Monday, October 20, 2025

Pulso

A minha mãe usava uma pulseira elástica no pulso direito, o seu único pulso, cansado e desgastado por ser o único há tanto tempo, por ter de fazer sozinho o trabalho de dois. Era uma pulseira castanha que ela apertava com a ajuda dos dentes, como fazia tantas outras coisas, porque arranjara maneira de fazer quase tudo, teimosa como era, determinada a não dar parte de fraca, para que nunca a olhassem como uma aleijada, de tal maneira que cresci a achá-la completa, de tal maneira que quase nos esquecíamos, que quando alguém me perguntava, então a tua mãe?, eu era apanhada de surpresa, porque não a via como alguém com uma falta. Era isso que a deixava feliz. Essa aparente normalidade. Acho que só percebi verdadeiramente a dimensão disto muito mais tarde, já crescida, já com filhos meus, quando lhes pegava ao colo, quando os embalava, quando os alimentava, quando lhes dava banho. A falta de um pulso não é só a falta de um braço, que se compensa pedindo braços emprestados aos que te rodeiam. É uma falta maior. É a falta de tudo o que não podes fazer porque um bebé não é uma toalha que queres dobrar e basta pegar uma das pontas com os dentes para desenrascar. Há faltas que doem mais do que outras e esta deve lhe ter doído de maneiras que nunca saberei porque nunca falámos sobre isto, entretidas que andávamos a fingir que nada nos faltava.


Hoje é o dia da nossa mãe. Aqui está ela, linda, fotografada pelo nosso pai, o único com quem falava sobre tudo, o único que a conhecia totalmente, acho. 


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Achei que esta semana ia falhar no largo, mas hoje acordei com isto para dizer e acho que ainda vou a tempo. Há pulsos mais arrebitados por aqui:


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Saturday, September 27, 2025

Ponto-de-cruz

Uma coisa incrível que aconteceu este verão foi eu voltar a bordar em ponto de cruz.


Eu digo voltar, mas na verdade nunca bordei grande coisa. Quando éramos pequenas, a minha mãe tentou ensinar-nos. Nas tardes de agosto, colocávamos cadeiras, daquelas baixinhas, no corredor que dava para o quintal, um lugar onde tínhamos luz e não muito calor, e ali nos sentávamos com o quadrilé no colo a tentar não errar os pontos. A minha mãe bordava com extrema perfeição. Acho que na altura não lhe dávamos o devido valor e até achávamos aquilo um bocadinho aborrecido. Eu nunca fui muito boa com agulhas e linhas e tenho muito pouca coisa para mostrar. Já a minha mãe, com uma só mão, mas com a ajuda de um bastidor, bordava toalhas de mesa de jantar, panos de tabuleiro, almofadas, quadros que pareciam pinturas e, depois, para os netos, lençóis, fraldas, babetes, toalhas. Não guardei tudo, mas as toalhas de mesa são autênticas preciosidades que gosto de usar em dias festivos, com um grande orgulho. 


Há muitos, muitos anos que não bordava. Mas, nas férias em Ferreira, animada pelo facto de ter duas amigas grávidas, fui até ao sótão ver o que havia por lá, resgatei revistas e caixas de linhas de todas as cores, e decidi experimentar. É engraçado perceber como há coisas que estão guardadas em nós e que parecem esquecidas mas, ao fim de uns quantos pontos, de uns enganos, desmancha e faz de novo, de repente já conseguia avançar sem medos. Fiquei mesmo feliz. Continuo a odiar rematar as pontas e tenho a certeza que a minha mãe ficaria chocada ao ver os avessos, que eu até acho que não estão nada mal, a sério, estão bastante decentes, mas não completamente perfeitos. 


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Diverti-me bastante durante o processo. Bordar exige uma atenção extrema, não dá para estar a ver televisão ou a conversar enquanto se contam pontos minúsculos, por isso é quase como um exercício de meditação. As horas passavam e eu nem dava por elas, de tal forma absorta estava, sem olhar para o telefone e sem distracções.


E o melhor de tudo foi poder oferecer às minhas amigas algo bonito e que foi feito por mim. Tenho umas ideias para fazer mais umas coisitas para os bebés quando tiver tempo, mas não sei se irei bordar muito mais. De qualquer forma, já valeu a pena.

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Friday, September 26, 2025

Alma minha

A primeira vez que andei de avião foi em 1991, quando no final do 11º ano fomos à Alemanha num intercâmbio do liceu. Conseguem imaginar a excitação? Um grupo de miúdos vindos do Alentejo profundo a delirar com os toalhetes para lavar as mãos e as marmitas com lombo de salmão. Só voltei a entrar num avião quando já estava a trabalhar. Sou do tempo em que ainda se podia fumar lá atrás, ao pé das casas-de-banho; em que se servia café e amendoins à borla a bordo; em que ninguém nos tentava impingir raspadinhas. Depois vieram as low cost. Tornou-se quase corriqueiro. Malas de rodinhas a deslizar pelos aeroportos de todo o mundo, embalagens de champô em miniatura, check-in online. Vou de fim-de-semana a Paris como quem vai ao Algarve. Mas há coisas que não mudam: sempre (sempre) que sinto o avião a descolar, a lançar-se com mais ou menos turbulência nos céus, toda eu por dentro me agito e revolto, atacada por uma sensação de insegurança, um e se for desta?, e se for desta que isto corre mal e acaba-se tudo já aqui? Fecho os olhos e respiro. Não faço cenas, não entro em pânico. É só um pensamento que se atravessa à minha frente e ao qual não consigo escapar. E não vale a pena falarem-me das estatísticas e virem dizer-me que tinha mais hipóteses de morrer na A2 do que num avião. Não adianta tentar racionalizar. É o que é. E é assim. Passados esses momentos iniciais, depois de tapar o nariz umas quantas vezes para desentupir os ouvidos, geralmente consigo abstrair-me do facto de estar a dez mil metros de altitude. A não ser que aquilo comece tudo a abanar e se acendam as luzes para pormos os cintos, os assistentes apressados a mandarem-nos recolher as mesinhas. Ladies and gentlemen, this is your captain speaking. Se fosse uma pessoa de fé, este seria o momento para me pôr a encomendar esta alma ao criador. Como não, respiro outra vez profundamente e tento disfarçar. Só descanso novamente quando sinto os solavancos das rodas a baterem na pista. Aliviada, só não me ponho a bater palmas como fiz em 1991 porque entretanto alguém me explicou que isso era um bocadinho foleiro. 


Já passou. 


Pelo menos até à próxima.


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Não fotografei essa primeira viagem de avião. Outros tempos, não havia telemóveis e não nos lembrávamos de fotografar tudo e mais alguma coisa. Mas guardei alguns bons momentos num dos meus queridos álbuns. 


*


Há outras almas a vaguear pelo largo:


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Friday, September 12, 2025

Revolução

Lembro-me da minha avó, vestida com roupa de domingo, colar de pérolas de plástico ao peito, o cabelo arranjado, pronta para ir votar. Ia de cabeça levantada, um orgulho tremendo, uma alegria indisfarçável por poder ir depositar o seu voto na urna.


Lembro-me da minha avó que lia o jornal de uma ponta à outra e lia sempre os meus artigos, fossem sobre o que fossem, a minha avó que tinha apenas a segunda classe, escrevia com erros e apontava as receitas que via na televisão com uma letra quase incompreensível. A minha avó que nos dizia "estudem para não serem como eu", estudem para serem independentes e mandarem na vossa vida. Estudem para não terem que se sujeitar.


Lembro-me da minha avó que me falava da pobreza, da comida que faltava, da casa sem condições, da costura que a mantinha acordada pela madrugada para ganhar uns quantos tostões. Que se lembrava dos rapazes que morreram na guerra colonial e de que como era preciso falar baixinho porque nunca se sabia quem estava a ouvir.


Não, antigamente não era melhor.


Às vezes esquecemo-nos. Damos os nossos direitos por adquiridos. Achamos que já não há por que lutar. Às vezes distraímo-nos. Porque temos sol e praia e subsídio de férias e licença de maternidade e creches e supermercados com muitas marcas e centros comerciais abertos todos os dias e publicamos fotografias bonitas no instagram e vamos mandar bocas para o twitter e achamos que está tudo bem. Distraímo-nos e quando damos por nós foi-se a habitação, a saúde, a educação, a paz, não tarda nada está a ir-se também o pão e todos os outros direitos que julgávamos tão seguros como o da opinião e da expressão. 


A liberdade é frágil.


É por isso que temos de permanecer atentos e interventivos. A revolução fazêmo-la nós, todos os dias. Não são precisos tanques nem metralhadoras. As armas são a nossa consciência, as nossas palavras e os nossos actos. Basta de sermos amorfos. Lembram-se do que aconteceu à nêspera? 


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No largo acompanham-me neste processo revolucionário em curso:


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Friday, June 20, 2025

Caramelo

Quando eu era pequena, Espanha era o Rosal de La Frontera, uma terra que fica do outro lado da fronteira de Vila Verde de Ficalho, a uma hora e meia da minha terra. Nunca lá fui, mas de vez em quando alguém ia a Espanha fazer compras e voltava com embalagens enormes de gel de banho e detergentes para a casa. Isto foi antes da União Europeia, claro, ainda havia fronteiras e ir a Espanha, ainda que fosse só ali ao lado e que não fosse preciso passaporte, era uma aventura. Nesses dias, ficava à espera que o carro da dona Fátinha estacionasse à nossa porta, em pulgas para saber que coisas maravilhosas a minha avó teria comprado. Vinha o porta-bagagens cheio. De lá me trouxeram bonecas várias, tabletes gigantes de chocolates com avelãs, pacotes de rebuçados. Lembro-me particularmente de uns rebuçados muito grandes, de caramelo e pinhão, que quase não cabiam na boca e se pegavam ao dentes, dificílimos de comer. Não se vendiam em mais lado nenhum. Nesses tempos, para mim, ir a Espanha era sinónimo de ir comprar caramelos. Ainda hoje, se penso em caramelos é este o sabor que me vem à boca.


Não garanto que fossem desta marca, mas eram mais ou menos assim:


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Porque é sexta-feira, é dia de largo. Eu tenho andado um pouco desleixada, mas esta semana aqui estou, a roer caramelos com estas companheiras:


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Sunday, June 08, 2025

(sem) Terra

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1
Fugi da minha terra assim que pude. Fugi sem olhar para trás. Estava a sufocar ali. Lembro-me que a partir de determinada altura deixei sequer de tentar discutir com os meus pais, limitava-me a contar os dias que faltavam para sair dali, para poder fazer o que me apetecesse, sem me sentir olhada e controlada por toda a gente, sem os dedos apontadores, sem recriminações moralistas. Fugi da minha terra no Alentejo para deixar de ser a filha do senhor professor e poder ser, finalmente, eu. Mesmo que, vai-se a ver, afinal eu não fosse muito diferente em Lisboa do que era ali. Mas isso era irrelevante. A verdadeira mudança aconteceu dentro de mim, na liberdade que tinha para escolher e para ser o que eu quisesse.


2
Não gosto assim tanto da minha terra, não a acho particularmente bonita, não deixei lá grandes amigos, não sinto saudades de nada. Não tenho vontade de voltar para lá. Gostaria muito de ter uma casa no campo, mas não ali. Durante a faculdade, quando os meus colegas iam passar o fim-de-semana à terra, eu dizia que ia a casa. Não gostava da minha terra, mas gostava da minha casa. Depois, quando os miúdos eram pequenos e passávamos grandes temporadas no Alentejo, foi como se fizesse as tréguas com aquela terra. Mas foi sol de pouca dura. Na verdade, não era a terra, era outra vez a casa. A casa dos avós. A casa da tia. Ainda hoje, quando lá vou, ando pouco nas ruas, só fico nestas casas que, não o sendo, são também a minha casa.


3
Não gosto assim tanto de Lisboa, não a acho particularmente bonita, nem limpa, nem agradável. Pelo contrário, cada vez gosto menos. Sinto-me desconfortável na maior parte dos sítios. Há demasiadas pessoas, demasiado trânsito, demasiado lixo, demasiada degradação. De Lisboa gosto sobretudo das pessoas e das oportunidades. As pessoas que me aquecem a alma. As oportunidades para trabalhar e para fazer coisas que gosto de fazer. Moro em Lisboa há mais anos do que aqueles que morei na minha terra, nunca morei noutro sítio, nem sequer temporariamente. E no entanto não adoro morar em Lisboa. Tenho aqui a minha casa, mas Lisboa não é a minha terra.


4
Há pessoas que me perguntam de onde sou mas o que querem saber é onde moro. Ainda assim, não consigo evitá-lo, respondo sempre que sou do Alentejo. Aconteça o que acontecer, é dali que sou. Sou daquela paisagem, daquele sotaque, daquelas vilas brancas, daquela determinada maneira de ser e de viver, que é tão diferente do Norte. Sinto-me em casa no cante alentejano, nas açordas e nas migas, no calor abrasador, na frestas das janelas abertas para deixar entrar o fresco do fim do dia. Sinto-me em casa naquelas terras áridas, nas ruas vazias, no silêncio, naquele sentimento de abandono. 


5
Acontece-me frequentemente. Se o meu pai não atender o telefomóvel, procuro na lista onde diz "casa" e ligo. Só me apercebo do erro quando ouço a voz de algum dos meus filhos do outro lado. Claro que a "casa" da lista telefónica é a minha casa, em Lisboa, e não a casa dos meus pais, no Alentejo, cujo número está devidamente guardado como "casa pais". Mas, algures no meu subconsciente, a minha casa continua a ser ali, na casa dos meus pais, ainda que, na verdade (e isto é o mais impressionante), eu nunca tenha vivido "naquela" que é agora a casa do meu pai, mas noutra, na mesma rua. Esta minha casa-terra não existe. É um lugar puramente afectivo. 


*


Esta semana, no largo, a proposta era escrever sobre "terra". É um conceito estranho para mim. Ainda assim, dei o meu melhor. Na foto lá em cima sou eu. A foto foi tirada pelo meu pai, claro.


Encontram outras "terras" por aqui:


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Thursday, May 01, 2025

Trabalhador (as)

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São mulheres com um sotaque (lindo) do Alentejo. Vejo ali traços das minhas avós e bocados das suas vidas, e só isso já seria suficiente para me comover. São mulheres que nos contam como era a sua vida antes do 25 e Abril de 1974. Umas nunca foram à escola, outras estudaram até à terceira ou quarta classe, começaram a trabalhar com 11, 12, 15 anos, no campo - na apanha da azeitona, na monda, na ceifa - ou então a servir em casa de alguém. Eram crianças ainda e já tomavam conta dos irmãos mais pequenos ou dos filhos das senhoras, faziam a lida da casa, cozinhavam para a família. Casaram virgens e sem saber nada sobre sexo. Serviram os maridos como serviram os patrões: com respeito e obediência. Foram criadas em suas próprias casas, sem pagamento nem reconhecimento. Poucas vezes se questionaram se eram felizes, se poderia ser diferente, se mereciam melhor. Resignaram-se. 


Os vídeos do projecto Antigamente é que era bom estão na página de instagram aifi.lhas e são ao mesmo tempo tristes e belos, mas são, sobretudo, um alerta para que não esqueçamos como era e para não acreditarmos em teorias revisionistas. Muita coisa mudou nestes 51 anos e muita coisa mudou para melhor. Sobretudo para as mulheres.



[Existe um outro projecto muito bonito, o podcast Memória Futura, da Laura Falésia, em que ela entrevista mulheres mais velhas, cada uma com uma história incrível. Fica a dica.]


*


Hoje é dia do trabalhador. E da trabalhadora. A foto lá em cima foi tirada DAQUI. Aproveito para aconselhar que procurem as fotografias que a Maria Lamas tirou às mulheres do nosso país e para lembrar o que escrevi num dia particularmente irritada.  


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Queria aproveitar também para falar do meu trabalho, mas, precisamente, estes têm sido dias muito exigentes, e não estou a conseguir escrever o que gostaria de escrever. Mas fica prometido. Ser feliz no trabalho que escolhemos (ainda que não sejamos felizes todos os dias nem todas as semanas, ainda que por vezes duvidemos de tudo, ainda que muitos dias sintamos que não vale a pena e só nos apeteça desistir) é um privilégio enorme. 


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A propósito, já viram o On Falling?


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No nosso largo só se trabalha por gosto:


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Friday, April 04, 2025

Planta

Os meus colegas mais novos acham que eu sou uma pessoa estranha porque tenho sempre papel e caneta. Quando conversamos e lhes conto que quando comecei a trabalhar não tinha internet, olham-me como se eu fosse um bicho raro. Como é que sabiam o que estava a acontecer?, perguntam-me. Na maior parte das vezes, se não fosse uma coisa mesmo muito importante, não sabíamos. Só mais tarde. Horas mais tarde, dias mais tarde. Mas para nós era normal. Eles não entendem. Tenho que lembrá-los que cresci sem telemóvel. Mais ainda: a minha primeira televisão era a preto e branco e só tinha um canal. E, depois, já era a cores mas só tinha dois canais. Não tinha comando. Tínhamos que levantar-nos do sofá para mudar de canal. Ah ah ah ah ah ah. Sou uma pessoa que venho de um tempo distante, para eles é como se fosse da pré-história. É impossível explicar-lhes como era viver num mundo onde não se podia fazer pausa nem voltar atrás na box para ver o que perdemos. Onde não controlávamos o que víamos, éramos meros receptores. As notícias às 20:00, meia hora depois, a novela brasileira. Os desenhos-animados logo de manhã ou à hora do lanche. A teleculinária antes do almoço. Víamos muita coisa que até não nos interessava assim tanto, mas era o que estava a dar. Ao fim de semana havia os documentários dos animais, o basquetebol da NBA, a fórmula 1. Os programas do Júlio Isidro. O Clube Amigos Disney. Os filmes nas matinés. As séries de ficção científica. E claro que víamos todos os reclames (há quanto tempo não dizia esta palavra?). Naquele tempo, a pasta medicinal Couto andava na boca de toda a gente. Escrevíamos com Bic laranja para escrita fina e Bic Cristal para escrita normal. No natal vinha o coelhinho do chocolate Regina e as Bombokas - “só há uma, é para mim!”. No verão era um Cornetto para mim, um Cornetto para ti, no inverno bebíamos Brasa, a bebida que aquece o coração. Dizíamos bom dia com Mokambo e íamos dormir com o Vitinho. Tenho a cabeça cheia de frases dos anúncios. Posso não me lembrar do que preciso comprar no supermercado, mas, bastam pequenas coisas para, do nada, desatar a cantar, sem me enganar, os jingles da minha infância. Como “É Boca Doce é bom, é bom, é, diz o avô e diz o bebééééé” Ou “Um Bongo, um Bongo, o bom sabor da selva, em cada pacotinho uma festa de oito frutos”. Ou “Aquela máquina!”. Ou “Pa-pa a pa-pa, pa-pa a pa-pa, Cérelac”.


Por isso, quanto a vocês não sei, mas a mim se me falam em planta, só consigo pensar na margarina. Nunca - nunca! - comi pão com Planta, mas isso não fará de mim menos “lambona”.


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Outras plantas que crescem neste largo:


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Thursday, March 13, 2025

Há cinco anos ficámos em casa

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Quando olho para trás e procuro os momentos-chaves, os momentos transformadores na minha vida, penso sempre na vinda para Lisboa e para a faculdade, depois a entrada no jornalismo, depois os filhos, depois o divórcio e, finalmente, a pandemia. Há cinco anos ficámos em casa. Soube logo que ia ser uma experiência marcante, mas não poderia imaginar quanto. Aconteceu tanta coisa. Andámos dois anos às voltas com as máscaras e o álcool-gel. Foi há tão pouco tempo e, no entanto, parece que foi noutra vida.

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Friday, February 28, 2025

Carimbo

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A primeira foi uma borboleta. Já sei que é uma piroseira, mas eu sou um bocadinho pirosa, por isso não me aborreçam. Hoje faria diferente, faria uma borboleta à mesma, mas de outra maneira, mais pequena, mais esvoaçante. Mas hoje sou outra pessoa e aquela borboleta, desenhada sem grande graça, é daquela pessoa que se sentiu a afundar num dia de maio e teve que se reinventar com o que tinha à mão. As pessoas complicam muito esta coisa das tatuagens. Porque “fica para a vida toda, tens de pensar bem”, disseram-me. Ora, ora. Os amores também eram para a vida toda e depois afinal não foram, mas mesmo quando terminam deixam-nos sempre marcas. É isso viver. Acumular marcas no corpo, quer sejam visíveis ou não. Rugas, cicatrizes, sinais, tatuagens, culpas, amores, desilusões, memórias, felicidades. Faz tudo parte. Não dá nunca para apagar aquilo que vivemos, por muito que queiramos, por mais que se lave e se esfregue o corpo com força e com raiva como a Fernanda Torres no filme Ainda Estou Aqui. O meu corpo conta a minha história. Cada carimbo que faço na pele é um capítulo dessa história. A borboleta do divórcio. Os corações que são os meus filhos (ai, que pirosa, outra vez). A liberdade dos 50 (meus e da Revolução), porque ser livre, ser verdadeiramente livre, é das coisas mais preciosas e mais difíceis, e é aquilo que procuro todos dias (falhando sempre, mas cada vez melhor, como dizia o Beckett). Quero fazer mais uma. Já decidi o que será, mas ainda não quando será. A seu tempo. Com alegria.


Quando for velha e enrugada, por entre as peles flácidas e as estrias, as minhas tatuagens dirão de mim tudo o que há para dizer, mesmo que eu já não o consiga lembrar.



Tatuagem, Chico Buarque


*


As minhas companheiras do largo também hão de andar a carimbar por aí:


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Friday, February 07, 2025

Espelho meu

Em cima do móvel, no patamar a meio da escada, estavam as molduras com as fotografias dos casamentos das minhas avós. Sempre que precisava de um cachecol ou uma luvas, lá estavam elas, a preto e branco, a posar felizes com os seus vestidos de noiva. Intrigavam-me aquelas fotos, das poucas que tínhamos das minhas avós antes de serem minhas avós. Como é que a avó Celeste, que ali estava com cabelos negros e compridos e uma postura tão direita, de cintura apertada, se tinha transformado na velhota baixinha e redonda, de cabelo cinzento e ralo, que me descascava a fruta enquanto víamos a novela da noite? Aquelas fotos provavam que elas já tinham sido novas. E lembravam-me que, como elas, eu também seria velha. Eu, que herdei as ancas largas da minha mãe, que herdei os dedos esguios e os joanetes da avó Helena, e, dizem, as covinhas na cara e o bom feitio da avó Celeste, serei uma velha que só vagamente dará ares à jovem que fui. Mesmo que as pessoas que nos encontram, depois de anos de ausência, insistam em dizer “estás na mesma”. Não estamos. E isso é bom. Ainda que nos custe um bocadinho sempre que nos olhamos ao espelho.


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Não tenho as fotos dos casamentos, mas volto muitas vezes a esta foto. Aqui estamos todas. Eu e os meus espelhos. 


 


"Espelho meu" é o segundo texto do nosso colectivo ainda sem casa, mas nem por isso menos activo. O primeiro texto foi sobre "Espalhar-se ao comprido".  


Outros espelhos aqui:


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Tuesday, December 31, 2024

“Posso morrer porque amei e fui amada"

Estive com a Adília Lopes uma única vez, há mais de vinte anos, num ensaio do espectáculo A Birra da Viva, de Lúcia Sigalho. Queria lembrar-me melhor desse espectáculo, desse momento. Tenho tão boas memórias das noites passadas no Armazém do Ferro. A Lúcia Sigalho e a Mónica Calle foram uma revolução na minha vida. Eu era ainda uma miúda, mal tinha começado a pensar nestas coisas, e elas a fazerem espectáculos sobre isto de ser mulher, a dizerem-me que o importante é sermos quem realmente somos, assumirmos os nossos desejos e deitarmos fora a culpa, elas a mostrarem-me o caminho. Devo-lhes tanto. Foi por causa da Lúcia e desse espectáculo sobre mulheres e mães e sobre corpos que dão vida e morte que fiquei com vontade de ler a Adília. Foi depois de a ver ali, de ouvir a maneira contida, desassombrada, crua como falava, que fui descobrir os seus poemas. A Adília Lopes morreu ontem e eu li a notícia e não queria acreditar. Tinha apenas 64 anos. Fiquei tão triste.  Chorei por ela e por mim e por todas as mortes que ficaram por chorar. 


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“Posso morrer porque amei e fui amada. Gostei de homens, de mulheres, de velhas (de velhos não), de bebés, de bichos, de plantas, de casas, de filmes, de concertos, de quadros, de teorias, de jogos, de pastéis de natas, de jesuítas, de russos, de hamburgers, de Paris e de Londres. Nunca fui a Nova York e gostava de ir, mas não me importo de morrer sem ter ido. Também nunca tive um orgasmo. Não me arrependo de nada. É claro que Nova York não se compara a um orgasmo. Um orgasmo é muito mais importante”


De Irmã Barata, Irmã Batata, de Adília Lopes


(na página 409 de Dobra, poesia reunida, 2021, Assírio & Alvim)

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Sunday, December 29, 2024

Tudo o que imaginamos como luz: a ilusão da cidade

Está nas listas todas de melhores do ano, da Sight & Sound a Barack Obama: All We Imagine As Light - Tudo o que Imaginamos como Luz, filme escrito e realizado pela indiana Payal Kapadia, é ao mesmo tempo lindo e triste, seja na forma como retrata a vida das mulheres, tão condicionadas pelas famílias, pela religião, pela moral, seja no modo como nos mostra aquela cidade, Mumbai, na sua enormidade e na sua pobreza. Uma cidade onde mais de 12 milhões de pessoas se movimentam (conseguem imaginar?) e onde a toda a hora se ouvem carros, buzinas, motores, mil ruídos.


Lembro-me que quando vim estudar para Lisboa, ainda nem 18 anos tinha, a cidade grande apresentava-se como um mundo de possibilidades. Aqui eu poderia ser quem eu quisesse e fazer o que me apetecesse. Andar na rua sem ter que cumprimentar todas as pessoas, sem que toda a gente me conhecesse e controlasse, era exactamente aquilo de que precisava naquele momento. A cidade cumpriu as expectativas. Não sou a maior fã de Lisboa, não consigo ver beleza em todos os seus recantos, mas sei que aquilo que sou hoje se deve em grande parte a todas as experiências que esta cidade me proporcionou. Aos cinemas. Aos teatros. Aos bares. Às ruas. Ao anonimato. Ao trabalho. Às pessoas. À diversidade. 



Para as três mulheres de All We Imagine As Light, Mumbai também representava essa liberdade. Mas as expectativas delas não se cumpriram. Vieram das suas terras para trabalhar no hospital, mas continuam ligadas a tradições, presas por preceitos antigos, dependentes das decisões de outros. A enfermeira Prabha casou com um homem que mal conhecia, escolhido pela família, que depois foi morar a Alemanha e praticamente a abandonou - e no entanto ela mantém-se fiel a este casamento infeliz. A jovem Anu, também enfermeira, apaixonou-se por um muçulmano e namora às escondidas, enquanto os pais procuram um marido para ela e lhe mandam fotografias de pretendentes. A cozinheira Parvaty, a mais velha das três, ficou viúva e agora está em risco de ser despejada porque o marido não lhe deixou os documentos que comprovariam que a casa é dela. O dia a dia delas, entre o hospital e as casas modestas, é molhado - estamos em plena época das chuvas -  e barulhento mas ao mesmo tempo solitário. A cidade acolheu-as, mas não lhes permite serem livres. Só fora dali, quando Parvaty decide voltar para a sua terra e as amigas a ajudam na mudança, é que elas se vão conseguir encontrar a si mesmas. 


All We Imagine As Light é um filme de sensibilidade e poesia, filmado sem pressas, o que deixou algumas pessoas inquietas na sala de cinema, constantemente a olharem para o telefone. Mas é tão bom quando nos deixamos levar por um filme, quando nos permitimos abrandar e esquecer o mundo lá fora. E ficar só ali, a apreciar todos os detalhes. A música. Os silêncios. Um amor a nascer. Os pequenos gestos. A amizade entre três mulheres. Os olhos delas.


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Tuesday, October 29, 2024

O que eu andei para aqui chegar

Tenho andado a organizar álbuns de fotografias. Nos últimos dez anos desleixei-me muito, mas preciso dos meus álbuns. Organizar os álbuns ajuda-me a organizar a memória e isso ajuda-me a organizar a vida. Para outras pessoas não será tão importante. Mas para mim sim. Os álbuns e depois este meu diário em forma de blog e depois ainda a conta de instagram, faz tudo parte desta necessidade que tenho de fixar as memórias, de guardar as coisas boas (e as más, que na maior parte das vezes apenas se subentendem nas entrelinhas, mas eu sei onde estão e quais são), de encontrar (ou criar) uma narrativa. E, depois, folheamos os álbuns e descobrimo-nos felizes, mesmo em alturas em que parecia que tudo corria mal, ali estamos nós a sorrir, tantas coisas que fizemos, tantas coisas que vivemos, tantas pessoas que abraçámos. E até parece que faz tudo sentido.pais.jpg  os meus pais


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IMG_0067.JPG o Dinho e a vovó Ana


IMG_00745.JPG a avó Helena e o avô António


IMG_0061.JPGeu e a minha irmã no jardim


  IMG_0085.JPGa avó Helena, a mãe e a avó Celeste


IMG_0046.JPGeu e a minha irmã na praça


IMG_0002s.jpg a Ia


158_5827.JPG o avô Caetano


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218_1894.JPG a família a crescer


IMG_0642.JPG e a crescer


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(não garanto que esta seja a ordem cronológica das fotos, mas há de ser mais ou menos)

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Saturday, August 24, 2024

De volta à terra

Na feira do livro do ano passado não consegui comprar o Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos porque o livro ficou esgotado em pouco tempo. Parecia que toda a gente andava a ler a Olga Tokarczuk, lembram-se? Acabei por comprá-lo em julho deste ano, numa fnac manhosa no intermarché de Lagos, numa semana em que estive na praia e, sabe-se lá como, ao fim de uns dias já tinha lido os três livros que tinha levado. Não foi fácil. Vinha embalada com a escrita gulosa da Alda de Céspedes, da Alana S. Portero e do Salman Rushdie (de que ainda hei-de falar um dia destes). E de repente encalhei ali em palavras menos comuns, numa escrita mais exigente. Desde logo porque me transportava para uma paisagem agreste e para mim completamente estranha, na Polónia. A autora entretém-se em pormenorizadas descrições da natureza, que me aborreceram. A natureza impõe-se em todo o livro: os animais, as plantas, os montes, a neve. Já para não falar da obsessão da protagonista com a astrologia, um mundo que nada me diz. Acabei por "entrar" no livro e até por simpatizar com aquela mulher, Janina, talvez um pouco "doida", como todos diziam, mas com uma sensibilidade especial e uma enorme capacidade de se dar aos outros, sobretudo os mais frágeis. O livro também retrata bem a maneira como as pessoas estão ligadas numa aldeia, e como os pequenos ódios e as pequenas amizades acabam por ser tão importantes neste microsmos. Confesso que fiquei curiosa para ver que mais escreveu esta autora premiada com o Nobel.


Estava eu a pensar no que iria ler a seguir quando me chegou à caixa do correio A Forasteira, de Olga Merino. Nunca tinha ouvido falar desta autora espanhola e não tinha qualquer referência sobre o livro. Mas algo ali me chamou a atenção. Estava mais uma vez perante uma protagonista feminina, a narrar-se na primeira pessoa. E mais uma vez perante uma mulher que, depois dos desaires da vida, encontra no campo a sua casa. Neste caso, um campo que me pareceu muito familiar. Era em Espanha, mas podia ser no Alentejo. O calor abrasador, a terra ressequida, a aldeia de portas fechadas, as vendas onde os homens bebem ao fim do dia, os suicídios, tudo ali eu conhecia, até a linguagem, com recurso a palavras antigas e até esquecidas mas que me faziam todo o sentido. Angie cresceu nos anos 80, como eu. Conheço as canções que lhe povoam a memória. Percebo a sua vontade partir, de se encontrar longe da aldeia. Percebo a sua vontade de voltar e de se encontrar na aldeia. É como se ela fosse uma velha conhecida, não uma amiga mas alguém com quem me consigo relacionar, porque partilhamos o mesmo mundo, vimos de terras que enfrentam problemas semelhantes com a agricultura e a falta de mão-de-obra e a falta de futuro. Não sei o que é que outras pessoas, com outras experiências, vão achar do livro, mas para mim foi realmente uma boa surpresa.


Completamente por acaso, o livro que li a seguir foi Terrinhas, de Catarina Gomes. Outra vez uma mulher a braços com as suas memórias e com um regresso à terra dos pais. Aqui a terra era outra - mais a norte, mais verdejante e montanhosa, plantada com batatas. Aqui não foi a terra que me conquistou mas foi a descrição exacta de como foi crescer naquele tempo. Os brinquedos, os programas na televisão, a decoração das casas. Aquela contenção que havia, não porque fosse mesmo necessária, mas porque era assim que devia ser. Aqueles pais sempre preocupados com um caminho que fosse um bocadinho mais incerto, "mas depois consegues arranjar trabalho, filha?". Aquele "o que é que as pessoas vão pensar" que orientava a nossa conduta. Outra vez o querer sair e o querer voltar. Este livro é, antes de mais, um grande hino à família e ao que existiu antes e que nos enforma de maneiras que nem sempre percebemos. Podemos tentar fugir, como Janina ou Angie ou Cláudia, mas dificilmemte conseguimos escapar ao nosso passado, tal como não nos conseguimos livrar da terra que se entranha nas unhas e na pele


Eu nunca usei a expressão "ir à terra", até porque nunca tive, efectivamente, uma ligação à terra. Venho do Alentejo mas de terras não sei nada, sou da vila, do alcatrão, das casas muito brancas, das ruas perpendiculares e paralelas. Durante muito tempo ia a casa, porque era ali de facto a minha casa. Depois, quando arranjei uma casa minha, passei a ir a casa dos meus pais ou, simplesmente, a Ferreira. Ainda assim, quando andei à procura de uma imagem para este post decidi roubar ao meu pai esta foto de terra. Cada pessoa tem a sua paisagem-casa. A minha é mais ou menos assim.


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Sunday, August 18, 2024

Sou da geração "brincando aos clássicos"

O primeiro disco que me lembro de termos, eu e a minha irmã, era do Carlos Alberto Moniz e da Maria do Amparo. Lembro-me da capa com ilustrações coloridas, das canções sobre a primavera e os cogumelos, da canção do capuchinho verde contada pela voz do Júlio Isidro. Não tenho dúvidas que se pusesse agora o vinil a rodar seria capaz de acompanhar, cantando quase tudo. Tenho o mesmo sentimento com os discos que tivemos a seguir: os dois volumes do "Brincando aos Clássicos", com a cara de Ana Faria a ocupar toda a capa, e, depois, o "Queijinhos Frescos". Ouvimo-los incontáveis vezes. Tínhamos canções preferidas, claro, mas ouviamo-las a todas, de seguida, acompanhando a audição com a leitura das letras que estavam na contracapa. O Luís, o Luís quer ir a Paris. Oh, Clarinha, olha as pombas, vem, não tenhas medo não. A Rita é catita só irrita a almoçar, ò Rita, a batata-frita não chega para alimentar. Quando acorda de manhã, o Nuno quer ser Tarzan, passear com a Chita, que é uma macaca bonita. Não preciso ir procurar na internet para saber. O João, o João quer ser cowboy ou então, então, super-herói. Ana, tens de dormir, já é tão tarde, dormes a sorrir. Lá vem o Miguel, dos olhos de mel, sempre a cavalgar, a galopar no seu corcel. A Joana, que como eu, adorava o Natal. A Catarina que, também como eu, brincava e corria no recreio. O Zé que jogava à bola. A Marta com os seus ursinhos. O casmurro do Tóino. A Elisa com o seu cheiro a alecrim. O Ricardo com coração de leão. Os "Brincando aos Clássicos" adaptavam música clássica de compositores como Verdi ou Mozart, o "Queijinhos Frescos" era já um passo em frente, com músicas pop, como o Thriller, de Michael Jackson, e letras mais elaboradas, até porque a carreira de Ana Faria acompanhava o crescimento dos filhos, que eram mais ou menos da minha idade. Havia aquela canção que tanto nos fazia rir, "Onde tás ò Zé, vem estudar praqui, estou no balancé e a lição já li, e o que fizeste ao i?", com um sotaque alentejano carregado, mas que não levávamos a mal. Tínhamos onze anos e cantávamos a Ana Faria e a Madonna com a mesma intensidade. Depois vieram os Onda Choc, que foram um enorme sucesso. Era a Ana Faria que adaptava os hits do momento, escrevia as letras e ensaiava os miúdos. Ainda ouvi os Onda Choc, claro, ainda cantei que ele é o reeeei lá do liceu e que ela só quer, só pensa em namorar, mas já não tive esses discos e só me lembro de poucas canções porque entretanto meteu-se a adolescência e os Wham e os Xutos e no Natal pedia era os Polystar. 


A última vez que vi a Ana Faria foi há cinco anos, quando fui entrevistar o marido, que foi seu parceiro musical e produtor dos discos. Nessa altura ela já não estava capaz de dar entrevistas, não me lembro se com Alzheimer ou outra doença mental, mas estava numa sala ao lado, entretida a pintar, e de vez em quando vinha mostrar os quadros que estava a fazer. Foi muito estranho vê-la, a mesma cara que estava nos discos que tanta companhia me fizeram, mas já não era bem ela. Morreu ontem, com 74 anos. É sempre um bocadinho triste quando morre alguém de quem temos tantas boas memórias. 


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Tuesday, May 14, 2024

Coisas que se aprendem na tropa

Sobre a expressão "não páras no armeiro", usada pela minha mãe, o meu pai enviou-me uma explicação possível com os conhecimentos adquiridos na tropa:  "O armeiro era o local apropriado para acomodar as armas durante o descanso dos militares (de noite). As armas saíam do armeiro, pela mão dos militares, quando retomavam a actividade. Portanto, sair do armeiro é ir à luta, parar no armeiro é, simbolicamente, sossego e paz". 


Faz todo o sentido.


Na sequência da conversa, e porque as memórias são como as cerejas, recebi algumas fotografias dos tempos da tropa. Ora vejam lá o giraço:


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Sunday, February 11, 2024

Lisboa do "nosso tempo"

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Na Lisboa dos anos 80, fotografada por Luís Pavão e agora mostrada na exposição "Lisboa Frágil", no Museu da Cidade, há tabernas com balcões peganhentos; rebanhos de ovelhas a passearem por Alvalade; matinés dançantes onde as senhoras se sentavam em fileira, nas cadeiras encostadas à parede, controlando os passos atrevidos dos jovens; colectividades onde se jogava à laranjinha, às cartas, às damas. Parece que foi noutro tempo. E foi mesmo. Os anos 80 foram no século passado, foram há 40 anos, como é possível, é tão estranho pensar que os anos 80, os anos da minha infância, de que me lembro tão bem, estão, afinal, tão distantes de nós, a vida era tão diferente do que é hoje, sem telemóveis, sem internet, sem selfies, sem reels, sem polémicas da treta no twitter nem dancinhas no tik-tok. A vida era toda real, carne, sangue e suor. Para o bem e para o mal. Esta exposição é uma viagem a um mundo que já só existe nas nossas memórias. E, caramba, se me senti velha a percorrer estas fantásticas fotografias. Ainda assim, ou talvez por isso, vale muito a pena.


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Sunday, November 26, 2023

Maradona: o ídolo imperfeito

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Fiquei curiosa sobre o Maradona depois de ter estado em Nápoles e de ter visto a admiração que aquela cidade tem pelo futebolista. Não fazia ideia. Na altura, o Maradona passou-me um bocado ao lado. Eu era miúda e não acompanhava muito a bola e, confesso, na final do Mundial de 1990, que foi mais ou menos quando comecei a gostar de futebol, estava a torcer pela Alemanha. Primeiro, porque eu estudava alemão e o meu liceu tinha um intercâmbio com uma escola em Dortmund que me levou a andar de avião pela primeira vez na vida, portanto, estava numa fase em que até comia salsichas com chucrute e kartoffelsalat; e, depois, porque aquele homem pequenino, atarracado e de penteado piroso não poderia nunca competir com o Lothar Matthaus, não é?


Ontem, que foi o dia de aniversário de Maradona, passou num canal qualquer um documentário sobre o jogador. É um filme realizado por Asif Kapadia, o mesmo que fez os documentários sobre a Amy Winehouse e o Ayrton Senna, usando as milhentas imagens de arquivo, muitas delas de vídeos caseiros. Pus-me a ver. O Maradona a correr que nem um touro selvagem contra tudo e contra todos, a inventar fintas, a passar por entre os adversários e a marcar golos atrás de golos. Parecia imparável. O filme acompanha sobretudo os anos da sua passagem por Nápoles, a relação com a cidade e com a Camorra, a infância pobre e a concretização de sonhos nunca sonhados, as vitórias, o relógio de ouro e o casaco de peles, o filho que não reconheceu, o golo com a mão, as festas e as mulheres, a cocaína, a mulher que aturou isto tudo desde que se conheceram quando eram ainda jovens e pobres, o modo como passou de adorado a odiado pelos italianos. É impressionante também a transformação provocada pelo vício, toda a decadência física. Diego Maradona nunca foi um "menino bem comportado", nem dentro nem fora do relvado. 


A propósito, o Bruno Vieira do Amaral partilhou ontem, no Facebook, um texto sobre o Maradona, onde diz: "Não se pode comparar a nenhum jogador de futebol, por muito talentoso, competente e vitorioso que seja, porque foi muito mais do que um jogador de futebol. Sozinho, personificou a abundância de talento, a criatividade desmesurada e a desgraça previsível de todo um continente. A sua vida foi um épico, uma tragédia e uma farsa, muitas vezes ao mesmo tempo. Foi rei e bobo da corte. (...)  o único território que Diego alguma vez reclamou foi o do coração dos adeptos e o seu único poder era o amor que lhe tinham. Pode-se discutir o que se quiser sobre a qualidade futebolística, comparar títulos e estatísticas, usar argumentos como quem usa floretes, mas ninguém de boa-fé pode contestar uma verdade evidente: nenhum futebolista foi tão amado quanto Maradona."


Também vale a pena ler o que o Marco Vaza escreveu no Público (para assinantes) a propósito da sua morte em 2020.


Continuo sem entender a idolatria, não entendo nenhuma idolatria. Mas deu para conhecer um pouco melhor Diego Maradona. Após a vitória no Mundial do México, o jogador deu uma entrevista televisiva no quarto onde tinha passado o último mês: nas paredes, mostrou orgulhoso, tinha uma fotografia da namorada, uma imagem da Virgem Maria e um poster de uma pin-up em nu frontal. Acho que é um bom resumo.


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Thursday, October 05, 2023

Jon Fosse

Nobel da Literatura para Jon Fosse. Conheço-o pelo teatro. Peças minimalistas, becktianas, quer pela forma quer pelo conteúdo, sempre a questionar o sentido disto tudo, a confrontar-nos com o absurdo do quotidiano. Poucas palavras, repetições, uma musicalidade que nos embala. Angústia, tristeza. Lembro também o seu jeito tímido, quase envergonhado, engolindo as palavras num inglês enrolado.


Dia de lembrar o Jorge e os dias d'A Capital. De agradecer ter vivido o que vivi. A brincar, a brincar, esta pessoa especialista em coisa nenhuma já entrevistou dois prémios Nobel da Literatura. Não está na internet, mas garanto-vos que aconteceu.


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