Lviv: a guerra ali tão perto

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O meu trabalho, com todos os seus defeitos e problemas, com todas as desilusões e tristezas, continua a dar-me momentos de grande alegria. Ter oportunidade de sair daqui, de conhecer sítios novos, de falar com pessoas diferentes, de ir, ver, ouvir, experimentar, é mesmo uma das melhores coisas do mundo. O mundo é tão grande e há tanto para descobrir. Quando me perguntam se estou diponível para uma viagem, respondo sempre que sim, seja para perto ou para longe, seja qual for o tema do trabalho, digo que sim e depois logo vejo como é que isto se encaixa na minha vida.
Foi assim que fui parar a Lviv, na Ucrânia.
Vim das férias diretamente para a viagem. Saí de casa no dia 2 de setembro, terça-feira, antes das 7:00 da manhã e voltei esta noite, cheguei a casa já depois da meia-noite. Uma semana inteira fora. Viagens cansativas, de avião e de autocarro, muitas horas de autocarro, um autocarro que esteve muito tempo parado na fronteira, para sair e depois para entrar na União Europeia. O programa era intenso. E, sobre esse programa, ainda tive que acrescentar as horas de trabalho - entrevistas realizadas nos momentos de pausa, textos escritos pela noite dentro, a roubar horas ao sono, às refeições e ao descanso. É sempre assim quando vamos para fora, sem horários, a dar tudo. Estou exausta, o meu cérebro está enevoado, não sei como é que vou conseguir enfrentar os dias que tenho pela frente e todas as coisas que tenho para fazer, mas valeu bem a pena é o que posso dizer.
Lviv é uma cidade muito bonita e senti-me sempre bastante segura, apesar da guerra. Na noite antes de chegarmos, quando estávamos em Cracóvia, na Polónia, toda a Ucrânia esteve sob alerta e a região de Lviv foi atacada. Durante a nossa estadia, houve dois alertas que nos obrigaram a ir para o abrigo, mas nada aconteceu. Ouvir as sirenes da cidade a tocar e receber a mensagem de alerta no telemóvel é um bocadinho assustador, há que reconhecer, mas depressa percebemos que - pelo menos destas vezes - não havia nada a temer. O recolher obrigatório é da meia-noite às 5:00 da manhã, mas até essa hora a população faz a sua vida normal, no centro os restaurantes e os bares estão abertos, as esplanadas movimentadas. Foi muito interessante ver como as pessoas continuam a fazer o seu dia-a-dia, apesar de todos os constrangimentos.
Mas a guerra está sempre presente, mesmo quando não há ataques. Há funerais de militares praticamente todos os dias, toda a gente tem familiares e amigos a combater na linha da frente, é comum nas ruas encontrar feridos de guerra. Em todas as conversas, a guerra. Falei com alguns jovens ucranianos e é claro que foi muito comovente. São miúdos, da idade dos meus filhos, e vivem há mais de três anos em guerra, alguns passaram por situações realmente dramáticas. Como não ficar a pensar nisto?
O alerta de ataque aéreo é acompanhado pelo som de uma sirente e uma voz que grita "Attention! Attention!"
O cemitério onde estão sepultados mais de 1.200 militares de Lviv, mortos na guerra desde 2022
Vários monumentos estão protegidos por causa dos ataques aéreos. Aqui, os vitrais da catedral tapados
Por todo o lado, nos jardins e nas igrejas, há memoriais que homenageiam as vítimas da guerra
Se quiserem perceber melhor o que fui lá fazer, podem procurar os seis textos que escrevi para a CNN Portugal sobre o (ou à volta do) encontro de jovens portugueses e ucranianos em Lviv: o primeiro é uma antecipação do programa, o último é uma espécie de balanço, pelo meio há outras histórias. Foi tudo escrito a quente e em contra-relógio, mas espero que gostem.
Labels: jornalismo, trabalho, viagem

1 Comments:
Que coragem!
Muitos parabéns pelo trabalho!
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