Saturday, September 27, 2025

Ponto-de-cruz

Uma coisa incrível que aconteceu este verão foi eu voltar a bordar em ponto de cruz.


Eu digo voltar, mas na verdade nunca bordei grande coisa. Quando éramos pequenas, a minha mãe tentou ensinar-nos. Nas tardes de agosto, colocávamos cadeiras, daquelas baixinhas, no corredor que dava para o quintal, um lugar onde tínhamos luz e não muito calor, e ali nos sentávamos com o quadrilé no colo a tentar não errar os pontos. A minha mãe bordava com extrema perfeição. Acho que na altura não lhe dávamos o devido valor e até achávamos aquilo um bocadinho aborrecido. Eu nunca fui muito boa com agulhas e linhas e tenho muito pouca coisa para mostrar. Já a minha mãe, com uma só mão, mas com a ajuda de um bastidor, bordava toalhas de mesa de jantar, panos de tabuleiro, almofadas, quadros que pareciam pinturas e, depois, para os netos, lençóis, fraldas, babetes, toalhas. Não guardei tudo, mas as toalhas de mesa são autênticas preciosidades que gosto de usar em dias festivos, com um grande orgulho. 


Há muitos, muitos anos que não bordava. Mas, nas férias em Ferreira, animada pelo facto de ter duas amigas grávidas, fui até ao sótão ver o que havia por lá, resgatei revistas e caixas de linhas de todas as cores, e decidi experimentar. É engraçado perceber como há coisas que estão guardadas em nós e que parecem esquecidas mas, ao fim de uns quantos pontos, de uns enganos, desmancha e faz de novo, de repente já conseguia avançar sem medos. Fiquei mesmo feliz. Continuo a odiar rematar as pontas e tenho a certeza que a minha mãe ficaria chocada ao ver os avessos, que eu até acho que não estão nada mal, a sério, estão bastante decentes, mas não completamente perfeitos. 


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Diverti-me bastante durante o processo. Bordar exige uma atenção extrema, não dá para estar a ver televisão ou a conversar enquanto se contam pontos minúsculos, por isso é quase como um exercício de meditação. As horas passavam e eu nem dava por elas, de tal forma absorta estava, sem olhar para o telefone e sem distracções.


E o melhor de tudo foi poder oferecer às minhas amigas algo bonito e que foi feito por mim. Tenho umas ideias para fazer mais umas coisitas para os bebés quando tiver tempo, mas não sei se irei bordar muito mais. De qualquer forma, já valeu a pena.

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Friday, September 26, 2025

Alma minha

A primeira vez que andei de avião foi em 1991, quando no final do 11º ano fomos à Alemanha num intercâmbio do liceu. Conseguem imaginar a excitação? Um grupo de miúdos vindos do Alentejo profundo a delirar com os toalhetes para lavar as mãos e as marmitas com lombo de salmão. Só voltei a entrar num avião quando já estava a trabalhar. Sou do tempo em que ainda se podia fumar lá atrás, ao pé das casas-de-banho; em que se servia café e amendoins à borla a bordo; em que ninguém nos tentava impingir raspadinhas. Depois vieram as low cost. Tornou-se quase corriqueiro. Malas de rodinhas a deslizar pelos aeroportos de todo o mundo, embalagens de champô em miniatura, check-in online. Vou de fim-de-semana a Paris como quem vai ao Algarve. Mas há coisas que não mudam: sempre (sempre) que sinto o avião a descolar, a lançar-se com mais ou menos turbulência nos céus, toda eu por dentro me agito e revolto, atacada por uma sensação de insegurança, um e se for desta?, e se for desta que isto corre mal e acaba-se tudo já aqui? Fecho os olhos e respiro. Não faço cenas, não entro em pânico. É só um pensamento que se atravessa à minha frente e ao qual não consigo escapar. E não vale a pena falarem-me das estatísticas e virem dizer-me que tinha mais hipóteses de morrer na A2 do que num avião. Não adianta tentar racionalizar. É o que é. E é assim. Passados esses momentos iniciais, depois de tapar o nariz umas quantas vezes para desentupir os ouvidos, geralmente consigo abstrair-me do facto de estar a dez mil metros de altitude. A não ser que aquilo comece tudo a abanar e se acendam as luzes para pormos os cintos, os assistentes apressados a mandarem-nos recolher as mesinhas. Ladies and gentlemen, this is your captain speaking. Se fosse uma pessoa de fé, este seria o momento para me pôr a encomendar esta alma ao criador. Como não, respiro outra vez profundamente e tento disfarçar. Só descanso novamente quando sinto os solavancos das rodas a baterem na pista. Aliviada, só não me ponho a bater palmas como fiz em 1991 porque entretanto alguém me explicou que isso era um bocadinho foleiro. 


Já passou. 


Pelo menos até à próxima.


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Não fotografei essa primeira viagem de avião. Outros tempos, não havia telemóveis e não nos lembrávamos de fotografar tudo e mais alguma coisa. Mas guardei alguns bons momentos num dos meus queridos álbuns


*


Há outras almas a vaguear pelo largo:


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Sunday, September 21, 2025

Coisas muito lindas aconteceram esta semana

Quarta. O concerto do Manel Cruz foi incrível, como já se sabia que iria ser. Não basta as canções serem muito boas, com poemas que nos tocam cá dentro, como ele é um excelente intérprete e ainda um óptimo entertainer que vai contando histórias e fazendo comentários, com uma honestidade e uma verdade desarmantes, sem tiques de estrela. Além disso, o concerto foi precedido de um jantar para matar as saudades de amigos muito queridos, com quem já ando a congeminar aventuras para o próximo ano.


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Sexta. O espectáculo Coro de Amantes, que tenho uma vaga ideia de ter visto na sua versão inicial no Teatro Maria Matos, em 2006, envelheceu e voltou à cena, no Teatro do Bairro Alto, já com rugas e cabelos brancos, ou seja, ainda melhor do que era. O Tónan Quito e a Cláudia Gaiolas interpretam o texto do Tiago Rodrigues, que fala do amor, com as suas venturas e desventuras, e de como o tempo passa a fugir e nunca parece ser suficiente para vivermos todo o amor de todas as maneiras que gostaríamos (e que me deixou com lagriminhas nos olhos).


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Domingo. Pelo meio, tive uma noite bem boa de conversas, confissões e muitas calorias com a minha Paula. Hoje estava bastante podre mas lá me animei e saí de casa para ir ao CCB ver Só uma gaivota, o novo espectáculo do Miguel Fragata e da Inês Barahona, que é lindo, lindo, lindo. A partir d'A Gaivota de Tchekhov e das memórias do espectáculo de fim de curso do actor e encenador, há 20 anos, este espectáculo é um hino ao teatro e a todos os que algum dia sonharam ser artistas. O Miguel e a Inês são pessoas muitos especiais e isso nota-se nos seus projectos, sempre muito tocantes. Neste caso, quero sublinhar também a beleza da cenografia do Fernando Ribeiro, os figurinos do António José Tenente e a luz do Rui Monteiro. 


549653693_1210458934460858_1211466900324501769_n.jEsta rentrée está a acabar comigo. Entre bilhetes que tinha comprado há meses e de que já não me lembrava e bilhetes de última hora porque achava que poderia não ir e afinal podia, tenho passado muito tempo em salas de espectáculos. E se a felicidade é grande a verdade é que não estou a conseguir encaixar nas 24 horas do dia tudo o que preciso fazer e tudo o que quero fazer. Isto agora vai acalmar, prometo. É tempo de me jogar ao trabalho.

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Tuesday, September 16, 2025

Quando vos disserem que o feminismo não serve para nada lembrem-se disto

E já que falamos de textos que fale a pena ler, fica também a referência a ESTE que a Rebeca Solnit escreveu para o The Guardian. 


Para quem não sabe, a Rebeca Solnit é uma investigadora e activista americana, que se debruça sobre vários temas importantes, entre os quais o feminismo e a violência sobre as mulheres. Ficou muito conhecida pelo livro As Coisas que os Homens Me Explicam


Neste texto Rebeca Solnit recorda como há ainda poucas décadas, o mundo parecia olhar indiferente para os casos de abuso sobre as mulheres e de abuso de menores. Histórias que todos conheciam aconteciam às claras, os homens vangloriavam-se dos seus casos e a sociedade encolhia os ombros. Esta cultura patriarcal era sancionada e vangloriada por Hollywood. E se os famosos podiam, quem éramos nós para dizer que não podia ser? Foi assim até há muito pouco tempo. O #metoo aconteceu apenas em 2017. E mesmo assim ainda são muitos os que não perceberam que os tempos mudaram e que já não podem agir como antigamente. Que as mulheres já não aceitam.


 


Shocked by Epstein’s birthday book? That culture was everywhere before feminism


(...) The last Woody Allen movie I ever saw was Manhattan, in which he cast himself as more or less himself, a dweeb in his mid-40s, dating a high school student played by Mariel Hemingway. She was my age, 17, and I was only too familiar with creeps, and the movie creeped me out, even though it was only long afterward that I read that she said he was at the time pressuring her to get sexually involved with him in real life.


Manhattan came out in 1979; two years earlier Roman Polanski, on the pretext that he was taking photographs for French Vogue, got a 13-year-old girl to come alone to a house, where he drugged and raped her vaginally and anally. The probation officer assigned to him wrote: “There was some indication that circumstances were provocative, that there was some permissiveness by the mother,” and “that the victim was not only physically mature, but willing”. In her own account, the girl had said no repeatedly and even pretended to have an asthma attack to try to dissuade him, but the probation officer was of his era and only too willing to blame a drugged child. That was normal then.


Movies of the 1970s normalized all this. Jodie Foster was 12 when she played a prostitute in Taxi Driver. In Pretty Baby, an 11-year-old Brooke Shields played another prostitute in quaint New Orleans whose virginity is auctioned off, and who appears nude in some scenes, as she did in a Playboy Magazine special “sugar and spice” issue at age 10. In Milos Forman’s 1971 Taking Off, the runaway 15-year-old daughter of the protagonist reappears with a rock star boyfriend. Groupie culture included more than a few children sleeping with rock stars; Interview Magazine recounts of one prominent groupie that she “lost her virginity at age 12 to Spirit guitarist Randy California. For a time, she was involved with Iggy Pop, who glorified their relationship in his 1996 song Look Away. I slept with Sable when she was 13 / Her parents were too rich to do anything.”


It was the 70s in which the soft-focus color photographs of nude and semi-clad pubescent girls of David Hamilton were normalized as coffee table books and posters. (...)


What happened between the 1970s I’ve described and the present is feminism: feminism that insisted that women were people endowed with rights, that sex, as distinct from rape, had to be something both parties desired, that consent had to be active and conscious, that all human interactions involve power and that the vast power differential between adult men and children meant that no such consent was possible.


It was feminism that exposed the ubiquity of child abuse, rape, sexual harassment and domestic violence, that denormalized these abuses that were so much part of patriarchal society. And still are, far too much, but the dismissive, permissive attitude of the past is past, at least in mainstream culture."

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"Qué sería de nosotros sin los amigos"

Na sua crónica no El Pais, Rosa Montero escreve esta semana sobre a amizade. É um texto muito bonito e quis logo partilhá-lo com algumas pessoas. Mas para não se perder, fica também aqui. 


 


Amigos


"(...) Y es que yo creo que la base de la sociedad no es la familia, sino los amigos. La familia, ya sea del modelo convencional o de nuevo cuño, es sin duda útil para cuidar de la prole en la infancia y la adolescencia. Pero qué sería de nosotros sin los amigos. En alguno de mis primeros libros, hace mucho tiempo, ya sostuve eso de que mantenemos una rutina equivocada y que, en vez de vivir con los amantes y salir con los amigos, deberíamos vivir con los amigos y salir con los amantes. Bueno, vale, es una broma…, aunque quizá no tanto. Hay algo en la amistad, en esa lenta, tenaz, atenta construcción de la relación con el otro, que me parece que, por lo general, es más básico y auténtico que esas relaciones llenas de expectativas, espejismos y fantasmas que solemos establecer cuando hay un ingrediente pasional por medio. Yo desde luego creo que lo mejor que he sabido hacer, mi mayor éxito en la vida, es ser amiga. Haber logrado construir la delicada y robusta constelación de hombres y mujeres de la que formo parte. Hay que invertir mucho tiempo, y tiempo de calidad, en el desarrollo de una amistad. Esta es otra rutina equivocada en la que muchas personas caen: dedican todos sus esfuerzos al trabajo, a ser reconocidos profesionalmente, a ganar dinero o poder, y descuidan esa otra faceta, modesta y en apariencia inútil, que consiste en ir trenzando tus emociones con las de otros, en ir descubriendo la íntima terra incognita de unos extraños que terminan siendo tu patria y tu vida. Desde lo alto de mi edad me voy a permitir la ridiculez o la soberbia de dar un consejo a la gente más joven: que los afanes y el alboroto de la existencia no te hagan perder las prioridades. No desdeñes el valor de la amistad, no la pospongas por trabajo, por miedo, por pereza. Porque llegará un momento en el que te arrepentirás. Una de las pocas cosas que me consuelan del desconsuelo de envejecer es la maravillosa sensación de cumplir años de amistad con mis amigos. El lujo de ir creciendo juntos, siendo testigos los unos de los otros y alimentando un pasado común.


(...) Creo que la amistad nace de ahí, de esa necesidad esencial de cuidarnos, de abrazarnos, de protegernos. Quiero decir que es una ley biológica y evolutiva, una tendencia innata a querer bien y a ser bien querido. ¿Y en qué consiste eso? Pues en mirar con ojos luminosos al vecino y en dejarte iluminar por él. Pura magia emocional, porque al calor de esa luz florecen nuestros sentimientos más positivos. Un amigo es una persona que te hace ser mejor. En medio de tanto horror como hay en el mundo, consuela recordar que existe esto."

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Monday, September 15, 2025

"Nossos corpos também são pátria"

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Foi uma alegria muito grande ver Adilson, o espectáculo musical imaginado e encenado por Dino D'Santiago a partir do texto "Serviço Estrangeiro” de Rui Catalão e com direcção musical de Martim Sousa Tavares. O espectáculo acompanha um afrodescendente, filho de pais cabo-verdianos, nascido em Angola mas que vive há mais de 40 anos em Portugal sem nunca ter obtido cidadania portuguesa. Adilson passa horas à espera da sua vez em gabinetes e serviços, sofrendo humilhações por parte das autoridades, perdido no labirinto burocrático para provar que existe e que é português. A sua história - que é verdadeira - é a história de muitos dos que aqui moram e é também um pouco da história deste país. (Leiam este texto do Gonçalo Frota que está lá tudo explicado)


Que Adilson seja interpretado por uma rapariga jovem é apenas um dos muitos pormenores que fazem deste espectáculo um manifesto pela inclusão e um grito contra os regulamentos que insistem em impedir-nos de sermos quem realmente somos. Koffy tem apenas 19 anos e uma voz magnífica.


O espectáculo tem momentos de humor e outros mais sérios, tem momentos mais bem conseguidos e outros que poderiam estar melhor. Já a música é sempre boa, uma mistura de ritmos e de instrumentos, tudo unido pela poesia de Dino D'Santiago. 


No final, uma alegria enorme, sim, e um travo amargo na boca: temos ainda tanto por andar neste caminho pela igualdade e pela democracia plena. 


 


"Nas curvas do bairro

Aqui toda a gente senteTerra não é só lugar onde se nasceuÉ também o chão que trazemos na mente

Aqui toda gente é parenteMesmo quando se nasceu d'outro ventreChamamos mãe ao mesmo continente"

Esquinas, de Dino D'Santiago e Slow J

 


*


Estive a trabalhar no fim-de-semana, mas ainda assim, e apesar do cansaço acumulado, consegui aproveitar bem o meu tempo. No sábado ao final do dia fui ver Adilson no CCB, integrado no festival Boca. No domingo, saí do trabalho a correr e fui à Culturgest ver Nôt, o espectáculo de Marlene Monteiro Freitas. 


É muito fácil andar sempre ver as coisas que eu sei à partida que vou gostar e ficar confortável no meu lugar. Mas também preciso de me desafiar e de ver coisas que não me são óbvias. Não posso dizer que tenha adorado este Nôt. Achei os intérpretes todos incríveis e gostei mesmo de alguns pormenores da coreografia, há coisas que resultam muito bem. Gostei muito de alguns momentos. Mas na maior parte do tempo senti-me bastante perdida. Este texto, que só li depois, já em casa, ajudou-me um pouco. Acho que ainda estou a processar.


E não desisto. Da próxima vez, lá estarei. 


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Friday, September 12, 2025

Revolução

Lembro-me da minha avó, vestida com roupa de domingo, colar de pérolas de plástico ao peito, o cabelo arranjado, pronta para ir votar. Ia de cabeça levantada, um orgulho tremendo, uma alegria indisfarçável por poder ir depositar o seu voto na urna.


Lembro-me da minha avó que lia o jornal de uma ponta à outra e lia sempre os meus artigos, fossem sobre o que fossem, a minha avó que tinha apenas a segunda classe, escrevia com erros e apontava as receitas que via na televisão com uma letra quase incompreensível. A minha avó que nos dizia "estudem para não serem como eu", estudem para serem independentes e mandarem na vossa vida. Estudem para não terem que se sujeitar.


Lembro-me da minha avó que me falava da pobreza, da comida que faltava, da casa sem condições, da costura que a mantinha acordada pela madrugada para ganhar uns quantos tostões. Que se lembrava dos rapazes que morreram na guerra colonial e de que como era preciso falar baixinho porque nunca se sabia quem estava a ouvir.


Não, antigamente não era melhor.


Às vezes esquecemo-nos. Damos os nossos direitos por adquiridos. Achamos que já não há por que lutar. Às vezes distraímo-nos. Porque temos sol e praia e subsídio de férias e licença de maternidade e creches e supermercados com muitas marcas e centros comerciais abertos todos os dias e publicamos fotografias bonitas no instagram e vamos mandar bocas para o twitter e achamos que está tudo bem. Distraímo-nos e quando damos por nós foi-se a habitação, a saúde, a educação, a paz, não tarda nada está a ir-se também o pão e todos os outros direitos que julgávamos tão seguros como o da opinião e da expressão. 


A liberdade é frágil.


É por isso que temos de permanecer atentos e interventivos. A revolução fazêmo-la nós, todos os dias. Não são precisos tanques nem metralhadoras. As armas são a nossa consciência, as nossas palavras e os nossos actos. Basta de sermos amorfos. Lembram-se do que aconteceu à nêspera


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No largo acompanham-me neste processo revolucionário em curso:


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Thursday, September 11, 2025

Ucrânia, Bergen-Belsen, Portugal: isto está tudo ligado

Houve dois momentos da viagem em Lviv em que sentimos a guerra mesmo ali tão perto, e não, não foi quando ouvimos o alerta de ataque aéreo. 


O primeiro aconteceu logo no primeiro dia, na visita ao cemitério onde estão sepultados os militares e outras vítimas da guerra. É muito impactante, antes de mais, porque é um sítio muito colorido, cheio de bandeiras e flores, mas, sobretudo, porque rapidamente percebemos que muitos daqueles rapazes (são sobretudo rapazes) tinham pouco mais de 20 anos. As fotografias mostram-nos sorridentes, confiantes. Tantas vidas que ficaram por viver. Tantos filhos, irmãos, namorados, amigos, pais que se perderam.


O segundo momento foi a visita ao Unbroken Center, um centro de reabilitação que recebe feridos da guerra, vindos de todas as partes da Ucrânia, sobretudo pessoas afectadas por minas, explosões, tiros e que, muitas vezes, tiveram que ser amputadas. O trabalho com estas pessoas, que por cima de tudo isto têm certamente traumas psicológicos, é absolutamente incrível. Um dos terapeutas que nos guiou pelas salas equipadas com aparelhos de última geração disse-nos que por cada paciente que consegue lugar neste hospital há 60 que continuam em lista de espera. Aqueles que ali estão, que deslizam pelos corredores em cadeiras de rodas, a quem falta uma ou ambas as pernas, braços, bocados da cara ou tronco, aqueles são, afinal, privilegiados.


*


What they found - O que encontraram é um documentário realizado por Sam Mendes a partir de imagens filmadas em 35 mm e sem som pelo sargento Mike Lewis e pelo sargento Bill Lawrie, da Unidade de Cinema e Fotografia do Exército Britânico, antes e durante a libertação do campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, em 1945, a que se juntaram partes do áudio de entrevistas realizadas em 1980 aos dois operadores de câmara. 


O filme, que está disponível no Filmin, tem apenas 36 minutos. Começa com a história dos dois homens, depois a chegada ao campo de concentração, o relato do que viram, o tratamento dado aos sobreviventes, as valas comuns onde foram depositados milhares de corpos. Lewis e Lawrie contam como se sentiram. E se as suas palavras são perturbadoras, o silêncio que se instala é-o ainda mais. As últimas imagens são poderosíssimas. Já vi vários documentários sobre o Holocausto e provavelmente até já tinha visto algumas destas imagens, no entanto fico sempre em choque. Não há maneira de me habituar a isto. Só me apetece chorar. Por todas as vítimas, por nós todos, por esta humanidade que parece não aprender nada com os seus erros.


*


Antes de terminar as férias consegui dar um saltinho a Almada para ir ver a exposição Venham mais cinco, com 200 fotografias de fotógrafos estrangeiros que estiveram em Portugal logo a seguir ao 25 de Abril ou nos meses seguintes, a testemunhar o processo revolucionário. Mais uma vez: emociono-me sempre com as imagens da nossa Revolução, e aqui é uma emoção boa, comovo-me com a alegria dos militares nas ruas de Lisboa e das pessoas que os rodeavavam, as crianças curiosas, os jovens entusiasmados com o fim da ditadura, as senhoras que distribuíram café; comovo-me com a esperança que se vê nos olhos de toda a gente, a desfilar pelas ruas com cartazes, a reivindicar os seus direitos, à saída das prisões, nas reuniões sindicais, nas filas para votar pela primeira vez em democracia. As trabalhadoras do campo a entrarem na casa dos senhores e a tocarem ao de leve nas colchas das camas. Tanta ingenuidade. 


Sim, já vimos muitas imagens como aquelas, é verdade, mas vão ver estas também, que nunca são de mais, e parece-me que, nos dias que correm, estamos todos a precisar de uma boa dose de esperança e optimismo e de nos lembrarmos que todos juntos somos mais fortes e podemos mesmo mudar o curso dos acontecimentos.


A exposição está aberta até 23 de novembro, de quinta a domingo e a entrada é gratuita.


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Ocupação da herdade do Sol Posto, no Couço, Ribatejo, no dia 31 de Agosto de 1975, por Fausto Giaccone 

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Tuesday, September 09, 2025

Lviv: a guerra ali tão perto

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Queres ir?
Quero.


O meu trabalho, com todos os seus defeitos e problemas, com todas as desilusões e tristezas, continua a dar-me momentos de grande alegria. Ter oportunidade de sair daqui, de conhecer sítios novos, de falar com pessoas diferentes, de ir, ver, ouvir, experimentar, é mesmo uma das melhores coisas do mundo. O mundo é tão grande e há tanto para descobrir. Quando me perguntam se estou diponível para uma viagem, respondo sempre que sim, seja para perto ou para longe, seja qual for o tema do trabalho, digo que sim e depois logo vejo como é que isto se encaixa na minha vida.


Foi assim que fui parar a Lviv, na Ucrânia.


Vim das férias diretamente para a viagem. Saí de casa no dia 2 de setembro, terça-feira, antes das 7:00 da manhã e voltei esta noite, cheguei a casa já depois da meia-noite. Uma semana inteira fora. Viagens cansativas, de avião e de autocarro, muitas horas de autocarro, um autocarro que esteve muito tempo parado na fronteira, para sair e depois para entrar na União Europeia. O programa era intenso. E, sobre esse programa, ainda tive que acrescentar as horas de trabalho - entrevistas realizadas nos momentos de pausa, textos escritos pela noite dentro, a roubar horas ao sono, às refeições e ao descanso. É sempre assim quando vamos para fora, sem horários, a dar tudo. Estou exausta, o meu cérebro está enevoado, não sei como é que vou conseguir enfrentar os dias que tenho pela frente e todas as coisas que tenho para fazer, mas valeu bem a pena é o que posso dizer. 


Lviv é uma cidade muito bonita e senti-me sempre bastante segura, apesar da guerra. Na noite antes de chegarmos, quando estávamos em Cracóvia, na Polónia, toda a Ucrânia esteve sob alerta e a região de Lviv foi atacada. Durante a nossa estadia, houve dois alertas que nos obrigaram a ir para o abrigo, mas nada aconteceu. Ouvir as sirenes da cidade a tocar e receber a mensagem de alerta no telemóvel é um bocadinho assustador, há que reconhecer, mas depressa percebemos que - pelo menos destas vezes - não havia nada a temer. O recolher obrigatório é da meia-noite às 5:00 da manhã, mas até essa hora a população faz a sua vida normal, no centro os restaurantes e os bares estão abertos, as esplanadas movimentadas. Foi muito interessante ver como as pessoas continuam a fazer o seu dia-a-dia, apesar de todos os constrangimentos.


Mas a guerra está sempre presente, mesmo quando não há ataques. Há funerais de militares praticamente todos os dias, toda a gente tem familiares e amigos a combater na linha da frente, é comum nas ruas encontrar feridos de guerra. Em todas as conversas, a guerra. Falei com alguns jovens ucranianos e é claro que foi muito comovente. São miúdos, da idade dos meus filhos, e vivem há mais de três anos em guerra, alguns passaram por situações realmente dramáticas. Como não ficar a pensar nisto?


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O alerta de ataque aéreo é acompanhado pelo som de uma sirente e uma voz que grita "Attention! Attention!"


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O cemitério onde estão sepultados mais de 1.200 militares de Lviv, mortos na guerra desde 2022


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Vários monumentos estão protegidos por causa dos ataques aéreos. Aqui, os vitrais da catedral tapados


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Por todo o lado, nos jardins e nas igrejas, há memoriais que homenageiam as vítimas da guerra


Se quiserem perceber melhor o que fui lá fazer, podem procurar os seis textos que escrevi para a CNN Portugal sobre o (ou à volta do) encontro de jovens portugueses e ucranianos em Lviv: o primeiro é uma antecipação do programa, o último é uma espécie de balanço, pelo meio há outras histórias. Foi tudo escrito a quente e em contra-relógio, mas espero que gostem.

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