A vida pula e avança: dois filmes, dois livros, dois espectáculos, duas reportagens
Um post para correr atrás do prejuízo. Porque não quero esquecer algumas das coisas boas que têm acontecido.
Dois filmes
Aftersun é uma pequena maravilha. Trata-se da primeira longa-metragem de Charlotte Wells, que, aparentemente, se inspira em parte na sua infância. A ação passa-se talvez nos finais dos anos 90 ou início dos 2000 (estou a calcular, pela banda sonora, que inclui a Macarena e os Blur). Um pai (Paul Mescal, que conhecemos de Normal People), recentemente divorciado e a braços com vários problemas materiais e emocionais, leva a filha de onze anos (Frankie Corio) para umas férias de verão num resort turístico na Turquia. As conversas entre eles são deliciosas, os silêncios ainda mais. Não sei se foi por ter essa experiência, de passar tanto tempo com os meus filhos, sem mais adultos por perto, mas emocionei-me muito porque sei bem o tanto que ali se passa, naqueles silêncios, em que pai e filha partilham cumplicidades e cuidam um do outro, com pequenos gestos, pequenos nadas que são tudo.
No dia em que fui ao cinema ver Ursos não há, o realizador iraniano Jafar Panahi encontrava-se preso desde julho do ano pasado. Foi libertado dias depois, a 4 de fevereiro. Tal como tem vindo a fazer, Panahi continua a trabalhar a autoficção, apresentando-se a si mesmo no ecrã e às dificuldades que enfrenta como realizador num país onde não existe liberdade de expressão e que, além disso, se rege por tradições ancestrais, patriarcais e castradoras. A vigilância não é só policial, é também exercida pela comunidade. Estas circunstâncias levam-no a interrogar o seu trabalho, a importância das imagens e o papel do cinema. Ursos não há, mas as ameaças e o medo podem ser reais.
Dois livros
Com Nora Webster, de Colm Tóibin, conheci uma mulher que fica viúva e de repente se vê sozinha a braços com a vida e os filhos. A ação passa-se em Enniscorthy, na Irlanda, no final da década de 60. Mas podia ser aqui e agora (houve ali momentos - por exemplo quando, cheia de sentimentos de culpa, ela tem de deixar os filhos pequenos desacompanhados durante algumas horas para ir trabalhar - em que podia perfeitamente ser eu). Nora procura o seu próprio caminho, sem medos. Isso implica tomar decisões que vão parecer aberrantes vistas de fora. Tem de libertar-se das suas obrigações perante a comunidade, do peso da religião, do enorme fardo das aparências. Às vezes, temos forças que nem sabíamos que tínhamos.
Shuggie Bain, de Douglas Stuart, chegou-me através da Sónia, que me assegurou que tinha sido um dos melhores livros que já tinha lido. É, de facto, muito bom. Um mergulho de cabeça nas dificuldades das classes mais baixas de Glasgow, na Escócia, nos anos 80. A miséria contada a partir da história de um miúdo, Shuggie Bain, que cresce a assistir à luta da mãe, Agnes, contra as injustiças do mundo, contra os homens que a exploram e contra o vício do álcool. E que ao mesmo tempo vive também a sua própria luta, a tentar perceber porque é que não é como os outros rapazes. Da alegria de comer um chocolate à tristeza de não ter mais o que comer. Maravilhosamente escrito, com pormenores que nos vão fazer chorar mas também sorrir, que às vezes me fizeram sentir uma enorme revolta. O livro foi o vencedor do Booker Prize em 2020 (e acho que tem tudo para vir a ser um filme).
Dois espectáculos
Onde é que eu ia?, monólogo de Nuno Artur Silva (na verdade, não é, está lá o António Jorge Gonçalves, a dialogar com desenhos, mas, vá), espécie de stand-up comedy mas num tom e num ritmo muito próprios, humor umas vezes mais aguçado, noutras mais light, umas vezes mais confessional, noutras mais desbragado. Gosto muito de ouvir pessoas inteligentes, mais ainda se forem capazes de rir de si mesmas.
Massa Mãe, espectáculo da minhota Sara Inês Gigante, com a amiga também minhota Carolina Vieira, uma viagem pelas suas memórias de criança, passando pelas brincadeiras com a cadela Pancas, as festas da Senhora da Agonia, o ouro pendurado ao pescoço, os lenços dos namorados, o fato da avó Cândida e os conselhos da tia Maria. E as perguntas todas que surgem quando olhamos para as tradições. A vida é como o ciclo do pão de milho - semea-se, cuida-se, apanha-se, desfolha-se, mói-se, amassa-se, coze-se, come-se. Mas, tal como com a "massa mãe", deixamos sempre algo para os que vêm a seguir.
Vendo bem, são duas criações em modo "a minha vida dava um espectáculo". Cada um à sua maneira. E também por isso - porque sou esta pessoa que se pensa e se narra e se questiona e se memorializa por aqui - me agradaram tanto e me levantaram tantas questões.
Duas reportagens
"Estou a lutar pela vida e agora vou falar de sexo?" Após o diagnóstico de cancro, os doentes experienciam geralmente uma diminuição da líbido, o que se agrava com os sintomas da doença e, depois, os efeitos dos tratamentos. Na maioria das vezes, vivem com este problema em silêncio, têm vergonha de falar do assunto com os médicos pois temem que as outras pessoas achem que não é adequado pensar em sexo quando se está em risco de morrer.
Na Mouraria, uma cama num quarto partilhado por seis pessoas pode custar 200 euros. Andei pelas ruas dos bairro, acompanhada pela Farhana, a tentar perceber as dificuldades dos imigrantes que ali moram. “Se as pessoas vivem em condições tão miseráveis é porque não têm alternativas”, disse-me o Farid. Se a habitação é um problema tão grande na nossa sociedade actual, imaginem para aqueles que acabaram de chegar a um país novo, que não têm rede de apoio nem falam a língua, que podem até não ter um trabalho nem documentação legal.
Fotografia de Rodrigo Cabrita
Labels: cinema, jornalismo, Livros, teatro

1 Comments:
Estava com saudades d'A Gata Christie! Valeu a pena a espera, já pus 2 ou 3 das sugestões nos planos de voo! Obrigada pela partilha de tantas coisas boas!🐦
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