Revolução
Lembro-me da minha avó, vestida com roupa de domingo, colar de pérolas de plástico ao peito, o cabelo arranjado, pronta para ir votar. Ia de cabeça levantada, um orgulho tremendo, uma alegria indisfarçável por poder ir depositar o seu voto na urna.
Lembro-me da minha avó que lia o jornal de uma ponta à outra e lia sempre os meus artigos, fossem sobre o que fossem, a minha avó que tinha apenas a segunda classe, escrevia com erros e apontava as receitas que via na televisão com uma letra quase incompreensível. A minha avó que nos dizia "estudem para não serem como eu", estudem para serem independentes e mandarem na vossa vida. Estudem para não terem que se sujeitar.
Lembro-me da minha avó que me falava da pobreza, da comida que faltava, da casa sem condições, da costura que a mantinha acordada pela madrugada para ganhar uns quantos tostões. Que se lembrava dos rapazes que morreram na guerra colonial e de que como era preciso falar baixinho porque nunca se sabia quem estava a ouvir.
Não, antigamente não era melhor.
Às vezes esquecemo-nos. Damos os nossos direitos por adquiridos. Achamos que já não há por que lutar. Às vezes distraímo-nos. Porque temos sol e praia e subsídio de férias e licença de maternidade e creches e supermercados com muitas marcas e centros comerciais abertos todos os dias e publicamos fotografias bonitas no instagram e vamos mandar bocas para o twitter e achamos que está tudo bem. Distraímo-nos e quando damos por nós foi-se a habitação, a saúde, a educação, a paz, não tarda nada está a ir-se também o pão e todos os outros direitos que julgávamos tão seguros como o da opinião e da expressão.
A liberdade é frágil.
É por isso que temos de permanecer atentos e interventivos. A revolução fazêmo-la nós, todos os dias. Não são precisos tanques nem metralhadoras. As armas são a nossa consciência, as nossas palavras e os nossos actos. Basta de sermos amorfos. Lembram-se do que aconteceu à nêspera?
No largo acompanham-me neste processo revolucionário em curso:
Labels: 25 de abril, Família, largo, memórias, política

2 Comments:
👌
É certo, não podemos distrair-nos. Porque a perder as conquistas de Abril já estamos, basta reparar no que acontece na Saúde ou na Educação. E lá cantava Sérgio Godinho, "a paz, o pão, educação, saúde...". A paz que julgámos indestrutível, que é feito dela?!
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