Tudo o que imaginamos como luz: a ilusão da cidade
Está nas listas todas de melhores do ano, da Sight & Sound a Barack Obama: All We Imagine As Light - Tudo o que Imaginamos como Luz, filme escrito e realizado pela indiana Payal Kapadia, é ao mesmo tempo lindo e triste, seja na forma como retrata a vida das mulheres, tão condicionadas pelas famílias, pela religião, pela moral, seja no modo como nos mostra aquela cidade, Mumbai, na sua enormidade e na sua pobreza. Uma cidade onde mais de 12 milhões de pessoas se movimentam (conseguem imaginar?) e onde a toda a hora se ouvem carros, buzinas, motores, mil ruídos.
Lembro-me que quando vim estudar para Lisboa, ainda nem 18 anos tinha, a cidade grande apresentava-se como um mundo de possibilidades. Aqui eu poderia ser quem eu quisesse e fazer o que me apetecesse. Andar na rua sem ter que cumprimentar todas as pessoas, sem que toda a gente me conhecesse e controlasse, era exactamente aquilo de que precisava naquele momento. A cidade cumpriu as expectativas. Não sou a maior fã de Lisboa, não consigo ver beleza em todos os seus recantos, mas sei que aquilo que sou hoje se deve em grande parte a todas as experiências que esta cidade me proporcionou. Aos cinemas. Aos teatros. Aos bares. Às ruas. Ao anonimato. Ao trabalho. Às pessoas. À diversidade.
Para as três mulheres de All We Imagine As Light, Mumbai também representava essa liberdade. Mas as expectativas delas não se cumpriram. Vieram das suas terras para trabalhar no hospital, mas continuam ligadas a tradições, presas por preceitos antigos, dependentes das decisões de outros. A enfermeira Prabha casou com um homem que mal conhecia, escolhido pela família, que depois foi morar a Alemanha e praticamente a abandonou - e no entanto ela mantém-se fiel a este casamento infeliz. A jovem Anu, também enfermeira, apaixonou-se por um muçulmano e namora às escondidas, enquanto os pais procuram um marido para ela e lhe mandam fotografias de pretendentes. A cozinheira Parvaty, a mais velha das três, ficou viúva e agora está em risco de ser despejada porque o marido não lhe deixou os documentos que comprovariam que a casa é dela. O dia a dia delas, entre o hospital e as casas modestas, é molhado - estamos em plena época das chuvas - e barulhento mas ao mesmo tempo solitário. A cidade acolheu-as, mas não lhes permite serem livres. Só fora dali, quando Parvaty decide voltar para a sua terra e as amigas a ajudam na mudança, é que elas se vão conseguir encontrar a si mesmas.
All We Imagine As Light é um filme de sensibilidade e poesia, filmado sem pressas, o que deixou algumas pessoas inquietas na sala de cinema, constantemente a olharem para o telefone. Mas é tão bom quando nos deixamos levar por um filme, quando nos permitimos abrandar e esquecer o mundo lá fora. E ficar só ali, a apreciar todos os detalhes. A música. Os silêncios. Um amor a nascer. Os pequenos gestos. A amizade entre três mulheres. Os olhos delas.


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