Tuesday, July 15, 2025

Terapia

O primeiro post que aqui publiquei sobre terapia data de julho de 2008. Chama-se mesmo "Terapia" e é sobre passar a ferro. Nessa altura, eu tinha acabado de ter o meu segundo filho, a minha vida estava uma confusão e eu não tinha empregada nem tinha um minuto só para mim, mas estava muito feliz. Os momentos em que passava a ferro eram muito provavelmente dos poucos que tinha para me pensar um pouco.


Depois há outro post, com esse mesmo título, e que fala das coisas que me faziam bem em 2014: "Dançar. Sentir o sol. Os amigos. Dar abraços. Cozinhar." Que são as mesmas ainda em 2015. Nesta fase, já me tinha separado e estava sozinha com os miúdos pequenos. Foi também nesta altura que fui pela primeira a uma psiquiatra, durante algum tempo. Falei disso aqui, e fiz mais algumas breves referências, mas sem em entrar em muitos pormenores. A experiência não tinha corrido muito bem e ainda não tinha recursos para falar disso.


O primeiro post onde reflicto um pouco mais a sério sobre saúde mental é de junho de 2019. Aí, são já claras as duas interpretações que dou à palavra terapia: por um lado, o acompanhamento médico para um maior autoconhecimento e compreensão de nós mesmos, por outro, as coisas boas que temos na vida, que nos fazem felizes, que nos ajudam a levar isto. "As coisas bonitas que encontro por aí, os amigos e a minha cozinha. Esta tem sido a minha terapia. Só me falta dançar", dizia por essa altura.


A série "A felicidade nas coisas pequenas" surgiu precisamente da necessidade de lembrar a mim mesma que eu tinha (e tenho) muitos motivos para estar feliz. Mesmo quando não estou apaixonada ou mesmo quando odeio o trabalho ou os putos me fazem duvidar de tudo ou sinto que sou uma falhada, mesmo assim, há coisas boas. "A felicidade nas coisas pequenas" é também uma espécie de terapia.


A pandemia (a pandemia e o seu isolamento, a adolescência dos meus filhos, um despedimento, a doença e a morte da minha mãe, aconteceu tudo ao mesmo tempo e é a isto tudo que me refiro quando me refiro à pandemia) levou-me de volta ao consultório de um psiquiatra. Ainda tentei não perder o pé. Mas acabei por ir e foi mesmo o melhor que fiz. Não foi perfeito, nunca me consegui entregar completamente e houve temas que ficaram por abordar. Mas foi muito útil. Ajudou-me a ultrapassar algumas das minhas inseguranças e a preparar-me para uma nova fase da vida. Falei disso aqui, aqui e aqui (naquele que foi o primeiro post do largo).


Neste processo aprendi, de certa forma, a viver com os meus "altos e baixos". Criei a tag blah onde falo sobre isto porque, entretanto, também percebi que escrever sobre o que sinto, manter registos que me ajudem a entender as fases por que estou a passar e tentar organizar um discurso sobre os meus medos e tristezas, é também uma parte importante deste caminho terapêutico.


Neste momento, em que não tenho psicólogo (embora às vezes sinta que teria tanto a ganhar se conseguisse de facto dedicar-me a fazer terapia), continuo a procurar as minhas terapias quotidianas. Não tenho passado a ferro, mas continuo a achar que os momentos em que estou sozinha a fazer algum tipo de trabalho manual ou corporal (como cozinhar, tricotar, caminhar) são perfeitos para organizar as ideias. Continuo a precisar das minhas pessoas, dos abraços, das conversas, dos amigos que são casa. E a ser extremamente feliz nos momentos em que estou em paz com os meus filhos. As férias são a minha salvação periódica, embora tenha também (poucos) momentos de grande felicidade a trabalhar. Nunca mais dancei, mas tenho o yoga e o pilates. Preciso, como sempre precisei mas só há pouco tempo tive essa consciência, de desafios intelectuais. Preciso de filmes, livros, espectáculos, arte. E preciso de escrever, como parece ficar claro nisto tudo.


Esta semana, no nosso largo, deveríamos escrever sobre terapia e eu achei que ia ser fácil e depois afinal não foi porque tenho a sensação que já disse tudo o que tinha a dizer sobre o tema. Ou melhor, tenho a sensação que estou sempre a falar sobre isto. Que este blog, estes textos que vou para aqui deixando, sejam sobre que tema fôr, fazem todos eles parte desta tentativa de fazer/criar sentido. Umas vezes quase consigo. Outras vezes fico frustrada. Mas sei que é tudo muito mais difícil se não tentar. Nada disto é novo, há vários psicólogos que aconselham os seus pacientes a manterem um diário ou a escreverem regularmente sobre o que sentem e o que vivem. Geralmente esses diários são privados. Este meu diário é público. Não sei se é defeito profissional ou se é só exibicionismo.


Talvez precise de fazer terapia para tentar entender esta terapia.

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1 Comments:

Anonymous Maria said...

Tenho que voltar a escrever desta forma. Acho mesmo que o meu blog, me valeu anos de terapia gratuita e tenho saudades ( e falta) disso. Às vezes ainda volto ao privado, aqueles que foram durante anos, antes do blog, os meus confidentes, os diários, onde escrevia com a alma mais liberta só para os sentir. E sinto o que escrevi as vezes leva-me a sítios menos bons, mas é a única certeza nas alturas dúbias que tudo está tão diferente.
Nunca vou achar textos mais pessoais fraquezas, acho que quem consegue escrever assim tem garra e coragem. Eu gosto de ler. É também terapêutico.

2:59 PM  

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