Não tenho tido tempo para muito mais, mas não queria deixar passar a oportunidade de falar aqui da série documental A duas voltas: Mário Soares as Presidenciais de 1986, de autoria de Ivan Nunes e Paulo Pena, que está disponível na RTP Play. Para quem, como eu, andou com autocolantes de "Soares é fixe" ao peito e se lembra bem da campanha, é uma pequena delícia. Além do retrato do país que éramos há 40 anos, ainda deu para ficar a perceber algumas coisas mais políticas que, como eu era ainda uma miúda, com apenas 11 anos, me passaram um bocado ao lado na altura. Num momento em que nos preparamos para eleger o próximo Presidente da República, acho que é um bom programa para o dia de reflexão.
Sorry, baby é um daqueles filmes onde, à superfície, parece que nada acontece. É só a vida pacata de uma jovem professora numa terrinha perdida da América, com o seu gato, um vizinho esquisito mas simpático, a amiga que entretanto mudou de cidade e casou mas continua a voltar para visitá-la. Mas, depois, Sorry, baby é muito mais do que isso. É um filme sobre uma violação. Sobre como ainda é difícil explicar aos outros o que se passou. Sobre a incompreensão. Sobre o desconforto das instituições que fingem que não vêem. É como se a agressão continuasse, mas de outra forma, uma e outra vez. É por isso que este é um filme sobre como lidar com o trauma. Sobre seguir em frente, ainda que doa. Ou entao fingir que se segue em frente quando, na verdade, não se consegue sair daquele lugar. Sobre as feridas que não saram. Sobre a amizade e como é importante ter quem nos vê como realmente somos e nos ouve e nos acolhe. Sobre isto de ser mulher. Sobre como continuamos a falhar às mulheres. Tudo isto contado sem pressas, com os diálogos reduzidos ao essencial e com a calma transmitida pela música original de Lia Ouyang Rusli.
A actriz Eva Victor, de 31 anos, estreia-se como argumentista e realizadora neste filme baseado na sua própria experiêcia e em que também é protagonista. E que boa estreia esta.
Não é fácil meter a vida toda de uma pessoa qualquer num filme, quanto mais a vida de um artista. É por isso que muitos dos biopics acabam por ser filmes falhados, ficando-se quase só pela caricatura. Os melhores são aqueles que se focam num momento específico, num dilema, numa obra - como vimos no excelente filme sobre o Bob Dylan, de James Mangold. Não é só isso que faz um bom biopic, mas é já um começo de conversa. E é um bom começo de conversa para este Springsteen: Deliver me from nowhere, realizado pelo pouco conhecido Scott Cooper e protagonizado pelo mega-conhecido Jeremy Allen White (o actor de The Bear).
Em vez de tentar abarcar toda a enorme carreira do The Boss, o filme fica-se pelos anos de 1981-82 quando Bruce Springsteen, depois de terminada a digressão The River Tour, se sente exausto e assoberbado pelo sucesso e decide regressar à sua terra, New Jersey, para compor aquele que viria a ser o seu álbum mais intimista, Nebraska. Sabemos entretanto, porque o músico o contou na sua autobiografia, que naquele período Bruce viveu momentos complicados de depressão, um problema com o qual tem lutado ao longo da vida.
Li por aí que muita gente ficou desiludida com este filme. Eu gostei bastante. Em parte, talvez porque gosto do Bruce Springsteen e porque tenho vindo a aprender a gostar mais das suas músicas. Mas também porque me parece um filme bem feito, que conta bem a história que quer contar, com boas interpretações - embora não dê para ficar muito impressionada com o Jeremy Allen White porque afinal aquilo é mais ou menos uma versão do Carmy Berzatto, não é?
Não é um filme que vá ficar para a história do cinema, está bem, mas é um bom filme. E pôs-me a ouvir o Nebraska. Só por isso já valeu a pena.
A vida do realizador iraniano Jafar Panahi volta hoje ao banco dos réus, com a apreciação do recurso contra a sentença de um ano de prisão e dois anos de proibição de viajar, bem como a proibiçao de participar em grupos ou organizações políticas, que lhe foi aplicada a 1 de dezembro pelo Tribunal Revolucionário Islâmico de Teerão por actividades de propaganda contra o regime - julgado à revelia, uma vez que Panahi se encontrava no estrangeiro. Mostafa Nili, que é também advogado da activista Narges Mohammad, Prémio Nobel da Paz, representa o cineasta.
Jafar Panahi, actualmente com 65 anos, continua a viver e a trabalhar no Irão embora passe grande parte do seu tempo em França. Já tinha sido proibido de fazer filmes, no entanto, continuou a fazê-los, clandestinamente, e sempre, cada vez mais, políticos. Depois de Três Rostos e do incrível Ursos não há, no início de 2025 ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes com o filme Foi só um Acidente, mais uma vez realizado sem autorizações oficiais, sem apresentar o argumento à censura iraniana, sem o uso do hijab obrigatório para as actrizes.
"Sem autorização, teve de filmar Foi só Um Acidente em apenas 25 dias. A rapidez é decisiva para uma equipa não deixar rastos nem assentar arraiais", conta Vasco Câmara, que entrevistou Panahi aquando da sua passagem por Lisboa, em novembro. "Por isso também não havia cópias do argumento, a não ser de um argumento falso. Os técnicos não o tinham, o produtor também não. E os actores só recebiam as suas páginas na véspera. Era uma forma de os proteger a todos: se fossem apanhados e interrogados, não poderiam mentir. Por isso, ainda, a equipa tinha de ser reduzida, não mais de cinco, seis pessoas, para caberem todos em dois carros."
Desta vez, Panahi não interpreta. Mas a sua experiência e as suas memórias estão no centro deste filme.
Jafar Panahi foi detido pela primeira vez em 2010. Esteve três meses preso. Foi libertado, mas com uma pena de seis anos a cumprir em casa e a interdição de filmar durante 20 se ensaiasse gestos que confirmassem a reincidência em "propaganda anti-islâmica". Em regime de prisão domiciliária realizou Isto Não é Um Filme (2011). Proibido de sair do país, não pôde ir a Cannes, em 2018, receber o prémio de melhor argumento atribuído a 3 Rostos.
No verão de 2022 ficou detido quando se deslocou à prisão de Evin, em Teerão, para protestar contra a detenção dos realizadores Mohammad Rasoulof e Mostafa Al-Ahmad, que haviam denunciado a violência na repressão policial de manifestações populares. Não assistiu por isso à exibição de No Bears/Ursos Não Há em Veneza 2022, onde recebeu o Prémio Especial do Júri. Esteve sete meses encarcerado, até que entrou em greve de fome: dois dias depois foi libertado sob caução.
É das suas experiências na prisão - e das experiências que outros lhe contaram - que nasce Foi só um Acidente. As detenções políticas, tantas vezes aleatórias, o modo como os presos são tratados, os interrogatórios, a humilhação, a tortura - estas são experiências marcantes, que permanecem com as pessoas mesmo depois de serem libertadas, que determinam a sua vida. Ninguém fica o mesmo depois de ser privado da sua liberdade e de ser torturado. O trauma é real. O medo pode ser paralisante. A ansiedade por tornar-se crónica. O desejo de vingança pode só estar a aguardar uma oportunidade para se concretizar.
No filme, um pequeno acidente de automóvel cria essa oportunidade. E em volta dela junta-se um grupo de pessoas a braços com o passado, a tentar perceber como vão seguir no futuro. Foi só um Acidente é tanto sobre um regime totalitário que oprime os seus cidadãos como sobre o lugar em que as pessoas - no Irão, em todo o lado - se colocam (ou escolhem colocar-se) nesse regime. Sobre como a prisão e a tortura inflingem feridas profundas e nem sempre visíveis no íntimo de cada indivíduo e como superá-las. Sobre a liberdade individual, a liberdade interior, a liberdade de pensamento, aquele reduto que, mesmo nas condições mais adversas, acreditamos que é possível manter. E sobre a importância da comunidade e de sabermos que não estamos sozinhos nesta batalha. Nas ditaduras o trauma é individual e é colectivo. E é isso tudo que nos mostra este filme que é ao mesmo tempo duríssimo e poético e até, por vezes, cómico.
O filme foi fortemente criticado pelas autoridades iranianas, claro. Mas a França apresentou-o como candidato à categoria de Melhor Longa-Metragem Internacional nos Óscares. Foi só um Acidente está também nomeado para os Globos de Ouro nas categorias de Melhor Filme Dramático e Melhor Filme Internacional.
Correndo atrás do prejuízo dos filmes dos quais ainda não falei, começo com Batalha Atrás de Batalha, o extraordinário filme do Paul Thomas Anderson. Eu sou grande fã do senhor PTA e, portanto, fui ver o filme logo quando estreou nos cinemas - o que foi há já muito, muito tempo, entretanto o filme já está disponível na HBO e tudo. Quando entrei no cinema não sabia nada sobre o que estava prestes a assistir, não tinha lido nada, ia apenas levada pelo nome do realizador, e por isso confesso que ao início fiquei bastante surpreendida e até um pouco desorientada com aquela viagem a uma América em convulsão, onde grupos revolucionários armados defendem a "liberdade, igualdade, fraternidade" e tentam fazer justiça pelas suas próprias mãos. Depois do Licorice Pizza não estava nada à espera disto. Mas, assim que me deixei entrar no filme, tudo passou a fazer sentido.
Batalha Atrás de Batalha adapta Vineland, o livro de Thomas Pynchon. A primeira parte apresenta-nos Perfidia Beverly Hills e Bob Ferguson (interpretações de Teyana Taylor e Leonardo Di Caprio, respectivamente), um casal de fervorosos e apaixonados activistas nas suas actividades revolucionárias filmadas um pouco ao estilo blaxploitation. Mas quando Perfidia é detida, Bob tem de fugir com a filha bebé e passar a viver na clandestinidade.
Avançamos uns anos para encontramos Bob e Willa (interpretada por Chase Infiniti), a filha já uma jovem de 16 anos, com ideias próprias e a tentar escapar à paranoia controladora do pai. A sua vida é colocada de pantanas pelo terrífico coronel Steven Lockjaw (Sean Penn), o polícia de ideias ultra-conservadoras que tinha prendido Perfidia e que volta agora para resolver alguns assuntos pendentes.
Não existem referências temporais especifícas, embora seja possível relacionar alguns eventos e algumas personagens com a América de Trump, a ideologia MAGA e as intervenções anti-imigrantes do ICE. O racismo é o grande motor do ódio. Mas, para além da crítica social e política, existem os conflitos e as relações pessoais. Desde logo a relação entre um pai sozinho e a sua filha. Devo dizer que não sou a maior apreciadora de Leonardo Di Caprio e esta interpretação entre o cómico e o dramático, mais a descair para a farsa, apesar de estar a ser muito elogiada, não fez mudar a minha opinião. Ainda assim, há momentos muitos bons e, no fundo, este é também um filme onde (como já vimos tantas vezes em tantos filmes de acção) um pai faz de tudo para salvar a sua filha, mostrando-nos que o amor, o tal do amor incondicional, é muito mais do que uma relação genética.
Na altura, quando tentei falar a alguns amigos sobre o filme que tinha acabado de ver, usei a expressão "tarantinesco". Quem me conhece sabe que eu tenho andado de candeias às avessas com o Tarantino. Portanto, um filme de PTA ser "tarantinesco" podia não ser uma coisa boa. Mas neste caso até é. É "tarantinesco" na forma explícita como mostra a violência, com tiros disparados à queima-roupa e as entranhas de fora, mas sem a banalização moral a que Tarantino nos habituou. Não sei bem como explicar isto, lamento. Mas parece-me que PTA consegue o equilíbrio perfeito nesta mistura entre violência e humor, entre crítica e comédia, entre realidade e ficçao. Fiquei presa ao ecrã e àquelas personagens durante 2 horas e 40 minutos e por toda a insane perseguição final na "River of Hills", uma estrada na Califórnia onde, como na vida, tão depressa seguimos confiantes e sorridentes como logo a seguir podemos enfrentar os nossos inimigos.
2025: o mundo está terrível, mas dentro de casa estamos em paz
Mais um ano. O mundo está um lugar triste e perigoso. O nosso país também. À minha volta há cada vez mais ódio e egoísmo. Na política, nas redes sociais, na rua. Temo que nos próximos anos nos vamos afundar ainda mais neste caldo de extremismos temperado por trumpes e venturas, que vamos ter ainda mais conflitos sociais e guerras mortíferas, que vamos viver tempos terríveis antes de retormamos, outra vez, o caminho do humanismo. Resta-nos continuar a lutar - cada um à sua maneira - por aquilo que julgamos correcto, pela igualdade, pela liberdade, pelo bem comum, pela solidariedade.
Pessoalmente, 2025 foi um ano bom. Nem me lembro da última vez que disse uma coisa destas. Não aconteceu nada de extraordinário, mas também não aconteceu nada de trágico. Mais importante: chego ao final do ano a sentir-me em paz, como há muito tempo não sentia.
O segredo para ser feliz num mundo assim não é segredo nenhum: é rodearmo-nos de pessoas boas, encontrar/criar uma comunidade de gente que nos acompanhe neste olhar para o lado bom do mundo, sem alimentar a raiva e o ressentimento, que nos estenda a mão e nos acolha no seu colo nos momentos maus, gente com quem podemos conversar sobre tudo, com quem podemos chorar e gargalhar, pensar, dançar, viajar ou apenas estar. Tenho muita sorte por ter algumas pessoas assim na minha vida. Os melhores momentos do ano foram, como sempre, todos aqueles que passei com os meus amigos e a minha família.
Para memória futura:
Não falei de tudo aqui, mas como habitualmente entre o melhor do ano estão os livros, os espectáculos de teatro e dança, os concertos, muitos filmes e muitas séries, algumas exposições. Nestes tempos sombrios é ainda mais importante alimentar o espírito.
Aceitei participar num grupo de escrita. O nosso largo está cheio de mulheres muito diferentes e com ideias diversas. Tem sido um desafio e tanto, e nem sempre consigo corresponder, mas espero que continuemos a escrever juntas.
Fui ao Tremor, em São Miguel. Foi incrível. Vamos voltar.
O António saiu de casa durante sete meses. Esteve a morar noutra cidade, a três horas daqui, trabalhou, cresceu e depois voltou. Está mais responsável, mais decidido, mais autónomo. Está a transformar-se num adulto com a cabeça no lugar e o coração no sítio certo. Às vezes custa-me acreditar. Acho que até sinto um certo orgulho (não quero lançar foguetes antes do tempo, mas estou contente, sim).
O Pedro ainda me dá (e vai continuar a dar) muitas dores de cabeça. Seguimos fortes nesta travessia pela adolescência.
Os meus filhos são o meu barómetro. Se eles estão bem, já é meio caminho andado. E este é o meu texto preferido do ano neste blogue.
Fui à Ucrânia e a Madrid. Há muito tempo que o trabalho não me levava a entrar em aviões e foi bom como sempre é. Sobretudo porque na maior parte dos dias o trabalho não me dá grandes motivos de felicidade. Parece que vamos ter de trabalhar até quase aos 68 anos, não sei como irei aguentar.
De um dia para o outro, o envelhecimento tornou-se real. Nos meus grupos de amigas, fala-se muito sobre menopausa, queixamo-nos dos males dos nossos corpos, trocamos mezinhas e recomendações médicas. Angustiamo-nos com o envelhecimento dos nossos pais, entristecemo-nos com as perdas, cada vez mais comuns.
Mas também há bebés, e a cada bebé renova-se a esperança. Nasceu o Xavier. Em breve nascerá a Emília. Por causa dos filhos das minhas amigas, voltei abordar em ponto-de-cruz e tem sido muito divertido.
Mergulhei no Mediterrâneo. Foi fantástico (e não só por causa da temperatura da água). Estes últimos anos têm me ensinado a não fazer planos. Desfrutar o presente, aproveitar cada minuto como se fosse o último, é um desafio nem sempre fácil. "Contra todas as evidências em contrário, a alegria" - mais uma vez, ainda, enquanto for bom.
The New Yorker at 100 é um documentário que está disponível na Netflix sobre a fantástica revista New Yorker, que está a celebrar os seus 100 anos. Para além de ficar a saber a história da revista, para um jornalista é incrível poder espreitar por dentro da New Yorker, conhecer um pouco as pessoas que lá trabalham e perceber como o fazem. É incrível e é ao mesmo tempo um bocadinho triste, diria. Se, por um lado, é muito bom saber que há redacções com um tal grau de exigência e de compromisso - veja-se o modo como verificam os factos, as discussões em cada reunião de fecho de um artigo ou até o debate sobre o livro de estilo da revista; veja-se os temas que elegem, a seriedade com que os abordam, a liberdade com que pensam -, por outro lado, é impossível não ficar um pouco deprimida ao constatar quão longe estamos (eu, nós, na minha empresa, no nosso país) desta realidade. Mesmo nos sítios melhores. Mesmo naqueles sítios que nos servem de farol. [senti mais ou menos o mesmo ao ver um outro documentário, há uns anos, sobre The New York Times]. O debate sobre o jornalismo que fazemos fica para outra ocasião. Em vez de entrar em depressão e me pôr para aqui com lamúrias, decidi aproveitar uma promoção e assinar a New Yorker por um ano. E que prazer tem sido.
PS - Tenho uma lista de filmes vistos e sobre os quais ainda quero escrever. Não me tem apetecido escrever sobre filmes, não sei muito bem porquê. Mas a lista já vai longa e não tarda nada começa a época de prémios, por isso, prometo que me vou esforçar.
Ah, dançar. Eu adoro dançar. Dançar era “a” minha cena, sabem? Fechar os olhos e dançar, ocupar a pista sem pensar, ignorar os olhos que me olham, mexer o corpo sem regras. Odeio coreografias, sou incapaz de dançar em par, agarrada a alguém, mas dançar, entregar-me à dança e deixar-me ir é qualquer coisa de extraordinário. Dançar desde os tempos da Fonte Velha, a primeira discoteca da minha terra, que abriu tinha eu uns 15 anos ou por aí, das primeiras vezes ia com o meu pai, só para terem ideia, eu era a miúda que tinha o pai fixe que levava a filha e as amigas à discoteca, bebíamos Ginger Ale e dançávamos com o mesmo empenho o “Pump Up the Jam” e os U2. Dançar e saber que os rapazes me olhavam, imitar os movimentos que via nos telediscos do Prince, ir pedir ao DJ para tocar o “Mistify”. Depois, na pista da Pandora, ainda no Alentejo, sem óculos, a ver tudo nublado e a cantar “Sit down next to me”. No Tóquio, na rua que ainda não era cor-de-rosa mas era das prostitutas, onde, já na faculdade, dançávamos Pixies e Cure e Violent Femmes e eu percebi, logo aí, a cantar em coro “Here comes your man”, que aquela era a minha tribo. Nos Três Pastorinhos, a pista cheia de jornalistas como eu estava ainda a começar a ser e foi mesmo o começo de tanta coisa. Ah, dançar. Fui tão feliz a dançar no Plateau. E no Captain Kirk. E no Roterdão. E no Frágil. Foi às seis da manhã, quando me levava a casa depois de horas e horas a dançar no Lux, que ele me perguntou: “Então, também gostas de música brasileira?”, e dois anos depois casámos. Foi no Jamaica, no antigo Jamaica, que afoguei muitas mágoas, depois de me separar, apertados como sardinhas em lata, corpos desconhecidos a roçarem-se, o cheiro a tabaco a entranhar-se nas roupas e no cabelo, os copos de gin a entornarem-se por cima das roupas, os sapatos a colarem ao chão e nós a dançarmos para nos esquecermos de tudo, outra vez. “Last night she said Oh, baby, I feel so down”. É ao Incógnito, àquela pista minúscula, por baixo dos globos espelhados, que volto ainda quando quero dançar, o que acontece cada vez menos - quando foi mesmo a última vez? Ah, dançar, eu adoro dançar, mas há muito que não tenho paciência para sair à noite, para as filas, para os encontrões, para as bebedeiras, para as multidões. Das últimas vezes, mesmo voltando para casa - relativamente - cedo, acordei na manhã seguinte a sentir-me um farrapo, o corpo moído, a cabeça a zumbir. Tenho tantas saudades de dançar. Bora organizar matinés, sem álcool nem multidões, só nós, de olhos fechados, a cantar as letras todas e a dançar, a dançar, a dançar, o que me dizem, miúdas?
*
Existe uma tag dançar neste blog. Existe até uma playlist com algumas (só algumas) músicas boas para dançar. E existe esta música, que diz isto tudo que estive para aqui a dizer, mas em bom.
*
Atrasei-me uma semana a vir dançar ao largo, mas aqui estou.
Fui num instantinho a Madrid em trabalho. Foram pouco mais de 30 horas na cidade, que tentei rentabilizar ao máximo. Claro que tive de trabalhar: entrevistar a diretora da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporânea durante a tarde, ver o espectáculo Amaramália à noite, ficar no hotel a escrever o texto durante a manhã. Mas todo o resto do tempo foi para aproveitar.
O que fiz:
- Visitei a exposição Leica. Un siglo de fotografía 1925-2025, no Centro Cultural Fernán Gomes, com fotografias de Steve McCurry, Elliot Erwin, Sebastião Salgado, Alberto Korda e muitos outros. Muito fotojornalismo e muita street photography. Gostei bastante. A entrada é livre.
- Fui ao Museu Thyssen-Bornemisza porque queria ver a exposição que junta Picasso e Paul Klee (tenho esta ideia de que as obras de Picasso nunca são de mais na nossa vida), depois acabei por ver também a exposição Warhol, Pollock e outros espaços americanos (é muito desigual, tem coisas muito interessantes e outras nem por isso) e por espreitar as salas da arte moderna e contemporânea.
- Entrei na Caixa Forum para ver a exposição do Matisse porque estava a chover e acabou por ser uma bela surpresa. Só conhecia aquelas obras mais famosas do Matisse e descobri que, afinal, ele teve uma carreira bastante longa e diversificada.
- Andei a passear pelo Barrio das Letras, um sítio bem agradável, com lojas mais alternativas e restaurantezinhos com um ar bastante simpático. Como continuava a chover, aproveitei para fazer uma visita guiada à casa de Lope de Vega. A guia era super divertida e empática e contou imensos pormenores sobre a vida do escritor. A entrada é livre mas é necessária inscrição porque as vagas são limitadas.
(no Barrio de las Letras)
E ainda consegui sentar-me a jantar e a pôr a conversa em dia com a minha querida Milú.
Não tenho a certeza, mas penso que só tinha ido uma ou duas vezes a Madrid, sempre em trabalho e sempre a correr. Lembro-me que fui ao Prado, onde vi obras de Goya e de Hieronymus Bosch, e ao Museu Reyna Sofia, ver a Guernica, pois claro. E pouco mais. Desta vez, quis evitar os museus maiores, até porque já não tenho paciência para passar horas infindas num museu, e consegui passear mais nas ruas, andei de metro, sentei-me a comer com calma. Deu para sentir mais a cidade, mas claro que ainda ficou muito por explorar.
Uma coisa de que gostei: em todos os museus a que fui havia bastantes pessoas (mas não tantas que se tornasse impossível ver as obras), muito diferentes - turistas, crianças das escolas, grupo de idosos com um guia, casais e famílias espanholas - e todas muito interessadas. Na visita à Casa de Lope de Vega, só com espanhóis, as pessoas fizeram imensas perguntas. Nos museus havia gente a tirar selfies, grupos a conversar, o ambiente era descontraído, muito diferente da solenidade que costumamos ver por cá. Sei que às vezes os museus mais conhecidos têm a gente a mais e isso também me incomoda, mas, neste caso apenas senti que os museus estavam vivos e a ser desfrutados pelas pessoas, e isso é muito importante. Um museu demasiado vazio e silencioso é um péssimo sinal.
Uma viagem a Lampedusa e outros livros de não-ficção
Quero falar-vos também dos livros de não-ficção, que são sempre uma parte importante das minhas leituras.
Destes, destaco Lampedusa, o livro da Ana França que é uma grande reportagem sobre a ilha italiana que se tornou a porta de entrada de muitos imigrantes na Europa. Ao longo dos últimos anos, a jornalista do Expresso fez várias viagens a Lampedusa, investigou, entrevistou muitas pessoas e, no final, dá-nos um livro muito bem escrito, que nos mostra o lado mais humano deste drama sem esquecer toda a informação factual.
Muito interessante também é Líbano: uma biografia, o livro onde a Safaa Dib conta a história da sua família, desde a vida atribulada dos antepassados no Líbano aos horrores da guerra civil que levaram os seus pais a vir morar em Portugal. No entanto, como li este livro logo a seguir ao excelente Lampedusa, não pude evitar constatar que faltou aqui o talento (e talvez um certo distanciamento) para transformar esta incrível saga familiar num livro igualmente incrível, ou, pelo menos, faltou um bom editor que conseguisse limar algumas arestas.
Li ainda três biografias, todas monumentais:
Logo a seguir à morte da Maria Teresa Horta, mergulhei n'A Desobediente, a biografia de autoria de Patrícia Reis, que já tinha cá em casa mas ainda não tinha tido tempo para ler. É uma óptima biografia. A Patrícia não só entrevistou várias vezes a Teresa como se tornou sua amiga, e essa proximidade traz uma outra camada ao relato de uma vida já tão cheia e com tantas coisas para contar. Não sou a maior fã da poesia de Maria Teresa Horta mas foi uma mulher extraordinária, corajosa e curiosa. Era uma pessoa por quem eu já tinha um enorme carinho, do pouco contacto que tivemos, e de quem fiquei a gostar ainda mais.
Li também a biografia que o Joaquim Vieira fez de Francisco Pinto Balsemão. É um trabalho de grande investigação, com imensos testemunhos e pormenores sobre as várias facetas de Balsemão. O biografado odiou este livro e acabou por escrever as suas próprias memórias, como que a querer deixar a sua versão dos factos. Mas o livro de memórias - que também li assim em diagonal, por motivos profissionais, é uma grande seca, há que dizê-lo.
E, finalmente, comprei na Feira do Livro, com desconto, Integrado e Marginal, biografia de José Cardoso Pires escrita por Bruno Vieira do Amaral. Não sabia muito sobre o escritor, de quem li alguns (poucos) livros e recordo sobretudo o De Profundis Valsa Lenta, que adorei. Achei que a celebração do seu centenário seria uma bela oportunidade para ficar um bocadinho menos ignorante. Foi uma excelente leitura. Tal como a biografia da Maria Teresa Horta, este é um livro que se lê como se fosse romance - como se fosse um bom romance - e isto é um grande elogio.
Fica a faltar falar de uns dois ou três livros, tentarei fazê-lo em breve. Não sou, como já se sabia, uma leitora voraz, e os booktookers que devem estar neste momento a ler o seu 50º livro do ano ficarão, seguramente, a rir-se de mim; mas, apesar de tudo, estou muito contente.
Perguntaram-me outro dia, num jantar com pessoas que gostam de livros, que livro mais tinha gostado de ler recentemente. Respondi de imediato, sem hesitar, que tinham sido todos os livros da Leila Slimani. A Leila, que foi a minha autora preferida de 2024, continuou a acompanhar-me este ano. Além de ter terminado a trilogia, li finalmente No Jardim do Ogre, que é um livro já de 2013 - talvez se note, um pouco, que é um livro escrito antes dos outros [escrito quando a autora era mais nova, talvez seja mais correcto dizer assim], mas é também muito bom e muito surpreendente.
Nessa noite, vim para casa a pensar no que tenho lido. Tem sido um ano atípico, sinto que tenho lido menos do que habitualmente, menos do que desejaria, e nem sequer tenho vindo aqui falar sobre os livros, o que se calhar também contribui para esta sensação. Mas será verdade? Pus-me então a fazer mentalmente uma lista.
Concluo que continuo, com algumas boas exceções, a ler muitos mais livros escritos por mulheres do que por homens.
Além da Leila, li dois livros de autoras brasileiras de que gostei bastante: Meus Desacontecimentos, de Eliane Brum, que é um livro de autoficção, ou seja, onde a autora cria uma narrativa a partir da sua vida; e Se não fossem as sílabas do sábado, de Mariana Salomão Carrara, que me prendeu não só pelo inesperado ponto de partida - um homem cai do seu andar e, ao morrer, mata também o homem que ia a sair do prédio; a tragédia aproxima as duas viúvas, vizinhas que até aí não se conheciam e que se tornam amigas - mas também pela escrita algo poética da autora.
Aliás, fiquei tão fascinada com este livro que decidi comprar um outro livro da Mariana Salomão Carrara, É sempre a hora da nossa morte amém. E devo ter falado tanto dela que, nessa mesma altura, me ofereceram o seu livro mais recente, A árvore mais sozinha do mundo. Acontece que nenhum destes livros conseguiu cumprir as expectativas que tinha para eles. O primeiro aborreceu-me imenso, com as suas repetições; ainda me esforcei, avancei umas páginas na esperança que melhorasse, cheguei a meio mas não consegui terminá-lo. Com o outro foi ainda pior: não consegui mesmo envolver-me com a história daquela família de agricultores e penso que a culpa é do facto de a história ser contada por uma árvore e por alguns objectos. Alguém me disse: se insistires, acabas por gostar. Mas, sinceramente, aquelas páginas que li custaram-me tanto que não me apeteceu continuar.
Percebo agora que este ano foi pródigo em leituras falhadas.
Tentei o muito elogiado A Breve Vida das Flores, da francesa Valéri Perrin, e não consegui de todo. Disseram-me, então, que dela deveria ler o Querida Tia, e eu, obediente, tentei. Achei um pouco melhor, ainda resisti uns quantos capítulos, mas acabou por me desinteressar. Mais uma vez, o ponto de partida da história era muito bom, o que me afastou foi o estilo de escrita da autora. Não vos consigo explicar, sei dizer apenas que é uma escrita que não me agrada, parece-me tudo muito básico e ao mesmo tempo muito forçado.
O melhor exemplo disso são as gravações deixadas pela tia: mas alguém, alguma vez, falaria assim? Aquilo começou a complicar-me muito os nervos. Acertar no tom de uma fala em discurso directo é muito difícil. Imaginar diálogos ou cartas escritas por alguém é um dos grandes desafios da ficção, são poucos os que o conseguem fazer bem.
Essa foi também uma das coisas que me incomodou no romance de estreia da Luísa Sobral, Nem Todas as Árvores Morrem de Pé, que, no geral, achei muito fraco e sem qualquer densidade. Se não fosse ter-me comprometido a lê-lo por motivos profissionais não teria passado das primeiras páginas.
Ler um mau livro (um livro de que não estou a gostar) é algo muito penoso para mim. Começo a engonhar, a arranjar desculpas para não ler, passam os dias e eu tenho cada vez menos vontade de lhe pegar. Quando percebo que isso está acontecer, o melhor é desistir e passar para outro.
Felizmente, houve outros livros bons este ano. Irei falar deles já a seguir.
No fim-de-semana, fugi do mundo e fui para o Alentejo. Mas não fui sozinha. No sábado, rumei a Évora para o almoço de 50 anos de um grande amigo e foi mais do que bom reencontrar tantas pessoas que já não via há tanto tempo. O JP estava felicíssimo, a sopa de cação foi uma consolação e o grupo Cantares de Évora foi a sobremesa perfeita. Terminado o almoço, deixei os convivas animados a decidirem onde prosseguiriam os festejos e rumei para a costa, para o Cercal, onde um grupo de amigos-queridos e futuros-amigos me esperava para um fim de semana de poesia e pasmaceira. Caminhámos no campo, desfrutámos do silêncio, comemos e bebemos e partilhámos poemas e palavras e abraços. Foi bom de mais. A lareira aquecia a casa, a paisagem do Alentejo aqueceu-me a alma, os amigos aqueceram-me o coração. E ainda houve quem, antes da despedida, se atrevesse no mar gelado da costa vicentina. No regresso, conduzindo a sentir aquele calorzinho do sol cada vez mais baixo no horizonte, a luz incomparável do outono, vinha a pensar na sorte que tenho por ter na minha vida pessoas que me proporcionam momentos tão incríveis. E assim entramos em dezembro.
Aconteceu no início do mês: no podcast Interesting Times, do The New York Times, Ross Douthat convidou Helen Andrews and Leah Libresco Sargeant, apresentadas como escritoras conservadoras e críticas do feminismo, para debater o papel da mulher nas sociedades liberais. Helen Andrews é a autora do ensaio The Great Feminization, no qual argumenta que o feminismo falhou porque tornou as instituições demasiado feminas, expulsando delas os homens e as virtudes masculinas. Por outro lado, Leah Libresco Sargeant escreveu um livro intitulado The Dignity of Dependence, onde sugere que o feminismo liberal falhou ao obrigar as mulheres a suprimirem a sua natureza e a adaptarem-se a locais de trabalho e sistemas sociais feitos para os homens.
Na abertura, Douthat lançava o tema: "Men and women are different. That is a core premise of conservatism in the age of Trump, that liberalism and feminism have come to grief by pretending that the sexes are the same. But what does that difference really mean? Should the right be trying to roll back the entire feminist era? Or is there a form of conservative feminism that corrects liberalism’s mistakes?" A conversa desenrolou-se nestes termos, discutindo em 2025 (!!!) a natureza das mulheres e de que forma a entrada da mulher no mercado de trabalho alterou os modos de trabalhar e afectou a sociedade, mas também criticando o feminismo, o movimento #metoo e a denominada cultura woke.
Quando foi publicado no site do NYT, o podcast apareceu com este lindo título: "Did Women Ruin the Workplace?". Choveram críticas de todos os cantos do mundo e de (quase) todos os quadrantes políticos. De tal forma que o jornal se viu obrigado a mudar o título para "Did Liberal Feminism Ruin the Workplace?" - mas o mal já estava feito, as redes sociais são implacáveis a fixar tudo aquilo que preferíamos esquecer.
Na verdade, este debate veio só tornar ainda mais visível uma ideia que parece ter estado adormecida durante algumas décadas mas tem vindo novamente a ganhar força em canais de youtube e tiktok conservadores e machistas, espalhando-se como um vírus entre as cabeças tanto de jovens rapazes como de homens-feitos: o lugar natural das mulheres é em casa, a tomar conta da família e do lar, parindo e educando filhos, cozinhando e passando a ferro, e deixando o homem tomar contas das "coisas que realmente importam". Não vou aqui linkar nem sequer citar, mas a quantidade de pequenos e grandes influencers que tenho visto, lido e ouvido nos últimos tempos a dizer isto, por estas ou por outras palavras, de forma mais aberta ou com insinuações pouco subtis, tem-me deixado absolutamente abismada e furibunda. Como é possível que 200 anos depois de as feministas terem saído à rua para lutar pelos direitos das mulheres estejamos novamente a ter este tipo de conversas?
Portanto, ainda a batalha feminista estava longe de ser vencida, ainda estávamos aqui a tentar desenvencilhar-nos do maldito patriarcado, a apontar as desigualdades salariais e a exigir maior equidade na divisão das tarefas domésticas, a desesperar com os números relativos à violêncida doméstica e a lutar pela criminalização do assédio sexual, quando fomos abalroadas pelas ideias conservadoras (eu diria reaccionárias) que tomaram conta da internet, da sociedade e do discurso político, bramindo contra todas as conquistas tão arduamente conseguidas até aqui.
De que têm medo estes homens?
De perder os seus privilégios.
É só isso.
Ainda assim, que estes tristes machos encontrem nas mulheres o bode expiatório perfeito para justificarem os seus fracassos existenciais até me parece compreensível. Mas que mulheres embarquem neste discurso (assim como imigrantes votaram em Trump sem perceber que eram o alvo das duas políticas; ou as classas trabalhadoras votam repetidamente em partidos que não defendem os seus interesses) mostra bem o tanto que ainda está por fazer. E é um bom lembrete para todos nós de que não há direitos adquidiridos, a luta é constante.
Segundo a Wikipédia: We Can Do It! (em português: Somos capazes!) é o título de um cartaz de propaganda criado nos Estados Unidos, em 1943, por J. Howard Miller para a empresa Westinghouse, com o objectivo de levantar o moral dos seus trabalhadores durante o esforço de guerra. O cartaz é baseado na fotografia em preto e branco de uma operária que então trabalhava na Base Aeronaval de Alameda, na Califórnia.
*
A correr atrás do prejuízo para cumprir o tema do largo da semana passada, que era bode expiatório. E lembram-se do dia em que não consegui escrever sobre fúrias? Pois aqui estão elas, ou pelo menos parte das fúrias que me têm assolado nos últimos tempos.
Ah, e vão ler as minhas vizinhas, que vale sempre a pena:
“This is the beginning of a nightmare, I thought … my worst fear come true. But stay with me … because my story is about happiness being easier to find once we realize we do not have forever to find it."
Come seem me in the good light é um documentário realizado por Ryan White que acompanha os últimos meses de vida da poeta Andrea Gibson, a quem foi diagnostiscado cancro nos ovários em 2021. Depois de uma cirurgia, vários ciclos de quimioterapia e outros tratamentos experimentais, Gibson morreu em julho de 2025, pouco antes de completar 50 anos. Encontramo-la fragilizada mas sempre a tentar aproveitar o máximo dos dias, apesar das dores, dos tratamentos, dos resultados pouco animadores das análises, da constatação de que as mestátases se tinham, finalmente, espalhado para o abdómen. Em todos estes momentos, Gibson conta com o apoio incondicional da sua companheira, a também poeta Megan Falley, com quem vive numa casa no campo em Longmont, Colorado. E encontra conforto no grupo de amigas, nos seus cães, no telefonema diário para a mãe, nas rolas que vêm cantar na árvore em frente do terraço. Num último espectáculo de spoken word, num teatro esgotado.
Como encarar a morte quando a sabemos ao virar da esquina? Como aceitar o fim sem rancor nem medo? As palavras de Gibson, a sua tranquilidade, o seu discernimento, o amor e a alegria que encontra em todas as pequenas coisas são uma inspiração.
Claro que é impossível falar da morte sem recorrer a clichés e só uma pessoa de coração de pedra conseguirá ver este filme sem chorar. Mas se é para ser lamechas, que seja aqui, que seja assim.
O Agente Secreto: o cinema brasileiro diz ainda estou aqui
Não deve ser fácil ser o filme brasileiro que vem depois do sucesso de Ainda Estou Aqui.
O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, não pediu essa comparação e é injusto fazê-la, tenho plena noção disso. E, no entanto, aqui estamos, inevitavelmente. Porque é um filme brasileiro, e são poucos os filmes brasileiros que estreiam nas salas portuguesas. Porque é um filme brasileiro que se estreou em Cannes e tem sido premiado internacionalmente. Porque é o candidato brasileiro aos Óscares. Porque é um filme sobre a ditadura.
A partir daqui, não há muito mais que una os dois filmes.
Wagner Moura (óptimo) interpreta Armando, um engenheiro viúvo que regressa ao Recife em pleno carnaval sob uma falsa identidade, para vir buscar o filho pequeno que vive com os avós maternos e ir com ele para o estrangeiro, fugindo das ameaças de morte. Enquanto espera pelos documentos, mora na casa de dona Sebastiana, uma velhota rija que alberga um grupo de gente em fuga, que não se enquadra nas regras vigentes, incluindo um gato com dois focinhos.
O Agente Secreto é um filme policial cuja acção se passa no Recife, em 1977. Kleber Mendonça Filho é muito bom a dar-nos o ambiente da época e do local. Os polícias corruptos, o carnaval que tudo permite, o suor nos corpos, a opressão da ditadura, a vida nas margens. A música, claro, a música é excelente e certeira. Como mosaico é um filme incrível. Só por isso vale a pena.
O realizador recorre à estética cinematográfica dos anos 70, sobretudo dos filmes de terror muito populares nessa época. Não é só Tubarão, de Spielberg, que é referido de diversas maneiras, causando pesadelos e influenciando o imaginário de todos, até mesmo daqueles que não viram o filme. Kleber Mendonça Filho traz para O Agente Secreto um pouco do gore de Bacurau, o seu filme de 2019, e muito dos Retratos Fantasmas, o seu documentário sobre as antigas salas de cinema do Recife. É como se o realizador juntasse aqui as suas memórias de infância e as duas grandes paixões: o cinema e a sua cidade. Parte da acção passa-se na sala de projecção do Cinema São Luiz, onde é exibido o primeiro King Kong e a plateia grita de medo a ver The Shining, de Kubrick. E parte da acção passa-se nas coloridas ruas do Recife, que com seus comércios diversos e personagens populares é palco de encontros, desfiles de carnaval e até perseguições (uma das melhores sequências do filme, diga-se).
O Vasco Câmara chama-lhe um filme "sinuoso" e "tortuoso". O Eurico de Barros diz que "cultiva osuspensee o mistério pedindo um esforço de participação ao espectador na decifração do que está a ser contado, em vez de lhe servir a papinha toda feita". É uma análise certeira: O Agente Secreto é um filme exigente na duração (2 horas e 38 minutos) e na forma, com uma estrutura pouco linear e uma miríade de personagens e histórias secundárias, que nem sempre se percebe muito bem porque é que ali estão. Pessoalmente, dispensava o salto temporal para o presente (tal como o dispensava em Ainda Estou Aqui) e irritou-me a elipse precisamente num momento-chave da narrativa. Como assim, Kleber?, vamos ficar sem saber o que se passou?
Resumindo: gostei bastante. Mas duvido que haja Óscar para o Brasil este ano.
*
Ando a especializar-me em contornar os temas do largo. Não é propositado. Tem sido só mesmo falta de imaginação para mais. Esta semana era "Ainda estou aqui". E eu quis mostrar que, apesar da falta de criatividade, ainda estou aqui.
Bonnie "Prince" Billy: música para nos reconciliarmos com o mundo
Queria escrever sobre fúrias, porque tinha falhado a última sexta-feira no largo e achei que ainda vinha a tempo de destilar aqui um pouco das muitas fúrias que me têm acometido por estes dias. São tantas que a dificuldade seria escolher a qual me deveria dedicar. Mas, depois, na segunda-feira fui ver o concerto de Bonnie "Prince" Billy, no Teatro São Luiz. Preciso sempre de uma grande dose de boa vontade para sair de casa depois de um dia de trabalho, mas como o concerto foi logo às 20:00 (um grande bem-haja para quem teve esta ideia) lá me animei. E ainda bem que não sucumbi à preguiça, pois foi uma belo serão.
Sempre com um boné na cabeça, como que a esconder a careca, um boné que, diga-se, parece destoar do resto da indumentária indie-folk mas entretanto já se tornou uma imagem de marca sua, Bonnie falou pouco com a plateia (mas o suficiente para criticar o estado da política americana), entregando-se por completo à guitarra e às canções que trazia para cantar. Os músicos eram todos excelentes. Fui pesquisar para poder dizer os seus nomes: Eamn O’Leary (bouzouki), Jacob Duncan (flauta e saxofone) e Thomas Deakin (guitarra barítono, clarinete, corneta) e, juntando-se um pouco mais tarde, Nuala Kennedy (flauta e voz). Não conhecia todas as músicas mas isso não fez diferença nenhuma. Durante mais de uma hora e meia, esqueci todas as fúrias e estive completamente imersa naquela músicas que pareciam vindas de um outro tempo para nos fazer olhar com olhos-de-ver para o mundo que nos rodeia e para as coisas que realmente importam.
Numa entrevista publicada no Expresso no fim-de-semana anterior, ele tinha dito isso mesmo: "Penso que a forma como nos tratamos uns aos outros, mesmo em microinterações, é impossível registar o impacto disso, mas penso que é o mais importante. A música tem o seu valor, como tudo aquilo que valorizamos, respeitamos e que fazemos com uma certa intenção. Mas as as coisas que nos mantêm vivos e coexistem connosco é que permitirão à minha filha encontrar bolsas de felicidade no futuro."
Deixo aqui três canções das que ele cantou e de que gosto particularmente:
Lay and Love (a abertura do concerto)
From what I've seen, you're magnificent You fight evil with all you do Your every act is spectacular It makes me lay here and love you
From what I hear, you are generous You make sunshine and glory too When you walk in things go luminous It makes me lay here and love you
From what I know, you're terrified You have mistrust running through you Your smile is hiding something hurtful It makes me lay here and love you
It makes me lay here and love you I'm filled with violet and red and blue I have a feeling from what I do That you might lay there and love me too
*
The Water's Fine
Fifty years ago, or fifty years from now
Gotta lighten your load, gotta put it down
Go to the water, and jump right in
Wash away your troubles, be yourself again
We go down to the swimming hole
Where we could both finally bear our souls
Swim all day in the warm sunlight
Lay on our backs and watch the stars at night
Life can be so unkind
You gotta leave it all behind
You got yours and I got mine
Come on in, the water’s fine
When happiness seems out of reach
There’s a lot of good times down on the beach
Take off your wig, take off your clothes, honey
Head down to the ocean, get the sand in your toes
Life can be so unkind
You gotta leave it all behind
You got your troubles, I got mine
Come on in, the water’s fine
Find yourself a mountain stream
The air is cool and the water’s clean
Ain’t no bars on the telephone
Sometimes it’s best just to really be alone
Later on, the sun goes down
The barred owl calls, and your friends come round
Build a fire, scream at a star
Realize how small you are
Life can be so unkind
You gotta leave it all behind
You got yours and I got mine
step on down, the water’s fine
*
Our home(a fechar o concerto)
Make our furthest horizon the end of the street That's how we make it our home Look in the eyes of the people we meet That's how we make it our home We thank the Lord before we break bread That's how we make it our home We never forget the names of our dead That's how we make it our home
Batten the hatches when thе cold wind blows Save some for tomorrow 'cause you nеver can know And the hard times are coming to push you down low You're only as good as the people you know
Harvest the honey and string up the beans That's how we make it our home Do it by hand and screw the machines That's how we make it our home Pull down the fences and pull up a chair That's how we make it our home Nobody's perfect and nobody cares That's how we make it our home
Stare at the sunset and not at the wall Winter and spring and summer and fall Answer the door when your friends come to call There's not that much to it, no real work at all
Leggo my ego and embrace my id That's how we make it our home Pocket wolves, pickups, and just the right kid That's how we make it our home Well we've got the power and it's all off the grid That's how we make it our home That's how we make it our home
*
Sobre as fúrias - ou sobre outra coisa qualquer - vale sempre a pena ler o que escrevem as minhas companheiras do largo:
Surpreendo-me sempre com o quanto eles cresceram. Quando eles eram pequenos e éramos só nós os três e andávamos sempre juntos, para onde quer que fosse, os três inseparáveis, havia uma amiga que dizia que parecíamos um galheteiro: eu no meio e um pimpolho de cada um dos lados, aos saltos, sempre aos saltos, os meus filhos sempre foram muito mexidos, e os amigos que nos viam ao longe distinguiam-nos logo, lá vêm eles, um galheteiro andante. Agora que eles cresceram mais do que eu, continuamos a ser um galheteiro mas ao contrário, eu de repente pequena no meio deles, mas sempre os três juntos, inseparáveis mesmo quando distantes. Surpreendo-me sempre com o quanto eles cresceram. Ainda ontem lhes trocava as fraldas e contávamos histórias e passávamos horas no jardim com bolas, skates e bicicletas, e agora um já trabalha e o outro vai começar a tirar a carta não tarda. É neles que vejo os anos a passarem. Envelhecer é uma merda (ah, sim, a sabedoria e a experiência, é tudo muito bonito, concordo, mas envelhecer é uma merda), mas vê-los crescer é uma alegria tremenda.