(sem) Terra

1
Fugi da minha terra assim que pude. Fugi sem olhar para trás. Estava a sufocar ali. Lembro-me que a partir de determinada altura deixei sequer de tentar discutir com os meus pais, limitava-me a contar os dias que faltavam para sair dali, para poder fazer o que me apetecesse, sem me sentir olhada e controlada por toda a gente, sem os dedos apontadores, sem recriminações moralistas. Fugi da minha terra no Alentejo para deixar de ser a filha do senhor professor e poder ser, finalmente, eu. Mesmo que, vai-se a ver, afinal eu não fosse muito diferente em Lisboa do que era ali. Mas isso era irrelevante. A verdadeira mudança aconteceu dentro de mim, na liberdade que tinha para escolher e para ser o que eu quisesse.
2
Não gosto assim tanto da minha terra, não a acho particularmente bonita, não deixei lá grandes amigos, não sinto saudades de nada. Não tenho vontade de voltar para lá. Gostaria muito de ter uma casa no campo, mas não ali. Durante a faculdade, quando os meus colegas iam passar o fim-de-semana à terra, eu dizia que ia a casa. Não gostava da minha terra, mas gostava da minha casa. Depois, quando os miúdos eram pequenos e passávamos grandes temporadas no Alentejo, foi como se fizesse as tréguas com aquela terra. Mas foi sol de pouca dura. Na verdade, não era a terra, era outra vez a casa. A casa dos avós. A casa da tia. Ainda hoje, quando lá vou, ando pouco nas ruas, só fico nestas casas que, não o sendo, são também a minha casa.
3
Não gosto assim tanto de Lisboa, não a acho particularmente bonita, nem limpa, nem agradável. Pelo contrário, cada vez gosto menos. Sinto-me desconfortável na maior parte dos sítios. Há demasiadas pessoas, demasiado trânsito, demasiado lixo, demasiada degradação. De Lisboa gosto sobretudo das pessoas e das oportunidades. As pessoas que me aquecem a alma. As oportunidades para trabalhar e para fazer coisas que gosto de fazer. Moro em Lisboa há mais anos do que aqueles que morei na minha terra, nunca morei noutro sítio, nem sequer temporariamente. E no entanto não adoro morar em Lisboa. Tenho aqui a minha casa, mas Lisboa não é a minha terra.
4
Há pessoas que me perguntam de onde sou mas o que querem saber é onde moro. Ainda assim, não consigo evitá-lo, respondo sempre que sou do Alentejo. Aconteça o que acontecer, é dali que sou. Sou daquela paisagem, daquele sotaque, daquelas vilas brancas, daquela determinada maneira de ser e de viver, que é tão diferente do Norte. Sinto-me em casa no cante alentejano, nas açordas e nas migas, no calor abrasador, na frestas das janelas abertas para deixar entrar o fresco do fim do dia. Sinto-me em casa naquelas terras áridas, nas ruas vazias, no silêncio, naquele sentimento de abandono.
5
Acontece-me frequentemente. Se o meu pai não atender o telefomóvel, procuro na lista onde diz "casa" e ligo. Só me apercebo do erro quando ouço a voz de algum dos meus filhos do outro lado. Claro que a "casa" da lista telefónica é a minha casa, em Lisboa, e não a casa dos meus pais, no Alentejo, cujo número está devidamente guardado como "casa pais". Mas, algures no meu subconsciente, a minha casa continua a ser ali, na casa dos meus pais, ainda que, na verdade (e isto é o mais impressionante), eu nunca tenha vivido "naquela" que é agora a casa do meu pai, mas noutra, na mesma rua. Esta minha casa-terra não existe. É um lugar puramente afectivo.
*
Esta semana, no largo, a proposta era escrever sobre "terra". É um conceito estranho para mim. Ainda assim, dei o meu melhor. Na foto lá em cima sou eu. A foto foi tirada pelo meu pai, claro.
Encontram outras "terras" por aqui:

2 Comments:
Gostei muito de ler. Embora sempre desejando "voar" da minha Terra, principalmente na adolescência, voos que concretizei, sempre me senti, e sinto, ligado à minha Terra. Embora tendo criado raízes e laços em mais duas Terras.
(Lisboa, que foi uma das minhas terras de eleição, já deixou de ser. Precisamente por aquilo que refere. Mas tem locais de que gosto muito!)
É sempre bom chegar à minha Terra e às minhas Terras!
Saúde, Paz e excelente domingo.
A foto está linda, seu pai era bom fotógrafo.
Quanto a ser alentejano(a) é coisa que nos está "na massa do sangue", não debota nem descolora.
Seja feliz onde possa e sinta ser sua a casa.
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