Um ano depois, ainda a tentar perceber
"Não há dúvidas de que o comunismo foi uma época terrível para a Rússia, mas o que temos hoje ainda é pior", escreveu Anna Politkovskaya em 2004. Pouco depois, em 2006, a jornalista russa foi assassinada à porta de casa. Tinha 49 anos e dedicara grande parte da sua carreira a denunciar as atrocidades e as injustiças cometidas no seu país, em particular na Chechénia. O livro A Rússia de Putin foi publicado em Portugal no ano passado e é um documento incrível e uma premonição. Estava lá tudo. O fim do comunismo e a tentativa fracassada para construir uma democracia. O poder enorme dos olicargas e das máfias. O desprezo de Putin pelo seu povo. A guerra como forma de manter o poder. A ambição desmedida. A corrupção incrustada na sociedade. A lei do mais forte. Os líderes ocidentais a fecharem os olhos e a darem apertos de mão, porque também lhes convinha. A pobreza das pessoas. O desalento. E, por fim, a necessidade de denunciar, de continuar mesmo sabendo - porque tinha que saber, porque ela própria contou essas histórias - que quem desafia o poder põe a sua vida em risco.
A luta contra a corrupção e por uma democracia do povo era a bandeira de Alexei Navalny. O advogado e político russo, da oposição, seria o maior concorrente a Vladimir Putin nas eleições presidenciais. Mas foi preso várias vezes e foi alvo de uma tentativa de assassinato, por envenamento, em agosto de 2020. O documentário Navalny, que está disponível na HBO e que está nomeado para um Óscar, encontra-o precisamente durante a recuperação, na Alemanha. Apesar de estar longe de casa, Navalny e a sua equipa continuaram a fazer oposição, determinados em fazer com que o mundo soubesse a verdade sobre a Rússia e sobre Putin, convictos de que o apoio internacional poderia evitar o pior. Talvez tenha sido assim: Navalny foi novamente preso no momento em que aterrou na Rússia e, desde então, tem sido certamente torturado e mal tratado de muitas formas; mas não foi morto. O documentário termina com a sua prisão, a 17 de janeiro de 2021, com as imagens incríveis de uma multidão que o esperava feliz mas acabou a levar bastonadas, com os telemóveis a gravarem a detenção de um cidadão apenas porque criticava o governo e denunciava os abusos de poder.
Passa hoje um ano sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia. Uma guerra que está longe de terminar. E se há coisa que este livro e este filme deixam bem claro é que esta guerra não foi uma surpresa para quem acompanhava o que se passava na Rússia. E é por isso que quase todos os líderes ocidentais são culpados disto que veio a acontecer - por terem sido coniventes com uma ditadura, por não terem sabido impor os limites quando deveriam tê-lo feito. Já vimos isto acontecer antes, que nos sirva de lição para o futuro. Com ditadores não pode haver diálogo.
Hoje é um dia bom para ler jornais e para percorrer os sites de informação. Há muita coisa boa para ler e para ver. Escolham bem as vossas fontes de informação e aproveitem. Há muitas histórias bem contadas, histórias de pessoas reais, de gente como nós que foi apanhada no meio de uma guerra. De gente que poderemos vir a ser nós, um dia destes.
Mariupol, 9 de março de 2022
Fotografia de Evgeniy Maloletka/AP

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