Saturday, December 28, 2024

"Caruncho", uma história de ódio e vingança

Passado na Espanha durante a ditadura e atravessado pelas memórias da guerra civil e do franquismo, Caruncho, de Layla Carvalho, é um livro sobre mulheres e sobre pobreza, sobre classes sociais e privilégio, sobre violência de género e desamor. Além disso, muito bem escrito. E, no entanto, custou-me muito avançar por aquelas 120 pequenas páginas. Achei que tinha sido talvez o facto de haver uma dimensão sobrenatural, quase de terror, com uns toques de bruxaria à mistura, que me tinha afastado da obra. Sim, mas não só. Terminada a leitura, à medida que o tempo foi passando e aquela narrativa foi assentando em mim, percebi que o que me afastou foi o ódio. As personagens - quase todas mulheres - são movidas a ódio e a desejos de vingança. O caruncho que percorre as paredes da casa corrói-lhes também os corações. Não há amor que lhes valha. Não há uma centelha de esperança. Tudo ali é tristeza e ressentimento.


“A vingança interessa-me muito, tanto na literatura como na vida real”, disse a escritora numa das entrevistas que deu na altura do lançamento do livro em Portugal. “É uma força muito destrutiva, que acaba por consumir também aquele que se vinga, mesmo que o consiga fazer. Mas é também a única forma de justiça para os oprimidos.”


Tenho muita resistência à ideia de que a vingança é a única forma de justiça para os oprimidos. Mas um livro que nos faz pensar e que fica aqui a remoer-nos por dentro é sempre um bom livro. 

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