Encarar a morte com batôn vermelho nos lábios
É um filme sobre a morte - e sobre a doença e a proximidade do fim e a eutanásia. Mas é também um filme sobre a amizade. É por isso que, apesar de abordar um tema tão perturbador, O Quarto ao Lado é um filme que nos dá alguma esperança: não estamos sozinhos. E enfrentar isto tudo sabendo que temos num qualquer quarto ao lado uma pessoa que nos ama é talvez a maior fortuna do mundo.
O Quarto Ao Lado é a primeira longa-metragem de Pedro Almodóvar falada em inglês. Interpretada por uma atriz americana (Julianne Moore) e outra britânica (Tilda Swinton), com a acção a passar-se nos Estados Unidos. Continua a ser um Almodóvar de pleno direito. As cores, os enquadramentos, a música, a encenação, as referências (John Houston, Buster Keaton, Edward Hopper, James Joyce) - tudo é de uma beleza enorme e milimetricamente pensada, e tudo é muito característico de Almodóvar. Só as interpretações - extraordinárias, como é óbvio - são de uma contenção a que não estávamos habituados.
Almodóvar nunca foi um adepto do realismo. Mas aqui a artificialidade parece fazer ainda mais sentido. Como disse o realizador ao Público: "O sentimento perante a morte é algo de muito pessoal. Perante isso sou como uma criança, não sou alguém maduro. Não aceito a morte. Não percebo porque é que algo que está vivo tem de morrer. Isso não é natural para mim". Portanto, o filme também não tem de ser "natural" e pode assumir-se como uma peça de arte, uma construção, uma abstracção. Que, apesar disso, consiga ser emocionante e tocar-nos cá dentro, essa é a sua verdadeira mestria.



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