me muito avançar por aquelas 120 pequenas páginas. Achei que tinha sido talvez o facto de haver uma dimensão sobrenatural, quase de terror, com uns toques de bruxaria à mistura, que me tinha afastado da obra. Sim, mas não só. Terminada a leitura, à medida que o tempo foi passando e aquela narrativa foi assentando em mim, percebi que o que me afastou foi o ódio. As personagens - quase todas mulheres - são movidas a ódio e a desejos de vingança. O caruncho que percorre as paredes da casa corrói-lhes também os corações. Não há amor que lhes valha. Não há uma centelha de esperança. Tudo ali é tristeza e ressentimento.


“A vingança interessa-me muito, tanto na literatura como na vida real”, disse a escritora numa das entrevistas que deu na altura do lançamento do livro em Portugal. “É uma força muito destrutiva, que acaba por consumir também aquele que se vinga, mesmo que o consiga fazer. Mas é também a única forma de justiça para os oprimidos.”


Tenho muita resistência à ideia de que a vingança é a única forma de justiça para os oprimidos. Mas um livro que nos faz pensar e que fica aqui a remoer-nos por dentro é sempre um bom livro. 

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Tuesday, November 05, 2024

Anora, um sonho de mulher

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Fui ver Anora no dia em que estreou, dia do meu aniversário. Uma matiné às duas da tarde no Nimas, a sala quase vazia, dois casalinhos jovens, uns quantos velhotes sozinhos. Entreolhamo-nos. Somos cúmplices. Somos os desocupados, aqueles que não têm mais nada que fazer numa tarde de sol a não ser enfiar-se numa sala escura, alheados do mundo. Quero lá saber. Gosto muito de ir a matinés, sobretudo durante a semana. 


A protagonista, Anora, ou Ani, como ela prefere ser chamada, é uma "dançarina exótica". Trabalha num clube nocturno onde faz conversa com os clientes, dança para eles, no colo ou no varão, sussurra-lhes aos ouvidos, insinua-se de todas as maneiras possíveis para que eles desembolsem mais umas notas. Eventualmente, quando os clientes lhe agradam, Anora trabalha também como prostituta fora dali. Nas primeiras cenas do filme é só isto que acontece. Anora e as outras raparigas dançam e despem-se e seduzem homens com profissionalismo enquanto mascam pastilha elástica, nas pausas conversam sobre coisas banais e comem em tupperwares. Com desprendimento. Anora é uma operária do sexo, sabe exactamente o que tem de fazer, cumpre a sua função, maquinalmente. E é uma durona, não permite que abusem dela. Tem tudo controlado. As coisas complicam-se quando aparece um puto milionário, russo, disposto a pagar muito para poder estar com ela em exclusivo. A determinada altura, o filme muda de tom. Deixa de ser sobre uma dançarina exótica e passa a ser sobre uma miúda que, afinal, tem sentimentos. Que, quando tira o uniforme do trabalho, se deixa iludir e enganar como todas as outras. Que ainda acredita no sonho da Cinderela. E também uma miúda que não sabe lidar com a simpatia das pessoas porque, provavelmente, sempre foi só um corpo disponível para transação, como se essa fosse a única maneira de se relacionar de forma segura com os outros.


Gostei de AnoraO filme, vecendor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, mistura uma carga emocional com momentos quase cómicos, insinuando mais do que mostrando (e não estou a falar só de sexo). O Jorge Mourinha lembrou Pretty Woman - Um Sonho de Mulher, embora o filme com a Julia Roberts desse uma imagem bastante mais romantizada dessa máquina de vender sonhos que é a prostituição. Realizado por Sean Baker, o mesmo de Florida Project, e protagonizado pela impressionante Mikey Madison, ao lado de Mark Eidelstein como Vanya, Anora surgiu à minha frente precisamente no momento em que andava a ler A Teoria do King Kong, em que Virginie Despentes fala, entre outras coisas, sobre a prostituição, a pornografia e a prisão masculina em que o desejo das mulheres ainda está encerrado. Como feminista de esquerda educada numa sociedade conservadora e moralista, não tenho certezas nenhumas sobre como olhar para a prostituição. Exploração ou libertação? É um trabalho como os outros? Legalizar ou não? Numa tentativa para entender melhor o que estava em causa, escrevi há tempos sobre isso AQUI e AQUI.  Ler a Despentes foi bom para me desassossegar, para me questionar, mas fiquei mais ou menos na mesma, ou seja, cheia de dúvidas. 


Anora, com o seu corpo perfeito e descomplexado, exalando sensualidade, ilustra bem aquilo de que fala Despentes: ela tanto pode ser vista como a depravada que vai para a cama com qualquer um e é criticada pela sociedade por ser uma puta, como a miúda desesperada que faz o que é preciso para sobreviver e até consegue a nossa empatia. Na verdade, ela pode ser as duas ao mesmo tempo. 


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Saturday, October 12, 2024

É outubro e já comi uma romã

Vou fazer 50 anos. Nunca me apetece festejar e este ano não é excepção, por mim fingíamos que este dia nem se quer existia e dispensavam-se os telefonemas e as mensagens e tudo, mas, pronto, se calhar, desta vez, vai ter que ser, não é?, afinal, são 50, caramba, vamos mesmo ter que inventar alguma coisa.


Estou a fazer pilates clínico com uma instrutora muito querida que bate palminhas e diz "muito bem" sempre que eu consigo apertar as nádegas, os glúteos e os abdominais ao mesmo tempo e fazer todas as repetições. O estúdio parece uma sala de tortura cheia de máquinas esquisitas e, para já, só lá vi pessoas mais velhas do que eu. Não adoro, mas estou a esforçar-me. Porque é importante para a recuperação. Ando toda dorida o que só pode significar que estou a mexer músculos que estavam há muito adormecidos. Mas a parte melhor é quando, no fim da aula, ela me pendura pelos pés e me deixa a relaxar. Sou muito boa a relaxar. É bom que isto sirva para alguma coisa, uma vez que é caríssimo. Tenho orçamento para dois meses (três, na loucura), antes de voltar ao pilates dos pobres no ginásio. 


O trabalho também tem sido uma tortura. Há dias em que me apetece desistir de tudo (depois lembro-me que tenho contas para pagar). A única coisa boa dos últimos tempos foi ler o livro da Sally Rooney e escrever sobre ele. Nunca tinha lido nada dela e gostei mais do que estava à espera.


Antes de me abalançar na última temporada da série A Amiga Genial, decidi rever as três temporadas anteriores. Voltei a gostar como da primeira vez. E gostei ainda mais de "passear" por Nápoles, agora que já conheço a cidade.


Foi há quase um ano que fui a Nápoles. Tem sido um ano bom. Muito bom, mesmo. Apesar de tudo. Um dia vou escrever sobre isto. Gostaria de um dia escrever sobre isto no presente, e não no passado como normalmente acontece. Dizer "gostaria de um dia escrever sobre isto no presente" é já dizer tanto. 


Na outra noite fui ver o Samuel Úria. Foi uma noite tão feliz. Já não me lembrava como gosto dele e daquelas canções. 



"E se euE se eu me esquecer de tiMas não dessa forma que o fizIsso fui só eu a ser só eu

Mas, se se enrugar a noção do meu melhorVem, de novo, deseducar-me de estar só

 

E se tuE se te apagares de mimMas não como às vezes pediIsso fui eu só a ser eu só

 

Ai, se se enrugar a noção do meu melhorVem, de novo, curar-me o vício de estar só"

 


Hoje comi uma romã e, como sempre, lembrei-me da minha avó. Outubro é também o mês dela. É o nosso mês. Das que cá estão e das que já não estão.


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(Peço desculpa se não perceberam este post. Às vezes sou um bocadinho egoísta e escrevo só para mim. Outubro ainda vai a meio. Tenho tanta coisa para fazer até aos 50, a agenda cheia, nem vou ter tempo de me angustiar. Digo eu.)


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Saturday, August 24, 2024

De volta à terra

Na feira do livro do ano passado não consegui comprar o Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos porque o livro ficou esgotado em pouco tempo. Parecia que toda a gente andava a ler a Olga Tokarczuk, lembram-se? Acabei por comprá-lo em julho deste ano, numa fnac manhosa no intermarché de Lagos, numa semana em que estive na praia e, sabe-se lá como, ao fim de uns dias já tinha lido os três livros que tinha levado. Não foi fácil. Vinha embalada com a escrita gulosa da Alda de Céspedes, da Alana S. Portero e do Salman Rushdie (de que ainda hei-de falar um dia destes). E de repente encalhei ali em palavras menos comuns, numa escrita mais exigente. Desde logo porque me transportava para uma paisagem agreste e para mim completamente estranha, na Polónia. A autora entretém-se em pormenorizadas descrições da natureza, que me aborreceram. A natureza impõe-se em todo o livro: os animais, as plantas, os montes, a neve. Já para não falar da obsessão da protagonista com a astrologia, um mundo que nada me diz. Acabei por "entrar" no livro e até por simpatizar com aquela mulher, Janina, talvez um pouco "doida", como todos diziam, mas com uma sensibilidade especial e uma enorme capacidade de se dar aos outros, sobretudo os mais frágeis. O livro também retrata bem a maneira como as pessoas estão ligadas numa aldeia, e como os pequenos ódios e as pequenas amizades acabam por ser tão importantes neste microsmos. Confesso que fiquei curiosa para ver que mais escreveu esta autora premiada com o Nobel.


Estava eu a pensar no que iria ler a seguir quando me chegou à caixa do correio A Forasteira, de Olga Merino. Nunca tinha ouvido falar desta autora espanhola e não tinha qualquer referência sobre o livro. Mas algo ali me chamou a atenção. Estava mais uma vez perante uma protagonista feminina, a narrar-se na primeira pessoa. E mais uma vez perante uma mulher que, depois dos desaires da vida, encontra no campo a sua casa. Neste caso, um campo que me pareceu muito familiar. Era em Espanha, mas podia ser no Alentejo. O calor abrasador, a terra ressequida, a aldeia de portas fechadas, as vendas onde os homens bebem ao fim do dia, os suicídios, tudo ali eu conhecia, até a linguagem, com recurso a palavras antigas e até esquecidas mas que me faziam todo o sentido. Angie cresceu nos anos 80, como eu. Conheço as canções que lhe povoam a memória. Percebo a sua vontade partir, de se encontrar longe da aldeia. Percebo a sua vontade de voltar e de se encontrar na aldeia. É como se ela fosse uma velha conhecida, não uma amiga mas alguém com quem me consigo relacionar, porque partilhamos o mesmo mundo, vimos de terras que enfrentam problemas semelhantes com a agricultura e a falta de mão-de-obra e a falta de futuro. Não sei o que é que outras pessoas, com outras experiências, vão achar do livro, mas para mim foi realmente uma boa surpresa.


Completamente por acaso, o livro que li a seguir foi Terrinhas, de Catarina Gomes. Outra vez uma mulher a braços com as suas memórias e com um regresso à terra dos pais. Aqui a terra era outra - mais a norte, mais verdejante e montanhosa, plantada com batatas. Aqui não foi a terra que me conquistou mas foi a descrição exacta de como foi crescer naquele tempo. Os brinquedos, os programas na televisão, a decoração das casas. Aquela contenção que havia, não porque fosse mesmo necessária, mas porque era assim que devia ser. Aqueles pais sempre preocupados com um caminho que fosse um bocadinho mais incerto, "mas depois consegues arranjar trabalho, filha?". Aquele "o que é que as pessoas vão pensar" que orientava a nossa conduta. Outra vez o querer sair e o querer voltar. Este livro é, antes de mais, um grande hino à família e ao que existiu antes e que nos enforma de maneiras que nem sempre percebemos. Podemos tentar fugir, como Janina ou Angie ou Cláudia, mas dificilmemte conseguimos escapar ao nosso passado, tal como não nos conseguimos livrar da terra que se entranha nas unhas e na pele


Eu nunca usei a expressão "ir à terra", até porque nunca tive, efectivamente, uma ligação à terra. Venho do Alentejo mas de terras não sei nada, sou da vila, do alcatrão, das casas muito brancas, das ruas perpendiculares e paralelas. Durante muito tempo ia a casa, porque era ali de facto a minha casa. Depois, quando arranjei uma casa minha, passei a ir a casa dos meus pais ou, simplesmente, a Ferreira. Ainda assim, quando andei à procura de uma imagem para este post decidi roubar ao meu pai esta foto de terra. Cada pessoa tem a sua paisagem-casa. A minha é mais ou menos assim.


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Friday, August 02, 2024

Julho teve calor, muito calor. E também teve isto

Julho. Tivemos os nossos dias de praia, poucos mas bons. Depois os miúdos também tiveram os seus dias de praia. Mandam-me fotografias repletas de céu azul e sorrisos rasgados. Estão enormes. Como crescem os filhos quando estão longe de nós. Temo que no regresso já não me caibam nos abraços que lhes quero (preciso) dar. A parte boa de os filhos estarem de férias sem mim é que, apesar de estar a trabalhar, tenho tempo de sobra para fazer as minhas coisas sem sentimentos de culpa nem pensar no que vai ser o jantar. Coisas como ficar horas sentada no sofá a ver os jogos olímpicos. Ou jantar com amigos. Ou ir fazer um workshop de cozinha do Médio Oriente no Mezze. Ou não fazer nada. Ou isto:


Dois espectáculos 


À Primeira Vista, texto de Suzie Miller, encenação de Tiago Guedes, interpretação de Margarida Vila-Nova. Sobre isto de ser mulher, as agressões sexuais a que estamos sujeitas, o machismo da sociedade em que vivemos mas, sobretudo, do sistema judicial. As estatísticas dizem que uma em cada três mulheres já sofreram algum tipo de agressão sexual. Então, porque continuamos a tratar assim as vítimas? Porque continuamos a duvidar das suas palavras? A menosprezar o trauma que sofreram? A dar o benefício da dúvida aos agressores? Oh, coitado, foi só um deslize, tinha bebido de mais, ele no fundo não é má pessoa. O texto é muito bom. A Margarida Vila-Nova aguenta-se à bronca. O resultado não é uma obra-prima mas é bom. E importante. Depois de uma primeira temporada esgotada, o espectáculo vai voltar ao Teatro Maria Matos de 18 de setembro a 27 de novembro.


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Madrinhas de Guerra, de Keli Freitas. Uma reflexão sobre o colonialismo e o modo como, em 2024,  ainda romantizamos as "descobertas" dos portugueses que "deram novos mundo ao mundo" e a guerra onde tantos rapazes morreram e sofreram em nome de um império que não era seu. É um olhar inquiridor mas ao mesmo tempo com sentido de humor. Um espectáculo que parece estar inacabado, que levanta mais perguntas do que dá respostas, que nos deixa com vontade de mais. Vi-o no auditório do Museu de História Natural e só isso já foi uma experiência. Se o voltarem a encontrar por aí não percam.


Um livro


Tudo é rio, de Carla Madeira


Preparem-se para todo o balanço e toda a doçura que o português do Brasil nos pode dar. Porque há sotaques que parecem perfeitos para contar o amor (e desamor) e o desejo. Esta é a história de um improvável trio amoroso, a prostituta Lucy, o instável Venâncio e a doce Dalva, mas é também a história das suas famílias, das dores que trazemos connosco e da importância de procurarmos a alegria contra todas as evidências em contrário. Uma delícia.


Um filme


Memória, realizado por Michel Franco, com Jessica Chastain e Peter Sarsgaard. Um encontro improvável entre uma mulher que luta para sobreviver ao trauma (outra vez uma agressão sexual e todas as suas consequências) e manter-se longe do álcool e um homem que sofre de demência e está a perder a memória. Uma batalha entre aquilo que queremos recordar e aquilo que gostaríamos de esquecer. A alegria (a tal alegria) de descobrir o amor confronta-se com as dificuldades da vida real. A verdade é que todos precisamos de quem cuide de nós.



Uma série


Nem uma mais, série espanhola na Netflix, sobre como a violência sexual está presente no dia a dia de um grupo de amigas no liceu (outra vez, sim, juro que não foi de propósito, mas é um tema mesmo importante, ainda bem que se fala disto). Um namorado, um amigo, um professor, qualquer um pode ser um abusador. Mais uma vez, não é uma obra prima, mas é uma série muito bem feita, as miúdas são fantásticas e tenho a certeza que muitas de nós se vão relacionar com aquelas situações. 


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Monday, July 15, 2024

Livros e filmes de que não me quero esquecer

Como prometido, mais livros:


Ao Paraíso


Li-o há já algum tempo, mas não sei porquê na altura não escrevi e não queria mesmo deixar de referi-lo porque foi uma boa surpresa: Ao Paraíso, de Hanya Yanagihara. Desta autora tinha lido Uma Pequena Vida, que é, atrevo-me a dizer, um dos livros da minha vida. Comprei este Ao Paraíso de olhos fechados, segura de que ia adorar. Depois quando lhe peguei e percebi exactamente como seria, temi o pior. Eu não sou da ficção científica, da fantasia nem das distopias, gosto da realidade real, das coisas como elas são. Comecei de pé atrás, confesso. Mas o livro estão tão bem escrito, as personagens são tão verdadeiras, tudo é descrito com tantos pormenores e com tanto realismo, que foi impossível não me agarrar de imediato àquelas pessoas e àquelas histórias.


Sem querer revelar muito: a acção passa-se em três momentos diferentes - no século XIX, nos anos de 1990 e num futuro próximo - mas sempre centrada em Manhattan, numa Nova Iorque inventada, numa América inventada. São três histórias diferentes mas subtilmente ligadas, onde o que está em causa é, acima de tudo, a liberdade e o desejo que todos temos de encontrar o nosso paraíso (e o que estamos dispostos a fazer para isso?). Pelo meio, a família, os amigos, a sexualidade, o amor, a doença (e as epidemias), a morte. Também pelo meio, o que é uma nação, o que queremos ser enquanto sociedade, o que nos liga e o que nos separa, a igualdade e a desigualdade. É um livro que nos levanta tantas questões, nos dá tantas coisas para pensar, mas que, ao mesmo tempo, me emocionou profundamente.


Maus Hábitos


E por falar em emoções: Maus Hábitos, de Alana S. Portero. Que murro no estomago. A personagem principal é um rapaz que, criança ainda, se apercebe que é transgénero. A história é contada na primeira na pessoa e é incrível a forma como ela (ela, claro, porque se refere sempre a si mesma no género feminino) se descobre, reconhecendo-se nas travestis dos filmes e das revistas, nos gays e nas outras mulheres trans com que se vai cruzando, a forma como se percebe antes mesmo de ter as palavras certas para dizê-lo, a forma como crescendo descobre o amor e a sexualidade, como aprende a esconder-se e a mentir aos outros, ao mesmo tempo que aprende a aceitar-se e a libertar-se, cada vez mais. E por fim é brutal a forma como se confronta com a violência, os preconceitos e toda a maldade da sociedade, que lhe nega a sua própria identidade. Tudo tão bem contado. E tão revoltante e tão tocante em doses iguais. Não conheço nenhuma pessoa trans, não faço ideia do que será uma vida assim, posso apenas imaginar o sofrimento de uma pessoa impedida de ser quem é - mas para mim esta leitura foi reveladora. Gostaria muito de saber a opinião de alguém trans sobre este livro.


As Primas


Mais uma raridade: As Primas, de Aurora Venturini, é um livro sobre a deficiência. Quantos livros já leram com personagens com deficiência? Penso que nunca tinha lido um livro que abordasse de forma tão crua (e sem qualquer condescendência) as deficiências - mental e física. Há momentos em que pode até ser um pouco chocante, mas esse choque é como uma chamada de atenção à nossa consciência: porque estás a pensar isso?, porque estás a sentir isto?. Que preconceitos são esses que temos aqui escondidos? Conhecer os nossos preconceitos é o primeiro passo para podermos combatê-los - foi isso que este livro me fez. Neste caso, não posso dizer que tenha adorado a escrita e confesso que tive muita dificuldade em empatizar com as personagens, mas foi seguramente um livro que não me deixou indiferente.


Não estava prometido, mas quero deixar aqui também uma nota sobre dois filmes:


Retratos Fantasmas acabou de entrar para o catálogo da Filmin e pude assim colmatar aquela enorme falha de não ter conseguido vê-lo no cinema. É um documentário do brasileiro Kleber Mendonça Filho (o realizador de Aquarius) que é uma declaração de amor à sua cidade, o Recife, e sobretudo às antigas (e entretanto desaparecidas) salas de cinema. É um filme sobre a memória, cheio de imagens da infância e da casa onde ele cresceu, sobre a importância dos lugares no nosso mapa de afectos. E a memória, como sabemos, é um tema que me é muito caro. (Posso dizer que me emocionei, posso? Ando uma lamechas, não sei se é da idade, mas parece que tudo me emociona por estes dias)



E por causa de umas publicações no Instagram decidi voltar a ver Frances Ha, do Noam Baumbach com a Greta Gerwig. Sinceramente, já nem me lembrava muito de pormenores e, sim, é um filme sobre a entrada na idade adulta, não é de todo para o meu target, mas, o que querem?, voltei a gostar. Aquela maravilhosa ingenuidade, aquele acreditar que tudo é possível e, depois, os socos que levamos da realidade. No fim de contas, todos aprendemos a arrumar o quarto e a não gastar mais dinheiro do que temos, mas deveríamos manter sempre um pouco daquela espontaneidade, não é?


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Thursday, July 11, 2024

Quem somos nós quando fechamos a porta do nosso quarto?

O Caderno Proibido é um livro que é como um diário escrito por uma mulher, Valeria, que tem 43 anos, trabalha como secretária num escritório, é casada com Michele, que trabalha num banco, e têm dois filhos, um rapaz e uma rapariga, ambos a terminar os estudos de Direito. Moram em Roma, numa Itália que se reconstrói depois do fascismo e das guerras. Vivem modestamente. Ao serão, Michele gosta de ouvir música clássica na rádio enquanto Valeria passaja a roupa. De vez em quando vão ao cinema. São felizes. Ou assim ela pensa.


A primeira entrada do diário é de 26 de novembro de 1950. Valeria, esposa dedicada, sai de casa num domingo de manhã  para comprar cigarros para o marido.  "Queria que, quando ele acordasse, os encontrasse na mesinha de cabeceira: aos domingos, dorme sempre até tão tarde." Na tabacaria vê um caderno de capa preta e sente uma incompreensível vontade de comprá-lo. Para escrever o quê? Não sabia, mas ainda assim compra o caderno. "Preciso mesmo de um."


Começar a escrever um diário causa imensas mudanças na sua vida. Em primeiro lugar, apercebeu-se de que não tinha qualquer privacidade. Não tinha (como disse Virginia Woolf) um quarto só seu, nem sequer uma gaveta que pudesse fechar com uma chave. Uma mulher-esposa-mãe não pode ter segredos, ainda que inofensivos? Não haveria espaço para Valeria ser Valeria, simplesmente, sem ser para os outros? E como seria essa Valeria verdadeiramente? Para escrever começou então a arranjar artimanhas e a dizer pequenas mentiras de forma a ficar sozinha. Esconder o caderno era também esconder uma parte de si, o que ao mesmo tempo considerava um direito mas a fazia sentir-se uma traidora. Finalmente, escrever no seu diário fê-la tomar consciência da sua vida, como nunca antes tinha acontecido. "Dantes, esquecia-me logo do que acontecia cá em casa; agora, pelo contrário, desde que comecei a tomar notas dos acontecimentos de cada dia, conservo-os na memória e tento perceber porque é que ocorreram." 


Primeiro, achou que não teria nada de relevante para escrever, porque a sua vida era bastante monótona e normal. Mas, à medida que escrevia, as coisas do dia-a-dia pareciam ganhar novos contornos. “A minha vida sempre me pareceu insignificante, sem acontecimentos notáveis, fora o meu casamento e o nascimento dos meus filhos. Pelo contrário, desde que comecei por acaso a ter um diário, parece-me descobrir que uma palavra, uma entoação, podem ser tão importantes como os factos que estamos habituados a considerar importantes, ou até mais. Aprender a compreender as coisas mínimas que acontecem todos os dias é talvez aprender a compreender verdadeiramente o significado mais recôndito da vida.”


A cada novo dia, ao longo de seis meses, a cada nova entrada no diário, Valeria vai questionando o seu papel como mulher, mãe, filha, esposa, amiga, funcionária; toma consciência da hipocrisia da sociedade e da submissão a que está sujeita, só por ser mulher; põe em causa a educação que dá aos seus filhos, a relação que tem com Michele, as expectativas que todos parecem ter em relação a si; confronta-se com os sonhos que não cumpriu, com os sonhos que ainda quer concretizar, com o seu envelhecimento, imposto pelos outros mas que ela não sente no seu corpo nem na sua vontade. Quem sou eu, afinal? Como é que cheguei aqui? Para onde vou a seguir?


A italiana Alda de Céspedes escreveu O Caderno Proibido em 1952, mas - e isto é verdadeiramente impressionante - as mulheres de 2024 vão compreender Valeria e vão identificar-se com ela de tantas maneiras que também nós, à medida que lemos, nos pomos a perguntar como é que permitimos, ainda, mais vezes do que seria desejável, que seja o olhar dos outros a definir-nos. Porque uma mulher não pode, uma mulher não deve, a maioria das mulheres ainda tem tantos espartilhos na cabeça que dificilmente se expõe de forma franca, sem véus, sem subterfúrgios - e o que escreveríamos nós se tivéssemos também um diário secreto que mais ninguém fosse ler? Quem seríamos nós se não tivéssemos que sê-lo para os outros?


Por motivos óbvios, Valeria fez-me lembrar Delia.  Gostei muito, muito deste livro que devorei na semana passada, enquanto desfrutava de uma merecida pausa no Algarve. Foram poucos dias, mas foram maravilhosos. E com óptimas leituras (irei tentar escrever sobre os outros livros que tenho lido e que valem também muito a pena).

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Saturday, June 29, 2024

Um livro, um espectáculo, uma série - o santo António já se acabou, que venha julho

Sabem aquele desespero das mães durante o confinamento de covid-19? Está todo contado em Dia, o novo livro do Michael Cunningham. Não é o meu género habitual de escrita, porque tem muitos diálogos, mas, surpreendentemente, cativou-me desde o momento em que me cruzei com aquela mãe sentada na escada do prédio, a tentar fugir da sua vida nem que fosse por um bocadinho. A mãe, o adolescente colado aos videojogos, o medo da morte, aquela crença parva de que íamos sair daquilo melhores pessoas, a certeza de que se não formos nós a fazer pela nossa vida provavelmente poderemos não ter uma segunda oportunidade. Falei com o autor e foi uma bela conversa.


A Sara Inês Gigante faz aqueles espectáculos auto-ficcionais e ao mesmo tempo a gozar consigo própria, com o seu corpo, com os seus sonhos, com o seu talento. Já era assim com a Massa Mãe e voltou a ser assim com Popular, um espectáculo que problematiza o que é isso de ser pop, o que é isso de ser elite ou para as massas, o que é isso de ser artista e de ser público. Ainda têm dois dias para ir vê-la e comer pipocas ao Teatro Meridional.


Acabei de ver Under the Bridge, uma série que reconta a história verdadeira do homicídio de Reena Virk, uma rapariga de 14 anos que foi morta pelo grupo de "amigos" numa terra perdida do Canadá. Tem Lily Gladstone, Riley Keough e mais uns miúdos desconhecidos mas talentosos. Devorei-a em dois dias, sacrificando horas de sono preciosas. Achei muito bem feita. Levanta questões muito sérias sobre a juventude, a "peer pression" e os ideais de beleza, a violência que surge sabe-se lá de onde, a importância da família e das redes de apoio, a dificuldade de educar (de entender, até de comunicar com) adolescentes, a culpa, o arrependimento, a justiça.



Não gosto de bailaricos nem de arraiais nem de música pimba. Mas gosto de junho. Dos dias grandes. De estar com amigos. Do alívio que são as férias da escola. Por entre contas para pagar, dias de trabalho deprimentes e comprimidos de ferro que me deixam enjoada, entregar finalmente o IRS, fazer exames de saúde vários e dias em que só me apetece ficar no meu canto e não me digam nada, coisas boas aconteceram em junho. É importante guardar as memórias boas e celebrá-las. Os momentos de felicidade - ainda que curtos - são sempre o que fazem isto tudo valer a pena.

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