Friday, January 31, 2025

Espalhar-se ao comprido

“Não vou conseguir.”
“O que é o pior que pode acontecer?”
“Vou morrer de vergonha.”
“Sim, e?”
“Não vou conseguir.”
“Ok. Vai morrer de vergonha, e depois?”
“Depois nada.”
“Exacto. Depois nada. A vida segue. Não custa assim tanto.”


Fui educada para não correr riscos. Nunca dar um passo maior do que as pernas, como diziam os meus pais. Para ser funcionária pública e ter um emprego para a vida. Para casar e ser para sempre. Para guardar o dinheiro numa conta-poupança. Seria incapaz de investir na bolsa, como é óbvio, se nem sou capaz de jogar no casino, deus me livre de entregar uns poucos de euros à sorte de uma roleta, uns dados, um baralho de cartas, uma máquina com morangos e cerejas. Mais vale um pássaro na mão, lá diz a sabedoria popular. Fui educada para não correr riscos. Para não me meter em aventuras. Para ter sempre a situação controlada. Nunca saltei no bungee jumping e não nado fora de pé. Em qualquer situação eu sou a mãe, mesmo quando ainda não tinha filhos. Sou a que viu o caminho no mapa. A que tem benurons na mala. A que leva sempre um casaco. A que não se atrasa. A que, na dúvida, diz não. E, então, o que é que isso tem de mal? Ser responsável é bom, certo? Sim. Mas. Fui educada para não correr riscos. Para não sair da linha. Para me comportar. O que é que as pessoas vão pensar? Queria ter uma nota, uma qualquer, por cada vez que ouvi esta frase. As meninas não podem. As meninas não devem. O que é que as pessoas vão pensar? Fui educada para ter vergonha. Para ter medo. Para preferir não experimentar a atrever-me a falhar. E se não consigo? E se corre mal? E se? O que é que as pessoas vão pensar? Tremem-me as pernas e a voz, revoltam-se-me as tripas, envermelha-se a cara de cada vez que me ponho a prova. Fui educada para não correr riscos. Para ficar, não para ir. Para me deixar estar. Para pensar antes de falar. Para pesar prós e contras. Para jogar pelo seguro. Fui educada para não correr riscos, mas a vida ri-se de mim e diz-me que quem manda aqui é ela. Achavas que tinhas isto tudo controlado? Que ingénua. A vida ri-se de mim à tripa-forra. Troca-me as voltas. Deita-me cascas de banana pelo caminho e eu, tão burra, escorrego em todas. Espalho-me ao comprido, ali mesmo, à vista de todos.


“Sim, e?”
“Depois levanto-me.”


“O que é o pior que pode acontecer?” era o que o psicólogo me perguntava quando eu lhe dizia que não conseguia alguma coisa. E havia muitas coisas que eu não conseguia (que não consigo ainda). É uma boa pergunta. Permite-nos distinguir entre aquilo que pode ter consequências realmente graves, e por isso talvez devamos evitar, e aquilo que terá consequências menores, muitas vezes até só na nossa cabeça e exacerbadas, no meu caso, pelo medo e pela falta de confiança. Tipo: claro que não é boa ideia gastar as poupanças no casino, mas que mal viria ao mundo se agora te pusesses a escrever umas coisas diferentes?


Aqui estamos.


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Foi a Carla que “resolveu que queria voltar a escrever e reuniu as tropas”. Eu não conheço a Carla. Nem a Joana. Nem a Helena. Nem a Mariana. Apenas conheço a Lia ao longe, das redes, e a Calita, um pouco mais ao perto mas ainda assim só virtualmente. Foi a Calita que me explicou aquilo do reunir as tropas e me desafiou a participar. Fiquei tão contente, nem sei se lhe disse isto assim com todas as letras, mas fiquei mesmo entusiasmada. Apresentei-me ao serviço, num grupo de whatsapp criado há escassos cinco dias, pronta a dar o corpo às balas. A ideia é termos um espaço partilhado e publicarmos semanalmente (ou quando for possível) textos escritos por todas sobre um mesmo tema. Ainda não temos esse espaço, mas não quisemos desperdiçar esta energia inicial, este ímpeto que nos levou a dizer bora lá, e por isso vamos já começar a publicar textos, por aqui e por aí. A Joana diz que vamos ressuscitar os blogues. Eu só queria ressuscitar o gosto por escrever. Acho que basicamente é isso. O primeiro tema é “espalhar-se ao comprido”.


“Sim, e?”
“Depois levanto-me.”


 


Aqui também estão a espalhar-se ao comprido comigo:


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Sunday, January 26, 2025

Uma mão cheia de filmes para esta tarde de domingo

Como prometido, e antes que me esqueça, venho aqui falar de alguns filmes que andei a ver e que poderão não ser os melhores nem estar indicados a prémios, mas, ainda assim, são filmes que me tocaram de alguma maneira.


Challengers


Realizado por Luca Guadagnini, Challengers acompanha o triângulo amoroso composto por uma estrela do ténis lesionada que se transforma em treinadora (Zendaya), o seu ex-namorado e jogador de ténis sem grande sucesso (Josh O'Connor) e o seu marido e campeão de ténis (Mike Faist) ao longo de 13 anos de relacionamento, culminando numa partida entre eles num jogo do ATP Challenger Tour. Para quem gosta de ténis, como eu, este filme é uma delícia, retratando muito bem vários aspectos da vida dos jogadores e todo aquele mundo (aconselho a leitura deste testemunho de Conor Niland e, sobre o filme, o texto de uma ex-jogadora, Andrea Petkovic). Depois, isto do triângulo amoroso pode não ser muito original, mas parece-me que o Guadagnini lhe dá bem a volta. 


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How to have sex


Vi no Filmim, entusiasmada pelo trailer, e foi uma boa surpresa. O filme é a estreia na realização da britânica Molly Manning Walker, de 31 anos. Acho que se sente, nos pequenos detalhes, que é realizado por uma mulher. Em vez do habitual male gaze, temos um olhar bastante honesto e sensível sobre este grupo de raparigas de 16 anos numa viagem a Creta. O ambiente é aquele que imagino que seja nas viagens de finalistas, com miúdos vindos do Reino Unido com o único objectivo de se divertirem, beberem, dançarem e curtirem uns com os outros (que é uma expressão que se usava muito no meu tempo, embora agora tenha caído em desuso). Eventualmente, ter sexo, claro. Podia ser um filme sobre a primeira vez. Mas é sobretudo sobre a peer pressure a que os adolescentes estão sujeitos, sobretudo as raparigas, presas naquela vontade de agradar aos homens e de ser desejadas, e de como por causa disso tantas vezes ignoram os seus próprios desejos. Muito boa a interpretação de Mia McKenna-Bruce.


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Lee


A história de Lee Miller, só por si, já é um filme. Foi uma fotógrafa americana que começou por trabalhar como modelo, o que a levou a trabalhar com Man Ray, em Paris, e a começar também a fotografar. Durante a Segunda Guerra Mundial, passou do surrealismo e dos retratos para o fotojornalismo, documentou os bombardeamentos em Londres e depois acompanhou o exército americano na Europa. Esteve na casa de Hitler, captou o uso de napalm e registou a libertação de Paris e os campos de concentração de Buchenwald e Dachaus. Realizado por Ellen Kuras e protagonizado por Kate Winslet, Lee não tem  nada de extraordinário, mas também não é um mau filme. 


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As Três Filhas


As Três Filhas é um filme especialmente tocante para quem tem esta idade que eu tenho e vê os seus pais a envelhecer. É a história de três irmãs que seguiram percursos muito diferentes mas que tentam pôr de parte as suas desavenças para cuidar do pai nos seus últimos dias de vida. É muito sobre aquele balanço que fazemos em determinadas alturas da vida do que fizemos e deixámos de fazer, as decisões que tomámos e os sonhos que deixámos para trás. E como eventualmente percebemos que o amor e aquilo que partilhamos com as pessoas que amamos é mesmo o mais importante. Realizado por Azazel Jacobs, o filme conta com óptimas interpretações de Carrie Coon, Natasha Lyonne e Elizabeth Olse. Está na Netflix.


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Janet Planet


Janet Planet é o primeiro filme realizado pela dramaturga Annie Baker. Janet (Julianne Nicholson) é uma mãe solteira e acumpucturista hippie, que vive com a filha de 11 anos, Lucy  (Zoe Ziegler), numa pequena cidade americana. A acção passa-se no início dos anos 90. Ainda não há telemóveis. Lucy, que não tem muitos amigos, arranja maneira de escapar ao campo de férias e passa os longos dias do verão sozinha, ou com a mãe e com os amigos da mãe, que vão aparecendo por ali. Estamos tanto no mundo de Janet, uma mulher que quer mais para a sua vida, como estamos no mundo daquela miúda solitária, Lucy, a braços com as confusas emoções da adolescência. Janet Planet é também sobre mães e filhas e sobre esta relação essencial mas tão complicada. Um filme aparentemente simples e onde pouco acontece, e é em parte nisso que está a sua beleza. 


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Friday, January 24, 2025

"Los Años Nuevos": a nossa vida dava uma série

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Devorei a série espanhola Los Años Nuevos. São dez episódios que acompanham a vida de Ana e Óscar ao longo de dez anos. Encontramo-los sempre na passagem de ano, um dia apenas. O resto, o que se passa entretanto, só podemos imaginar. Apaixonam-se no primeiro episódio, mas a relação vai mudando. Umas vezes estão juntos e são namorados, outras vezes são apenas amigos, encontram-se por acaso ou até podem estar separados. Ao longo de dez anos, vemo-los amadurecer, envelhecer, transformar-se. Aproximam-se e afastam-se, desejam-se ao longe ou ao perto.


Um dos segredos desta série é o seu enorme realismo. O autor é Rodrigo Sorogoyen, argumentista e realizador de cinema e televisão, vencedor de prémios Goya, nomeado a um Óscar com uma curta-metragem, Madre (2017). Os actores são todos óptimos, mas o destaque vai obviamente para os protagonistas Irina del Río e Francesco Carril. Os diálogos são muito naturais e o facto de as cenas terem sido filmadas em locais reais também ajuda. O resultado é que às vezes até me esquecia que estava a ver uma série, mais parecia que aquelas pessoas eram minhas amigas. É tudo muito a vida como ela é. Com casas desarrumadas, nódoas na roupa, gestos banais, as dúvidas e as máscaras de uma pandemia, o sexo no sofá. E o tempo que passa. Os pais que envelhecem, os amigos que têm filhos, os casamentos e os divórcios, os trabalhos, as carreiras, as frustrações e as alegrias. Erros e acertos, beijos e abraços, desentendimentos e discussões, problemas e desilusões que podiam ser os nossos (e tanto que poderia dizer sobre isto).


 


Vi em espanhol com legendas em espanhol, ao início achei que não ia perceber nada mas depois entrei no ritmo dos diálogos e acho que percebi quase tudo. 


Se quiserem ouvir músicas lamechas espanholas de que nunca gostaram mas que em determinado momento da vida até fazem sentido, podem fazer como eu e cuscar a banda sonora.


Se assinarem o Movistar Plus para ver a série, aproveitem também para ver o filme Volveréis, de Jonás Trueba, que é muito o mesmo género e se cruza, a determinada altura, com Los Años Nuevos - é só uma curiosidade, mas fica a dica.

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Monday, January 20, 2025

"A Verdadeira Dor": o luto também pode ser uma comédia

A Verdadeira Dor é um filme que nos põe a pensar sobre como podemos hoje olhar para o Holocausto e manter a sua memória. Oitenta anos depois, nós, sejamos europeus ou americanos, de famílias judias ou não, como nos poderemos relacionar com a nossa história, como seguir em frente sem esquecer o que passou? 


Lembro-me do impacto da minha visita a Auschwitz (há quanto? 20 anos?). Éramos um grupo de jornalistas jovens e animados, mas quando saímos dali, no regresso a Cracóvia, havia um silêncio estranho no autocarro. Além do horror, o sentimento de culpa é inevitável. Pergunto-me sempre como foi possível aquilo acontecer à porta da nossa casa. E como poderemos evitar que se repita.


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O filme A Verdadeira Dor, realizado por Jesse Eisenberg (que interpreta, ao lado de Kieran Culkin) é uma comédia que tem como protagonistas dois primos, quarentões, judeus, americanos, que, depois da morte da avó, decidem homenageá-la viajando juntos até ao local onde ela nasceu e viveu, na Polónia. São muito diferentes: um mais sério, contido, hiper-consciente, certinho, o outro completamente o oposto, cada um a braços com os seus problemas e as suas neuroses, mas obrigados a conviverem durante a viagem. Nada de muito novo até aqui. Depois há, então, uma tentativa de reflexão sobre o trauma dos judeus que não viveram o Holocausto, a orfandade com a morte da avó, as memórias que parecem estar a perder-se. O tal do nós hoje a tentar dar sentido ao que aconteceu. As dores que nem sempre são visíveis e como lidamos com elas. As dores que são verdadeiras mas talvez não se possam comparar com a verdadeira dor. Há ali muitas pistas lançadas, mas parece que nunca se vai muito longe. É um filme simpático e com alguns momentos bem conseguidos, mas não percebo o entusiasmo.


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Friday, January 10, 2025

"Sorriam, crianças"

Wednesday, January 08, 2025

"Conclave": intriga no Vaticano

Tenho um certo preconceito em relação ao Vaticano. Digo que é um preconceito porque na verdade pouco sei sobre o que ali se passa. Mas, sinceramente, não consigo ter qualquer empatia com um local povoado predominantemente por homens - um grupo de homens fechados num enorme condomínio, vivendo com mil mordomias, presos a uma série de regras e rituais. Liderados por um homem rodeado de criadagem e salamaleques e que dá sermões ao mundo inteiro. Estou a ser simplista, admito. E até tenho alguma simpatia pelo Papa Francisco. Mas, para mim, a Igreja não é nada disto. O Vaticano, com todo o secretismo e todo o luxo em que está envolto, parece-me tão distante do mundo, das pessoas, da vida. E as poucas notícias que vamos tendo de lá - sobre corrupção, lavagem de dinheiro, associação a líderes políticos pouco democráticos, abusos sexuais ou encobrimento de outro tipo de abusos (nomeadamente envolvendo crianças e jovens, como no caso das lavandarias) - não me deixam mais descansada. 


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Dito isto, diverti-me a ver Conclave, o filme de Edward Berger (o mesmo realizador de A Oeste Nada de Novo), que mostra o que acontece após a morte de um Papa, quando cem cardeais vindos de todo o mundo se juntam para eleger o seu sucessor. Claro que o que ali se passa é tudo ficção e nem sei se terá alguma semelhança com a realidade. Mas não deixa de ser interessante imaginar o ambiente do conclave, com todos os rituais e todas as regras impostas àqueles homens, a maneira como se processa a votação. E depois aquele ambiente de conspiração. As invejas. Os jogos políticos. A ambição. A competição. As dúvidas e os dilemas. Visualmente é tudo muito bonito. E Ralph Fiennes tem uma óptima interpretação. Há momentos em que as discussões se tornam demasiado previsíveis e parecem seguir um mostruário dos temas ditos fracturantes. Mas também há reflexões importantes. Um Papa negro será um sinal de progresso se ele tiver visões retrógadas em relação à comunidade LGBTQ+? Quanto se pode modernizar uma religião sem que ela perca a sua essência? Qual é o melhor caminho para cumprir as palavras de deus, num mundo tão exigente como nosso? O que é e para que serve a fé? Às tantas, a história perde um bocadinho o rumo e o final é tão descabido quanto moralista, mas ainda assim.



(estou a tentar escrever sobre pelo menos alguns dos filmes que vi nos últimos tempos. não está fácil, a lista é grande, vamos ver o que se consegue)

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Sunday, January 05, 2025

"Emilia Pérez": um melodrama musical

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Há uma coisa em Emilia Pérez que é muito fixe: apesar de ser um musical, não há brilhos e luzes e todo o ambiente é muito soturno, há pobreza, violência, gangues, mulheres que choram os filhos perdidos. Estamos no México, no submundo do tráfico, dominado por Manitas, um barão da droga que decide mudar de género para se transformar na mulher que sempre quis ser. É assim que surge Emilia Pérez.


Há outra coisa muito fixe: Manitas e Emilia são interpretados pela mesma actriz, Karla Sofia Gascón, ela própria uma mulher transgénero. Acho que é preciso ver para perceber como este simples facto faz toda a diferença e traz uma outra camada e algum realismo a um filme que oscila permanentemente entre o realismo e a fantasia, entre o isto é uma crónica social mas também é um pouco uma telenovela.


Emilia Pérez é um filme sobre a possibilidade de começar de novo, de procurarmos a nossa verdade e de nos redimirmos das falhas que cometemos. Mas também sobre como é difícil deixar o passado para trás.


Mas, de uma maneira geral, foi um filme que me deixou indiferente. Há momentos em que parece que tudo faz sentido e até conseguimos entender as preocupações das personagens, mas logo a seguir os actores desatam a cantar e às vezes mesmo a dançar e a Selena Gomez aparece para nos tirar do sério com aquele sotaque e aquela falta de jeito para representar e a história dá mais umas reviravoltas e quando dei por mim já estava a olhar para o relógio e a pensar será que ainda falta muito para isto acabar?


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Wednesday, January 01, 2025

Encarar a morte com batôn vermelho nos lábios

É um filme sobre a morte - e sobre a doença e a proximidade do fim e a eutanásia. Mas é também um filme sobre a amizade. É por isso que, apesar de abordar um tema tão perturbador, O Quarto ao Lado é um filme que nos dá alguma esperança: não estamos sozinhos. E enfrentar isto tudo sabendo que temos num qualquer quarto ao lado uma pessoa que nos ama é talvez a maior fortuna do mundo. 



O Quarto Ao Lado é a primeira longa-metragem de Pedro Almodóvar falada em inglês. Interpretada por uma atriz americana (Julianne Moore) e outra britânica (Tilda Swinton), com a acção a passar-se nos Estados Unidos. Continua a ser um Almodóvar de pleno direito. As cores, os enquadramentos, a música, a encenação, as referências  (John Houston, Buster Keaton, Edward Hopper, James Joyce) - tudo é de uma beleza enorme e milimetricamente pensada, e tudo é muito característico de Almodóvar. Só as interpretações - extraordinárias, como é óbvio -  são de uma contenção a que não estávamos habituados. 


Almodóvar nunca foi um adepto do realismo. Mas aqui a artificialidade parece fazer ainda mais sentido. Como disse o realizador ao Público: "O sentimento perante a morte é algo de muito pessoal. Perante isso sou como uma criança, não sou alguém maduro. Não aceito a morte. Não percebo porque é que algo que está vivo tem de morrer. Isso não é natural para mim". Portanto, o filme também não tem de ser "natural" e pode assumir-se como uma peça de arte, uma construção, uma abstracção. Que, apesar disso, consiga ser emocionante e tocar-nos cá dentro, essa é a sua verdadeira mestria.


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