Wednesday, November 26, 2008
Sunday, November 23, 2008
Emergir
E respirar. De novo.
Porque é preciso. Porque só assim é possível continuar.
É o que eu faço. Parar, fechar os olhos, ficar em silêncio, inspirar, expirar, procurar uma mão a que me possa agarrar, procurar mesmo, concentrar-me nos sorrisos, nos afagos, nas mãozinhas pequenas que me arranham, nas mãos grandes que me abraçam, inspirar, expirar, abrir os olhos, voltar. É o que eu faço. De vez em quando, todos os dias, mais do que uma vez por dia, não interessa, tem que ser feito, as vezes que forem necessárias.
Não temos que estar sempre felizes. Mas podemos esforçar-nos um pouco, ora bolas.
(sim, isto é para vocês meus amigos mergulhadores. estendo-vos a mão, quem a agarra?)
Emergir
E respirar. De novo.
Porque é preciso. Porque só assim é possível continuar.
É o que eu faço. Parar, fechar os olhos, ficar em silêncio, inspirar, expirar, procurar uma mão a que me possa agarrar, procurar mesmo, concentrar-me nos sorrisos, nos afagos, nas mãozinhas pequenas que me arranham, nas mãos grandes que me abraçam, inspirar, expirar, abrir os olhos, voltar. É o que eu faço. De vez em quando, todos os dias, mais do que uma vez por dia, não interessa, tem que ser feito, as vezes que forem necessárias.
Não temos que estar sempre felizes. Mas podemos esforçar-nos um pouco, ora bolas.
(sim, isto é para vocês meus amigos mergulhadores. estendo-vos a mão, quem a agarra?)
Emergir
E respirar. De novo.
Porque é preciso. Porque só assim é possível continuar.
É o que eu faço. Parar, fechar os olhos, ficar em silêncio, inspirar, expirar, procurar uma mão a que me possa agarrar, procurar mesmo, concentrar-me nos sorrisos, nos afagos, nas mãozinhas pequenas que me arranham, nas mãos grandes que me abraçam, inspirar, expirar, abrir os olhos, voltar. É o que eu faço. De vez em quando, todos os dias, mais do que uma vez por dia, não interessa, tem que ser feito, as vezes que forem necessárias.
Não temos que estar sempre felizes. Mas podemos esforçar-nos um pouco, ora bolas.
(sim, isto é para vocês meus amigos mergulhadores. estendo-vos a mão, quem a agarra?)
Saturday, November 22, 2008
Friday, November 21, 2008
Esticar, esticar, esticar
Labels: Vida
Esticar, esticar, esticar
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Thursday, November 20, 2008
Tudo depende
Labels: Filhos
Tudo depende
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Tudo depende
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Tuesday, November 18, 2008
As palavras voltaram. E as gripes tambem.
A coisa foi de tal ordem que, aos cinco anos, me internaram na clínica de são lucas para ser operada ao nariz e à garganta. Lembro-me como se fosse hoje do quarto com duas camas, uma para mim e outra para o meu pai, que foi também quem me carregou ao colo, escadas abaixo, até quase à sala de operações. Lembro-me do cheiro da anestesia, o gás a sair da máscara, então como te chamas? maria joãzzzzzzzz. Uma tarde, já em casa, tive a visita da educadora Graça com todos os meus amigos da pré-primária que me trouxeram umas bolachas de chocolate polvilhadas com açúcar (as coisas de que a gente se lembra). Eu comia papa Nestum e bebia muitos sumos concentrados de pêra da Compal que se vendiam em latinhas pequenas. E faziam-me uma papa com leite morno e bolachas, vai-se a ver foi nessa altura que aprendi a gostar de molhar as bolachas no leite, no café e até mesmo no chá, faço-o até hoje, como o Clark Gable em It Happened One Night, é uma arte essa a de molhar os bolos no café.
Apesar da operação as doenças continuaram. Não passou muito tempo e já estava outra vez com uma pneumonia que afinal era uma tuberculose. Meses e meses a levar picas, se eu encontrasse o meu boletim de vacinas poderia confirmá-lo, tiveram que pôr uma folha em anexo porque já não havia espaço naquela página para assinalar tantas picas. Meses e meses a tomar um xarope cor-de-rosa, três colheres de cada vez, o que vale é que era docinho. Meses e meses caminho de Beja para tirar radiografias, o frio do metal na barriga, e a fazer análises, o que eu chorava com aquele garrote no braço e quanto mais chorava mais doía. Nesse ano não fomos para a praia, a conselho do médico fizemos férias em Penacova, junto ao Mondego, para respirar ar puro e, todos os dias, depois do almoço, tínhamos que ficar duas horas no quarto a descansar, eu por causa da doença e a minha irmã para me fazer companhia, coitada.
Meses e meses nisto e um dia o médico descobre que afinal não era tuberculose coisa nenhuma, era um quisto no pulmão, não se sabia se mau se menos mau, que nisto dos quistos não há nenhum que seja bom, e lá vamos nós para Lisboa, os meus pais com o coração nas mãos mas a fingir que não é nada, acordámos às seis da manhã porque não havia auto-estradas e a viagem era longa e tínhamos que estar às nove na consulta do hospital de santa maria. Elevador sete, piso oito, não demorei muito a orientar-me nos corredores daquele hospital enorme. Fiquei internada na enfermaria de senhoras dos serviços cardio-pulmonares, não sei porque não fiquei na pediatria mas assim até foi bom. Nas semanas que lá passei tornei-me a mascote do serviço, sabia os nomes das enfermeiras, era mimada pelas outras pacientes e pela doutora Teresa que me operou. Outra vez aquele cheiro da anestesia mas desta vez custou mais acordar, tantos tubos, o corpo dorido, muita sede. Eu nem sete anos tinha e devia estar meio zonza mas lembro-me perfeitamente da sala dos cuidados intensivos, aquele calor de estufa, o silêncio só interrompido pelos zumbidos e apitos das máquinas, os tubos por todo o lado, a cama a deslizar pelos corredores para me levar dali. Os meus pais, consigo agora imaginar o que devem ter sido aquelas horas para eles, até consigo ver o meu pai nervoso a andar de um lado para o outro, sei agora o que deve ter sentido a minha mãe enquanto esperava que a médica viesse dizer que já estava e que afinal não era nada de mau, era benigno, não bom, benigno, se fosse religiosa até teria soltado um graças a deus. Passei duas semanas de roupão a comer aquela comida sem sal. Lembro-me dos queques maravilhosos que se vendiam no café do rés-do-chão. Se fechar os olhos consigo ainda sentir o cheiro da cera dos corredores de santa maria. Deram-me livros de histórias e livros de colorir. Chorei muito quando me tiraram os pontos, despedi-me com beijinhos de toda a gente e desci pelo elevador sete para voltar, periodicamente, durante cinco anos que isto com quistos, mesmo benignos, nunca se sabe.
Fui para casa com uma cicatriz, uma costura como se dizia então, que me atravessava as costas e que era um sucesso entre os meus colegas. Mostra lá, e eu levantava a blusa e deixava toda a gente espantada. A minha mãe punha-me todos os dias creme Nívea daquela lata azul e foi vendo a cicatriz dela que eu percebi que a minha também não iria desaparecer nunca mais. Nunca mais, mãe? Nunca mais. Entendi e aceitei, fomos educadas assim, nunca mais pensei nisso, não fiquei traumatizada, não tive crises na adolescência por causa do meu corpo costurado, nunca me envorgonhei e, para dizer a verdade, a maior parte do tempo até me esqueço que tenho ali uma cicatriz enorme. Passo meses sem pensar nela e, às vezes, quando chega o Verão e visto uma roupa mais decotada, há alguém que pergunta o que é isso? e eu demoro uns segundos a lembrar-me, isso o quê?, ah, é minha cicatriz.
Bom, vitória, vitória acabou-se a história, fui feliz para sempre apesar de as doenças terem continuado. Acabei por aceitar que este é o meu estado normal, hei de andar sempre entupida, com uma tosse qualquer, uma alergia que me faz coçar o nariz desesperadamente, habituei-me a andar sempre com lenços de assoar e já não me lembro da última vez em que estive realmente a cem por cento. De vez em quando pioro e aí penso, estou doente, é melhor tomar qualquer coisa. Uns comprimidos, um xarope, umas gotas pro nariz. Quando eu estou doente estamos os três, como agora, malditos genes, é uma sinfonia de tosse lá em casa, a ver quem tem a ranhoca mais esverdeada, de quem é agora a vez de usar o aerossol. Os vírus devem adorar uma família assim.
Cof cof. Cof cof cof.
Se eles herdaram a minha propensão para a gripe-contínua não vai ser bonito, não, senhor.
Iremos à bruxa ou será que esta verborreia toda serve como exorcismo?
As palavras voltaram. E as gripes tambem.
Eu e os meus filhos estamos doentes sempre ao mesmo tempo. Começa um com tosse, logo o outro, solidário, desata a espirrar e quando damos por nós estamos os três de nariz a pingar e voz nasalada. Se eles herdaram a minha propensão para ficar de cama não vai ser bonito, não, senhor, pois eu fui daquelas que passei a infância a tomar xaropes, a acordar a meio da noite para ir ao hospital com falta de ar, a chamar o doutor Costa que, felizmente, morava mesmo à nossa frente, para receitar antibióticos às horas mais inapropriadas, a enfiar a cabeça por baixo de uma toalha para melhor inalar os vapores de um alguidar com água a ferver e essência de eucalipto. Naquele tempo não tinhamos bronquiolites, como agora se diz, mas tinhamos anginas e constipações com fartura.
A coisa foi de tal ordem que, aos cinco anos, me internaram na clínica de são lucas para ser operada ao nariz e à garganta. Lembro-me como se fosse hoje do quarto com duas camas, uma para mim e outra para o meu pai, que foi também quem me carregou ao colo, escadas abaixo, até quase à sala de operações. Lembro-me do cheiro da anestesia, o gás a sair da máscara, então como te chamas? maria joãzzzzzzzz. Uma tarde, já em casa, tive a visita da educadora Graça com todos os meus amigos da pré-primária que me trouxeram umas bolachas de chocolate polvilhadas com açúcar (as coisas de que a gente se lembra). Eu comia papa Nestum e bebia muitos sumos concentrados de pêra da Compal que se vendiam em latinhas pequenas. E faziam-me uma papa com leite morno e bolachas, vai-se a ver foi nessa altura que aprendi a gostar de molhar as bolachas no leite, no café e até mesmo no chá, faço-o até hoje, como o Clark Gable em It Happened One Night, é uma arte essa a de molhar os bolos no café.
Apesar da operação as doenças continuaram. Não passou muito tempo e já estava outra vez com uma pneumonia que afinal era uma tuberculose. Meses e meses a levar picas, se eu encontrasse o meu boletim de vacinas poderia confirmá-lo, tiveram que pôr uma folha em anexo porque já não havia espaço naquela página para assinalar tantas picas. Meses e meses a tomar um xarope cor-de-rosa, três colheres de cada vez, o que vale é que era docinho. Meses e meses caminho de Beja para tirar radiografias, o frio do metal na barriga, e a fazer análises, o que eu chorava com aquele garrote no braço e quanto mais chorava mais doía. Nesse ano não fomos para a praia, a conselho do médico fizemos férias em Penacova, junto ao Mondego, para respirar ar puro e, todos os dias, depois do almoço, tínhamos que ficar duas horas no quarto a descansar, eu por causa da doença e a minha irmã para me fazer companhia.
Meses e meses nisto e um dia o médico descobre que afinal não era tuberculose coisa nenhuma, era um quisto no pulmão, não se sabia se mau se menos mau, que nisto dos quistos não há nenhum que seja bom, e lá vamos nós para Lisboa, os meus pais com o coração nas mãos mas a fingir que não é nada, acordámos às seis da manhã porque não havia auto-estradas e a viagem era longa e tínhamos que estar às nove na consulta do hospital de santa maria. Elevador sete, piso oito, não demorei muito a orientar-me nos corredores daquele hospital enorme. Fiquei internada na enfermaria de senhoras dos serviços cardio-pulmonares, não sei porque não fiquei na pediatria mas assim até foi bom. Nas semanas que lá passei tornei-me a mascote do serviço, sabia os nomes das enfermeiras, era mimada pelas outras pacientes e pela doutora Teresa que me operou. Outra vez aquele cheiro da anestesia mas desta vez custou mais acordar, tantos tubos, o corpo dorido, muita sede. Eu nem sete anos tinha e devia estar meio zonza mas lembro-me perfeitamente da sala dos cuidados intensivos, aquele calor de estufa, o silêncio só interrompido pelos zumbidos e apitos das máquinas, os tubos por todo o lado, a cama a deslizar pelos corredores para me levar dali. Os meus pais, consigo agora imaginar o que devem ter sido aquelas horas para eles, até consigo ver o meu pai nervoso a andar de um lado para o outro, sei agora o que deve ter sentido a minha mãe enquanto esperava que a médica viesse dizer que já estava e que afinal não era nada de mau, era benigno, não bom, benigno, se fosse religiosa até teria soltado um graças a deus. Passei duas semanas de roupão a comer aquela comida sem sal. Lembro-me dos queques maravilhosos que se vendiam no café do rés-do-chão. Se fechar os olhos consigo ainda sentir o cheiro da cera dos corredores de santa maria. Deram-me livros de histórias e livros de colorir. Chorei muito quando me tiraram os pontos, numa sala com cheiro a éter, despedi-me com beijinhos de toda a gente e desci pelo elevador sete para voltar, periodicamente, durante cinco anos que isto com quistos, mesmo benignos, nunca se sabe.
Fui para casa com uma cicatriz, uma costura como se dizia então, que me atravessava as costas e que era um sucesso entre os meus colegas. Mostra lá, e eu levantava a blusa e deixava toda a gente espantada. A minha mãe punha-me todos os dias creme Nívea daquela lata azul e foi vendo a cicatriz dela que eu percebi que a minha também não iria desaparecer nunca mais. Nunca mais, mãe? Nunca mais. Entendi e aceitei, fomos educadas assim, nunca mais pensei nisso, não fiquei traumatizada, não tive crises na adolescência por causa do meu corpo costurado, nunca me envergonhei e, para dizer a verdade, a maior parte do tempo até me esqueço que tenho ali uma cicatriz enorme. Passo meses sem pensar nela e, às vezes, quando chega o Verão e visto uma roupa mais decotada, há alguém que pergunta o que é isso? e eu demoro uns segundos a lembrar-me, isso o quê?, ah, é minha cicatriz.
Bom, vitória, vitória acabou-se a história, fui feliz para sempre apesar de as doenças terem continuado. Acabei por aceitar que este é o meu estado normal, hei de andar sempre entupida, com uma tosse qualquer, uma alergia que me faz coçar o nariz desesperadamente, habituei-me a andar sempre com lenços de assoar e já não me lembro da última vez em que estive realmente a cem por cento. De vez em quando pioro e aí penso, estou doente, é melhor tomar qualquer coisa. Uns comprimidos, um xarope, umas gotas pro nariz. Quando eu estou doente estamos os três, como agora, malditos genes, é uma sinfonia de tosse lá em casa, a ver quem tem a ranhoca mais esverdeada, de quem é agora a vez de usar o aerossol. Os vírus devem adorar uma família assim.
Cof cof. Cof cof cof. Se eles herdaram a minha propensão para a gripe-contínua não vai ser bonito, não, senhor. Iremos à bruxa ou será que esta verborreia toda serve como exorcismo?
As palavras voltaram. E as gripes tambem.
Eu e os meus filhos estamos doentes sempre ao mesmo tempo. Começa um com tosse, logo o outro, solidário, desata a espirrar e quando damos por nós estamos os três de nariz a pingar e voz nasalada. Se eles herdaram a minha propensão para ficar de cama não vai ser bonito, não, senhor, pois eu fui daquelas que passei a infância a tomar xaropes, a acordar a meio da noite para ir ao hospital com falta de ar, a chamar o doutor Costa que, felizmente, morava mesmo à nossa frente, para receitar antibióticos às horas mais inapropriadas, a enfiar a cabeça por baixo de uma toalha para melhor inalar os vapores de um alguidar com água a ferver e essência de eucalipto. Naquele tempo não tinhamos bronquiolites, como agora se diz, mas tinhamos anginas e constipações com fartura.
A coisa foi de tal ordem que, aos cinco anos, me internaram na clínica de são lucas para ser operada ao nariz e à garganta. Lembro-me como se fosse hoje do quarto com duas camas, uma para mim e outra para o meu pai, que foi também quem me carregou ao colo, escadas abaixo, até quase à sala de operações. Lembro-me do cheiro da anestesia, o gás a sair da máscara, então como te chamas? maria joãzzzzzzzz. Uma tarde, já em casa, tive a visita da educadora Graça com todos os meus amigos da pré-primária que me trouxeram umas bolachas de chocolate polvilhadas com açúcar (as coisas de que a gente se lembra). Eu comia papa Nestum e bebia muitos sumos concentrados de pêra da Compal que se vendiam em latinhas pequenas. E faziam-me uma papa com leite morno e bolachas, vai-se a ver foi nessa altura que aprendi a gostar de molhar as bolachas no leite, no café e até mesmo no chá, faço-o até hoje, como o Clark Gable em It Happened One Night, é uma arte essa a de molhar os bolos no café.
Apesar da operação as doenças continuaram. Não passou muito tempo e já estava outra vez com uma pneumonia que afinal era uma tuberculose. Meses e meses a levar picas, se eu encontrasse o meu boletim de vacinas poderia confirmá-lo, tiveram que pôr uma folha em anexo porque já não havia espaço naquela página para assinalar tantas picas. Meses e meses a tomar um xarope cor-de-rosa, três colheres de cada vez, o que vale é que era docinho. Meses e meses caminho de Beja para tirar radiografias, o frio do metal na barriga, e a fazer análises, o que eu chorava com aquele garrote no braço e quanto mais chorava mais doía. Nesse ano não fomos para a praia, a conselho do médico fizemos férias em Penacova, junto ao Mondego, para respirar ar puro e, todos os dias, depois do almoço, tínhamos que ficar duas horas no quarto a descansar, eu por causa da doença e a minha irmã para me fazer companhia.
Meses e meses nisto e um dia o médico descobre que afinal não era tuberculose coisa nenhuma, era um quisto no pulmão, não se sabia se mau se menos mau, que nisto dos quistos não há nenhum que seja bom, e lá vamos nós para Lisboa, os meus pais com o coração nas mãos mas a fingir que não é nada, acordámos às seis da manhã porque não havia auto-estradas e a viagem era longa e tínhamos que estar às nove na consulta do hospital de santa maria. Elevador sete, piso oito, não demorei muito a orientar-me nos corredores daquele hospital enorme. Fiquei internada na enfermaria de senhoras dos serviços cardio-pulmonares, não sei porque não fiquei na pediatria mas assim até foi bom. Nas semanas que lá passei tornei-me a mascote do serviço, sabia os nomes das enfermeiras, era mimada pelas outras pacientes e pela doutora Teresa que me operou. Outra vez aquele cheiro da anestesia mas desta vez custou mais acordar, tantos tubos, o corpo dorido, muita sede. Eu nem sete anos tinha e devia estar meio zonza mas lembro-me perfeitamente da sala dos cuidados intensivos, aquele calor de estufa, o silêncio só interrompido pelos zumbidos e apitos das máquinas, os tubos por todo o lado, a cama a deslizar pelos corredores para me levar dali. Os meus pais, consigo agora imaginar o que devem ter sido aquelas horas para eles, até consigo ver o meu pai nervoso a andar de um lado para o outro, sei agora o que deve ter sentido a minha mãe enquanto esperava que a médica viesse dizer que já estava e que afinal não era nada de mau, era benigno, não bom, benigno, se fosse religiosa até teria soltado um graças a deus. Passei duas semanas de roupão a comer aquela comida sem sal. Lembro-me dos queques maravilhosos que se vendiam no café do rés-do-chão. Se fechar os olhos consigo ainda sentir o cheiro da cera dos corredores de santa maria. Deram-me livros de histórias e livros de colorir. Chorei muito quando me tiraram os pontos, numa sala com cheiro a éter, despedi-me com beijinhos de toda a gente e desci pelo elevador sete para voltar, periodicamente, durante cinco anos que isto com quistos, mesmo benignos, nunca se sabe.
Fui para casa com uma cicatriz, uma costura como se dizia então, que me atravessava as costas e que era um sucesso entre os meus colegas. Mostra lá, e eu levantava a blusa e deixava toda a gente espantada. A minha mãe punha-me todos os dias creme Nívea daquela lata azul e foi vendo a cicatriz dela que eu percebi que a minha também não iria desaparecer nunca mais. Nunca mais, mãe? Nunca mais. Entendi e aceitei, fomos educadas assim, nunca mais pensei nisso, não fiquei traumatizada, não tive crises na adolescência por causa do meu corpo costurado, nunca me envergonhei e, para dizer a verdade, a maior parte do tempo até me esqueço que tenho ali uma cicatriz enorme. Passo meses sem pensar nela e, às vezes, quando chega o Verão e visto uma roupa mais decotada, há alguém que pergunta o que é isso? e eu demoro uns segundos a lembrar-me, isso o quê?, ah, é minha cicatriz.
Bom, vitória, vitória acabou-se a história, fui feliz para sempre apesar de as doenças terem continuado. Acabei por aceitar que este é o meu estado normal, hei de andar sempre entupida, com uma tosse qualquer, uma alergia que me faz coçar o nariz desesperadamente, habituei-me a andar sempre com lenços de assoar e já não me lembro da última vez em que estive realmente a cem por cento. De vez em quando pioro e aí penso, estou doente, é melhor tomar qualquer coisa. Uns comprimidos, um xarope, umas gotas pro nariz. Quando eu estou doente estamos os três, como agora, malditos genes, é uma sinfonia de tosse lá em casa, a ver quem tem a ranhoca mais esverdeada, de quem é agora a vez de usar o aerossol. Os vírus devem adorar uma família assim.
Cof cof. Cof cof cof. Se eles herdaram a minha propensão para a gripe-contínua não vai ser bonito, não, senhor. Iremos à bruxa ou será que esta verborreia toda serve como exorcismo?
Sunday, November 16, 2008
Vamos ver se a gente ganha
"— Hoje tem jogo, filho!
O menino sorri, exultando:
— Hoje tem?!
— Tem! Atlético e Fluminense!
— Então vamos chamar o Christian!
O Christian é o vizinho atleticano — em todo jogo, monta-se na casa uma arquibancada de fanáticos.
— Sim, ele também vem.
— Isso! Vamos ganhar! Quatro a zero! — e ele mostra a mão espalmada, olha para os dedos, ri e acrescenta: — Opa! Errei. Cinco a zero!
— Vai ser um jogo muito difícil — o pai pondera, torcedor pessimista. — Que tal dois a um?
O menino pensa. Ergue a mão novamente, agora com três dedos.
— Três a zero, só. Que tal?
— Tudo bem. Mas vai ser duro. Você está preparado?
— Estou! Eu sou forte! — Ele ergue o braço, punho fechado: — Nós vamos conseguir!
— Vamos ver se a gente ganha.
O menino faz que sim, e completa, braço erguido, risada solta:
— Eles vão ver o que é bom pra tosse!
É uma das primeiras metáforas de sua vida, copiada de seu pai, e o pai ri também. Mas, para que a imagem não reste arbitrária demais, o menino dá três tossidinhas marotas.
Bandeira rubro-negra devidamente desfraldada na janela, guerreiros de brincadeira, vão enfim para a frente da televisão — o jogo começa mais uma vez. Nenhum dos dois tem a mínima idéia de como vai acabar, e isso é muito bom."
Vamos ver se a gente ganha
"— Hoje tem jogo, filho!
O menino sorri, exultando:
— Hoje tem?!
— Tem! Atlético e Fluminense!
— Então vamos chamar o Christian!
O Christian é o vizinho atleticano — em todo jogo, monta-se na casa uma arquibancada de fanáticos.
— Sim, ele também vem.
— Isso! Vamos ganhar! Quatro a zero! — e ele mostra a mão espalmada, olha para os dedos, ri e acrescenta: — Opa! Errei. Cinco a zero!
— Vai ser um jogo muito difícil — o pai pondera, torcedor pessimista. — Que tal dois a um?
O menino pensa. Ergue a mão novamente, agora com três dedos.
— Três a zero, só. Que tal?
— Tudo bem. Mas vai ser duro. Você está preparado?
— Estou! Eu sou forte! — Ele ergue o braço, punho fechado: — Nós vamos conseguir!
— Vamos ver se a gente ganha.
O menino faz que sim, e completa, braço erguido, risada solta:
— Eles vão ver o que é bom pra tosse!
É uma das primeiras metáforas de sua vida, copiada de seu pai, e o pai ri também. Mas, para que a imagem não reste arbitrária demais, o menino dá três tossidinhas marotas.
Bandeira rubro-negra devidamente desfraldada na janela, guerreiros de brincadeira, vão enfim para a frente da televisão — o jogo começa mais uma vez. Nenhum dos dois tem a mínima idéia de como vai acabar, e isso é muito bom."
Vamos ver se a gente ganha
"— Hoje tem jogo, filho!
O menino sorri, exultando:
— Hoje tem?!
— Tem! Atlético e Fluminense!
— Então vamos chamar o Christian!
O Christian é o vizinho atleticano — em todo jogo, monta-se na casa uma arquibancada de fanáticos.
— Sim, ele também vem.
— Isso! Vamos ganhar! Quatro a zero! — e ele mostra a mão espalmada, olha para os dedos, ri e acrescenta: — Opa! Errei. Cinco a zero!
— Vai ser um jogo muito difícil — o pai pondera, torcedor pessimista. — Que tal dois a um?
O menino pensa. Ergue a mão novamente, agora com três dedos.
— Três a zero, só. Que tal?
— Tudo bem. Mas vai ser duro. Você está preparado?
— Estou! Eu sou forte! — Ele ergue o braço, punho fechado: — Nós vamos conseguir!
— Vamos ver se a gente ganha.
O menino faz que sim, e completa, braço erguido, risada solta:
— Eles vão ver o que é bom pra tosse!
É uma das primeiras metáforas de sua vida, copiada de seu pai, e o pai ri também. Mas, para que a imagem não reste arbitrária demais, o menino dá três tossidinhas marotas.
Bandeira rubro-negra devidamente desfraldada na janela, guerreiros de brincadeira, vão enfim para a frente da televisão — o jogo começa mais uma vez. Nenhum dos dois tem a mínima idéia de como vai acabar, e isso é muito bom."
Friday, November 14, 2008
MEC
"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.
O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo".
O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente.
O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
Miguel Esteves Cardoso, in Expresso, 10. Nov. 2005
Labels: jornalismo, memórias
MEC
"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.
O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo".
O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente.
O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
Miguel Esteves Cardoso, in Expresso, 10. Nov. 2005
Labels: jornalismo, memórias
MEC
"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.
O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo".
O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente.
O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
Miguel Esteves Cardoso, in Expresso, 10. Nov. 2005
Labels: jornalismo, memórias
Thursday, November 13, 2008
Sem palavras
O problema de ter voltado a trabalhar é que me parece que gasto as palavras todas a escrever notícias e noticiazecas e, quando chego ao fim do dia, já não consigo pensar quanto mais escrever alguma coisa de jeito. Eu até me sento ao computador mas a única coisa que sai é um grande mahna mahna.
Sem palavras
O problema de ter voltado a trabalhar é que me parece que gasto as palavras todas a escrever notícias e noticiazecas e, quando chego ao fim do dia, já não consigo pensar quanto mais escrever alguma coisa de jeito. Eu até me sento ao computador mas a única coisa que sai é um grande mahna mahna.
Sem palavras
O problema de ter voltado a trabalhar é que me parece que gasto as palavras todas a escrever notícias e noticiazecas e, quando chego ao fim do dia, já não consigo pensar quanto mais escrever alguma coisa de jeito. Eu até me sento ao computador mas a única coisa que sai é um grande mahna mahna.
Monday, November 10, 2008
Pelos olhos adentro
Labels: vidinha
Pelos olhos adentro
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Sunday, November 09, 2008
Os amigos
Eles exigem-nos coisas de nada. As nossas lágrimas. O nosso lenço de assoar. A pele dos nossos inimigos. As batatas fritas do nosso bife. A nossa melhor roupa, por uma noite. Exigem-nos tudo o que nos dão. É preciso regá-los regularmente: é nos ombros deles que cai toda a água dos nossos olhos. Eles espevitam-nos o sentido de humor quando menos nos apetece. E depois ficam connosco quando as luzes se apagam e toda a gente se foi embora. Só aos amigos é dado o espetáculo da nossa miséria.
A paixão é uma fatalidade fácil. Uma aparição divina, só. Não há maneira de a prender para toda a vida. Por isso a embrulhamos no áspero papel da amizade. Para preservar e esquecer.
À paixão aceitam-se confissões de ciúme, voragens de posse. À amizade não. Somos capazes de confessar tudo aos nossos amigos menos essa insegurança que nos mói:
– Não, não gostes mais dele do que de mim."
de A Instrução dos Amantes, Inês Pedrosa
ou de como um livro lamechas lido na adolescência pode ser actual mesmo quando caminhamos para a meia-idade.
Os amigos
Eles exigem-nos coisas de nada. As nossas lágrimas. O nosso lenço de assoar. A pele dos nossos inimigos. As batatas fritas do nosso bife. A nossa melhor roupa, por uma noite. Exigem-nos tudo o que nos dão. É preciso regá-los regularmente: é nos ombros deles que cai toda a água dos nossos olhos. Eles espevitam-nos o sentido de humor quando menos nos apetece. E depois ficam connosco quando as luzes se apagam e toda a gente se foi embora. Só aos amigos é dado o espetáculo da nossa miséria.
A paixão é uma fatalidade fácil. Uma aparição divina, só. Não há maneira de a prender para toda a vida. Por isso a embrulhamos no áspero papel da amizade. Para preservar e esquecer.
À paixão aceitam-se confissões de ciúme, voragens de posse. À amizade não. Somos capazes de confessar tudo aos nossos amigos menos essa insegurança que nos mói:
– Não, não gostes mais dele do que de mim."
de A Instrução dos Amantes, Inês Pedrosa
ou de como um livro lamechas lido na adolescência pode ser actual mesmo quando caminhamos para a meia-idade.
Os amigos
Eles exigem-nos coisas de nada. As nossas lágrimas. O nosso lenço de assoar. A pele dos nossos inimigos. As batatas fritas do nosso bife. A nossa melhor roupa, por uma noite. Exigem-nos tudo o que nos dão. É preciso regá-los regularmente: é nos ombros deles que cai toda a água dos nossos olhos. Eles espevitam-nos o sentido de humor quando menos nos apetece. E depois ficam connosco quando as luzes se apagam e toda a gente se foi embora. Só aos amigos é dado o espetáculo da nossa miséria.
A paixão é uma fatalidade fácil. Uma aparição divina, só. Não há maneira de a prender para toda a vida. Por isso a embrulhamos no áspero papel da amizade. Para preservar e esquecer.
À paixão aceitam-se confissões de ciúme, voragens de posse. À amizade não. Somos capazes de confessar tudo aos nossos amigos menos essa insegurança que nos mói:
– Não, não gostes mais dele do que de mim."
de A Instrução dos Amantes, Inês Pedrosa
ou de como um livro lamechas lido na adolescência pode ser actual mesmo quando caminhamos para a meia-idade.