Friday, January 16, 2026

Duas voltas, outras voltas

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Não tenho tido tempo para muito mais, mas não queria deixar passar a oportunidade de falar aqui da série documental A duas voltas: Mário Soares as Presidenciais de 1986, de autoria de Ivan Nunes e Paulo Pena, que está disponível na RTP Play. Para quem, como eu, andou com autocolantes de "Soares é fixe" ao peito e se lembra bem da campanha, é uma pequena delícia. Além do retrato do país que éramos há 40 anos, ainda deu para ficar a perceber algumas coisas mais políticas que, como eu era ainda uma miúda, com apenas 11 anos, me passaram um bocado ao lado na altura. Num momento em que nos preparamos para eleger o próximo Presidente da República, acho que é um bom programa para o dia de reflexão.

 

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Tuesday, July 15, 2025

"The Bear" continua a ser incrível (e ainda mais séries, muitas séries)

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Nos poucos dias de férias com os miúdos consegui ver a última temporada de The Bear. Não há muito mais que se possa dizer sobre esta série, definitivamente uma das minhas preferidas. Óptimo argumento, excelentes soluções na realização, grandes interpretações, música escolhida a dedo. Dá mesmo gosto ver uma série onde tudo é tão pensado, onde cada episódio tem uma identidade própria, não há um modelo que é preciso seguir, pelo contrário, em cada episódio procura-se a melhor forma de contar aquela parte da história. Esta quarta temporada é menos angustiante do que a terceira, menos sufocante. Continua a ser uma corrida contra o tempo, mas Carmy parece estar a avançar em alguma direcção. 



O último episódio tem um final aberto, percebia-se logo que estariam a ponderar continuar para uma quinta temporada e, entretanto, isso confirmou-se, já foi anunciado. Tenho pena. Acho mesmo que a série está bem como está, não precisava de mais. Espero que não estraguem tudo.


Entretanto, já que estava na Disney+, vi também Beth e a Vida, uma série da Amy Schumer que já tem duas temporadas. É bem fácil de ver, é uma série de comédia mas com aquele toquezinho de emoção que sempre dá para uma pessoa se comover um bocadinho. É ficção mas algumas personagens e situações são inspiradas na própria vida da actriz e argumentista (e também, ocasionalmente, realizadora). Beth é uma mulher de 40 anos, que, infeliz com a sua vida, depois da morte da mãe, decide terminar a relação, mudar de trabalho e voltar à sua casa de infância. A série conta vários episódios da vida de Beth com a irmã, os amigos, o namorado, os colegas de trabalho, tudo coisas aparentemente banais de uma vida banal, mas é mesmo dessa normalidade que eu gosto, portanto, vi os vinte episódios com grande alegria.



Já agora, aproveito para deixar aqui a referência a três séries que já vi há mais tempo mas que ainda não tinha comentado (e desde quando é que eu me tornei uma "papa-séries"? não sei, mas parece-me que não dá para desmenti-lo, está a acontecer):


We were the lucky ones (Nós tivemos sorte, também na Disney+) - acompanha uma família judia durante a Segunda Guerra Mundial. Um casal e os seus muitos filhos são separados pela guerra, enfrentam bombardeamentos, guetos, esconderijos e campos de trabalho. Não é a melhor série do mundo, mas eu adoro o tema e, portanto, vi tudo sofregamente. Ainda por cima é baseada na história de uma família real, o que é sempre um plus para quem, como eu, gosta de ir procurar as fotografias e as histórias das pessoas na internet. 



Nobody wants this (Ninguém quer isto, na Netflix) - é uma série de comédia que junta um improvável par romântico: uma agnóstica muito progressista e um rabino judeu. É divertida mas nada do outro mundo. Li críticas muito boas na altura, mas a mim pareceu-me só ok. Não fiquei fã da Kristen Bell, mas percebo que qualquer pessoa se apaixone pelo Adam Brody com a sua barba e aquele ar frágil e fofinho.



Fleishman is in trouble (Fleishman em apuros, na Disney +) - Jesse Eisenberg interpreta um médico quarentão em crise com o final do seu casamento, que se reaproxima dos amigos da faculdade ao mesmo tempo que procura aproveitar a sua nova vida de solteiro. Entretanto a mulher (interpretação de Clare Danes) desaparece e deixa-o completamente sozinho com os dois filhos. É uma série que se vê bem, com um tom de comédia mas muito certeira no retrato que faz das relações, como começam, como acabam. E tem um olhar crítico sobre a ambição e os objectivos materiais que tantas pessoas colocam para as suas vidas e que as levam a entrar numa espiral de trabalho e consumismo e aparências. O grande problema, para mim, é mesmo o Jesse Eisenberg que parece que faz sempre o mesmo papel, sempre com o mesmo tipo de interpretação (além de ter aquele ar de miúdo de 20 anos). Uma nota também para os amigos, interpretados por Lizzy Caplan (a narradora de toda a série) e Adam Brody (outra vez, mas aqui na sua versão sem barba, que não é tão interessante, convenhamos).


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Thursday, June 19, 2025

Ainda a recuperar o atraso: mais séries

Nestes dias dei por mim a ver uma série com a Nicole Kidman e o Hugh Grant, The Undoing. Passa-se no mundo dos super-ricos de Manhatthan, pessoas que moram em casas lindas e enormes e têm criadas e vão a leilões, enfim, um mundo que não me diz muito mas que parece ser terreno fértil para séries de sucesso. Esta mulher sofisticada, sempre impecável e controlada, é um tipo de personagem em que a Nicole se especializou. Não gosto muito da Nicole Kidman como actriz, parece que é incapaz de mostrar verdadeiros sentimentos; aquele rosto já foi bonito mas agora está completamente esticado e desfigurado, sem rugas nem expressão. 


Apesar de tudo, ao ver The Undoing não consegui evitar fixar-me no sentimento daquela mulher que descobre que o marido lhe mentiu. Ainda que possa acreditar que o marido não é um assassino, saber que ele lhe mentiu tanto é o suficiente para se questionar se conhecerá assim tão bem o homem com quem casou. 


Por causa disto, lembrei-me de uma outra série, que penso que não cheguei a referir aqui e que é um pouco melhor do que esta: Disclaimer, uma série realizada pelo Alfonso Cuarón, com a Cate Blanchett, o Sacha Baron Cohen e o Kevin Kline. Mais uma vez temos um casal a braços com mentiras e com mais mentiras que servem para ocultar as mentiras anteriores. Como se mantém uma relação depois de se perder a confiança?


Há muito tempo que não pensava nisto (e isso é muito bom sinal).


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Wednesday, June 18, 2025

Recuperar o atraso: três séries

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(Will Forte e Tina Fey em Four Seasons)


Tenho tanta coisa atrasada para falar aqui que nem sei por onde começar. Hoje vou só referir três séries que vi nos últimos meses e que aconselho bastante:


Love and Death - já a vi há bastante tempo, mas no outro dia voltei a encontrá-la na HBO Max e percebi que não a tinha referido. Vale muito a pena. É uma série baseada na história real de Candy Montgomery (aviso spoiler, se não querem saber o que acontece não continuem a ler), uma americana do Texas que é a mulher ideal, a dona de casa de perfeita, a mãe dedicada. Religiosa, entretida com os chás das amigas e a quermesse da igreja, Candy envolve-se romanticamente com o marido de uma das amigas e perde completamente o controlo da sua vida. Enredada em mentiras, em 1980, Candy acaba por matar a mulher do amante, esfanqueando-a 41 vezes. Eu não sabia nada disto quando vi a série e acho que o facto de não saber o que ia acontecer e se ela iria ser ou não apanhada tornou tudo mais entusiasmante. Elizabeth Olsen e Jesse Plemons são os actores principais.



Não digas nada - é mais uma daquelas que apanhei por acaso na Disney Plus e comecei a ver sem saber nada do que aí vinha. A ação passa-se em Belfast, na Irlanda do Norte, sobretudo nos anos 70, e também é baseada nas vidas reais das irmãs Price e outros membros do IRA. É um tema fascinante. Tentar perceber aquelas vidas e a quela guerra, o que pode levar as pessoas a tornarem-se terroristas. Claro que depois fui à procura das histórias e das caras verdadeiras. Pareceu-me que a série é um pouco parcial, mas não tenho assim tantos conhecimentos para avaliar. Seja como for, também gostei.



Quatro estações - esta já não foi surpresa, porque já tinha lido sobre ela e porque tem Tina Fey (também co-criadora), Steve Carrell e Colman Domingo. É uma comédia, mas uma comédia-dramática, como agora se diz. Há um artigo na Vulture com o título "The Four Seasons is probably not your thing", que se refere ao facto de esta ser uma comédia com e para pessoas que estão nos 50s. Começa assim:


"The Netflix comedy The Four Seasons stars (mostly) actors who are in their 50s, playing characters who are in their 50s, in a show whose target demographic is (I assume) people in their 50s. Perhaps that explains why this series’s greatest strength is its deep understanding of how it feels to be a person — admittedly with some privilege and a generous serving of self-absorption — in the deepest throes of midlife, staring down a future filled with empty nests, potential health issues, and the nagging fear that all chances for happiness are way past their expiration dates."


Fiquei a pensar que, provavelmente, a Vulture "is not my thing anymore" (mas isso é toda uma outra reflexão), porque gostei bastante desta série que anda à volta de três casais amigos, com as suas crises de meia idade, casamentos complicados, filhos crescidos, sonhos por cumprir e muito companheirismo. É para rir, mas, ainda assim, faz-nos pensar um bocadinho (e a banda sonora é muito boa).


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Thursday, April 17, 2025

"Dying for sex": a morte aqui tão perto

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O que fariam se soubessem que vão morrer em breve?


Molly quer fazer sexo. Quer fazer sexo sem culpa, sem tabus, sem restrições. E gostaria também de ter um orgasmo fazendo sexo com outra pessoa, algo que nunca conseguiu.


De alguma forma a série Dying for Sex está ligada ao livro da Miranda July de que falei aqui, só que em vez de uma mulher perante a constatação de que está a envelhecer temos uma mulher, um pouco mais nova, com o diagnóstico de um cancro terminal. Em ambas a mesma necessidade, a mesma urgência, de viverem como bem lhes apetece este tempo tão curto que têm pela frente. E isso inclui não continuar numa relação que não as faz feliz e explorarem os seus desejos sexuais, que até aqui estavam aprisionados.


Molly, interpretada por Michelle Williams, tem outros traumas para resolver, incluindo o facto de ter sido abusada sexualmente quando era criança e de ter uma relação complicada com a mãe. E tem uma grande amiga, Nikki, que muda toda a sua vida para a acompanhar nesta fase (e esta é também uma série sobre a amizade e a dor de perder alguém que nos é muito querido).


A série baseia-se na história verdadeira de Molly Kochan, uma americana de Los Angeles que, depois de quatro anos antes ter tratado um cancro, em 2015, quando tinha 41 anos, foi diagnosticada com cancro da mama em estádio 4. Nessa altura, decidiu embarcar numa aventura de descoberta sexual e contar tudo num podcast em que conversava com a sua melhor amiga, Nikki Boyer. “O sexo faz-me sentir viva - e é uma óptima distracção da doença”, disse. O podcast só foi lançado depois da sua morte, em 2019. Molly também contou a sua história no livro de memórias, Screw Cancer: Becoming Whole, que foi lançado em 2020.


Acho que nunca tinha visto uma série que retratasse de forma tão pormenorizada a vida com cancro e o caminho para a morte. Apesar do humor e de todo o sexo, senti-me muito angustiada, sobretudo nos últimos episódios. Se, por um lado, é incrível que já se consiga falar destes temas e fazê-lo assim, com esta personagem tão luminosa e especial, por outro lado, não consegui deixar de me sentir extremamente triste e de pensar em todas as pessoas que eu conheço que passaram por situações semelhantes. O que terão pensado? O que terão sentido? Sentiram-se sozinhas? Será que fizemos tudo o que era possível por elas? 


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Tuesday, March 18, 2025

Até ao fim, com os Blur

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Gostei muito de To the End, o documentário sobre os Blur que está no Filmin. Para mim, que ouvia os Blur no início dos anos 90, sobretudo o Modern Life is Rubbish e depois o Parklife e The Great Escape, foi uma viagem e tanto. Continuei a ouvi-los e, mesmo não lhes dando a mesma atenção, nunca me desiludiram. Só os vi duas vezes em concerto e foram ambas incríveis. Em 2015 no Super Bock Super Rock no Parque das Nações e depois em 2023 no Festival Kalorama no Parque da Bela Vista. O filme centra-se nesta última fase da carreira e no concerto de consagração em Wembley, mas vai recuperando algumas imagens antigas, para contar a história, para mostrar como foi e como é. Eles estão mais velhos, claro, com rugas, com barriga, a voz do Damon já não é tão limpa, às vezes estão cansados, já lhes custa ficarem acordados até às tantas, mas no essencial estão na mesma. Continuam a ser um grupo de miúdos que se junta para tocar e que tem prazer nisso. Vê-los agora, a falar dos filhos, das casas no campo, das dores nos corpos, é incrível. Envelhecemos todos, obviamente. Envelhecemos juntos. E isso é bastante comovente. 


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Sunday, March 16, 2025

Um livro, um filme, uma série

Um livro


É engraçado quando vamos lendo livros de um autor e vamos percebendo qual é o seu universo, os temas de que gosta, o espaço onde se movimentam as suas personagens. No seu mais recente livro, Toda a Gente Tem um Plano, Bruno Vieira do Amaral continua a sua investida pelos bairros mais pobres da margem Sul para nos mostrar aqueles que tantas vezes parecem invisíveis. Continua, por exemplo, entre gente que veio de África (ou do Brasil) e gente que procura conforto em deus. Gosto muito da maneira como o autor construiu esta história, evitando a linearidade, fazendo-nos ir lá atrás no tempo, uma vez e outra vez, para conhecermos melhor este Calita e as curvas da sua vida. Também gosto muito do cuidado que põe na criação das personagens e dos contextos, quase como se nos transportasse para aqueles locais, como se aquelas pessoas fossem de carne e osso e nos pudéssemos ter cruzado com elas em algum momento. Gosto de me apegar às personagens, de compreender as suas fraquezas, de ficar a torcer por elas. De sofrer com elas quando elas sofrem.


Um filme


Já o vi há algum tempo, mas, depois, com o barulho dos Óscares e a crise política que nos caiu em cima, acabei por não ter tempo de vir aqui escrever sobre O Atentado de 5 de Setembro. O filme acompanha o atentado terrorista ocorrido nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, mas do ponto de vista dos jornalistas do canal americano CBS, que estavam na torre do satélite, a uma centenas de metros da aldeia olímpica. Admito que será um filme que talvez toque mais os jornalistas. E ainda mais os jornalistas que estejam ligados à televisão. Afinal, aquela foi não só a primeira vez que os jogos olimpicos foram transmitidos em directo, mas também a primeira vez que um atentado terrorista foi transmitido em directo pela televisão - com todas as questões que isso levanta. Mas acho que pode ser interessante para toda a gente. Posso dizer-vos que, mesmo sabendo como aquilo ia acabar, o filme conseguiu envolver-me completamente e até deixar-me nervosa.



Uma série


Adolescência é mesmo imperdível. O nome diz tudo: é uma minissérie sobre a adolescência, nos seus muitos aspectos. A pressão a que os jovens estão sujeitos, por parte dos outros jovens, agravada pelas redes sociais. A influência que alguns gurus e ideologias podem ter sobre os jovens. A relação com os pais. A escola. O desespero dos professores. A falta de perspectivas. A falta de empatia. A linguagem. Os telemóveis sempre na mão. As portas dos quartos fechadas. A impotência dos pais. A culpa. Está lá tudo, mas ao mesmo tempo é uma série muito diferente de todas as outras séries que já vimos sobre adolescentes. São quatro episódios muito bem feitos, muito bem realizados, muito bem interpretados. O primeiro episódio tem imensa tensão. O episódio da escola é bastante perturbador. O último é o mais tocante (pelo menos, para mim). Fez-me pensar tanto. Não quero estar a contar muito. Está na Netflix. Vejam que não se vão arrepender.


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Sunday, January 26, 2025

Uma mão cheia de filmes para esta tarde de domingo

Como prometido, e antes que me esqueça, venho aqui falar de alguns filmes que andei a ver e que poderão não ser os melhores nem estar indicados a prémios, mas, ainda assim, são filmes que me tocaram de alguma maneira.


Challengers


Realizado por Luca Guadagnini, Challengers acompanha o triângulo amoroso composto por uma estrela do ténis lesionada que se transforma em treinadora (Zendaya), o seu ex-namorado e jogador de ténis sem grande sucesso (Josh O'Connor) e o seu marido e campeão de ténis (Mike Faist) ao longo de 13 anos de relacionamento, culminando numa partida entre eles num jogo do ATP Challenger Tour. Para quem gosta de ténis, como eu, este filme é uma delícia, retratando muito bem vários aspectos da vida dos jogadores e todo aquele mundo (aconselho a leitura deste testemunho de Conor Niland e, sobre o filme, o texto de uma ex-jogadora, Andrea Petkovic). Depois, isto do triângulo amoroso pode não ser muito original, mas parece-me que o Guadagnini lhe dá bem a volta. 


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How to have sex


Vi no Filmim, entusiasmada pelo trailer, e foi uma boa surpresa. O filme é a estreia na realização da britânica Molly Manning Walker, de 31 anos. Acho que se sente, nos pequenos detalhes, que é realizado por uma mulher. Em vez do habitual male gaze, temos um olhar bastante honesto e sensível sobre este grupo de raparigas de 16 anos numa viagem a Creta. O ambiente é aquele que imagino que seja nas viagens de finalistas, com miúdos vindos do Reino Unido com o único objectivo de se divertirem, beberem, dançarem e curtirem uns com os outros (que é uma expressão que se usava muito no meu tempo, embora agora tenha caído em desuso). Eventualmente, ter sexo, claro. Podia ser um filme sobre a primeira vez. Mas é sobretudo sobre a peer pressure a que os adolescentes estão sujeitos, sobretudo as raparigas, presas naquela vontade de agradar aos homens e de ser desejadas, e de como por causa disso tantas vezes ignoram os seus próprios desejos. Muito boa a interpretação de Mia McKenna-Bruce.


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Lee


A história de Lee Miller, só por si, já é um filme. Foi uma fotógrafa americana que começou por trabalhar como modelo, o que a levou a trabalhar com Man Ray, em Paris, e a começar também a fotografar. Durante a Segunda Guerra Mundial, passou do surrealismo e dos retratos para o fotojornalismo, documentou os bombardeamentos em Londres e depois acompanhou o exército americano na Europa. Esteve na casa de Hitler, captou o uso de napalm e registou a libertação de Paris e os campos de concentração de Buchenwald e Dachaus. Realizado por Ellen Kuras e protagonizado por Kate Winslet, Lee não tem  nada de extraordinário, mas também não é um mau filme. 


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As Três Filhas


As Três Filhas é um filme especialmente tocante para quem tem esta idade que eu tenho e vê os seus pais a envelhecer. É a história de três irmãs que seguiram percursos muito diferentes mas que tentam pôr de parte as suas desavenças para cuidar do pai nos seus últimos dias de vida. É muito sobre aquele balanço que fazemos em determinadas alturas da vida do que fizemos e deixámos de fazer, as decisões que tomámos e os sonhos que deixámos para trás. E como eventualmente percebemos que o amor e aquilo que partilhamos com as pessoas que amamos é mesmo o mais importante. Realizado por Azazel Jacobs, o filme conta com óptimas interpretações de Carrie Coon, Natasha Lyonne e Elizabeth Olse. Está na Netflix.


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Janet Planet


Janet Planet é o primeiro filme realizado pela dramaturga Annie Baker. Janet (Julianne Nicholson) é uma mãe solteira e acumpucturista hippie, que vive com a filha de 11 anos, Lucy  (Zoe Ziegler), numa pequena cidade americana. A acção passa-se no início dos anos 90. Ainda não há telemóveis. Lucy, que não tem muitos amigos, arranja maneira de escapar ao campo de férias e passa os longos dias do verão sozinha, ou com a mãe e com os amigos da mãe, que vão aparecendo por ali. Estamos tanto no mundo de Janet, uma mulher que quer mais para a sua vida, como estamos no mundo daquela miúda solitária, Lucy, a braços com as confusas emoções da adolescência. Janet Planet é também sobre mães e filhas e sobre esta relação essencial mas tão complicada. Um filme aparentemente simples e onde pouco acontece, e é em parte nisso que está a sua beleza. 


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Friday, January 24, 2025

"Los Años Nuevos": a nossa vida dava uma série

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Devorei a série espanhola Los Años Nuevos. São dez episódios que acompanham a vida de Ana e Óscar ao longo de dez anos. Encontramo-los sempre na passagem de ano, um dia apenas. O resto, o que se passa entretanto, só podemos imaginar. Apaixonam-se no primeiro episódio, mas a relação vai mudando. Umas vezes estão juntos e são namorados, outras vezes são apenas amigos, encontram-se por acaso ou até podem estar separados. Ao longo de dez anos, vemo-los amadurecer, envelhecer, transformar-se. Aproximam-se e afastam-se, desejam-se ao longe ou ao perto.


Um dos segredos desta série é o seu enorme realismo. O autor é Rodrigo Sorogoyen, argumentista e realizador de cinema e televisão, vencedor de prémios Goya, nomeado a um Óscar com uma curta-metragem, Madre (2017). Os actores são todos óptimos, mas o destaque vai obviamente para os protagonistas Irina del Río e Francesco Carril. Os diálogos são muito naturais e o facto de as cenas terem sido filmadas em locais reais também ajuda. O resultado é que às vezes até me esquecia que estava a ver uma série, mais parecia que aquelas pessoas eram minhas amigas. É tudo muito a vida como ela é. Com casas desarrumadas, nódoas na roupa, gestos banais, as dúvidas e as máscaras de uma pandemia, o sexo no sofá. E o tempo que passa. Os pais que envelhecem, os amigos que têm filhos, os casamentos e os divórcios, os trabalhos, as carreiras, as frustrações e as alegrias. Erros e acertos, beijos e abraços, desentendimentos e discussões, problemas e desilusões que podiam ser os nossos (e tanto que poderia dizer sobre isto).


 


Vi em espanhol com legendas em espanhol, ao início achei que não ia perceber nada mas depois entrei no ritmo dos diálogos e acho que percebi quase tudo. 


Se quiserem ouvir músicas lamechas espanholas de que nunca gostaram mas que em determinado momento da vida até fazem sentido, podem fazer como eu e cuscar a banda sonora.


Se assinarem o Movistar Plus para ver a série, aproveitem também para ver o filme Volveréis, de Jonás Trueba, que é muito o mesmo género e se cruza, a determinada altura, com Los Años Nuevos - é só uma curiosidade, mas fica a dica.

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Saturday, October 12, 2024

É outubro e já comi uma romã

Vou fazer 50 anos. Nunca me apetece festejar e este ano não é excepção, por mim fingíamos que este dia nem se quer existia e dispensavam-se os telefonemas e as mensagens e tudo, mas, pronto, se calhar, desta vez, vai ter que ser, não é?, afinal, são 50, caramba, vamos mesmo ter que inventar alguma coisa.


Estou a fazer pilates clínico com uma instrutora muito querida que bate palminhas e diz "muito bem" sempre que eu consigo apertar as nádegas, os glúteos e os abdominais ao mesmo tempo e fazer todas as repetições. O estúdio parece uma sala de tortura cheia de máquinas esquisitas e, para já, só lá vi pessoas mais velhas do que eu. Não adoro, mas estou a esforçar-me. Porque é importante para a recuperação. Ando toda dorida o que só pode significar que estou a mexer músculos que estavam há muito adormecidos. Mas a parte melhor é quando, no fim da aula, ela me pendura pelos pés e me deixa a relaxar. Sou muito boa a relaxar. É bom que isto sirva para alguma coisa, uma vez que é caríssimo. Tenho orçamento para dois meses (três, na loucura), antes de voltar ao pilates dos pobres no ginásio. 


O trabalho também tem sido uma tortura. Há dias em que me apetece desistir de tudo (depois lembro-me que tenho contas para pagar). A única coisa boa dos últimos tempos foi ler o livro da Sally Rooney e escrever sobre ele. Nunca tinha lido nada dela e gostei mais do que estava à espera.


Antes de me abalançar na última temporada da série A Amiga Genial, decidi rever as três temporadas anteriores. Voltei a gostar como da primeira vez. E gostei ainda mais de "passear" por Nápoles, agora que já conheço a cidade.


Foi há quase um ano que fui a Nápoles. Tem sido um ano bom. Muito bom, mesmo. Apesar de tudo. Um dia vou escrever sobre isto. Gostaria de um dia escrever sobre isto no presente, e não no passado como normalmente acontece. Dizer "gostaria de um dia escrever sobre isto no presente" é já dizer tanto. 


Na outra noite fui ver o Samuel Úria. Foi uma noite tão feliz. Já não me lembrava como gosto dele e daquelas canções. 



"E se euE se eu me esquecer de tiMas não dessa forma que o fizIsso fui só eu a ser só eu

Mas, se se enrugar a noção do meu melhorVem, de novo, deseducar-me de estar só

 

E se tuE se te apagares de mimMas não como às vezes pediIsso fui eu só a ser eu só

 

Ai, se se enrugar a noção do meu melhorVem, de novo, curar-me o vício de estar só"

 


Hoje comi uma romã e, como sempre, lembrei-me da minha avó. Outubro é também o mês dela. É o nosso mês. Das que cá estão e das que já não estão.


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(Peço desculpa se não perceberam este post. Às vezes sou um bocadinho egoísta e escrevo só para mim. Outubro ainda vai a meio. Tenho tanta coisa para fazer até aos 50, a agenda cheia, nem vou ter tempo de me angustiar. Digo eu.)


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Tuesday, August 27, 2024

Binge-watching para estes dias compridos

O que faz uma pessoa que não pode sair de casa e, estando em casa, nem sequer pode dedicar-se às limpezas? Faz binge-watching, ou seja, vê séries até cair para o lado de exaustão. No meu caso, foram estas três:


The Bear (3ª temporada)


Demorei a entrar na loucura da primeira temporada, parecia que estavam sempre todos aos gritos e o stress era imenso, mas quando entrei adorei. A segunda temporada foi ainda melhor, embora nos sentíssemos a mergulhar cada vez mais fundo na melancolia de Carmy Berzatto. Não sei se estava preparada para os níveis de ansiedade causados por esta terceira temporada. Existe o excelente episódio dedicado a Tina e há um episódio só para o parto (com a cada vez melhor Jamie Lee Curtis), passamos ao de leve pelos dramas de Sidney, de Richie e de Marcus, mas, na verdade, em grande parte do tempo estamos na cabeça de Carmy, na confusa, deprimida e obsessiva cabeça de Carmy. A cozinha é o seu quarto e a comida é o seu oxigénio. Tudo o que se passa ali, entre facas e panelas e condimentos e molhos com nomes esquisitos, é uma consequência (e uma metáfora) do que se passa na sua cabeça. Está tudo ligado e é lindo de uma maneira triste. A cada episódio sentimos o peito mais apertado porque não sabemos se ele vai ser capaz de continuar com o restaurante ou sequer de continuar com a sua vida. A série é muito bem feita. Tudo. O argumento é excelente (o atrevimento de começar a temporada com um episódio quase sem diálogos e, no entanto, faz tanto sentido), os actores são óptimos, a música continua a ser escolhida a dedo. A única crítica a apontar: sabemos que a quarta temporada já foi gravada e parece-me que isso se nota, esta é uma temporada onde o tempo corre muito devagar e onde muito pouco acontece de facto, é como uma pausa, como se estivessem todos a pensar o que irão fazer na temporada seguinte. Não é necessariamente mau. É só muito aflitivo para quem se envolve emocionalmente com as personagens como eu.


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Lady in the Lake


Se ignorarmos o horrível genérico (sim, eu vejo o genérico, nem que seja uma vez), o resto é bastante bom. Estamos em Baltimore nos anos de 1960 e temos duas personagens centrais, duas mulheres muitos distintas: Maddie Schwartz (Natalie Portman), judia, privilegiada, casada e com um filho adolescente, dona-de-casa dedicada a eventos de caridade, com "tudo" para ser feliz mas, na verdade, muito infeliz; e Cleo Johnson (Moses Ingram), negra, pobre, com um casamento problemático e dois filhos, trabalha como manequim em lojas de roupa para senhoras ricas e como guarda-livros para um dos big bosses da comunidade negra (e do crime local). As vidas das duas mulheres acabam por se cruzar devido ao homicídio de uma menina. Esta poderia ser uma série sobre um crime, ou até sobre racismo, e também é, mas mais do que tudo é uma série sobre duas mulheres que estão fartas de estarem presas numa vida de que não gostam, que estão fartas de viverem submissas, num mundo masculino e cheio de regras, querem mudar, querem evoluir, querem controlar a sua história. Só que o caminho para lá chegarem não é igual. Gostei muito desta série embora por vezes ficasse um bocadinho farta do egoísmo e egocentrismo de Maddie (também é engraçado ver como são retratados os jornalistas e o desmazelo do trabalho jornalístico, mas pronto, adiante). Se calhar tirávamos aquelas partes dos pesadelos de Maddie e não se perdia nada, não?


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The Good Mothers


Um mergulho na 'Ndrangheta, a mafia da região de Calabria, pelos olhos das mulheres: as filhas, as mães, as irmãs e as mulheres dos mafiosos têm um papel secundário na organização criminosa mas são essenciais para manter a cola desta grande "família". Neste mundo absolutamente machista, as mulheres querem-se submissas, donas-de-casa e cuidadoras dos filhos, de lábios pintados para os maridos mas de olhos fechados para os mundo, prontas a levarem uma estalada (ou mais do que isso) sempre que ousarem responder ou desobedecer. "É assim, tens que aceitar", ensinam as mães às filhas. A lealdade - à família e ao chefe da família - é o valor mais importante aqui, mais importante do que o amor, a liberdade, a honestidade, a auto-estima. Mas e se algumas mulheres não quiserem continuar a viver assim? Destaque para as interpretações de Valentina Bellè e Gaia Girace (que conhecemos d'A Amiga Genial). Aconselho muito.


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Friday, August 02, 2024

Julho teve calor, muito calor. E também teve isto

Julho. Tivemos os nossos dias de praia, poucos mas bons. Depois os miúdos também tiveram os seus dias de praia. Mandam-me fotografias repletas de céu azul e sorrisos rasgados. Estão enormes. Como crescem os filhos quando estão longe de nós. Temo que no regresso já não me caibam nos abraços que lhes quero (preciso) dar. A parte boa de os filhos estarem de férias sem mim é que, apesar de estar a trabalhar, tenho tempo de sobra para fazer as minhas coisas sem sentimentos de culpa nem pensar no que vai ser o jantar. Coisas como ficar horas sentada no sofá a ver os jogos olímpicos. Ou jantar com amigos. Ou ir fazer um workshop de cozinha do Médio Oriente no Mezze. Ou não fazer nada. Ou isto:


Dois espectáculos 


À Primeira Vista, texto de Suzie Miller, encenação de Tiago Guedes, interpretação de Margarida Vila-Nova. Sobre isto de ser mulher, as agressões sexuais a que estamos sujeitas, o machismo da sociedade em que vivemos mas, sobretudo, do sistema judicial. As estatísticas dizem que uma em cada três mulheres já sofreram algum tipo de agressão sexual. Então, porque continuamos a tratar assim as vítimas? Porque continuamos a duvidar das suas palavras? A menosprezar o trauma que sofreram? A dar o benefício da dúvida aos agressores? Oh, coitado, foi só um deslize, tinha bebido de mais, ele no fundo não é má pessoa. O texto é muito bom. A Margarida Vila-Nova aguenta-se à bronca. O resultado não é uma obra-prima mas é bom. E importante. Depois de uma primeira temporada esgotada, o espectáculo vai voltar ao Teatro Maria Matos de 18 de setembro a 27 de novembro.


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Madrinhas de Guerra, de Keli Freitas. Uma reflexão sobre o colonialismo e o modo como, em 2024,  ainda romantizamos as "descobertas" dos portugueses que "deram novos mundo ao mundo" e a guerra onde tantos rapazes morreram e sofreram em nome de um império que não era seu. É um olhar inquiridor mas ao mesmo tempo com sentido de humor. Um espectáculo que parece estar inacabado, que levanta mais perguntas do que dá respostas, que nos deixa com vontade de mais. Vi-o no auditório do Museu de História Natural e só isso já foi uma experiência. Se o voltarem a encontrar por aí não percam.


Um livro


Tudo é rio, de Carla Madeira


Preparem-se para todo o balanço e toda a doçura que o português do Brasil nos pode dar. Porque há sotaques que parecem perfeitos para contar o amor (e desamor) e o desejo. Esta é a história de um improvável trio amoroso, a prostituta Lucy, o instável Venâncio e a doce Dalva, mas é também a história das suas famílias, das dores que trazemos connosco e da importância de procurarmos a alegria contra todas as evidências em contrário. Uma delícia.


Um filme


Memória, realizado por Michel Franco, com Jessica Chastain e Peter Sarsgaard. Um encontro improvável entre uma mulher que luta para sobreviver ao trauma (outra vez uma agressão sexual e todas as suas consequências) e manter-se longe do álcool e um homem que sofre de demência e está a perder a memória. Uma batalha entre aquilo que queremos recordar e aquilo que gostaríamos de esquecer. A alegria (a tal alegria) de descobrir o amor confronta-se com as dificuldades da vida real. A verdade é que todos precisamos de quem cuide de nós.



Uma série


Nem uma mais, série espanhola na Netflix, sobre como a violência sexual está presente no dia a dia de um grupo de amigas no liceu (outra vez, sim, juro que não foi de propósito, mas é um tema mesmo importante, ainda bem que se fala disto). Um namorado, um amigo, um professor, qualquer um pode ser um abusador. Mais uma vez, não é uma obra prima, mas é uma série muito bem feita, as miúdas são fantásticas e tenho a certeza que muitas de nós se vão relacionar com aquelas situações. 


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Saturday, June 29, 2024

Um livro, um espectáculo, uma série - o santo António já se acabou, que venha julho

Sabem aquele desespero das mães durante o confinamento de covid-19? Está todo contado em Dia, o novo livro do Michael Cunningham. Não é o meu género habitual de escrita, porque tem muitos diálogos, mas, surpreendentemente, cativou-me desde o momento em que me cruzei com aquela mãe sentada na escada do prédio, a tentar fugir da sua vida nem que fosse por um bocadinho. A mãe, o adolescente colado aos videojogos, o medo da morte, aquela crença parva de que íamos sair daquilo melhores pessoas, a certeza de que se não formos nós a fazer pela nossa vida provavelmente poderemos não ter uma segunda oportunidade. Falei com o autor e foi uma bela conversa.


A Sara Inês Gigante faz aqueles espectáculos auto-ficcionais e ao mesmo tempo a gozar consigo própria, com o seu corpo, com os seus sonhos, com o seu talento. Já era assim com a Massa Mãe e voltou a ser assim com Popular, um espectáculo que problematiza o que é isso de ser pop, o que é isso de ser elite ou para as massas, o que é isso de ser artista e de ser público. Ainda têm dois dias para ir vê-la e comer pipocas ao Teatro Meridional.


Acabei de ver Under the Bridge, uma série que reconta a história verdadeira do homicídio de Reena Virk, uma rapariga de 14 anos que foi morta pelo grupo de "amigos" numa terra perdida do Canadá. Tem Lily Gladstone, Riley Keough e mais uns miúdos desconhecidos mas talentosos. Devorei-a em dois dias, sacrificando horas de sono preciosas. Achei muito bem feita. Levanta questões muito sérias sobre a juventude, a "peer pression" e os ideais de beleza, a violência que surge sabe-se lá de onde, a importância da família e das redes de apoio, a dificuldade de educar (de entender, até de comunicar com) adolescentes, a culpa, o arrependimento, a justiça.



Não gosto de bailaricos nem de arraiais nem de música pimba. Mas gosto de junho. Dos dias grandes. De estar com amigos. Do alívio que são as férias da escola. Por entre contas para pagar, dias de trabalho deprimentes e comprimidos de ferro que me deixam enjoada, entregar finalmente o IRS, fazer exames de saúde vários e dias em que só me apetece ficar no meu canto e não me digam nada, coisas boas aconteceram em junho. É importante guardar as memórias boas e celebrá-las. Os momentos de felicidade - ainda que curtos - são sempre o que fazem isto tudo valer a pena.

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Sunday, April 07, 2024

Da difícil tarefa de crescer: três filmes

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É verdade que não tenho ido ao cinema, mas enquanto estou no sofá continuo a ocupar grande parte do meu tempo livre a ver filmes, sobretudo no Filmin. Explorando o catálogo, tem dado para rever filmes antigos (como Os Amigos de Alex, de Lawrence Kasdan, ou As Duas Faces do Espelho, de Barbra Streisand), colmatar falhas (por exemplo, dos filmes do Kiarostami) e encontrar coisas que nem sabia que existiam (como A Festa, de Sally Potter, com o bónus de ouvir um bocadinho dos Verdes Anos de Carlos Paredes). Tenho uma lista enorme de filmes "guardados" para ver mais tarde.


Dos que vi ultimamente, deixo três destaques. Três filmes sobre a infância e a adolescência e a difícil tarefa de crescer:


20.000 espécies de abelhas, realizado por Estibaliz Urresola, é um filme espanhol que se passa maioritariamente em Llodio, uma pequena cidade do País Basco, durante umas férias chuvosas. É a história de uma família em desagregação e de uma criança de oito anos em busca da sua identidade de género. O desconforto com o nome, com a roupa, com os olhares dos outros. Uma mãe que tenta ser compreensiva mesmo não sabendo como agir. Um filme de uma enorme ternura e muito actual.



The Quiet Girl, de Colm Bairéad, filme irlandês nomeado para o Óscar de Melhor Filme Internacional no ano passado. Se em 20.000 espécies de abelhas as personagens alternavam entre o espanhol e o "euskera", aqui alternam entre o inglês e o gaélico. Anos 80. Novamente uma criança no centro da história, uma menina de nove anos de uma família pobre e disfuncional que vai passar os meses do verão com uma prima da mãe e acaba por descobrir que as famílias podem ser um lugar de amor e de compreensão. Tão belo, tão comovente.



Raparigas, de Pilar Palomero. Filme espanhol que acompanha uma adolescente, Celia, e as suas amigas que frequentam um colégio católico, gerido por freiras, nos anos 90. O conservadorismo de toda a sociedade não consegue controlar a enorme sede de viver destas raparigas que hão de arranjar maneira de pintar os lábios, ir à discoteca e estar com rapazes. Um bom retrato da adolescência. 


 

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Monday, August 28, 2023

Cerejas

Há  pessoas que são como cerejas.


Carnudas e brilhantes por fora. 


Mas, lá dentro, com um caroço duro e escuro.


 


(filosofia da treta mas é uma imagem bonita, retirada de Sharp Objects, minissérie bastante viciante e intrigante, com a Amy Adams, que encontrei por estes dias na HBO)

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Saturday, August 19, 2023

Paul e Joanne

Não sei como, mas tinha passado ao lado desta pequena maravilha: The Last Movie Stars é uma série documental realizada por Ethan Hawke sobre os actores Paul Newman e Joanne Woodward. É sobre cinema e sobre representação e sobre o que é ser uma estrela, mas é também sobre amor, sobre construir uma relação e uma família e sobre a condição das mulheres (até mesmo as mulheres que ganham Óscares e são famosas). Está disponível na HBO e aconselho muito.


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Friday, February 24, 2023

Um ano depois, ainda a tentar perceber

"Não há dúvidas de que o comunismo foi uma época terrível para a Rússia, mas o que temos hoje ainda é pior", escreveu Anna Politkovskaya em 2004. Pouco depois, em 2006, a jornalista russa foi assassinada à porta de casa. Tinha 49 anos e dedicara grande parte da sua carreira a denunciar as atrocidades e as injustiças cometidas no seu país, em particular na Chechénia. O livro A Rússia de Putin foi publicado em Portugal no ano passado e é um documento incrível e uma premonição. Estava lá tudo. O fim do comunismo e a tentativa fracassada para construir uma democracia. O poder enorme dos olicargas e das máfias. O desprezo de Putin pelo seu povo. A guerra como forma de manter o poder. A ambição desmedida. A corrupção incrustada na sociedade. A lei do mais forte. Os líderes ocidentais a fecharem os olhos e a darem apertos de mão, porque também lhes convinha. A pobreza das pessoas. O desalento. E, por fim, a necessidade de denunciar, de continuar mesmo sabendo - porque tinha que saber, porque ela própria contou essas histórias - que quem desafia o poder põe a sua vida em risco.


A luta contra a corrupção e por uma democracia do povo era a bandeira de Alexei Navalny. O advogado e político russo, da oposição, seria o maior concorrente a Vladimir Putin nas eleições presidenciais. Mas foi preso várias vezes e foi alvo de uma tentativa de assassinato, por envenamento, em agosto de 2020. O documentário Navalny, que está disponível na HBO e que está nomeado para um Óscar, encontra-o precisamente durante a recuperação, na Alemanha. Apesar de estar longe de casa, Navalny e a sua equipa continuaram a fazer oposição, determinados em fazer com que o mundo soubesse a verdade sobre a Rússia e sobre Putin, convictos de que o apoio internacional poderia evitar o pior. Talvez tenha sido assim: Navalny foi novamente preso no momento em que aterrou na Rússia e, desde então, tem sido certamente torturado e mal tratado de muitas formas; mas não foi morto. O documentário termina com a sua prisão, a 17 de janeiro de 2021, com as imagens incríveis de uma multidão que o esperava feliz mas acabou a levar bastonadas, com os telemóveis a gravarem a detenção de um cidadão apenas porque criticava o governo e denunciava os abusos de poder.



Passa hoje um ano sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia. Uma guerra que está longe de terminar. E se há coisa que este livro e este filme deixam bem claro é que esta guerra não foi uma surpresa para quem acompanhava o que se passava na Rússia. E é por isso que quase todos os líderes ocidentais são culpados disto que veio a acontecer - por terem sido coniventes com uma ditadura, por não terem sabido impor os limites quando deveriam tê-lo feito. Já vimos isto acontecer antes, que nos sirva de lição para o futuro. Com ditadores não pode haver diálogo.


Hoje é um dia bom para ler jornais e para percorrer os sites de informação. Há muita coisa boa para ler e para ver. Escolham bem as vossas fontes de informação e aproveitem. Há muitas histórias bem contadas, histórias de pessoas reais, de gente como nós que foi apanhada no meio de uma guerra. De gente que poderemos vir a ser nós, um dia destes.


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Mariupol, 9 de março de 2022


Fotografia de Evgeniy Maloletka/AP

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Thursday, December 29, 2022

Cinco filmes para acabar o ano

Decisão de Partir


Então, foi assim: choveu durante não sei quantos dias e eu estava já a passar-me de não conseguir sair de casa e, então, no domingo, ou no sábado, já não sei, depois do almoço, avisei a minha malta: vou sair. Mas o tempo continuava manhoso, não dava para confiar. Olhei para o relógio, fiz as contas e decidi ir ver o Ela Disse, da Maria Schrader, sobre o caso Weinstein, mas, depois, entrei no metro e, pimbas, senhores passageiros, devido a um incidente na linha azul a circulação encontra-se interrompida, pedimos desculpa pelo incómodo causado. Felizmente, tinha um livro para ler. Ficámos parados durante 40 minutos. Quando cheguei ao cinema, já não dava para ver o Ela Disse (acabei por não chegar a vê-lo de todo), cusquei o telemóvel enquanto estava na fila da bilheteira e optei por Decisão de Partir, do Park Chan-wook, que é um dos mais conhecidos realizadores sul-coreanos, apesar de não ter as melhores recordações do Oldboy, que é um dos seus filmes mais aclamados mas que não faz, de todo, o meu género. Arrisquei. Nada a ver. Este Decisão de Partir é uma história de amor. A atracção entre um detective da polícia e a suspeita de um homicídio que ele está a investigar. Contado de forma vagarosa. Muito bonito. Muito triste. Li algures, depois, que era um thriller. Não diria tanto. Há um mistério para resolver, mas não sei se isso é o mais importante. Gostei muito. É um filme com muitos silêncios, como se as personagens deixassem sempre algo por dizer. Gosto cada vez mais disso.



Os Fabelmans


Um Spielberg é um Spielberg, há coisas com que contamos logo à partida, como aqueles momentos a puxar à lágrima (pelo menos à minha, que é fácil, fácil) e uma qualquer lição no final (geralmente, é uma lição de moral, aqui é uma lição de cinema). Os Fabelmans é uma autobiografia ficcionada do realizador, que nos mostra o início do seu fascínio pelo cinema, as aventuras dos primeiros filmes, feitos na juventude, com a família e os amigos, até à certeza de que queria que aquela paixão se tornasse mais do que um hobby. É, no fundo, também uma história de amor: do amor de Steven Spielberg pelo cinema - e já sabemos que esta é uma história que acaba bem. Pelo meio, há a história da família, com o divórcio dos pais e toda a dor que isso implica, e há o terror do liceu, com cenas de bullying e amores adolescentes. E até há David Lynch. Pronto, não conto mais. Se quiserem saber mais, leiam este texto, escrito por quem sabe. Ou então vão ver, são quase duas horas e meia mas dá para rir e para chorar e é tão fofinho que nem se dá por isso.



Entretanto, também vi:


Pinocchio de Guillermo del Toro (Netflix) - Muito, muito bem feito. Fez-me lembrar as fábulas tragicómicas do Tim Burton. Não é de todo a minha praia mas não custa a ver. 


A Oeste Nada de Novo, de Edward Berger (Netflix) - A história original é de Erich Maria Remarque e já tinha dado origem a um filme americano em 1930. Esta nova versão, alemã, eleva a recriação dos horrores da Primeira Guerra Mundial a um novo patamar (viram o 1917? agora imaginem 265 minutos praticamente só com cenas nas trincheiras e na frente de batalha). Muito violento, explícito, sangrento. Difícil de ver, em determinados momentos. Exactamente como tem de ser, porque nos dias que correm não há como adocicar as guerras. É impossível chegar ao fim sem sentir um grande nojo dos políticos que decidem coisas nos seus gabinetes dourados (sim, estou também a pensar em Putin, mas não só) enquanto milhares de inocentes morrem por coisa nenhuma. 


Glass Onion: A Knives Out Mystery, de  Rian Johnson (Netflix) - Sinceramente? Um aborrecimento. Tanta estrela junta (Edward Norton, Janelle Monáe, Kate Hudson, Daniel Craig - e até Hugh Grant, por breves instantes - são os nomes mais sonantes, e ainda um tal Dave Bautista que eu desconhecia mas que aparentemente também é uma estrela) mas a mim pareceu-me tudo demasiado falso e forçado. Entretanto, já li análises profundíssimas explicando como o filme é uma crítica aos milionários com pés de barro ao estilo Elon Musk e de como tudo aquilo é uma enorme sátira à nossa sociedade de aparências e criptocoisas. Pode até ser. Mas, para mim, não deixa de ser um aborrecimento.


 


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Na foto, Gabriel LaBelle em Os Fabelmans

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Sunday, October 23, 2022

A felicidade nas coisas pequenas (L)

Para ler


Os livros da Jessi Klein, que descobri já não me lembro por recomendação de quem nas redes sociais. A Jessi Klein é uma atriz, stand-up comedian e argumentista norte-americana que escreveu dois livros com pequenos textos onde fala disto de ser mulher, de chegar à meia-idade e de ser mãe, com grande realismo e algum humor. Intitulam-se You'll Grow Out of It (2016)e I'll Show Myself Out: Essays on Midlife and Motherhood (2022) e têm lá muito daquilo em que nós, as mulheres, pensamos, dos cabelos brancos à busca pelo amor. 


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Para ver


Duas sugestões muito diferentes (entre as milhares de coisas que tenho visto no streaming):


Heartstopper (Netflix), uma série sobre adolescentes, que é também uma série sobre pessoas LGBT. Podia ser só mais uma série sobre miúdos num liceu, mas é tão fofinha que conseguiu emocionar uma cota quarentona



Olive Kitteridge (HBO): a partir do livro de Elizabeth Strout, esta minissérie protagonizada por Frances McDormand, Richard Jenkins e Bill Murray acompanha o casamento entre uma rígida professora de matemática e um farmacêutico gentil numa terra perdida em New England, EUA, ao longo de uma vida, por entre obrigações, sonhos e desilusões, filhos que crescem e o lento envelhecimento, com a doença e a morte à espreita. E no meio disto tudo o que é o amor e onde fica a felicidade? E como é que vamos mudando e nos vamos adaptando a todas as mudanças da vida?



Para ouvir


A playlist de outono do ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, é ainda melhor do que a playlist que ele tinha feito para o verão. São quatro horas de puro deleite (e melancolia q.b.). Por aqui está em repeat.


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Monday, June 20, 2022

John Cleese não tem assim tanta graça

(texto praí com três semanas de atraso, mas mais vale tarde do que nunca)

Fui ver o espectáculo Last time to see me before I die, do John Cleese. Acho que quase todos os que ali estavam naquele dia (e nos outros dias, o homem conseguiu encher o coliseu para seis espectáculos) foram sobretudo por causa das boas memórias dos Monty Python e da série Faulty Towers. Sabendo disso, o humorista deu-nos bastantes memórias. E foi fixe ouvi-lo a contar histórias desses tempos, mesmo que algumas dessas histórias já fossem bastante conhecidas, e a fazer algumas reflexões sobre porque é que aquele tipo de humor teve tanto sucesso. 

O que foi menos fixe foi perceber que, para além disso, ele tinha pouco mais a oferecer. Só uma lenga-lenga contra a "cultura de cancelamento" (ou "cultura woke") que vai-se a ver em 2022 já tem muito pouco de revolucionário e parece só rabujice. Eu, que não sou a maior fã de humor em geral nem de Monty Python em particular (ai, o escândalo, como é possível? pois, é verdade. acho que algumas coisas têm graça, outras mais ou menos e outras são só tontas, pronto) mas sou completamente contra cancelamentos e linchamentos públicos, senti só muita pena daquele velhote sem noção - e alguma vergonha alheia, em alguns momentos, confesso. 

É verdade que instintivamente rimo-nos de coisas que racionalmente não têm graça. Rimo-nos ao ver pessoas a cair e todo esse género de trapalhices (Chaplin sabia-o bem). Rimo-nos, infantilmente, quando alguém diz piadas com segundos sentidos "marotos" ou expressões proibidas. Rimo-nos de coisas muito parvas. Não há mal nenhum nisso. Nesse ponto, Cleese tem razão. Há um lado mais básico da comédia que evoluiu muito pouco. Mas também é verdade que o humor é das formas de arte que envelhece pior. Aquilo que era transgressor ou surpreendente nos anos 70 ou 80, hoje já nos parece banal. E ainda bem que assim é. Estranho seria se fosse de outra forma. Podemos defender que O Tal Canal de Herman José foi um programa importantíssimo quando estreou e, ao mesmo tempo, admitir que ao ver aquilo agora já não damos assim tantas gargalhadas.

O que é verdadeiramente incompreensível é não compreender isto e insistir em ficar parado no tempo.

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