Sunday, September 21, 2025

Coisas muito lindas aconteceram esta semana

Quarta. O concerto do Manel Cruz foi incrível, como já se sabia que iria ser. Não basta as canções serem muito boas, com poemas que nos tocam cá dentro, como ele é um excelente intérprete e ainda um óptimo entertainer que vai contando histórias e fazendo comentários, com uma honestidade e uma verdade desarmantes, sem tiques de estrela. Além disso, o concerto foi precedido de um jantar para matar as saudades de amigos muito queridos, com quem já ando a congeminar aventuras para o próximo ano.


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Sexta. O espectáculo Coro de Amantes, que tenho uma vaga ideia de ter visto na sua versão inicial no Teatro Maria Matos, em 2006, envelheceu e voltou à cena, no Teatro do Bairro Alto, já com rugas e cabelos brancos, ou seja, ainda melhor do que era. O Tónan Quito e a Cláudia Gaiolas interpretam o texto do Tiago Rodrigues, que fala do amor, com as suas venturas e desventuras, e de como o tempo passa a fugir e nunca parece ser suficiente para vivermos todo o amor de todas as maneiras que gostaríamos (e que me deixou com lagriminhas nos olhos).


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Domingo. Pelo meio, tive uma noite bem boa de conversas, confissões e muitas calorias com a minha Paula. Hoje estava bastante podre mas lá me animei e saí de casa para ir ao CCB ver Só uma gaivota, o novo espectáculo do Miguel Fragata e da Inês Barahona, que é lindo, lindo, lindo. A partir d'A Gaivota de Tchekhov e das memórias do espectáculo de fim de curso do actor e encenador, há 20 anos, este espectáculo é um hino ao teatro e a todos os que algum dia sonharam ser artistas. O Miguel e a Inês são pessoas muitos especiais e isso nota-se nos seus projectos, sempre muito tocantes. Neste caso, quero sublinhar também a beleza da cenografia do Fernando Ribeiro, os figurinos do António José Tenente e a luz do Rui Monteiro. 


549653693_1210458934460858_1211466900324501769_n.jEsta rentrée está a acabar comigo. Entre bilhetes que tinha comprado há meses e de que já não me lembrava e bilhetes de última hora porque achava que poderia não ir e afinal podia, tenho passado muito tempo em salas de espectáculos. E se a felicidade é grande a verdade é que não estou a conseguir encaixar nas 24 horas do dia tudo o que preciso fazer e tudo o que quero fazer. Isto agora vai acalmar, prometo. É tempo de me jogar ao trabalho.

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Monday, September 15, 2025

"Nossos corpos também são pátria"

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Foi uma alegria muito grande ver Adilson, o espectáculo musical imaginado e encenado por Dino D'Santiago a partir do texto "Serviço Estrangeiro” de Rui Catalão e com direcção musical de Martim Sousa Tavares. O espectáculo acompanha um afrodescendente, filho de pais cabo-verdianos, nascido em Angola mas que vive há mais de 40 anos em Portugal sem nunca ter obtido cidadania portuguesa. Adilson passa horas à espera da sua vez em gabinetes e serviços, sofrendo humilhações por parte das autoridades, perdido no labirinto burocrático para provar que existe e que é português. A sua história - que é verdadeira - é a história de muitos dos que aqui moram e é também um pouco da história deste país. (Leiam este texto do Gonçalo Frota que está lá tudo explicado)


Que Adilson seja interpretado por uma rapariga jovem é apenas um dos muitos pormenores que fazem deste espectáculo um manifesto pela inclusão e um grito contra os regulamentos que insistem em impedir-nos de sermos quem realmente somos. Koffy tem apenas 19 anos e uma voz magnífica.


O espectáculo tem momentos de humor e outros mais sérios, tem momentos mais bem conseguidos e outros que poderiam estar melhor. Já a música é sempre boa, uma mistura de ritmos e de instrumentos, tudo unido pela poesia de Dino D'Santiago. 


No final, uma alegria enorme, sim, e um travo amargo na boca: temos ainda tanto por andar neste caminho pela igualdade e pela democracia plena. 


 


"Nas curvas do bairro

Aqui toda a gente senteTerra não é só lugar onde se nasceuÉ também o chão que trazemos na mente

Aqui toda gente é parenteMesmo quando se nasceu d'outro ventreChamamos mãe ao mesmo continente"

Esquinas, de Dino D'Santiago e Slow J

 


*


Estive a trabalhar no fim-de-semana, mas ainda assim, e apesar do cansaço acumulado, consegui aproveitar bem o meu tempo. No sábado ao final do dia fui ver Adilson no CCB, integrado no festival Boca. No domingo, saí do trabalho a correr e fui à Culturgest ver Nôt, o espectáculo de Marlene Monteiro Freitas. 


É muito fácil andar sempre ver as coisas que eu sei à partida que vou gostar e ficar confortável no meu lugar. Mas também preciso de me desafiar e de ver coisas que não me são óbvias. Não posso dizer que tenha adorado este Nôt. Achei os intérpretes todos incríveis e gostei mesmo de alguns pormenores da coreografia, há coisas que resultam muito bem. Gostei muito de alguns momentos. Mas na maior parte do tempo senti-me bastante perdida. Este texto, que só li depois, já em casa, ajudou-me um pouco. Acho que ainda estou a processar.


E não desisto. Da próxima vez, lá estarei. 


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Saturday, August 02, 2025

Julho - o que vale a pena guardar

Há 25 anos, quando estreou no Citemor o solo Os Olhos de Gulay Cabbar, Olga Roriz falava-me do envelhecimento, de como o seu corpo de bailarina estava a mudar e de que maneira isso tinha consequências na sua criação. Lembro-me dessa conversa, já tarde na noite, depois de um ensaio, num casarão em ruínas em Montemor-o-Velho. Há 25 anos, Olga Roriz era mais nova do que eu sou hoje. Há umas semanas fui vê-la em O Salvado. Outra vez sozinha em palco, ali está aquele corpo de quase 70 anos, aquela mulher inteira, que ainda dança embora já não dance como antes, exprimindo as suas preocupações, os seus devaneios, os seus pensamentos, as suas dores. O seu fantástico sentido de humor e de auto-humor. [leiam o texto da Cláudia Galhós que vale bem a pena]


Saí desse espectáculo a pensar como o tempo passa por nós e como o nosso corpo tem tantas histórias para contar, as rugas das gargalhadas, as estrias das gravidezes, as cicatrizes das operações, as marcas do sol, os quilos que ganhámos em jantares felizes e os quilos que ganhámos com os chocolates que comemos para curar as tristezas, os músculos conseguidos com sofrimento no ginásio e os músculos doloridos de carregar os bebés e as compras, os arranhões de todas as quedas que demos, até mesmo as invisíveis, está tudo ali, trazemos a nossa história connosco e não dá para fugir disto que somos, mesmo que façamos dietas e lipoaspirações, que nos mascaremos de outros, que tentemos esquecer.


Não dá para mudar o que foi, mas estamos sempre a tempo para mudar o que vai ser. Ou pelo menos, quero acreditar nisso. 


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Outras coisas de julho:


Andava há meses a segui-las no instagram mas só agora consegui, finalmente, ir a uma roda de samba do Coletivo Gira. São mulheres, são brasileiras, são feministas, são queer. Os eventos transbordam de alegria e empoderamento. Não sei sambar, mas adorei e quero voltar.


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A exposição de Paula Rego e Adriana Varejão, no CAM - Centro de Arte Moderna, é muito boa. Não conhecia o trabalho desta artista brasileira mas gostei muito. É, tal como Paula Rego, uma artista que fala muito das mulheres, de forma violenta e íntima, de uma forma mais crua e mais explícita ainda do que Paula Rego. Mais em carne viva. E junta a isto uma reflexão muito interessante sobre colonialismo. Ver as obras destas duas artistas juntas faz todo o sentido. Fiz uma visita guiada e acabou por ser uma boa opção porque me levou a prestar atenção em pormenores e interpretações que de outra forma talvez me tivessem passado despercebidos.


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O mês terminou com Partes Sensíveis, um espectáulo de dança de David Marques e Nuno Pinheiro. Foi uma boa surpresa. Um espectáculo sobre a intimidade, sobre as pequenas e grandes coisas que partilhamos quando partilhamos uma casa, sobre a descoberta do outro - quando moramos com alguém é quase como se víssemos o outro através de uma lupa, descobrindo coisas que não conhecíamos, as suas características aumentadas. Estava muito muito muito calor na sala da ZDB em Marvila, mas sobrevivemos.


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Julho teve isto tudo e ainda teve uns dias de férias com momentos de cumplicidade com os miúdos, teve dias de praia e encontros bons com alguns amigos, e teve um dia muito especial em que voltei à Colónia, mas, desta vez, levei o meu pai, a minha irmã e o meu cunhado e foi tudo muito bom. Julho também teve dias de grande solidão, desalento e muitas dúvidas. Continuo à procura do equilíbrio. Não tem sido fácil. A arte ajuda, as minhas pessoas ajudam, mas não tem sido fácil. A luta continua.

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Saturday, June 28, 2025

Famílias, tantas declinações (e outras reflexões)

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No espaço de uma semana fui ver dois espectáculos sobre isto de se querer ter ou não filhos, o que muda nas nossas vidas, se estamos mesmo dispostos a isso e que expectativas temos. Na semana passada vi Corre, Bebé, de Ary Zara e Gaya de Medeiros (na foto), e ontem fui ver Começar Tudo Outra Vez, de Raquel André e Tonan Quito. Apesar de partirem do mesmo sítio - um casal de artistas que equaciona engravidar - e de percorrerem caminhos semelhantes, os dois espectáculos são bastante diferentes na sua forma. Corre, Bebé é mais abstracto e com uma maior componente de fisicalidade. Começar Tudo Outra Vez junta os universos da Raquel e do Tonan - ela mais ligada à realidade, fazendo entrevistas para procurar histórias reais, recorrendo ao vídeo; ele trazendo a sua formação de actor e os textos clássicos, de Sófocles, Shapeare ou Tchekhov. Foram duas experiências muito distintas mas que me deixaram feliz. Este é um tema de que gosto muito e que raramente é posto em palco, e não deixa de ser curioso que surjam na mesma altura, trazendo para a luz os problemas que as novas gerações enfrentam. No caso de Ary e Gaya, duas pessoas trans, as questões ligadas à paternidade/maternidade são bastante complexas, e só poder falar disto assim já é uma vitória. Mas, na verdade, são um casal como qualquer outro, a tentar perceber se quer ou não embarcar nesta viagem. No espectáculo da Raquel e do Tonan é impossível não nos comovermos com as histórias das famílias deles (que são as histórias de muitas famílias) e é muito engraçado ver como tem mudado a nossa percepção sobre o parto, o papel do pai ou a figura da madrasta.


Existe aquela famosa frase do Tolstoi, que toda a gente cita quando fala de famílias e eu também o vou fazer, que diz que "todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira". No final destes dois espectáculos, fica mais forte a convicção de que uma família para ser feliz, seja em que configuração for, tem de ser um sinónimo de amor, sempre, mais do que de sangue. 


*


Aconteceu outra coisa engraçada, que foi, em cada noite, encontrar pessoas que conheci há muito tempo e que me deram saudades daquela altura em que o meu trabalho me levava tantas vezes ao teatro e, por causa disso, decidi voltar à faculdade e fazer estudos de teatro, para ter mais ferramentas. Foi uma fase muito boa, em que conheci tanta gente, participei em conversas interessantes, li textos estimulantes. Era quase como se sentisse o meu pensamento a expandir-se, sabem? Parece que foi noutra vida. Entretanto, eu fui-me afastando desse mundo, arrastada pela vida. E de então para cá, também deixou de existir crítica de teatro, fosse na imprensa ou noutras publicações ou sites. Foi como se as redes sociais tivessem aniquilado qualquer hipótese de reflexão e não conseguíssemos ir mais além do gostei ou não gostei (que é o que eu faço aqui). Claro que há muita gente a reflectir, mas essa reflexão dificilmente chega ao público em geral - e eu hoje sou do público em geral e tenho saudades disso.


Para contrariar o que acabei de dizer:


O Tiago Bartolomeu Costa voltou a escrever sobre teatro, agora no Comunidade Cultura e Arte. O Tiago, que conheci nos tempos do blog O Melhor Anjo, está longe de ser uma pessoa consensual, mas é uma pessoa que pensa e que, com os seus textos, me dá sempre algo para pensar. É o que se quer de uma crítica, afinal. 


A minha querida professora Maria João Brilhante (uma das minhas queridas professoras e professores, não quero ser injusta), que agora já se reformou, falou-me do seu último projeto, uma investigação sobre arquivos de companhia de teatro - que está disponível AQUI. Ainda tenho que explorar isto melhor, mas, num tempo tão fugaz e em que tudo é descartável, acho mesmo importante este trabalho sobre o arquivo e a memória.

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Friday, March 07, 2025

Recapitular fevereiro para esquecer janeiro já com os olhos em março

O mês mais curto foi cheio de coisas boas.


A começar pelos concertos de Ana Lua Caiano e Amélia Muge e de Samuel Úria e Manel Cruz. Foram ambos muito bons. E também uma oportunidade para estar com alguns amigos queridos. Geralmente evito ter programas em dias de semana porque sei que estarei cansada e não me vai apetecer e depois vou ficar ainda mais cansada. Mas foi tudo tão bom nestas duas noites que valeu muito a pena.


Fui moderar um painel numa conferência na Gulbenkian. Deus sabe o que me custa expor-me assim, as noites que passo sem dormir, os nervos que me atacam o corpo. Ainda assim, fiquei mesmo feliz quando recebi o convite e achei o tema tão interessante, tão a minha cara, que é claro que não podia dizer que não [o que é o pior que pode acontecer?, não é?]. Olhando para trás, odeio ver-me e ouvir-me, encontro mil erros, mil coisas que podiam ter sido melhores. Mas tive muita sorte com o meu painel, eram pessoas realmente interessantes e com quem gostei muito de conversar. 


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Foi o aniversário da Helena, que é uma das minhas pessoas preferidas. E foi um dia mesmo bom porque estive com as minhas amigas mais antigas e com quem não tenho tido muita oportunidade de estar, por motivo nenhum especial, apenas porque andamos desencontradas. Foi como se estivéssemos de volta à faculdade, com as conversas a sobreporem-se e a cumplicidade e a honestidade e a amizade de sempre. Gosto mesmo destas miúdas que me entendem bem, mesmo quando falamos pouco. Esse dia; a tarde em que, do nada, combinei com a Isabel irmos ouvir a escritora, Elizabeth Strout à Livraria Bucholz; a caminhada de duas horas pelos caminhos de Monsanto, que me deixou de corpo cansado mas de coração cheio. Foram todos momentos especiais. Não me canso de o dizer: os amigos verdadeiros são o meu oxigénio.


O espectáculo do Tiago Rodrigues, No Yogurt for the Dead, é simplesmente incrível. O texto é muito bom, com um tema muito duro mas ao mesmo tempo com um sentido de humor apurado, a fazer-nos rir e chorar quase ao mesmo tempo. As barbas, a música, a atriz que fala neerlandês, o humor, a montanha - as soluções que ele encontrou para nos falar da morte do pai, ao mesmo tempo emocionando-nos mas criando uma distância segura, são perfeitas. E que dizer daquelas duas actrizes, a Beatriz Brás e a Manuela Azevedo. Sim, a Manuela, dos Clã. Já a tinha visto noutras peças, mas aqui ela excede-se e, além de cantar como sabemos que canta, é uma actriz de corpo inteiro.


 Quem viu o espectáculo sabe como ele fala a todos os que já perderam alguém. É impossível não nos relacionarmos, não nos revermos em alguma das cenas. Ainda por cima, no natal tinha oferecido bilhetes à minha irmã e ao meu cunhado. Já estava contente por termos um programa juntos. Só depois reparei que o espectáculo era no mesmo dia do aniversário da morte da nossa mãe. Acabou por ser ainda mais especial.


Os problemas não se resolveram mas, este mês, parece que estiveram mais suportáveis. Os putos mais orientados. O trabalho menos odioso. Um bocadinho menos, vá. Ou então era eu que estava tão entretida a fazer planos para março que já não me chateei muito. Também há isso. 

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Tuesday, December 31, 2024

“Posso morrer porque amei e fui amada"

Estive com a Adília Lopes uma única vez, há mais de vinte anos, num ensaio do espectáculo A Birra da Viva, de Lúcia Sigalho. Queria lembrar-me melhor desse espectáculo, desse momento. Tenho tão boas memórias das noites passadas no Armazém do Ferro. A Lúcia Sigalho e a Mónica Calle foram uma revolução na minha vida. Eu era ainda uma miúda, mal tinha começado a pensar nestas coisas, e elas a fazerem espectáculos sobre isto de ser mulher, a dizerem-me que o importante é sermos quem realmente somos, assumirmos os nossos desejos e deitarmos fora a culpa, elas a mostrarem-me o caminho. Devo-lhes tanto. Foi por causa da Lúcia e desse espectáculo sobre mulheres e mães e sobre corpos que dão vida e morte que fiquei com vontade de ler a Adília. Foi depois de a ver ali, de ouvir a maneira contida, desassombrada, crua como falava, que fui descobrir os seus poemas. A Adília Lopes morreu ontem e eu li a notícia e não queria acreditar. Tinha apenas 64 anos. Fiquei tão triste.  Chorei por ela e por mim e por todas as mortes que ficaram por chorar. 


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“Posso morrer porque amei e fui amada. Gostei de homens, de mulheres, de velhas (de velhos não), de bebés, de bichos, de plantas, de casas, de filmes, de concertos, de quadros, de teorias, de jogos, de pastéis de natas, de jesuítas, de russos, de hamburgers, de Paris e de Londres. Nunca fui a Nova York e gostava de ir, mas não me importo de morrer sem ter ido. Também nunca tive um orgasmo. Não me arrependo de nada. É claro que Nova York não se compara a um orgasmo. Um orgasmo é muito mais importante”


De Irmã Barata, Irmã Batata, de Adília Lopes


(na página 409 de Dobra, poesia reunida, 2021, Assírio & Alvim)

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Sunday, December 22, 2024

Porque nunca é demais repetir: fascismo nunca mais

Já passou algum tempo mas não queria deixar de vir aqui escrever porque quero mesmo guardar comigo esse momento maravilhoso que foi o espectáculo A Colónia, de Marco Martins. Antes de ir eu já sabia que ia gostar. Primeiro, por ter a ver com o Estado Novo e os presos políticos, e depois porque gosto muito de teatro documental e tenho esta panca com tudo o que tenha a ver com a memória e a fixação das memórias. Ainda assim, nada me preparou para esta avalanche.


A ideia surgiu de uma reportagem de Joana Pereira Bastos, publicada no Expresso, sobre a colónia de férias para filhos de presos políticos, que aconteceu em 1972, nas Caldas da Rainha e que, durante duas semanas,  juntou 18 crianças entre os 3 e os 14 anos. Mas o que se conta em palco vai muito além disso. Partindo dos testemunhos de duas dessas crianças, hoje crescidas, a Manuela e a Rita, e com a ajuda de Conceição Matos e Domingos Abrantes, começa-se por recordar o sistema opressivo em que se vivia, contar como era a vida dos opositores ao regime, a clandestinidade, a prisão e a tortura pela Pide. Só depois é que se passa para a colónia, juntando os testemunhos da monitora e de mais três dessas crianças. Como era para uma criança viver na clandestinidade, sem saber o seu verdadeiro nome e sem brincar com outras crianças? Como foi ver o pai a ser preso ou visitar o pai na prisão? 


Não se limitando a ter estas pessoas todas em palco a contar as suas histórias, o que já seria brutal, Marco Martins criou um espectáulo cheio de camadas e de uma grande beleza, com os extraordinários actores João Pedro Vaz, Sara Carinhas, Ana Vilaça e Rodrigo Tomás (e aquele achado inicial - viver em clandestinidade era, também, representar, interpretar diversas personagens), a que se juntaram um grupo de jovens actores e ainda B. Fachada e um pequeno coro infantil. E aquilo que era a história de um grupo de crianças passa a ser a história de um povo, a nossa história, a história das crianças e dos jovens de hoje, que se perguntam afinal o que é isso de ser livre.


Posso dizer-vos que chorei muito e embora isso não queira dizer nada sobre a qualidade da obra quer dizer muito sobre o quanto me tocou e me abalou. É muito importante que estas histórias sejam contadas uma e outra vez, que não sejam esquecidas. Fascismo nunca mais, gritou-se no momento dos aplausos. Fascismo nunca mais. Fascismo nunca mais.


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Ainda deste último mês temos a assinalar:


A Reunião, um espectáculo bonito e igualmente importante do Teatro Meridional. Confesso que não sou a maior fã de commedia dell'arte e nessa noite estava um pouco cansada e talvez não tenha apreciado devidamente a peça, mas o texto do Mário Botequilha é muito bom.


Um grande concerto dos Expresso Transatlântico no MusicBox. São todos óptimos, mas o Gaspar Varela tem, de facto, uma energia especial.


Um workshop com a Ana "apetite pela vida" sobre comida saudável, sem açúcares nem processados nem proteína animal. Vim de barriga cheia e com muitas dicas para melhorar as receitas cá de casa.


A figura do ano para mim é, sem dúvida, Gisèle Pelicot. No meio de todo o horror, esta mulher dá-nos alguma esperança. Este caso mexeu muito comigo e penso que não exagero quando digo que através da sua análise podemos perceber um pouco do tanto que precisamos mudar enquanto sociedade. 


(temos outras coisas a assinalar, boas e más, mas vou tentar escrever sobre elas com calma)


Ainda nem é natal e já estou empaturrada. De comida, sim, mas sobretudo de amor. Dezembro tem esta magia, fazemos um esforço para encaixar na agenda encontros com os amigos (não todos, mas quase). Só nesta última semana contaram-se um almoço e três jantares, deitando por terra o esforço dos últimos meses para comer menos e para comer melhor. Sim, eu sei, eu sei, se eu tivesse realmente força de vontade conseguiria, mas não tenho, portanto isto anda assim mais ou menos ao sabor do vento e das flutações da minha vida e da minha cabeça, mas não nos martirizemos, em janeiro retomamos o caminho.

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Sunday, November 24, 2024

Amar até morrer

A Vida Secreta dos Velhos, que fui ver hoje à Culturgest, é um espectáculo maravilhoso interpretado por um grupo de actores mais velhos que partilham as suas histórias amorosas, passadas e presentes. Uma das actrizes, com 92 anos, garante-nos que continua a sentir desejo. Outra fala-nos da importância da masturbação. Um homem recorda a sua iniciação sexual, com prostitudas. Outro lembra como os pais o repudiaram quando ele saiu do armário. Uma mulher revela que teve o seu primeiro orgasmo aos 65 anos. Outra que, finalmente, encontrou a felicidade, já depois dos 70. Um homem toma viagra. Outro frequenta saunas. Uma delas fala da importância de se sentir desejada por alguém. Muitas pessoas têm dificuldade em aceitar que os velhos continuam a ter vontades e prazer nos seus corpos flácidos. Eu própria, sentindo os anos a passar, às vezes, pergunto-me: como será quando eu envelhecer? Será diferente do que era quando tinha 20 anos, com certeza. Será diferente do que é aos 50. Mas alguma coisa será. "Agora, de cada vez que faço amor, digo a mim mesmo: Pode ser a última vez, então trata de te aplicares", conta um dos actores. É um belo conselho. O que este espectáculo nos mostra, com humor mas também de forma muito emocionante (e eu chorei muito), é que todas as pessoas, independentemente da sua idade, precisam de amar e ser amadas. Os velhos somos nós (se tivermos sorte). Os velhos que nós seremos serão tanto mais felizes quanto nos deixarmos de merdas e aceitarmos, com naturalidade, a sua (nossa) vida sexual, seja ela como for.


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Infelizmente, não haverá mais apresentações deste espectáculo criado pelo encenador francês Mohamed El Khatib. Mas podem sempre ler o texto do Gonçalo Frota para ficar a saber mais.


Lembrei-me deste texto e também me lembrei muito dos meus velhos amigos da Companhia Maior, de quem eu tanto gosto.


 


Para tentar fintar a neura de novembro, recorri aos amigos e à arte. Para além deste espectáculo, aconteceram coisas como:


Um filme: Por ti, Portugal, eu juro. Documentário da Sofia da Palma Rodrigues com a equipa da Divergente, é um extraordinário documento sobre um tema pouco (nada) falado: os Comandos Africanos da Guiné, jovens guineenses que foram forçados a combater pelo exército português, mas que, depois do 25 de Abril, foram abandonados por Portugal e perseguidos pelo novo poder da Guiné.


Um concerto: Dora Morenlebaum. Foi no Musicbox, levada por uma amiga, que descobri esta artista brasileira que até então desconhecia. Filha do violoncelista e arranjador Jaques Morelenbaum e da cantora Paula Morelenbaum, tem 28 anos e muito boa vibe. Junta bossa nova, jazz, disco, funk e o que mais apanhar à mão. Foi um belo serão.


Um espectáculo: O céu da língua, de Gregório Duvivier. Uma viagem em volta da língua portuguesa e da poesia que se escreve com essa língua. Muito divertido mesmo. Muito inteligente. É tão bom e tão raro ter oportunidade de rir assim com um espectáculo.


Outro espectáculo: Volta para a tua terra, de Keli Freitas (de quem já tinha falado AQUI). A artista brasileira continua a mergulhar na sua história para fazer pequenos espectáculos de teatro documental. Desta vez, sobre a vinda para Portugal e o significado das travessias. Mas também sobre a investigação à sua família e a necessidade de saber de onde vem. Tal como no outro espectáculo que tinha visto dela, voltei a ficar com a sensação de estar "incompleto", uma vez que são colocadas perguntas que ficam sem resposta, começam a contar-se histórias e ficamos sem saber o seu desfecho. Imagino que seja propositado. Percebo que se queira contrariar esta obrigatoriedade de contar histórias com princípio, meio e fim. Mas eu fiquei com vontade de mais. De saber mais. De saber como acabou. Ainda assim, gostei muito.


Claro que nada disto - nem os filmes, nem as músicas, nem os espectáculos, nem sequer os amigos que me deram colo e copos de vinho, que me fizeram rir e desfrutar momentos de verdadeira felicidade, fosse a ouvir poesia ou simplesmente a conversar - resolveu a frustração com o trabalho ou apaziguou as preocupações que me afligem por causa dos meus filhos. Mas estas coisas ajudam. A vida é isto tudo. O bom e o mau misturado. Os problemas e as alegrias, as aflições e as gargalhadas. É preciso ir juntando coisas boas, sempre, para não nos deixarmos abater pelas coisas más.


Hoje, saí do teatro e vim no metro a pensar no que aqueles actores disseram. “Vou amar-te toda a vida, porque a vida pode acabar a qualquer instante", disse um deles. Não é preciso ser velho para perceber isto. Passei no supermercado para comprar ovos, senti umas gotas de chuva no cabelo, enrosquei-me no sofá com o meu filho, fiz um bolo de iogurte, sentei-me a escrever este texto. São tantas as coisas pequenas que me fazem feliz. E, depois, novembro está quase a acabar. 

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Wednesday, October 02, 2024

Para fechar o verão

Foi um verão atípico, mas, ainda assim, foi bem bom. Houve praia no Algarve de sempre. Os miminhos deles. Os amigos. Voltámos ao Bons Sons, e foi outra vez um conforto para a alma. Voltámos à Zambujeira. Os amigos, já disse? Houve almoços e jantares e conversas prolongadas, gargalhadas e confissões. A habitual reunião de família no Alentejo (é cada vez mais difícil juntar os putos todos). A primeira coisa que fiz quando a médica me deu alta foi ir ao cinema ver o Verdade ou Consequência e ouvir o Luís Miguel Cintra, que vale sempre a pena. Já em setembro deu para ir ver o Rodrigo Amarante ao B.Leza. Para ir ao teatro ver o belíssimo Blackface do Marco Mendonça (levei o Pedro, foi alegria a dobrar), ouvir umas histórias do "retorno" (A Outra Casa na Praia, pelo Teatro Meia Volta) e as histórias que poucas vezes são contadas do Brasil (Depois do Silêncio, de Christiane Jatahy). Para espreitar a nova pala do CAM


No último fim-de-semana, para fechar o verão, rumámos ao outro canto do Algarve: eu, a Filipa, a Patrícia, a Lina, a Ana Bela, a Maia. Elas que me perdoem, que eu sei que nem todas gostam de estar assim expostas na internet, mas é que quero mesmo dizer o seu nome e dizer que gosto muito destas miúdas e gosto de como funcionamos todas juntas, tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidas, ainda que às vezes as conversas se sobreponham e pareça que 48 horas não chegam para tudo o que queremos partilhar, e que, quando a noite avança, eu adormeça e perca as partes mais divertidas. 


Gosto muito do verão, destes três meses em que fazemos de conta que não temos problemas e em que optamos por só ter coisas boas, dias compridos, calor na pele, pés descalços, os amigos, já disse, não já?, os filhos felizes, horários flexíveis, tardes a ler, passadeiras que nos levam à praia, as farófias da Noélia, a cor do céu antes de o sol se pôr, a liberdade. Preciso muito disto tudo para recarregar as baterias e poder, agora, enfrentar este outubro cinzento.


Venha de lá, então, a vidinha. A gente aguenta.


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Friday, August 02, 2024

Julho teve calor, muito calor. E também teve isto

Julho. Tivemos os nossos dias de praia, poucos mas bons. Depois os miúdos também tiveram os seus dias de praia. Mandam-me fotografias repletas de céu azul e sorrisos rasgados. Estão enormes. Como crescem os filhos quando estão longe de nós. Temo que no regresso já não me caibam nos abraços que lhes quero (preciso) dar. A parte boa de os filhos estarem de férias sem mim é que, apesar de estar a trabalhar, tenho tempo de sobra para fazer as minhas coisas sem sentimentos de culpa nem pensar no que vai ser o jantar. Coisas como ficar horas sentada no sofá a ver os jogos olímpicos. Ou jantar com amigos. Ou ir fazer um workshop de cozinha do Médio Oriente no Mezze. Ou não fazer nada. Ou isto:


Dois espectáculos 


À Primeira Vista, texto de Suzie Miller, encenação de Tiago Guedes, interpretação de Margarida Vila-Nova. Sobre isto de ser mulher, as agressões sexuais a que estamos sujeitas, o machismo da sociedade em que vivemos mas, sobretudo, do sistema judicial. As estatísticas dizem que uma em cada três mulheres já sofreram algum tipo de agressão sexual. Então, porque continuamos a tratar assim as vítimas? Porque continuamos a duvidar das suas palavras? A menosprezar o trauma que sofreram? A dar o benefício da dúvida aos agressores? Oh, coitado, foi só um deslize, tinha bebido de mais, ele no fundo não é má pessoa. O texto é muito bom. A Margarida Vila-Nova aguenta-se à bronca. O resultado não é uma obra-prima mas é bom. E importante. Depois de uma primeira temporada esgotada, o espectáculo vai voltar ao Teatro Maria Matos de 18 de setembro a 27 de novembro.


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Madrinhas de Guerra, de Keli Freitas. Uma reflexão sobre o colonialismo e o modo como, em 2024,  ainda romantizamos as "descobertas" dos portugueses que "deram novos mundo ao mundo" e a guerra onde tantos rapazes morreram e sofreram em nome de um império que não era seu. É um olhar inquiridor mas ao mesmo tempo com sentido de humor. Um espectáculo que parece estar inacabado, que levanta mais perguntas do que dá respostas, que nos deixa com vontade de mais. Vi-o no auditório do Museu de História Natural e só isso já foi uma experiência. Se o voltarem a encontrar por aí não percam.


Um livro


Tudo é rio, de Carla Madeira


Preparem-se para todo o balanço e toda a doçura que o português do Brasil nos pode dar. Porque há sotaques que parecem perfeitos para contar o amor (e desamor) e o desejo. Esta é a história de um improvável trio amoroso, a prostituta Lucy, o instável Venâncio e a doce Dalva, mas é também a história das suas famílias, das dores que trazemos connosco e da importância de procurarmos a alegria contra todas as evidências em contrário. Uma delícia.


Um filme


Memória, realizado por Michel Franco, com Jessica Chastain e Peter Sarsgaard. Um encontro improvável entre uma mulher que luta para sobreviver ao trauma (outra vez uma agressão sexual e todas as suas consequências) e manter-se longe do álcool e um homem que sofre de demência e está a perder a memória. Uma batalha entre aquilo que queremos recordar e aquilo que gostaríamos de esquecer. A alegria (a tal alegria) de descobrir o amor confronta-se com as dificuldades da vida real. A verdade é que todos precisamos de quem cuide de nós.



Uma série


Nem uma mais, série espanhola na Netflix, sobre como a violência sexual está presente no dia a dia de um grupo de amigas no liceu (outra vez, sim, juro que não foi de propósito, mas é um tema mesmo importante, ainda bem que se fala disto). Um namorado, um amigo, um professor, qualquer um pode ser um abusador. Mais uma vez, não é uma obra prima, mas é uma série muito bem feita, as miúdas são fantásticas e tenho a certeza que muitas de nós se vão relacionar com aquelas situações. 


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Wednesday, July 10, 2024

Dependemos todos da bondade de estranhos

Fui ao teatro ver "Um elétrico chamado desejo". Já tinha lido o livro, visto o filme várias vezes e visto outras encenações da peça de Tennessee Williams. E, no entanto, continuo a emocionar-me com a Blanche DuBois. Há ali uma fragilidade que é um pouco de todas as mulheres. E a Sandra Faleiro está maravilhosa. Ontem, vieram-me as lágrimas aos olhos. É tão estranho quando isto acontece no teatro, no cinema parece normal, mas no teatro é muito raro.


É teatro como se costuma dizer "clássico" (seja lá isso o que for), o espetáculo demora três horas, a sala não tem ar condicionado (mas dão-nos uns leques para nos abanarmos) e a mim fica-me completamente fora de mão. Precisei de alguma determinação. Fui sozinha e, afinal, foi mesmo uma noite bem passada.


Pela companhia Primeiros Sintomas. A encenação é do Bruno Bravo. Com Sandra Faleiro, Joana Santos, Nuno Nunes e outros. 


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Saturday, June 29, 2024

Um livro, um espectáculo, uma série - o santo António já se acabou, que venha julho

Sabem aquele desespero das mães durante o confinamento de covid-19? Está todo contado em Dia, o novo livro do Michael Cunningham. Não é o meu género habitual de escrita, porque tem muitos diálogos, mas, surpreendentemente, cativou-me desde o momento em que me cruzei com aquela mãe sentada na escada do prédio, a tentar fugir da sua vida nem que fosse por um bocadinho. A mãe, o adolescente colado aos videojogos, o medo da morte, aquela crença parva de que íamos sair daquilo melhores pessoas, a certeza de que se não formos nós a fazer pela nossa vida provavelmente poderemos não ter uma segunda oportunidade. Falei com o autor e foi uma bela conversa.


A Sara Inês Gigante faz aqueles espectáculos auto-ficcionais e ao mesmo tempo a gozar consigo própria, com o seu corpo, com os seus sonhos, com o seu talento. Já era assim com a Massa Mãe e voltou a ser assim com Popular, um espectáculo que problematiza o que é isso de ser pop, o que é isso de ser elite ou para as massas, o que é isso de ser artista e de ser público. Ainda têm dois dias para ir vê-la e comer pipocas ao Teatro Meridional.


Acabei de ver Under the Bridge, uma série que reconta a história verdadeira do homicídio de Reena Virk, uma rapariga de 14 anos que foi morta pelo grupo de "amigos" numa terra perdida do Canadá. Tem Lily Gladstone, Riley Keough e mais uns miúdos desconhecidos mas talentosos. Devorei-a em dois dias, sacrificando horas de sono preciosas. Achei muito bem feita. Levanta questões muito sérias sobre a juventude, a "peer pression" e os ideais de beleza, a violência que surge sabe-se lá de onde, a importância da família e das redes de apoio, a dificuldade de educar (de entender, até de comunicar com) adolescentes, a culpa, o arrependimento, a justiça.



Não gosto de bailaricos nem de arraiais nem de música pimba. Mas gosto de junho. Dos dias grandes. De estar com amigos. Do alívio que são as férias da escola. Por entre contas para pagar, dias de trabalho deprimentes e comprimidos de ferro que me deixam enjoada, entregar finalmente o IRS, fazer exames de saúde vários e dias em que só me apetece ficar no meu canto e não me digam nada, coisas boas aconteceram em junho. É importante guardar as memórias boas e celebrá-las. Os momentos de felicidade - ainda que curtos - são sempre o que fazem isto tudo valer a pena.

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Monday, May 06, 2024

As portas que abril abriu

Abril já acabou e não se fez só de gritos revolucionários.


Deu para ir ver os desenhos fantásticos do João Abel Manta.


Deu para ver o Guião para um país possível, da Sara Barros Leitão. Para rir e para pensar e para nos emocionarmos um pouco. Os actores são óptimos. Gostei mesmo muito.


Também fui ver a Luta Armada, dos Hotel Europa, sobre os movimentos armados antes e depois do 25 de Abril. Foi bom, que até foi, mas nada do outro mundo, e o melhor de tudo nesse dia foi ficar deitada na relva, de pés descalços, a ouvir música e a conversar sobre tudo e sobre nada com a minha amiga.


Voltei a cantar com a Garota Não, na inauguração do museu de Peniche. Apanhámos chuva e vai-se a ver nem conseguimos visitar o museu, mas o que ali conversámos em frente de um pão com sardinhas e de um prato de amêijoas valeu por tudo. Além da Garota, claro, que vale sempre a pena.


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Foi também um mês para "sair de pé" por duas vezes:


A propósito do espectáculo Na medida do impossível, do Tiago Rodrigues, fui moderar uma conversa na Culturgest com o João Santos, da Médicos Sem Fronteiras, e a fantástica Rita Costa, enfermeira que já esteve no Afeganistão e na Faixa de Gaza e nos falou de todo o amor que tem por este trabalho. Fico sempre nervosa quando tenho que falar em público, mas acho que até correu bem  (e se algum dia tiverem oportunidade de ver a peça, aproveitem, que é mesmo muito boa).


E, por falar em nervos, estreei-me a gravar voz, neste caso para uma reportagem sonora (aka podcast) que fiz para a Arte em Rede. Não tenho palavras para agradecer a confiança que o Bruno tem em mim (e a paciência enorme para me explicar as coisas que eu não sei). Fazer algo pela primeira vez é sempre um desafio, pior ainda quando se tem a auto-estima de uma formiga, como eu. Mas uma pessoa não gastou uma fortuna na terapia para depois ficar a tremer de medo e recusar uma oportunidade destas. O resultado já pode ser ouvido AQUI e, apesar de ainda ser muito estranho ouvir a minha voz, na verdade até me diverti a fazer isto. Agora, é "só" fazer cada vez melhor.

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Thursday, March 28, 2024

Março: "The power to dream, to rule/ To wrestle the world from fools"

"Estás bem?", uma pergunta tão simples, talvez a pergunta que mais vezes fazemos uns aos outros, "Está tudo bem?". É, na maior parte das vezes, uma pergunta inconsequente, ninguém quer saber realmente se estamos bem, e por isso respondemos de forma mecânica, "Tudo", e seguimos com a conversa sobre o tempo, sobre o trabalho, sobre os filhos, sobre as eleições, o que for. Mas o que responderíamos se quiséssemos ser verdadeiramente honestos? Estou bem? Mesmo que não esteja "tudo bem", que nunca está tudo bem, estamos bem? Estou bem, digo a mim mesma. Se reflectir um pouco, se pesar os pratos da balança, se der o devido valor às coisas que me irritam e entristecem (valem assim tanto?), se quiser ser verdadeira, tenho que dizê-lo: estou bem. A vida não é a preto e branco. Os dias muito bons sucedem-se a dias muito maus que se sucedem a dias mais ou menos. No mesmo dia, temos coisas óptimas a acontecerem-nos e coisas que nos deprimem. Não é assim com todas as pessoas? Estou bem.


*


Fiquei muito deprimida com os resultados das eleições. Ainda estou deprimida com isto tudo. Há muitas coisas na minha vida de todos os dias que não são perfeitas, mas tudo fica pior porque tenho que ver televisão e acompanhar as notícias relacionadas com a extrema-direita. Ouvir AV a toda a hora, as suas mentiras, os seus joguinhos, aquela retórica populista, a sua extrema falta de educação e falta de respeito por nós todos tem sido um grande foco de tristeza e desesperança. Por outro lado, existe também uma vontade de agir e reagir, partilhada por algumas pessoas à minha volta. Não sabemos ainda como, quando, onde, mas sinto que temos a responsabilidade de fazer alguma coisa.


*


Já quase ninguém escreve nos blogues. Eu própria quase não escrevo no blogue. Não temos tempo, não temos paciência, assim como assim ninguém lê, pois não? Somos cada vez mais descartáveis. O Facebook está praticamente morto. O Twitter é um ninho de víboras, pessoas desejosas de dizerem coisas, seja o que for, desejosas de provocar reacções. No Twitter sou apenas observadora, mas o Instagram transformou-se no meu álbum de fotografias e memórias. O Instagram, como bem escreveu a Gabriela (que também se lamenta por escrever cada vez menos, e é uma pena), é aquela "rede social onde os mais novos só deixam 'histórias' efémeras e os mais velhos registos vários para a posteridade. É muito isto que nos diferencia, parece-me. Instagrams que vivem de marcas que permanecem e os outros, que têm zero publicações, mas inúmeras histórias que as 24 horas apagam". Eu sou da permanência ("é urgente permanecer", diz o poema de Eugénio de Andrade). A mim faz-me falta a escrita. Faz-me falta escrever-me. Não me tenho sentido suficientemente livre para fazê-lo, não sei como explicar-vos. Tenho de pensar melhor nisto.


*


Emocionei-me muito a ver Um Mini Museu Vivo de Memórias do Portugal Recente, um espectáculo do Teatro do Vestido, que conta um pouco da história Portugal dos anos da ditadura e da democracia. É mesmo preciso não esquecer.


*


Os jornalistas fizeram greve. Não serviu para nada, não vamos ser aumentados nem vamos ter melhores condições de trabalho, os despedimentos vão continuar, os órgãos de comunicação continuam com problemas financeiros, e, no entanto, foi importante que nos juntássemos todos, que nos olhássemos, que os outros olhassem para nós, que disséssemos em voz alta que temos mesmo que fazer alguma coisa por nós, para mudar isto, que não podemos continuar a encolher os ombros. Foi um dia muito bonito.


*


Fomos ver o Sérgio Godinho ao Coliseu. Foi tão bom, tão bom. Foi tão bom poder ouvir aquelas canções acompanhada daquelas pessoas (as pessoas são sempre o mais importante). Ouvir outra vez A Garota Não. Gritar pela paz, o pão e a habitação. Cantar o Zeca e o Zé Mário. Ter um "brilhozinho nos olhos" e acreditar que, apesar de tudo, este poderia ser o "primeiro dia do resto da nossa vida".


*


Também fui ver a Patti Smith com os Soundwalk Collective ao CBB. Que maravilha. O espectáculo chama-se Correspondences e baseia-se na poesia de Patti Smith, a partir do trabalho de outros artistas, aquela voz incrível num ambiente composto por vídeos e sons, levando-nos numa reflexão sobre o mundo em que vivemos, a destruição da natureza, os desastres nucleares ou questões mais humanas da nossas existência. Foi uma experiência bastante intensa que terminou com um momento de libertação, o público todo de pé a cantar People Have The Power ("The power to dream, to rule/ To wrestle the world from fools").


*


Ainda não tinha ido à Casa Fernando Pessoa depois da remodelação. Vale muito a pena. A exposição está muito bonita, com partes mais informativas e outras mais poéticas. Numa das salas há uma montagem de espelhos - porque cada um de nós é muitos, porque cada pessoa é diferente dependendo do ponto de vista. Aí, conseguimos ver-nos de costas. Completamente. Não sei se alguma vez me tinha visto de costas, como se fosse outra pessoa. Foi bastante estranho. Ficámos ali algum tempo. Há algo de quase transcendental nesta experiência.


*


"I know not what tomorrow will bring" - foi esta a última frase escrita por Fernando Pessoa. Não sabemos o que o amanhã nos traz. Tenho feito um esforço para tentar viver o presente sem pensar no futuro. No meu futuro, no futuro dos meus filhos, no futuro em geral. Talvez seja por estar a chegar aos 50, não sei. Não é tanto um "seize the day" no sentido de fazer tudo e devorar o mundo como se não houvesse amanhã. Não é isso. É mais um ser feliz agora, por inteiro, sem alimentar expectativas para amanhã, tentando não me angustiar. Se me conhecessem saberiam que é um desafio e tanto. É quase como suspender o pensamento. Não vou dizer que é fácil, mas até agora tem sido possível e tem sido bom. Talvez o amanhã nos traga beijos e passeios de mão dada à beira-mar. Talvez o amanhã me traga uma tarde numa esplanada, sozinha, com um livro. Seja como for, o importante é estar em paz.


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Tuesday, December 26, 2023

Bravo, bravíssimo

"Uma obra de arte não responde a questões, provoca-as, e o seu significado essencial está na tensão entre as respostas contraditórias."


A frase de Leonard Bernstein serve de epígrafe ao filme Maestro, realizado por Bradley Cooper. Não achei o filme particularmente estimulante, para ser sincera, apesar das óptimas interpretações de Cooper e de Carey Mulligan (no papel da mulher de Bernstein, Felicia Montealegre). Mas a frase pareceu-me perfeita para falar de Bravo 2023!, o espectáculo do Teatro Praga que fui ver há dias ao São Luiz e que me suscitou imensas perguntas. Uma dessas perguntas é: porque é que eu gostei disto?  


Não é a primeira vez que os Praga fazem uma revista. Em 2014 tinham feito a Tropa Fandanga, com o actor José Raposo. Desta vez,  o espectáculo tem a actriz Marina Mota, mas a receita é a mesma. A "revista à portuguesa" tem um modelo rígido que o grupo segue à risca, com um compère, os quadros cómicos, os números musicais, o número sério, a artista convidada. A revista tem uma visual específico, com telões a servirem de cenário e um guarda-roupa exuberante. Tem um estilo de representação próprio, uma cadência inconfundível. Tem também um humor que lhe é característico. Um tipo de humor "antigo", fora de moda. A tudo isso os Praga são fiéis. O que eles fazem não é uma paródia de uma revista, é uma revista a sério. 


E o que é extraordinário é que tudo aquilo que na revista do Parque Mayer nos parece cheirar a mofo, aqui faz todo o sentido. A interpretação demasido marcada, os estereotipos (de género, de idade, de região, de classe), as piadas xenófobas, que noutro contexto nos fariam revivar os olhos, aqui fazem-nos rir. O que no Teatro Maria Vitória consideraríamos kitsch, no São Luiz é cool. As sessões de Bravo 2023! estiveram todas esgotadas, muito provavelmente com pessoas que nunca foram ver uma revista e que, se fossem, achariam horrível. Mas que se riem desbragadamente da empregada da limpeza que aparece nos interlúdios e da imitação do José Castelo-Branco e da sua Betty a "cair da tripeça" (literalmente).


Um dos motivos porque isto acontece é porque, apesar de esta ser uma "revista a sério", ao mesmo tempo, esta não é uma verdadeira revista. A revista é popular, acessível a todos, básica. Esta é uma revista auto-consciente, que sabe com que linhas se cose, que adopta o formato popular mas é bastante intelectual. Este espectáculo tem um texto de uma enorme profundidade - um texto belíssimo, cheio de referências e meta-referências, cheio de subtilezas, que toca em vários temas do ano que agora termina (conseguir ir buscar os temas mais óbvios como a Jornada Mundial da Juventude mas também aquelas pequenas coisas de que já não nos lembrávamos, como a influencer e o submarino, ter o presidente dos afectos, a crise da habitação, o "Preço Certo" e o ministro da Cultura), que procura chegar a diferentes lugares, que faz críticas contundentes e outras mais ligeiras, que dá alfinetadas das boas mas outras vezes só lança piadas ou faz trocadilhos tontos, um texto inteligentíssimo, sem dúvida, mas bastante elitista. Para conseguir compreender tudo o que ali se diz é preciso estar muito dentro da cultura do "eixo baixa-chiado" (eu ri-me muito e mesmo assim tenho consciência que me passou muita coisa ao lado).


Mas isto também acontece porque os Praga têm lugar de fala. Eles podem gozar com os gay e com os ingleses, podem gozar com quem quiserem pois haverá poucos grupos mais inclusivos, verdadeiramente inclusivos, na sua essência, do que os Praga. Quando olhamos para o palco, a primeira coisa que nos chama a atenção é precisamente a diversidade de corpos que ali estão. Uma diversidade que não é forçada nem fruto de quotas, mas fruto de muitos anos de trabalho em conjunto, em que aquelas pessoas se foram conhecendo e tornando família - uns dos outros e, também, nossa.


O resultado disto tudo é um espectáculo que é muito bom, ainda que desigual, obviamente - ou não fosse este um espectáculo de revista. Para mim, os dois quadros mais bem conseguidos foram os da "Artista está presente" e do "Rabo de Peixona", aqueles onde dei por mim a rir incontrolavelmente, com o texto extraordinário e uma Marina Mota no seu melhor. O número sério, dedicado ao poeta Manuel Gusmão é muito tocante (e a Joana Manuel fá-lo impecavelmente). As músicas de Pedro Mafama são óptimas (queremos ouvi-las outra vez!). Os cenários de João Pedro Vale e Nuno Alexandre e os figurinos de Joana Barrios são muito bons. E o luxo que é ter uma orquestra a tocar ao vivo, dirigida pelo Alex D'Alva Teixeira. Entre os números bons, os falhados e aqueles que tanto faz, o espectáculo tem três horas mas quase não damos por elas, e isso é dizer muito.


No final, quando apanhei o táxi para voltar para casa, trazia a cabeça a mil, com muitas perguntas e poucas respostas. Demorei algum tempo a conseguir estruturar (mais ou menos) um pensamento sobre este Bravo, que tanto é a revista alemã que líamos nos anos 80 como é esfregão para lavar mesmo bem a loiça, como é grito lançado da plateia para um ano que nos trouxe tantos amargos de boca e também tantos motivos para rir.


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Thursday, October 05, 2023

Jon Fosse

Nobel da Literatura para Jon Fosse. Conheço-o pelo teatro. Peças minimalistas, becktianas, quer pela forma quer pelo conteúdo, sempre a questionar o sentido disto tudo, a confrontar-nos com o absurdo do quotidiano. Poucas palavras, repetições, uma musicalidade que nos embala. Angústia, tristeza. Lembro também o seu jeito tímido, quase envergonhado, engolindo as palavras num inglês enrolado.


Dia de lembrar o Jorge e os dias d'A Capital. De agradecer ter vivido o que vivi. A brincar, a brincar, esta pessoa especialista em coisa nenhuma já entrevistou dois prémios Nobel da Literatura. Não está na internet, mas garanto-vos que aconteceu.


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Tuesday, February 28, 2023

"Fill yourself with the beautiful stuff of the world. Have fun. Get amazed"

Como posso viver a vida ao máximo e não desperdiçar o meu potencial?, perguntou Ruben, de 13 anos, ao músico Nick Cave, através do (maravilhoso) site "The Red Hand Files". 


A resposta é fantástica. Serve para o Ruben e serve para todos nós. É exactamente isto.


"Dear Ruben, 


When I read this question, my initial thought was that the kid who wrote this has nothing to worry about, they’re going to be all right. Ruben, you are very smart, you are engaged with the world and I’m not sure what your creative interests are, but you can certainly already write. Not only that, you are also reaching out for answers. At thirteen, this is all brilliant! Luckily for you, Ruben, I have some! So here goes!


Read. Read as much as possible. Read the big stuff, the challenging stuff, the confronting stuff, and read the fun stuff too. Visit galleries and look at paintings, watch movies, listen to music, go to concerts –  be a little vampire running around the place sucking up all the art and ideas you can. Fill yourself with the beautiful stuff of the world. Have fun. Get amazed. Get astonished. Get awed on a regular basis, so that getting awed is habitual and becomes a state of being. Fully understand your enormous value in the scheme of things because the planet needs people like you, smart young creatives full of awe, who can minister to the world with positive, mischievous energy, young people who seek spiritual enrichment and who see hatred and disconnection as the corrosive forces they are. These are manifest indicators of a human being with immense potential.


Absorb into yourself the world’s full richness and goodness and fun and genius, so that when someone tells you it’s not worth fighting for, you will stick up for it, protect it, run to its defence, because it is your world theyre talking about, then watch that world continue to pour itself into you in gratitude. A little smart vampire full of raging love, amazed by the world – that will be you, my young friend, the earth shaking at your feet.


Love, Nick"

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Monday, February 13, 2023

A vida pula e avança: dois filmes, dois livros, dois espectáculos, duas reportagens

Um post para correr atrás do prejuízo. Porque não quero esquecer algumas das coisas boas que têm acontecido.


Dois filmes


Aftersun é uma pequena maravilha. Trata-se da primeira longa-metragem de Charlotte Wells, que, aparentemente, se inspira em parte na sua infância. A ação passa-se talvez nos finais dos anos 90 ou início dos 2000 (estou a calcular, pela banda sonora, que inclui a Macarena e os Blur). Um pai (Paul Mescal, que conhecemos de Normal People), recentemente divorciado e a braços com vários problemas materiais e emocionais, leva a filha de onze anos (Frankie Corio) para umas férias de verão num resort turístico na Turquia. As conversas entre eles são deliciosas, os silêncios ainda mais. Não sei se foi por ter essa experiência, de passar tanto tempo com os meus filhos, sem mais adultos por perto, mas emocionei-me muito porque sei bem o tanto que ali se passa, naqueles silêncios, em que pai e filha partilham cumplicidades e cuidam um do outro, com pequenos gestos, pequenos nadas que são tudo. 



No dia em que fui ao cinema ver Ursos não há, o realizador iraniano Jafar Panahi encontrava-se preso desde julho do ano pasado. Foi libertado dias depois, a 4 de fevereiro. Tal como tem vindo a fazer, Panahi continua a trabalhar a autoficção, apresentando-se a si mesmo no ecrã e às dificuldades que enfrenta como realizador num país onde não existe liberdade de expressão e que, além disso, se rege por tradições ancestrais, patriarcais e castradoras. A vigilância não é só policial, é também exercida pela comunidade. Estas circunstâncias levam-no a interrogar o seu trabalho, a importância das imagens e o papel do cinema. Ursos não há, mas as ameaças e o medo podem ser reais.



Dois livros


Com Nora Webster, de Colm Tóibin, conheci uma mulher que fica viúva e de repente se vê sozinha a braços com a vida e os filhos. A ação passa-se em Enniscorthy, na Irlanda, no final da década de 60. Mas podia ser aqui e agora (houve ali momentos - por exemplo quando, cheia de sentimentos de culpa, ela tem de deixar os filhos pequenos desacompanhados durante algumas horas para ir trabalhar - em que podia perfeitamente ser eu). Nora procura o seu próprio caminho, sem medos. Isso implica tomar decisões que vão parecer aberrantes vistas de fora. Tem de libertar-se das suas obrigações perante a comunidade, do peso da religião, do enorme fardo das aparências. Às vezes, temos forças que nem sabíamos que tínhamos. 


Shuggie Bain, de Douglas Stuart, chegou-me através da Sónia, que me assegurou que tinha sido um dos melhores livros que já tinha lido. É, de facto, muito bom. Um mergulho de cabeça nas dificuldades das classes mais baixas de Glasgow, na Escócia, nos anos 80. A miséria contada a partir da história de um miúdo, Shuggie Bain, que cresce a assistir à luta da mãe, Agnes, contra as injustiças do mundo, contra os homens que a exploram e contra o vício do álcool. E que ao mesmo tempo vive também a sua própria luta, a tentar perceber porque é que não é como os outros rapazes. Da alegria de comer um chocolate à tristeza de não ter mais o que comer. Maravilhosamente escrito, com pormenores que nos vão fazer chorar mas também sorrir, que às vezes me fizeram sentir uma enorme revolta. O livro foi o vencedor do Booker Prize em 2020 (e acho que tem tudo para vir a ser um filme).


Dois espectáculos


Onde é que eu ia?, monólogo de Nuno Artur Silva (na verdade, não é, está lá o António Jorge Gonçalves, a dialogar com desenhos, mas, vá), espécie de stand-up comedy mas num tom e num ritmo muito próprios, humor umas vezes mais aguçado, noutras mais light, umas vezes mais confessional, noutras mais desbragado. Gosto muito de ouvir pessoas inteligentes, mais ainda se forem capazes de rir de si mesmas. 


Massa Mãe, espectáculo da minhota Sara Inês Gigante, com a amiga também minhota Carolina Vieira, uma viagem pelas suas memórias de criança, passando pelas brincadeiras com a cadela Pancas, as festas da Senhora da Agonia, o ouro pendurado ao pescoço, os lenços dos namorados, o fato da avó Cândida e os conselhos da tia Maria. E as perguntas todas que surgem quando olhamos para as tradições. A vida é como o ciclo do pão de milho - semea-se, cuida-se, apanha-se, desfolha-se, mói-se, amassa-se, coze-se, come-se. Mas, tal como com a "massa mãe", deixamos sempre algo para os que vêm a seguir.


Vendo bem, são duas criações em modo "a minha vida dava um espectáculo". Cada um à sua maneira. E também por isso - porque sou esta pessoa que se pensa e se narra e se questiona e se memorializa por aqui - me agradaram tanto e me levantaram tantas questões.


Duas reportagens


"Estou a lutar pela vida e agora vou falar de sexo?" Após o diagnóstico de cancro, os doentes experienciam geralmente uma diminuição da líbido, o que se agrava com os sintomas da doença e, depois, os efeitos dos tratamentos. Na maioria das vezes, vivem com este problema em silêncio, têm vergonha de falar do assunto com os médicos pois temem que as outras pessoas achem que não é adequado pensar em sexo quando se está em risco de morrer. 


Na Mouraria, uma cama num quarto partilhado por seis pessoas pode custar 200 euros. Andei pelas ruas dos bairro, acompanhada pela Farhana, a tentar perceber as dificuldades dos imigrantes que ali moram. “Se as pessoas vivem em condições tão miseráveis é porque não têm alternativas”, disse-me o Farid. Se a habitação é um problema tão grande na nossa sociedade actual, imaginem para aqueles que acabaram de chegar a um país novo, que não têm rede de apoio nem falam a língua, que podem até não ter um trabalho nem documentação legal.


Mouraria_019.JPG Fotografia de Rodrigo Cabrita

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Sunday, July 03, 2022

O espaço vazio

“I can take any empty space and call it a bare stage. A man walks across this empty space, whilst someone else is watching him, and this is all that is needed for an act of theatre to be engaged.” (O Espaço Vazio, 1968)


Peter Brook (1925-2022) foi encenador, realizador, investigador, pensador, desafiador.  Tenho ideia de só ter visto um espectáculo encenado por ele (O Fato, apresentado na Culturgest, em 2002), mas sei bem como influenciou tantos criadores (inclusivamente portugueses) e tanto do teatro que vemos. Como forma de despedida, estive a ler os textos no The Guardian e no Le Monde, dois olhares muito diferentes sobre a sua obra. Também vale a pena ir ver o seu site oficial


Obrigado por tudo, Peter Brook.


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Monday, June 20, 2022

John Cleese não tem assim tanta graça

(texto praí com três semanas de atraso, mas mais vale tarde do que nunca)

Fui ver o espectáculo Last time to see me before I die, do John Cleese. Acho que quase todos os que ali estavam naquele dia (e nos outros dias, o homem conseguiu encher o coliseu para seis espectáculos) foram sobretudo por causa das boas memórias dos Monty Python e da série Faulty Towers. Sabendo disso, o humorista deu-nos bastantes memórias. E foi fixe ouvi-lo a contar histórias desses tempos, mesmo que algumas dessas histórias já fossem bastante conhecidas, e a fazer algumas reflexões sobre porque é que aquele tipo de humor teve tanto sucesso. 

O que foi menos fixe foi perceber que, para além disso, ele tinha pouco mais a oferecer. Só uma lenga-lenga contra a "cultura de cancelamento" (ou "cultura woke") que vai-se a ver em 2022 já tem muito pouco de revolucionário e parece só rabujice. Eu, que não sou a maior fã de humor em geral nem de Monty Python em particular (ai, o escândalo, como é possível? pois, é verdade. acho que algumas coisas têm graça, outras mais ou menos e outras são só tontas, pronto) mas sou completamente contra cancelamentos e linchamentos públicos, senti só muita pena daquele velhote sem noção - e alguma vergonha alheia, em alguns momentos, confesso. 

É verdade que instintivamente rimo-nos de coisas que racionalmente não têm graça. Rimo-nos ao ver pessoas a cair e todo esse género de trapalhices (Chaplin sabia-o bem). Rimo-nos, infantilmente, quando alguém diz piadas com segundos sentidos "marotos" ou expressões proibidas. Rimo-nos de coisas muito parvas. Não há mal nenhum nisso. Nesse ponto, Cleese tem razão. Há um lado mais básico da comédia que evoluiu muito pouco. Mas também é verdade que o humor é das formas de arte que envelhece pior. Aquilo que era transgressor ou surpreendente nos anos 70 ou 80, hoje já nos parece banal. E ainda bem que assim é. Estranho seria se fosse de outra forma. Podemos defender que O Tal Canal de Herman José foi um programa importantíssimo quando estreou e, ao mesmo tempo, admitir que ao ver aquilo agora já não damos assim tantas gargalhadas.

O que é verdadeiramente incompreensível é não compreender isto e insistir em ficar parado no tempo.

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