Tuesday, December 26, 2023

Bravo, bravíssimo

"Uma obra de arte não responde a questões, provoca-as, e o seu significado essencial está na tensão entre as respostas contraditórias."


A frase de Leonard Bernstein serve de epígrafe ao filme Maestro, realizado por Bradley Cooper. Não achei o filme particularmente estimulante, para ser sincera, apesar das óptimas interpretações de Cooper e de Carey Mulligan (no papel da mulher de Bernstein, Felicia Montealegre). Mas a frase pareceu-me perfeita para falar de Bravo 2023!, o espectáculo do Teatro Praga que fui ver há dias ao São Luiz e que me suscitou imensas perguntas. Uma dessas perguntas é: porque é que eu gostei disto?  


Não é a primeira vez que os Praga fazem uma revista. Em 2014 tinham feito a Tropa Fandanga, com o actor José Raposo. Desta vez,  o espectáculo tem a actriz Marina Mota, mas a receita é a mesma. A "revista à portuguesa" tem um modelo rígido que o grupo segue à risca, com um compère, os quadros cómicos, os números musicais, o número sério, a artista convidada. A revista tem uma visual específico, com telões a servirem de cenário e um guarda-roupa exuberante. Tem um estilo de representação próprio, uma cadência inconfundível. Tem também um humor que lhe é característico. Um tipo de humor "antigo", fora de moda. A tudo isso os Praga são fiéis. O que eles fazem não é uma paródia de uma revista, é uma revista a sério. 


E o que é extraordinário é que tudo aquilo que na revista do Parque Mayer nos parece cheirar a mofo, aqui faz todo o sentido. A interpretação demasido marcada, os estereotipos (de género, de idade, de região, de classe), as piadas xenófobas, que noutro contexto nos fariam revivar os olhos, aqui fazem-nos rir. O que no Teatro Maria Vitória consideraríamos kitsch, no São Luiz é cool. As sessões de Bravo 2023! estiveram todas esgotadas, muito provavelmente com pessoas que nunca foram ver uma revista e que, se fossem, achariam horrível. Mas que se riem desbragadamente da empregada da limpeza que aparece nos interlúdios e da imitação do José Castelo-Branco e da sua Betty a "cair da tripeça" (literalmente).


Um dos motivos porque isto acontece é porque, apesar de esta ser uma "revista a sério", ao mesmo tempo, esta não é uma verdadeira revista. A revista é popular, acessível a todos, básica. Esta é uma revista auto-consciente, que sabe com que linhas se cose, que adopta o formato popular mas é bastante intelectual. Este espectáculo tem um texto de uma enorme profundidade - um texto belíssimo, cheio de referências e meta-referências, cheio de subtilezas, que toca em vários temas do ano que agora termina (conseguir ir buscar os temas mais óbvios como a Jornada Mundial da Juventude mas também aquelas pequenas coisas de que já não nos lembrávamos, como a influencer e o submarino, ter o presidente dos afectos, a crise da habitação, o "Preço Certo" e o ministro da Cultura), que procura chegar a diferentes lugares, que faz críticas contundentes e outras mais ligeiras, que dá alfinetadas das boas mas outras vezes só lança piadas ou faz trocadilhos tontos, um texto inteligentíssimo, sem dúvida, mas bastante elitista. Para conseguir compreender tudo o que ali se diz é preciso estar muito dentro da cultura do "eixo baixa-chiado" (eu ri-me muito e mesmo assim tenho consciência que me passou muita coisa ao lado).


Mas isto também acontece porque os Praga têm lugar de fala. Eles podem gozar com os gay e com os ingleses, podem gozar com quem quiserem pois haverá poucos grupos mais inclusivos, verdadeiramente inclusivos, na sua essência, do que os Praga. Quando olhamos para o palco, a primeira coisa que nos chama a atenção é precisamente a diversidade de corpos que ali estão. Uma diversidade que não é forçada nem fruto de quotas, mas fruto de muitos anos de trabalho em conjunto, em que aquelas pessoas se foram conhecendo e tornando família - uns dos outros e, também, nossa.


O resultado disto tudo é um espectáculo que é muito bom, ainda que desigual, obviamente - ou não fosse este um espectáculo de revista. Para mim, os dois quadros mais bem conseguidos foram os da "Artista está presente" e do "Rabo de Peixona", aqueles onde dei por mim a rir incontrolavelmente, com o texto extraordinário e uma Marina Mota no seu melhor. O número sério, dedicado ao poeta Manuel Gusmão é muito tocante (e a Joana Manuel fá-lo impecavelmente). As músicas de Pedro Mafama são óptimas (queremos ouvi-las outra vez!). Os cenários de João Pedro Vale e Nuno Alexandre e os figurinos de Joana Barrios são muito bons. E o luxo que é ter uma orquestra a tocar ao vivo, dirigida pelo Alex D'Alva Teixeira. Entre os números bons, os falhados e aqueles que tanto faz, o espectáculo tem três horas mas quase não damos por elas, e isso é dizer muito.


No final, quando apanhei o táxi para voltar para casa, trazia a cabeça a mil, com muitas perguntas e poucas respostas. Demorei algum tempo a conseguir estruturar (mais ou menos) um pensamento sobre este Bravo, que tanto é a revista alemã que líamos nos anos 80 como é esfregão para lavar mesmo bem a loiça, como é grito lançado da plateia para um ano que nos trouxe tantos amargos de boca e também tantos motivos para rir.


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