Ponto-de-cruz
Uma coisa incrível que aconteceu este verão foi eu voltar a bordar em ponto de cruz.
Eu digo voltar, mas na verdade nunca bordei grande coisa. Quando éramos pequenas, a minha mãe tentou ensinar-nos. Nas tardes de agosto, colocávamos cadeiras, daquelas baixinhas, no corredor que dava para o quintal, um lugar onde tínhamos luz e não muito calor, e ali nos sentávamos com o quadrilé no colo a tentar não errar os pontos. A minha mãe bordava com extrema perfeição. Acho que na altura não lhe dávamos o devido valor e até achávamos aquilo um bocadinho aborrecido. Eu nunca fui muito boa com agulhas e linhas e tenho muito pouca coisa para mostrar. Já a minha mãe, com uma só mão, mas com a ajuda de um bastidor, bordava toalhas de mesa de jantar, panos de tabuleiro, almofadas, quadros que pareciam pinturas e, depois, para os netos, lençóis, fraldas, babetes, toalhas. Não guardei tudo, mas as toalhas de mesa são autênticas preciosidades que gosto de usar em dias festivos, com um grande orgulho.
Há muitos, muitos anos que não bordava. Mas, nas férias em Ferreira, animada pelo facto de ter duas amigas grávidas, fui até ao sótão ver o que havia por lá, resgatei revistas e caixas de linhas de todas as cores, e decidi experimentar. É engraçado perceber como há coisas que estão guardadas em nós e que parecem esquecidas mas, ao fim de uns quantos pontos, de uns enganos, desmancha e faz de novo, de repente já conseguia avançar sem medos. Fiquei mesmo feliz. Continuo a odiar rematar as pontas e tenho a certeza que a minha mãe ficaria chocada ao ver os avessos, que eu até acho que não estão nada mal, a sério, estão bastante decentes, mas não completamente perfeitos.



Diverti-me bastante durante o processo. Bordar exige uma atenção extrema, não dá para estar a ver televisão ou a conversar enquanto se contam pontos minúsculos, por isso é quase como um exercício de meditação. As horas passavam e eu nem dava por elas, de tal forma absorta estava, sem olhar para o telefone e sem distracções.
E o melhor de tudo foi poder oferecer às minhas amigas algo bonito e que foi feito por mim. Tenho umas ideias para fazer mais umas coisitas para os bebés quando tiver tempo, mas não sei se irei bordar muito mais. De qualquer forma, já valeu a pena.


Esta rentrée está a acabar comigo. Entre bilhetes que tinha comprado há meses e de que já não me lembrava e bilhetes de última hora porque achava que poderia não ir e afinal podia, tenho passado muito tempo em salas de espectáculos. E se a felicidade é grande a verdade é que não estou a conseguir encaixar nas 24 horas do dia tudo o que preciso fazer e tudo o que quero fazer. Isto agora vai acalmar, prometo. É tempo de me jogar ao trabalho.

