Friday, January 16, 2026

Duas voltas, outras voltas

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Não tenho tido tempo para muito mais, mas não queria deixar passar a oportunidade de falar aqui da série documental A duas voltas: Mário Soares as Presidenciais de 1986, de autoria de Ivan Nunes e Paulo Pena, que está disponível na RTP Play. Para quem, como eu, andou com autocolantes de "Soares é fixe" ao peito e se lembra bem da campanha, é uma pequena delícia. Além do retrato do país que éramos há 40 anos, ainda deu para ficar a perceber algumas coisas mais políticas que, como eu era ainda uma miúda, com apenas 11 anos, me passaram um bocado ao lado na altura. Num momento em que nos preparamos para eleger o próximo Presidente da República, acho que é um bom programa para o dia de reflexão.

 

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Sunday, January 04, 2026

"Foi só um acidente"

A vida do realizador iraniano Jafar Panahi volta hoje ao banco dos réus, com a apreciação do recurso contra a sentença de um ano de prisão e dois anos de proibição de viajar, bem como a proibiçao de participar em grupos ou organizações políticas, que lhe foi aplicada a 1 de dezembro pelo Tribunal Revolucionário Islâmico de Teerão por actividades de propaganda contra o regime - julgado à revelia, uma vez que Panahi se encontrava no estrangeiro. Mostafa Nili, que é também advogado da activista Narges Mohammad, Prémio Nobel da Paz, representa o cineasta. 


Jafar Panahi, actualmente com 65 anos, continua a viver e a trabalhar no Irão embora passe grande parte do seu tempo em França. Já tinha sido proibido de fazer filmes, no entanto, continuou a fazê-los, clandestinamente, e sempre, cada vez mais, políticos. Depois de Três Rostos e do incrível Ursos não há, no início de 2025 ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes com o filme Foi só um Acidente, mais uma vez realizado sem autorizações oficiais, sem apresentar o argumento à censura iraniana, sem o uso do hijab obrigatório para as actrizes.


"Sem autorização, teve de filmar Foi só Um Acidente em apenas 25 dias. A rapidez é decisiva para uma equipa não deixar rastos nem assentar arraiais", conta Vasco Câmara, que entrevistou Panahi aquando da sua passagem por Lisboa, em novembro. "Por isso também não havia cópias do argumento, a não ser de um argumento falso. Os técnicos não o tinham, o produtor também não. E os actores só recebiam as suas páginas na véspera. Era uma forma de os proteger a todos: se fossem apanhados e interrogados, não poderiam mentir. Por isso, ainda, a equipa tinha de ser reduzida, não mais de cinco, seis pessoas, para caberem todos em dois carros."


Desta vez, Panahi não interpreta. Mas a sua experiência e as suas memórias estão no centro deste filme.


Jafar Panahi foi detido pela primeira vez em 2010. Esteve três meses preso. Foi libertado, mas com uma pena de seis anos a cumprir em casa e a interdição de filmar durante 20 se ensaiasse gestos que confirmassem a reincidência em "propaganda anti-islâmica". Em regime de prisão domiciliária realizou Isto Não é Um Filme (2011). Proibido de sair do país, não pôde ir a Cannes, em 2018, receber o prémio de melhor argumento atribuído a 3 Rostos.


No verão de 2022 ficou detido quando se deslocou à prisão de Evin, em Teerão, para protestar contra a detenção dos realizadores Mohammad Rasoulof e Mostafa Al-Ahmad, que haviam denunciado a violência na repressão policial de manifestações populares. Não assistiu por isso à exibição de No Bears/Ursos Não Há em Veneza 2022, onde recebeu o Prémio Especial do Júri.  Esteve sete meses encarcerado, até que entrou em greve de fome: dois dias depois foi libertado sob caução.


É das suas experiências na prisão - e das experiências que outros lhe contaram - que nasce Foi só um Acidente. As detenções políticas, tantas vezes aleatórias, o modo como os presos são tratados, os interrogatórios, a humilhação, a tortura - estas são experiências marcantes, que permanecem com as pessoas mesmo depois de serem libertadas, que determinam a sua vida. Ninguém fica o mesmo depois de ser privado da sua liberdade e de ser torturado. O trauma é real. O medo pode ser paralisante. A ansiedade por tornar-se crónica. O desejo de vingança pode só estar a aguardar uma oportunidade para se concretizar.


No filme, um pequeno acidente de automóvel cria essa oportunidade. E em volta dela junta-se um grupo de pessoas a braços com o passado, a tentar perceber como vão seguir no futuro. Foi só um Acidente é tanto sobre um regime totalitário que oprime os seus cidadãos como sobre o lugar em que as pessoas - no Irão, em todo o lado - se colocam (ou escolhem colocar-se) nesse regime. Sobre como a prisão e a tortura inflingem feridas profundas e nem sempre visíveis no íntimo de cada indivíduo e como superá-las. Sobre a liberdade individual, a liberdade interior, a liberdade de pensamento, aquele reduto que, mesmo nas condições mais adversas, acreditamos que é possível manter. E sobre a importância da comunidade e de sabermos que não estamos sozinhos nesta batalha. Nas ditaduras o trauma é individual e é colectivo. E é isso tudo que nos mostra este filme que é ao mesmo tempo duríssimo e poético e até, por vezes, cómico.


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O filme foi fortemente criticado pelas autoridades iranianas, claro. Mas a França apresentou-o como candidato à categoria de Melhor Longa-Metragem Internacional nos Óscares. Foi só um Acidente está também nomeado para os Globos de Ouro nas categorias de Melhor Filme Dramático e Melhor Filme Internacional.

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Wednesday, December 31, 2025

2025: o mundo está terrível, mas dentro de casa estamos em paz

Mais um ano. O mundo está um lugar triste e perigoso. O nosso país também. À minha volta há cada vez mais ódio e egoísmo. Na política, nas redes sociais, na rua. Temo que nos próximos anos nos vamos afundar ainda mais neste caldo de extremismos temperado por trumpes e venturas, que vamos ter ainda mais conflitos sociais e guerras mortíferas, que vamos viver tempos terríveis antes de retormamos, outra vez, o caminho do humanismo. Resta-nos continuar a lutar - cada um à sua maneira - por aquilo que julgamos correcto, pela igualdade, pela liberdade, pelo bem comum, pela solidariedade.


Pessoalmente, 2025 foi um ano bom. Nem me lembro da última vez que disse uma coisa destas. Não aconteceu nada de extraordinário, mas também não aconteceu nada de trágico. Mais importante: chego ao final do ano a sentir-me em paz, como há muito tempo não sentia. 


O segredo para ser feliz num mundo assim não é segredo nenhum: é rodearmo-nos de pessoas boas, encontrar/criar uma comunidade de gente que nos acompanhe neste olhar para o lado bom do mundo, sem alimentar a raiva e o ressentimento, que nos estenda a mão e nos acolha no seu colo nos momentos maus, gente com quem podemos conversar sobre tudo, com quem podemos chorar e gargalhar, pensar, dançar, viajar ou apenas estar. Tenho muita sorte por ter algumas pessoas assim na minha vida. Os melhores momentos do ano foram, como sempre, todos aqueles que passei com os meus amigos e a minha família. 


Para memória futura:


Não falei de tudo aqui, mas como habitualmente entre o melhor do ano estão os livros, os espectáculos de teatro e dança, os concertos, muitos filmes e muitas séries, algumas exposições. Nestes tempos sombrios é ainda mais importante alimentar o espírito.


Aceitei participar num grupo de escrita. O nosso largo está cheio de mulheres muito diferentes e com ideias diversas. Tem sido um desafio e tanto, e nem sempre consigo corresponder, mas espero que continuemos a escrever juntas.


Sobrevivemos ao apagão. 


Fui ao Tremor, em São Miguel. Foi incrível. Vamos voltar. 


O António saiu de casa durante sete meses. Esteve a morar noutra cidade, a três horas daqui, trabalhou, cresceu e depois voltou. Está mais responsável, mais decidido, mais autónomo. Está a transformar-se num adulto com a cabeça no lugar e o coração no sítio certo. Às vezes custa-me acreditar. Acho que até sinto um certo orgulho (não quero lançar foguetes antes do tempo, mas estou contente, sim).


O Pedro ainda me dá (e vai continuar a dar) muitas dores de cabeça. Seguimos fortes nesta travessia pela adolescência. 


Os meus filhos são o meu barómetro. Se eles estão bem, já é meio caminho andado. E este é o meu texto preferido do ano neste blogue.


Fui à Ucrânia e a Madrid. Há muito tempo que o trabalho não me levava a entrar em aviões e foi bom como sempre é. Sobretudo porque na maior parte dos dias o trabalho não me dá grandes motivos de felicidade. Parece que vamos ter de trabalhar até quase aos 68 anos, não sei como irei aguentar.


De um dia para o outro, o envelhecimento tornou-se real. Nos meus grupos de amigas, fala-se muito sobre menopausa, queixamo-nos dos males dos nossos corpos, trocamos mezinhas e recomendações médicas. Angustiamo-nos com o envelhecimento dos nossos pais, entristecemo-nos com as perdas, cada vez mais comuns.


Mas também há bebés, e a cada bebé renova-se a esperança. Nasceu o Xavier. Em breve nascerá a Emília. Por causa dos filhos das minhas amigas, voltei a bordar em ponto-de-cruz e tem sido muito divertido.


Mergulhei no Mediterrâneo. Foi fantástico (e não só por causa da temperatura da água). Estes últimos anos têm me ensinado a não fazer planos. Desfrutar o presente, aproveitar cada minuto como se fosse o último, é um desafio nem sempre fácil. "Contra todas as evidências em contrário, a alegria" - mais uma vez, ainda, enquanto for bom.


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Friday, September 12, 2025

Revolução

Lembro-me da minha avó, vestida com roupa de domingo, colar de pérolas de plástico ao peito, o cabelo arranjado, pronta para ir votar. Ia de cabeça levantada, um orgulho tremendo, uma alegria indisfarçável por poder ir depositar o seu voto na urna.


Lembro-me da minha avó que lia o jornal de uma ponta à outra e lia sempre os meus artigos, fossem sobre o que fossem, a minha avó que tinha apenas a segunda classe, escrevia com erros e apontava as receitas que via na televisão com uma letra quase incompreensível. A minha avó que nos dizia "estudem para não serem como eu", estudem para serem independentes e mandarem na vossa vida. Estudem para não terem que se sujeitar.


Lembro-me da minha avó que me falava da pobreza, da comida que faltava, da casa sem condições, da costura que a mantinha acordada pela madrugada para ganhar uns quantos tostões. Que se lembrava dos rapazes que morreram na guerra colonial e de que como era preciso falar baixinho porque nunca se sabia quem estava a ouvir.


Não, antigamente não era melhor.


Às vezes esquecemo-nos. Damos os nossos direitos por adquiridos. Achamos que já não há por que lutar. Às vezes distraímo-nos. Porque temos sol e praia e subsídio de férias e licença de maternidade e creches e supermercados com muitas marcas e centros comerciais abertos todos os dias e publicamos fotografias bonitas no instagram e vamos mandar bocas para o twitter e achamos que está tudo bem. Distraímo-nos e quando damos por nós foi-se a habitação, a saúde, a educação, a paz, não tarda nada está a ir-se também o pão e todos os outros direitos que julgávamos tão seguros como o da opinião e da expressão. 


A liberdade é frágil.


É por isso que temos de permanecer atentos e interventivos. A revolução fazêmo-la nós, todos os dias. Não são precisos tanques nem metralhadoras. As armas são a nossa consciência, as nossas palavras e os nossos actos. Basta de sermos amorfos. Lembram-se do que aconteceu à nêspera? 


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No largo acompanham-me neste processo revolucionário em curso:


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Thursday, September 11, 2025

Ucrânia, Bergen-Belsen, Portugal: isto está tudo ligado

Houve dois momentos da viagem em Lviv em que sentimos a guerra mesmo ali tão perto, e não, não foi quando ouvimos o alerta de ataque aéreo. 


O primeiro aconteceu logo no primeiro dia, na visita ao cemitério onde estão sepultados os militares e outras vítimas da guerra. É muito impactante, antes de mais, porque é um sítio muito colorido, cheio de bandeiras e flores, mas, sobretudo, porque rapidamente percebemos que muitos daqueles rapazes (são sobretudo rapazes) tinham pouco mais de 20 anos. As fotografias mostram-nos sorridentes, confiantes. Tantas vidas que ficaram por viver. Tantos filhos, irmãos, namorados, amigos, pais que se perderam.


O segundo momento foi a visita ao Unbroken Center, um centro de reabilitação que recebe feridos da guerra, vindos de todas as partes da Ucrânia, sobretudo pessoas afectadas por minas, explosões, tiros e que, muitas vezes, tiveram que ser amputadas. O trabalho com estas pessoas, que por cima de tudo isto têm certamente traumas psicológicos, é absolutamente incrível. Um dos terapeutas que nos guiou pelas salas equipadas com aparelhos de última geração disse-nos que por cada paciente que consegue lugar neste hospital há 60 que continuam em lista de espera. Aqueles que ali estão, que deslizam pelos corredores em cadeiras de rodas, a quem falta uma ou ambas as pernas, braços, bocados da cara ou tronco, aqueles são, afinal, privilegiados.


*


What they found - O que encontraram é um documentário realizado por Sam Mendes a partir de imagens filmadas em 35 mm e sem som pelo sargento Mike Lewis e pelo sargento Bill Lawrie, da Unidade de Cinema e Fotografia do Exército Britânico, antes e durante a libertação do campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, em 1945, a que se juntaram partes do áudio de entrevistas realizadas em 1980 aos dois operadores de câmara. 


O filme, que está disponível no Filmin, tem apenas 36 minutos. Começa com a história dos dois homens, depois a chegada ao campo de concentração, o relato do que viram, o tratamento dado aos sobreviventes, as valas comuns onde foram depositados milhares de corpos. Lewis e Lawrie contam como se sentiram. E se as suas palavras são perturbadoras, o silêncio que se instala é-o ainda mais. As últimas imagens são poderosíssimas. Já vi vários documentários sobre o Holocausto e provavelmente até já tinha visto algumas destas imagens, no entanto fico sempre em choque. Não há maneira de me habituar a isto. Só me apetece chorar. Por todas as vítimas, por nós todos, por esta humanidade que parece não aprender nada com os seus erros.


*


Antes de terminar as férias consegui dar um saltinho a Almada para ir ver a exposição Venham mais cinco, com 200 fotografias de fotógrafos estrangeiros que estiveram em Portugal logo a seguir ao 25 de Abril ou nos meses seguintes, a testemunhar o processo revolucionário. Mais uma vez: emociono-me sempre com as imagens da nossa Revolução, e aqui é uma emoção boa, comovo-me com a alegria dos militares nas ruas de Lisboa e das pessoas que os rodeavavam, as crianças curiosas, os jovens entusiasmados com o fim da ditadura, as senhoras que distribuíram café; comovo-me com a esperança que se vê nos olhos de toda a gente, a desfilar pelas ruas com cartazes, a reivindicar os seus direitos, à saída das prisões, nas reuniões sindicais, nas filas para votar pela primeira vez em democracia. As trabalhadoras do campo a entrarem na casa dos senhores e a tocarem ao de leve nas colchas das camas. Tanta ingenuidade. 


Sim, já vimos muitas imagens como aquelas, é verdade, mas vão ver estas também, que nunca são de mais, e parece-me que, nos dias que correm, estamos todos a precisar de uma boa dose de esperança e optimismo e de nos lembrarmos que todos juntos somos mais fortes e podemos mesmo mudar o curso dos acontecimentos.


A exposição está aberta até 23 de novembro, de quinta a domingo e a entrada é gratuita.


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Ocupação da herdade do Sol Posto, no Couço, Ribatejo, no dia 31 de Agosto de 1975, por Fausto Giaccone 

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Friday, August 08, 2025

Nenhures

O mundo está um lugar perigoso. E triste. Todos os dias leio notícias que me enervam ou comentários que me irritam, todos os dias me desiludo um pouco mais com os donos disto tudo, com os políticos que elegemos, com as pessoas em geral. Quem são estas pessoas racistas, machistas, egoístas, mercantilistas, fascistas, que, de repente, decidiram sair do seu buraco e desatar a gritar alarvidades? Quem são estas pessoas que odeiam as mulheres, que querem os trabalhadores escravizados, que defendem os ricos e espezinham os pobres, que apoiam ditadores, que apelam à violência, que não se comovem com a fome e a guerra e as injustiças do mundo? Quem são estas pessoas moralistas que têm gosto em achincalhar desconhecidos na internet, que perdem tempo a insultar toda a gente, que participam em espancamentos na via pública, que querem calar humoristas, controlar os corpos das mulheres, eliminar o sexo da educação escolar, quem sabe até eliminar todo e qualquer sexo (toda e qualquer pessoa) que não siga os padrões delineados pelos machos-alfa? São tantas as atrocidades à nossa volta que fica difícil comentar. Começar por onde? 


O mundo está um lugar perigoso. E triste. Sei que não podemos baixar os braços, que nos cabe a nós, todos, enquanto comunidade, fazer deste um lugar melhor. Mas há dias em que é muito difícil. Há dias em que só me apetece fugir. Ir para um sítio qualquer, não interessa muito bem qual, no meio de nenhures, onde pudesse estar desligada de toda a tecnologia - o que implicaria, obviamente, não ter o trabalho que tenho hoje - e só estivesse rodeada de pessoas boas, amigas, solidárias, empáticas. Sem ódio nem violência. Com espaço para existirmos todos, com as nossas diferenças, em liberdade. Um lugar para dar abraços. 


Infelizmente, esse lugar não existe.


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Tenho andado pouco pelo largo, mas vou esforçar-me para ser mais assídua. Até porque este largo que criámos juntas é um desses lugares bons, onde vale a pena estar, e que me faz ter alguma esperança em dias melhores. Comigo estão:


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Sunday, May 25, 2025

Teimosia

Aconteceu já quase no fim do concerto. A Aldina estava a dizer o quanto se sentia feliz por estar ali e, de repente, emociona-se a falar da democracia e não tarda muito está a falar da tristeza provocada pelo resultado das últimas eleições. Não foi algo planeado, mas as palavras saíram-lhe, atabalhoadas, pedindo desculpa. A grande Aldina Duarte. É também por isso que gosto dela. Porque é sincera, porque se mostra, tal como é, porque se permite deixar levar pelas emoções. E no fim disse-se aliviada por ter desabafado. "Estou há uma semana sem conseguir falar disto, nem com os meus amigos", explicou.


Percebi-a tão bem. Eu também estou há uma semana sem conseguir falar disto. Tenho estado em casa a descansar de tudo o que trabalhei durante a campanha eleitoral. O meu corpo estava exausto e têm sido dias para recuperar, para dormir e voltar ao yoga e ao pilates. Mas têm sido também dias de reclusão, de falar com poucas pessoas. Para limpar a cabeça, para tentar fazer as pazes com o mundo e para pensar o que podemos fazer daqui para a frente. Ainda há um ano estava a falar disto. A luta continua, sempre. Pela democracia. Pela comunidade. Pelo bem. É muito difícil compreender, como disse a Aldina ontem, que tanta gente vote em quem apela ao lado pior da humanidade, quem defende o ódio, a discriminação, o individualismo. Mas é a realidade que temos. E a melhor maneira de combater o ódio é mostrar como é bom o amor. Como somos mais felizes juntos, com os outros, com os que são diferentes, de mãos dadas, uns puxando os outros. Não é uma tarefa fácil, mas é a tarefa que temos pela frente.


O concerto da Aldina Duarte foi incrível, como sempre. 


Mas a música que vos quero deixar aqui é outra, roubada descaradamente à Helena, porque me parece que diz exactamente aquilo que quero dizer, com o balanço do samba e as vozes de Jonathan Silva e Ceumar Coelho. Uma música para nos inspirar a continuar, teimosamente, do lado da democracia e dos valores humanos. Uma semana depois, mas nunca tarde demais.


 


"Se o mundo ficar pesado
Eu vou pedir emprestado
A palavra POESIA


Se o mundo emburrecer
Eu vou rezar pra chover
Palavra SABEDORIA


Se o mundo andar pra trás
Vou escrever num cartaz
A palavra REBELDIA


Se a gente desanimar
Eu vou colher no pomar
A palavra TEIMOSIA


Se acontecer afinal
De entrar em nosso quintal
A palavra tirania


Pegue o tambor e o ganza
Vamos pra rua gritar
A palavra UTOPIA"

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Friday, April 26, 2024

25 de Abril sempre

Estávamos mesmo a precisar disto. Desde 10 de março que estávamos a precisar disto. De sentirmos que somos muitos, que estamos aqui e estamos juntos nesta luta. De dizermos: não esquecemos. De dizermos: não passarão. Não tem a ver com ser de esquerda ou ser de direita, tem a ver com defender a democracia, a liberdade, os direitos de todos. O que aconteceu ontem foi bonito e emocionante. Uma Avenida cheia como nunca tinha visto. Milhares de pessoas, quantas seriam?, tão diferentes. Tão coloridas. Tão felizes. Tão determinadas. Cantámos e abraçámo-nos e gritámos juntas: fascismo nunca mais.


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A luta continua.


Sei que não é suficiente, mas, para já, contribuo como posso, ou seja, escrevendo: 



  • Um museu  que conta a história do "Grândola, Vila Morena"

  • Uma conversa com o músico Francisco Fanhais

  • Um olhar de esperança sobre o presente: o poder ainda está na rua, se quisermos

  • Uma conversa (que, para mim, foi extraordinária) com Domingos Abrantes, comunista e resistente anti-fascista, a propósito do novo Museu Nacional Resistência e Liberdade


 


Trabalhei muito, muitos dias seguidos, muitas horas para além da hora. E depois passei muitas horas de pé na noite de 24 e no dia 25. A celebrar. Hoje sinto-me como se tivesse sido atropelada por um camião. Mas valeu a pena. Afinal, não é todos os dias que podemos celebrar os 50 anos da nossa democracia, não é?

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Thursday, March 28, 2024

Março: "The power to dream, to rule/ To wrestle the world from fools"

"Estás bem?", uma pergunta tão simples, talvez a pergunta que mais vezes fazemos uns aos outros, "Está tudo bem?". É, na maior parte das vezes, uma pergunta inconsequente, ninguém quer saber realmente se estamos bem, e por isso respondemos de forma mecânica, "Tudo", e seguimos com a conversa sobre o tempo, sobre o trabalho, sobre os filhos, sobre as eleições, o que for. Mas o que responderíamos se quiséssemos ser verdadeiramente honestos? Estou bem? Mesmo que não esteja "tudo bem", que nunca está tudo bem, estamos bem? Estou bem, digo a mim mesma. Se reflectir um pouco, se pesar os pratos da balança, se der o devido valor às coisas que me irritam e entristecem (valem assim tanto?), se quiser ser verdadeira, tenho que dizê-lo: estou bem. A vida não é a preto e branco. Os dias muito bons sucedem-se a dias muito maus que se sucedem a dias mais ou menos. No mesmo dia, temos coisas óptimas a acontecerem-nos e coisas que nos deprimem. Não é assim com todas as pessoas? Estou bem.


*


Fiquei muito deprimida com os resultados das eleições. Ainda estou deprimida com isto tudo. Há muitas coisas na minha vida de todos os dias que não são perfeitas, mas tudo fica pior porque tenho que ver televisão e acompanhar as notícias relacionadas com a extrema-direita. Ouvir AV a toda a hora, as suas mentiras, os seus joguinhos, aquela retórica populista, a sua extrema falta de educação e falta de respeito por nós todos tem sido um grande foco de tristeza e desesperança. Por outro lado, existe também uma vontade de agir e reagir, partilhada por algumas pessoas à minha volta. Não sabemos ainda como, quando, onde, mas sinto que temos a responsabilidade de fazer alguma coisa.


*


Já quase ninguém escreve nos blogues. Eu própria quase não escrevo no blogue. Não temos tempo, não temos paciência, assim como assim ninguém lê, pois não? Somos cada vez mais descartáveis. O Facebook está praticamente morto. O Twitter é um ninho de víboras, pessoas desejosas de dizerem coisas, seja o que for, desejosas de provocar reacções. No Twitter sou apenas observadora, mas o Instagram transformou-se no meu álbum de fotografias e memórias. O Instagram, como bem escreveu a Gabriela (que também se lamenta por escrever cada vez menos, e é uma pena), é aquela "rede social onde os mais novos só deixam 'histórias' efémeras e os mais velhos registos vários para a posteridade. É muito isto que nos diferencia, parece-me. Instagrams que vivem de marcas que permanecem e os outros, que têm zero publicações, mas inúmeras histórias que as 24 horas apagam". Eu sou da permanência ("é urgente permanecer", diz o poema de Eugénio de Andrade). A mim faz-me falta a escrita. Faz-me falta escrever-me. Não me tenho sentido suficientemente livre para fazê-lo, não sei como explicar-vos. Tenho de pensar melhor nisto.


*


Emocionei-me muito a ver Um Mini Museu Vivo de Memórias do Portugal Recente, um espectáculo do Teatro do Vestido, que conta um pouco da história Portugal dos anos da ditadura e da democracia. É mesmo preciso não esquecer.


*


Os jornalistas fizeram greve. Não serviu para nada, não vamos ser aumentados nem vamos ter melhores condições de trabalho, os despedimentos vão continuar, os órgãos de comunicação continuam com problemas financeiros, e, no entanto, foi importante que nos juntássemos todos, que nos olhássemos, que os outros olhassem para nós, que disséssemos em voz alta que temos mesmo que fazer alguma coisa por nós, para mudar isto, que não podemos continuar a encolher os ombros. Foi um dia muito bonito.


*


Fomos ver o Sérgio Godinho ao Coliseu. Foi tão bom, tão bom. Foi tão bom poder ouvir aquelas canções acompanhada daquelas pessoas (as pessoas são sempre o mais importante). Ouvir outra vez A Garota Não. Gritar pela paz, o pão e a habitação. Cantar o Zeca e o Zé Mário. Ter um "brilhozinho nos olhos" e acreditar que, apesar de tudo, este poderia ser o "primeiro dia do resto da nossa vida".


*


Também fui ver a Patti Smith com os Soundwalk Collective ao CBB. Que maravilha. O espectáculo chama-se Correspondences e baseia-se na poesia de Patti Smith, a partir do trabalho de outros artistas, aquela voz incrível num ambiente composto por vídeos e sons, levando-nos numa reflexão sobre o mundo em que vivemos, a destruição da natureza, os desastres nucleares ou questões mais humanas da nossas existência. Foi uma experiência bastante intensa que terminou com um momento de libertação, o público todo de pé a cantar People Have The Power ("The power to dream, to rule/ To wrestle the world from fools").


*


Ainda não tinha ido à Casa Fernando Pessoa depois da remodelação. Vale muito a pena. A exposição está muito bonita, com partes mais informativas e outras mais poéticas. Numa das salas há uma montagem de espelhos - porque cada um de nós é muitos, porque cada pessoa é diferente dependendo do ponto de vista. Aí, conseguimos ver-nos de costas. Completamente. Não sei se alguma vez me tinha visto de costas, como se fosse outra pessoa. Foi bastante estranho. Ficámos ali algum tempo. Há algo de quase transcendental nesta experiência.


*


"I know not what tomorrow will bring" - foi esta a última frase escrita por Fernando Pessoa. Não sabemos o que o amanhã nos traz. Tenho feito um esforço para tentar viver o presente sem pensar no futuro. No meu futuro, no futuro dos meus filhos, no futuro em geral. Talvez seja por estar a chegar aos 50, não sei. Não é tanto um "seize the day" no sentido de fazer tudo e devorar o mundo como se não houvesse amanhã. Não é isso. É mais um ser feliz agora, por inteiro, sem alimentar expectativas para amanhã, tentando não me angustiar. Se me conhecessem saberiam que é um desafio e tanto. É quase como suspender o pensamento. Não vou dizer que é fácil, mas até agora tem sido possível e tem sido bom. Talvez o amanhã nos traga beijos e passeios de mão dada à beira-mar. Talvez o amanhã me traga uma tarde numa esplanada, sozinha, com um livro. Seja como for, o importante é estar em paz.


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Wednesday, March 13, 2024

A luta continua

 


 


"Viemos com o peso do passado e da sementeEsperar tantos anos, torna tudo mais urgenteE a sede de uma espera só se estanca na torrenteE a sede de uma espera só se estanca na torrente

 

Vivemos tantos anos a falar pela caladaSó se pode querer tudo quando não se teve nadaSó quer a vida cheia quem teve a vida paradaSó quer a vida cheia quem teve a vida parada

Só há liberdade a sérioQuando houver

A paz, o pão, habitaçãoSaúde, educaçãoSó há liberdade a sério quando houverLiberdade de mudar e decidirQuando pertencer ao povo o que o povo produzirE quando pertencer ao povo o que o povo produzir"

 

Liberdade, Sérgio Godinho

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Sunday, March 10, 2024

Hoje é um dia importante

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Nas primeiras eleições após o 25 de Abril, "o número de eleitores recenseados passou de cerca de 1 milhão e 800 mil para 6 milhões e 200 mil, e foram as eleições mais participadas de sempre, com uma taxa de abstenção de apenas 8%". As eleições foram uma festa, as pessoas estavam felizes por poder finalmente exercer o seu direito de voto e, livremente, decidir o futuro do país.


Como é que em menos de 50 anos chegámos aqui, a uma taxa de abstenção de cerca de 40%, com um partido populista e anti-democrático a ser a terceira força política no Parlamento?


Vão votar. Não deixem que os outros decidam por vocês.

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Sunday, February 18, 2024

Como uma corrida de cavalos

Quem ganhou? O jornalismo e o comentariado políticos estão reduzidos a isto: quem ganhou o debate? quem ganha nas sondagens (bem ou mal feitas)? quem ganha nas redes? Veja ao minuto, agora, instantaneamente. Não vale a pena pensar muito, nós dizemos-lhe já. E quem ganha nem sequer é quem diz mais verdades ou quem tem propostas mais exequíveis, é quem conseguiu gritar mais alto, calar o adversário, ser mais fanfarrão, dizer a frase mais orelhuda. Quem ganha é quem consegue mais aplausos no Twitter, esse mundinho à parte, onde os jornalistas e comentadores vivem e se degladiam, mas que representa muito pouco do que é o país real. 


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É verdade que já não tinha grandes expectativas sobre o jornalismo que fazemos no nosso dia-a-dia, mas nunca julguei que pudéssemos descer tão baixo como está a acontecer nesta campanha eleitoral. Isto não quer dizer que não haja trabalhos bons, que também os há, atenção. Mas ficam geralmente ofuscados por este festival de comentários e avaliações à la minuta. E é uma pena. Sinto mesmo que não estamos a prestar um bom serviço à democracia - nem aos nossos leitores/ouvintes/espectadores. Mas sinto-me impotente. Limito-me a tentar não contribuir para este barulho.


Infelizmente isto não acontece só em Portugal, felizmente já há muita gente a pensar sobre isto e até já há algumas pessoas a tentar fazer diferente. Através do Jay Rosen , autor do PressThink (só o nome já é bom, juntar imprensa e pensamento é sempre um bom princípio), encontrei este texto, que me parece resumir bem algumas das preocupações que - como descobri recentemente - não são só minhas:


"(...) Horse race political journalism is the shallow end of the craft. It’s easy to do, carries no burden in terms of input or consequence and can spawn a day or so of equally lazy follow ups. It is usually based on polling. A poll of inconsequential quality is used to measure the possible outcome of a looming political contest – usually on the fundamental metrics of voting intention and leadership approval/disapproval. (...) It is always worth remembering and repeating that opinion polling is no more than what it is – the sampling of opinion at a moment in time on a single issue or confined basket of issues. (...) Other factors counting against horse race polling are that it contributes to the prevalent and increasing distrust in politicians – if all the news is focused on the competitive nature of contests and doesn’t delve into the issues voters actually talk about, people will believe politicians don’t care about things like health and education. (...) Pages of stories on horse race aspects of elections and little if any examination of what is at stake in any contest means the voters are ill-informed and slip into not caring. It’s a self perpetuating and self fulfilling problem at once. The ill informed nature of so much political reporting – fed by the horse race obsession – creates an electorate which really doesn’t care because they do not believe anything has any meaning or any election outcome has any consequence. (...) The fundamental criticism of horse race political journalism is the tendency to give emphasis to colour and movement, to drama and shock, over anything or substance or consequence. Substance takes a back seat. (...)".

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Monday, February 05, 2024

Fotografias de um país que foi - e que é o nosso

Antes desta semana de caos que agora terminou e do mês de caos que aí vem, o mês de janeiro foi bom para mim. Foi mesmo. Inesperadamente bom por vários motivos, entre os quais estes: consegui ir passar um bocadinho de uma tarde com os meus queridos amigos da Companhia Maior, fui conversar com o Eduardo Gageiro e ver as suas maravilhosas fotografias e ainda ouvi o fantástico Jorge Calado a falar sobre as fantásticas fotos de Maria Lamas - sim, assim mesmo, com adjectivos em excesso para que se perceba que estou a falar de eventos mesmo importantes e - e isso é o mais relevante para o caso - que me deixaram verdadeiramente feliz. 


Os acontecimentos dos últimos dias têm me feito reflectir muito sobre o estado do nosso país e sobre a cada vez maior visibilidade e representatividade da extrema-direita. Para quem, como eu, se revê incondicionalmente nos ideais da democracia, da liberdade, da igualdade e do respeito por todas as pessoas, tudo isto é bastante angustiante e confesso que ainda não encontrei as palavras certas para falar deste tema. É importante ver as fotografias de Eduardo Gageiro e Maria Lamas, falar sobre elas, tentar entendê-las. É preciso não esquecer o que foi a ditadura. O que foi verdadeiramente, sem romantizar. A história ensina-nos muito e manter a memória desperta é mesmo um dos maiores antítodos contra as ameaças que enfrentamos. É preciso não esquecer os que resistiram e lutaram contra a ditadura. Que o seu exemplo nos inspire. E nos dê alento.


Se puderem, não percam estas exposições. Para ver com olhos de ver.


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Mulheres do nosso país fotografadas por Maria Lamas (1948)


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 Polícias batem em manifestantes durante o Estado Novo. Fotografia de Eduardo Gageiro

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Monday, November 13, 2023

"O Sol do Futuro" - Moretti revisited

Já passaram algumas semanas mas não queria deixar de escrever sobre O Sol do Futuro, o filme de Nanni Moretti. Não é um filme extraordinário. É um filme imperfeito, como são geralmente as comédias do Moretti. Comédia dramática é como lhe chamam. Não é daqueles filmes em que se dê grandes gargalhadas. Fica sempre ali no limite entre o isto tem graça, isto é só parvo, isto é muito triste. Ainda assim, eu gostei bastante. 


Palombella Rossa, de 1989, abria com um acidente de carro. Michelle (interpretado por Moretti) perdia a memória. Quem sou eu?, perguntava-se. "Ah, eu sou um comunista". Não vi nenhum filme anterior dele mas sei que, pelo menos a partir daí, o debate sobre a relevância do comunismo e sobre o que é ser comunista é uma constante nos filmes de Moretti.


Destaque para dois documentários:


A Coisa (1990) reúne intervenções de comunistas italianos durante os debates que aconteceram em várias secções do partido, após a queda do Muro de Berlim e do Bloco de Leste e depois de o secretário-geral do PCI, Achille Occhetto, ter defendido uma remodelação do partido, mudando o nome e os símbolos, para acompanhar a nova realidade. A desilusão dos velhos comunistas italianos, as memórias da resistência ao fascismo, as perguntas que ficam sem resposta, a defesa dos trabalhadores e de um ideal que, apesar de tudo, parece continuar a fazer sentido - o filme é um documento interessantíssimo sobre aqueles tempos.


Santiago, Itália (2018) viaja até ao Chile de Allende, breve experiência de socialismo que termina com o golpe de estado de 11 de setembro de 1973. Com muitas imagens de arquivo e os relatos de um grupo de entrevistados que, percebemos depois, são todos antigos militantes da esquerda que, depois de prisões e torturas e percebendo que a ditadura estava só a começar, acabam por se refugiar na Embaixada de Itália e, finalmente, ser extraditados para Itália como refugiados políticos. 


Dos filmes de Moretti que vi, os meus preferidos são O Quarto do Filho (2001) e Três Andares (2021) que são, precisamente, aqueles que não são comédias e que têm menos política e mais família (cada pessoa tem as suas manias, não é?).



Mas, se olharmos para Palombella Rossa (1989), Caro Diário (1993), Abril (1998) e este O Sol do Futuro (2023), é muito fácil encontrar pontos de ligação. Antes de mais, porque as personagens interpretadas por Moretti são uma espécie de alter-egos do próprio realizador. Umas vezes mais assumidamente autobiográficas (como em Caro Diário e Abril), outras vezes menos, mas temos sempre ali um pouco de Moretti com os seus interesses, as suas dúvidas. Fazendo lembrar um pouco Woody Allen, até pela torrente de discurso atabalhoado e pelo tom auto-depreciativo, só que com questões muito diferentes. A política e o cinema são os seus temas de eleição, a política, o cinema e a vida misturam-se nos filmes como se misturam na vida de Moretti. Contaminam-se. Em Abril assistimos à chegada de Berlusconi ao poder. Nanni quer fazer um documentário sobre a campanha eleitoral mas, ao mesmo tempo, está a acompanhar a gravidez de Sílvia e o nascimento do seu filho, Pietro. A sua atenção dispersa-se. O pessoal e o político confrontam-se. 


É também engraçado ver como Moretti envelhece no ecrã, um filme a seguir ao outro, e como as suas questões se mantêm ou se alteram. Podemos comparar a crise existencial da personagem do realizador de Abril com a crise existencial de Giovanni, a personagem do realizador de O Sol do Futuro. Neste, Nanni (diminutivo de Giovanni) assume quase o papel de um "velho do Restelo", que não entende como os jovens fazem cinema nem se quer vender à Netflix. Com um "realizador em crise", com Margherita Buy e Silvio Orlando, actores que conhecemos de outros filmes de Moretti, com momentos musicais e uma grande parada final com todas as personagens, O Sol do Futuro dá-nos uma certa sensação de déjà vu. A acção passa-se em 1956, durante a invasão da Hungria pela URSS, que o PCI apoia. Voltamos a ter um confronto entre pessoal e político. Que espaço para as pessoas e que papel para as ideias individuais num partido comunista? Afinal, o partido somos nós ou temos que nos sujeitar às decisões da cúpula? 


Desta vez, talvez cansado de tanta desilusão, Moretti decide alterar o final da história e fazer da utopia realidade. Se não é para isso que serve ser o realizador do filme, então é para quê? Há uma ingenuidade grande naquele final povoado de bandeiras vermelhas, é verdade. Mas não nos enganemos: Moretti sabe que aquilo é um exercício de ficção sobre um futuro que poderia ter sido. Que está a mudar o passado porque não pode mudar o presente. É por isso que aquela alegria é também um bocadinho triste.


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Wednesday, October 18, 2023

Olhando o sofrimento dos outros

Não sei bem que dizer. Quando o terror é imenso perdemos as palavras, não é? Nestes últimos dias tenho tentado fazer algumas leituras, preencher algumas lacunas que ainda há pouco admitia aqui, quando escrevi sobre a Golda. Ainda assim, tudo o que possa dizer é de uma enorme banalidade. Toda a violência é terrível mas a violência sobre civis, inocentes, é sempre pior. Porque odiamos?, volto a perguntar. Não tenho respostas. Surpreendem-me muito as pessoas que tomam posições muito convictas sobre este conflito (e sobre outros também, mas sobre este especificamente). A mim sobram-me as dúvidas. 


Deixo algumas pistas:


Falei com a Nofouz, 23 anos, estudante de medicina, da Cisjordânia. É só um lado da história, claro. A mim tocou-me muito.


Uma fotogaleria da Palestina antes de ser Israel, que me fez olhar para trás. As fotos são maravilhosas mas o que ali está é o retrato de uma região colonizada.


"Somos todos animais", um texto da Alexandra Lucas Coelho, que tem dito coisas que me fazem muito sentido.


A Isabel Lucas escolheu alguns livros que poderão ajudar a entender o que se passa na Palestina. Também há uma selecção de filmes, escolhidos pelo Palestine Film Institute.


Também podem ir (re)ler e (re)ouvir a série de reportagens que o Fumaça fez em 2017: "Palestina: Histórias de um país ocupado".


Com tantas imagens horríveis que nos chegam, lembrei-me da Susan Sontag e do seu "Olhando o sofrimento dos outros". Nunca o li todo, confesso, talvez seja este o momento certo.


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Palestinianos procuram sobreviventes após mais um bombardeamento na Faixa de Gaza (AP Photo/Abed Khaled)


 


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"Tragam-nos para casa". Em Telavive, uma mulher apela à libertação dos reféns israelitas (AP Photo/Petros Giannakouris)


 


(e, não sei se repararam, mas de repente deixámos de falar da Ucrânia. a guerra continua lá mas é como se já não estivesse a acontecer. isto devia tanto fazer-nos reflectir.)


 

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Friday, September 29, 2023

Golda, esta vida dava um outro filme

A 6 de outubro de 1973, o estado de Israel foi atacado pelo Egipto e pela Síria, que aproveitaram o facto de os judeus celebrarem o seu mais importante feriado, o Yom Kippur. As principais actividades militares aconteceram na Península do Sinai e nos Montes Golan. Apanhado de surpresa, Israel demorou a reagir. Durante os 20 dias que durou a guerra do Yom Kippur, como ficou conhecida, Israel perdeu perto de 2.800 militares. Mais de 8.000 ficaram feridos. 293 israelitas foram feitos prisioneiros. O país perdeu ainda perto de mil tanques, mais de 100 aviões e dois helicópteros. As estimativas para as perdas do lado árabe são ainda mais terríveis, referindo-se cerca de 16 mil mortos, 35 mil feridos e 9 mil prisioneiros. Apesar de, no final, Israel ter conseguido travar a ofensiva e repor as suas fronteiras, a guerra iria manchar a reputação da primeira-ministra, Golda Meier. Acusada de falta de preparação e de não ter conseguido reagir com maior rapidez, o que poderia ter impedido os avanços iniciais dos árabes e reduzido drasticamente o número de baixas, a primeira-ministra foi ilibida pela Comissão Agranat, que investigou a sua responsabilidade nas falhas na defesa. Apesar disso, Golda acabaria por resignar em abril 1974. Morreu em 1980, devido a um linfoma.


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Não percebo muito do que se passa em Israel, com muita pena minha. Sei o básico sobre a diáspora dos judeus, expulsos da "Terra Santa" séculos antes de Cristo, e sobre o sionismo, o movimento que, desde o século XIX, defendeu a criação, nesse local original, de um estado para os "filhos de Israel". Golda Meier era sionista.  Nascida na Ucrânia em 1898 e educada nos Estados Unidos, mudou-se para a Palestina em 1921, para morar num kibbutz e participar na vida comunitária e, mais, tarde, instalou-se em Jerusalém, onde iniciou a sua carreira política. Defendeu os refugiados judeus durante a Segunda Guerra Mundial e foi uma das duas mulheres que, em 1948, assinaram a declaração da fundação do estado de Israel. A partir daqui tudo me parece demasiado confuso. Os estados árabes vizinhos nunca aceitaram o novo estado e seguiram-se diversos conflitos armados, nos quais se disputaram quilómetros de território e se redefiniram fronteiras. Nascido em grande parte da culpa ocidental, após o Holocausto, Israel acabou por se tornar (e cada vez mais) um país pouco democrático, excessivamente militarizado e com práticas humanitárias muito duvidosas no que toca ao tratamento da comunidade palestiniana.


A nós, portugueses, no nosso cantinho da Europa sem grandes chatices desde o século XII (houve os espanhóis e os franceses, pois sim, mas nada a ver), pode parecer-nos um pouco estranho que povos vizinhos se odeiem tão visceralmente por causa de diferentes religiões e diferentes etnias, que se matem por uns metros de terra a que possam chamar seus. E, no entanto, isto acontece ainda hoje na Ucrânia, no Nagorno-Karabakh, em Israel, em tantos outros sítios do mundo. Valerá tudo isto a pena?, é sempre o que me pergunto. Este ódio, estas mortes farão sentido?


Para Golda esta seria seguramente uma não-questão. A guerra impõe-se. Não admite recusas. 


50 anos depois do início da guerra do Yom Kippur, chega aos cinemas Golda, o filme realizado por Guy Nattiv e protagonizado por Helen Mirren, que retrata este período. Aqui encontramos Golda, figura imponente, cara enrugada, poucos sorrisos. Os cabelos brancos apanhados. O cigarro permanentemente acesso. Cigarros atrás de cigarros. Uma mulher doente, mas que não se queixa. Uma mulher habituada a tomar decisões mas, ainda assim, com dúvidas. Implacável com o inimigo mas que sofre com as mortes dos seus soldados, sofre pelas mães que perdem os seus filhos. 


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O filme não nos dá muitas informações biográficas, o que é uma pena, na minha opinião, porque me parece que ela teve uma vida e tanto. Não é tanto um filme sobre ela quanto um filme sobre ela nesta situação. Uma mulher à frente do seu país. Uma líder num momento de crise. Que cozinha bolos para as reuniões com os ministros do seu governo, onde decide ataques mortais. Que recebe Kissinger, o secretário de Estado norte-americano (interpretado por Liev Schreiber), na cozinha e o obriga a provar o borscht feito pela empregada, enquanto negoceiam aviões de guerra. 


Fez-me lembrar um pouco A Hora Mais Negra (2017) que mostrava Churchill em 1940 quando as tropas alemãs encurralavam as tropas britânicas em Dunquerque e o parlamento exigia a demissão do primeiro-ministro acusando-o de estar a ser demasiado brando com os nazis. 


A escolha de Helen Mirren foi criticada por alguns sectores que preferiam ver uma actriz judia no papel. Polémicas à parte, Mirren é uma excelente actriz e consegue, por baixo de todas as camadas de caracterização, fazer uma óptima interpretação de Golda. No entanto, apesar de alguns momentos bem conseguidos, o filme acaba por ser bastante repetitivo, com os seus mil planos de mapas, cinzeiros cheios e cigarros a arderem. É uma pena, porque, como já devem ter percebido, este é um tema que me interessa e eu queria mesmo ter gostado mais.

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Sunday, May 28, 2023

A história que se repete, incessantemente

Apanhei por acaso o filme O Pianista, de Polanski, na televisão. Nunca tinha visto O Pianista, o que é algo bastante incompreensível. Por causa do filme e porque estive a corrigir um trabalho do meu filho sobre o Hitler, voltei a deparar-me com as explicações, as descrições e as imagens da Segunda Guerra Mundial. Fico sempre transtornada. Pensar que aquilo aconteceu há tão pouco tempo, que aconteceu aqui tão perto. Por mais que já tenha visto e lido e pensado sobre este tema, a maldade dos homens não pára de me surpreender e de me entristecer. Podia dizer o mesmo sobre outros acontecimentos, outros conflitos, outras atrocidades, claro. É tudo horrível. Ainda no outro dia estava a ver o A Oeste Nada de Novo, sobre uma guerra mais antiga, e a revolta a crescer cá dentro. Sinto o mesmo ao ver as notícias e as imagens da Ucrânia, no nosso tempo. Uma incompreensão enorme, um ódio pelos senhores da guerra, o medo. Sim, o medo. E esta sensação de que não aprendemos nada, de que não existe um fio da história, existe um emaranhado de fios e estamos sempre a voltar atrás.


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Ontem, li esta notícia sobre um bailarino ucraniano, Rostyslav Yanchyshen, que morreu a defender o seu país. Talvez um dia façam um filme sobre ele como fizeram sobre o pianista  Wladyslaw Szpilman.


Evito ver muitas notícias sobre a guerra porque me perturbam imenso. Não consigo não imaginar como será de repente o nosso país estar em guerra. De um dia para o outro. Porem-te uma espingarda na mão e vai lá matar o inimigo. Ver a nossa cidade destruída. Ter de fugir. Não ter o que comer. Ver as pessoas de que gostamos a morrer. Há mais de um ano que vivo com este sentimento de que não estamos seguros.


Não era nada sobre isto que tinha pensado vir aqui escrever hoje. Até nem ando infeliz com a vida, nem nada disso. A culpa é d'O Pianista. Devia ter ido a ver o novo filme da Disney para entrar no grande debate do momento sobre de que cor é verdadeiramente a pele das sereias, em vez de me pôr a pensar na guerra.


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Tuesday, April 25, 2023

25 de Abril: da importância de lembrar o passado e cuidar do futuro

No 25 de Abril de 1974 eu já andava por aí, na barriga da minha mãe. Nasci em liberdade e tenho muita noção do quão privilegiada sou por isso. Cresci a ouvir as histórias dos meus pais e dos meus avós, a saber da fome e do medo, da guerra e da opressão, da pobreza e da falta de perspectivas de futuro. Cresci sabendo que comigo seria diferente. Que na minha escola todas as crianças tinham sapatos nos pés. Que votar no dia das eleições é um direito, um dever e uma enorme alegria. Que podia discordar. Sou filha da escola pública e do serviço nacional de saúde, da Comunidade Económica Europeia e dos sonhos que se poderiam realizar: "Não somos ricos nem temos cunhas, mas se estudares e trabalhares podes ser o que tu quiseres", disse-me o meu pai. Eu estudei e trabalhei e aqui estou. Sou o que quero (e se não sou mais é porque não soube sê-lo). 


Há dias em que isto faz tudo sentido.


Nos últimos dias andei a recolher testemunhos de pessoas muito fixes sobre o significado pessoal desta data.


Ontem estive no Palácio de Queluz a ver o Chico Buarque a receber o Prémio Camões e tive que me controlar para não deixar cair uma lagriminha. 


Hoje, irei descer a avenida, encontrar amigos e dar abraços. 


Gosto muito do dia 25 de Abril. Estou geralmente feliz. Emociono-me de todas as vezes que ouço o "Grândola". Sorrio sempre ao ver as imagens dos militares nas ruas, da multidão em êxtase, dos cravos. Sinto uma enorme gratidão e ao mesmo tempo o receio de que tudo isto seja demasiado frágil, às vezes tenho a sensação de que não estamos a cuidar tão bem quanto deveríamos da nossa democracia. Pergunto-me se faço o suficiente. 


Esse questionamento também é uma das heranças do 25 de Abril.


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Populares saudam os militares no dia 25 de Abril 

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Friday, February 24, 2023

Um ano depois, ainda a tentar perceber

"Não há dúvidas de que o comunismo foi uma época terrível para a Rússia, mas o que temos hoje ainda é pior", escreveu Anna Politkovskaya em 2004. Pouco depois, em 2006, a jornalista russa foi assassinada à porta de casa. Tinha 49 anos e dedicara grande parte da sua carreira a denunciar as atrocidades e as injustiças cometidas no seu país, em particular na Chechénia. O livro A Rússia de Putin foi publicado em Portugal no ano passado e é um documento incrível e uma premonição. Estava lá tudo. O fim do comunismo e a tentativa fracassada para construir uma democracia. O poder enorme dos olicargas e das máfias. O desprezo de Putin pelo seu povo. A guerra como forma de manter o poder. A ambição desmedida. A corrupção incrustada na sociedade. A lei do mais forte. Os líderes ocidentais a fecharem os olhos e a darem apertos de mão, porque também lhes convinha. A pobreza das pessoas. O desalento. E, por fim, a necessidade de denunciar, de continuar mesmo sabendo - porque tinha que saber, porque ela própria contou essas histórias - que quem desafia o poder põe a sua vida em risco.


A luta contra a corrupção e por uma democracia do povo era a bandeira de Alexei Navalny. O advogado e político russo, da oposição, seria o maior concorrente a Vladimir Putin nas eleições presidenciais. Mas foi preso várias vezes e foi alvo de uma tentativa de assassinato, por envenamento, em agosto de 2020. O documentário Navalny, que está disponível na HBO e que está nomeado para um Óscar, encontra-o precisamente durante a recuperação, na Alemanha. Apesar de estar longe de casa, Navalny e a sua equipa continuaram a fazer oposição, determinados em fazer com que o mundo soubesse a verdade sobre a Rússia e sobre Putin, convictos de que o apoio internacional poderia evitar o pior. Talvez tenha sido assim: Navalny foi novamente preso no momento em que aterrou na Rússia e, desde então, tem sido certamente torturado e mal tratado de muitas formas; mas não foi morto. O documentário termina com a sua prisão, a 17 de janeiro de 2021, com as imagens incríveis de uma multidão que o esperava feliz mas acabou a levar bastonadas, com os telemóveis a gravarem a detenção de um cidadão apenas porque criticava o governo e denunciava os abusos de poder.



Passa hoje um ano sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia. Uma guerra que está longe de terminar. E se há coisa que este livro e este filme deixam bem claro é que esta guerra não foi uma surpresa para quem acompanhava o que se passava na Rússia. E é por isso que quase todos os líderes ocidentais são culpados disto que veio a acontecer - por terem sido coniventes com uma ditadura, por não terem sabido impor os limites quando deveriam tê-lo feito. Já vimos isto acontecer antes, que nos sirva de lição para o futuro. Com ditadores não pode haver diálogo.


Hoje é um dia bom para ler jornais e para percorrer os sites de informação. Há muita coisa boa para ler e para ver. Escolham bem as vossas fontes de informação e aproveitem. Há muitas histórias bem contadas, histórias de pessoas reais, de gente como nós que foi apanhada no meio de uma guerra. De gente que poderemos vir a ser nós, um dia destes.


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Mariupol, 9 de março de 2022


Fotografia de Evgeniy Maloletka/AP

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Friday, November 18, 2022

Vigiar e punir? Resistir ao cansaço e questionar o sistema, com a ajuda de Angela Davis

Quem vir o meu Instagram há de achar que a minha vida é um rodopio de comidas e festas, de espectáculos e passeios. É a chamada ilusão das redes sociais. Gosto de guardar naquele cantinho as coisas boas que me acontecem, algumas publicações quase sem explicação para os outros, só pequenas dicas para mim, para que um dia mais tarde, ao olhar para as imagens, me consiga lembrar: foi neste dia que estive com esta pessoa, foi neste sítio que me senti feliz. Um pouco como sempre fiz com os meus álbuns de fotografias, os meus álbuns que ultimamente tenho desleixado (mas ainda não perdi a esperança, ainda vou organizar estes últimos anos todos em álbuns, ainda vou!). Tenho esta pequena obsessão com a memória. Esta vontade de guardar tudo. Não coisas, não objetos. Guardar os pensamentos, os sentimentos, as sensações, as pessoas, os sítios, as vivências. E é também por isso que venho aqui escrever, talvez não tanto como gostaria, às vezes mesmo só porque sim, porque sei que a memória nos prega partidas e que, se não apontar aqui ou não publicar no Instagram, é provável que me esqueça e eu não quero esquecer a alegria que foi aquela noite com a Angel Olsen, ou aquele jantar com amigos, a maravilha do documentário sobre a Cesária Évora, a corrida para chegar horas ao "Perfect Match" dos Hotel Europa, o cansaço extremo que quase me fez sentar no chão a meio do concerto dos Bon Iver.


É que, feliz ou infelizmente, a vida não é só Instagram. A vida também é trabalhar, limpar a casa, dobrar meias, ir ao supermercado, fazer comida, arranjar marmitas, zangar-me com os putos, orientar estudos, pagar contas, ligar ao canalizador, mudar a areia do gato, ter insónias, pôr o despertador para as 6:30, arranjar ainda mais trabalhos. Há dias (semanas) em que julgo que não vai ser possível fazer tudo. Que me dói o ombro por causa das muitas horas ao computador. Que os olhos quase se fecham a meio de um texto que tenho de escrever. Que estou tão cansada que vai tudo corrido a pizzas e hambúrgeres e os putos começam a queixar-se que não têm roupa lavada. Que me vejo tão aflita que, mesmo com bilhetes comprados, só me apetece ficar embrulhada numa manta no sofá.


Aconteceu-me na terça-feira. Atolada em trabalho, com o corpo moído e a cabeça feita em água, tive que inventar forças que não tinha para vestir um casaco e me meter no metro.


Ainda bem que fui.


E venho aqui escrever porque não quero mesmo esquecer a felicidade que senti por me ter sentado, numa cadeira apertada lá no cocuruto, num Tivoli lotado para ouvir as palavras sábias da Angela Davis e da Gina Dent. Angela, americana de 78 anos, militante de esquerda, anti-racista e feminista, pela igualdade de todos e pelos direitos civis, e, também, abolicionista. Gina Dent, que eu não conhecia até há poucas semanas, investigadora, activista e parceira de Angela. Que duas mulheres maravilhosas. Sensatas. Inteligentes. Curiosas. Atentas. Claras. Num mundo povoado por estrelas que vêm a "summits" debitar "talks" mil vezes repetidas e ensaiadas, é inspirador ouvir duas pessoas que têm tanto para dizer mas que também páram para ouvir, que perguntam, que querem saber. Que não mandam bitaites, apoiam-se em investigação. Que duvidam e põem-se a si mesmas em causa. E até dou de barato que tenham ideias polémicas ou utópicas. A igualdade e a liberdade para todos são, ainda, utopias. Imaginar um mundo sem sistema prisional e policial é de, facto, muito complicado, para nós que estamos aqui muito bem instalados na nossa vidinha, achando que as coisas são como são e pronto. "As prisões foram tão naturalizadas que nem pensamos que poderíamos existir sem elas", alertou Angela Davis. Mas, se não imaginarmos e se não pensarmos o que é que teremos de fazer para que a abolição seja possível, então é que nunca irá acontecer. 


Angela Davis e Gina Dent lembraram que as prisões não existiram sempre. E é até engraçado perceber como as prisões surgiram como alternativa positiva em relação àquilo que existia antes: a condenação à morte ou os castigos físicos violentos. As prisões eram o sítio onde os criminosos esperavam pela condenação e passaram a ser a própria pena. Ela explica isso no livro Estão as prisões obsoletas?. Isto é tudo muito recente. Foi preciso primeiro estabelecer o direito universal à liberdade para que se considerasse que tirar a liberdade a alguém poderia ser um castigo em si mesmo.


Depois, questionaram: para que servem as prisões? Unicamente para castigar? Não. As prisões servem também, alegadamente, para manter as sociedades mais seguras. Para que a violência desapareça das nossas vidas. E estamos a conseguir cumprir esse objectivo? Nem por isso. "Se estamos a dar uma resposta a um problema, e falhamos, porque é que insistimos nessa resposta?", interrogou Angela Davis nessa noite.


"Há quem acredite que as prisões são sítios violentos porque os presos são violentos, mas na verdade as prisões são locais violentos por causa da violência do sistema prisional." A violência do encarceramento. A violência da força policial. A violência da existência de armas, da linguagem usada, das regras estabelecidas. E ainda sublinhou um outro facto: apenas uma pequena percentagem de pessoas está presa por crimes violentos. A maioria está presa por delitos menores, por reincidir, por desrespeito a regras (por exemplo, da imigração).  


Perguntemo-nos, então: o que estamos a fazer - a nível social, educacional, cultural, político, económico, da saúde mental, da integração, da responsabilidade social - para prevenir a ocorrência desses delitos? O que estamos a fazer para reabilitar e reintegrar as pessoas que já passaram pela prisão, para que não voltem? Acreditamos mesmo que o nosso sistema prisional não se limita a ser punitivo, é também um sistema de empoderamento e de melhoramento dos indivíduos?


E podemos ir ainda mais longe, como ela vai: "Há pessoas que quando nascem já estão condenadas à prisão, são criminosos à nascença", disse. Porque existe o contexto e a desigualdade e todas as circunstâncias que nos moldam e condicionam. Porque nem todos os que cometem o mesmo crime têm a mesma pena. Porque existem crimes em relação aos quais somos mais condescendentes. Porque existem as questões raciais, culturais, de género, de nacionalidade, de classe. Porque existe a injustiça, o preconceito, o abuso de poder. 


Por fim: as prisões existem e são cada vez mais e estão cada vez mais cheias porque existe um "sistema industrial de prisões", as prisões são já parte do capitalismo - dão lucro, dão emprego, fazem a "máquina" funcionar. É difícil acabar com as prisões da mesma forma que é difícil acabar com os combustíveis fósseis ou com a exploração laboral - porque há muita gente com muito a poder a ganhar muito dinheiro com isto.


Se calhar, disseram elas, "temos que repensar o que significa sentirmo-nos a salvo (safe) e sentirmo-nos em segurança (security)". Se calhar,  temos que nos perguntar como é que lidamos com os problemas criados pelo capitalismo e em que mundo queremos viver? Se calhar, "não é preciso só abolir as prisões, é preciso criar uma nova sociedade, é preciso uma revolução". E, sim, sabemos que não vai acontecer já, mas podemos imaginar como é que seria viver num mundo assim, sem prisões, sem polícias, sem exércitos, sem guerras, sem armas, e podemos tentar começar por algum lado.


E eu nem estou a dizer que concordo com tudo o que ouvi. Teria que pensar mais amadurecidamente sobre o assunto para poder defender a abolição das prisões. Mas é tão bom questionar ideias feitas, é tão bom pensar e duvidar e procurar soluções. Sim, ainda bem que fui. 


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Estes são os livros que tenho de Angela Davis. Comprei propositadamente mas acabei por não conseguir ler o Abolition. Feminism. Now., porque me meti em trabalhos e tenho mesmo andado muito ocupada, mas, depois disto, fiquei ainda com mais vontade de lê-lo.


Se quiserem, podem ver a sessão com Angela Davis e Gina Dent AQUI.

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