"A Verdadeira Dor": o luto também pode ser uma comédia
A Verdadeira Dor é um filme que nos põe a pensar sobre como podemos hoje olhar para o Holocausto e manter a sua memória. Oitenta anos depois, nós, sejamos europeus ou americanos, de famílias judias ou não, como nos poderemos relacionar com a nossa história, como seguir em frente sem esquecer o que passou?
Lembro-me do impacto da minha visita a Auschwitz (há quanto? 20 anos?). Éramos um grupo de jornalistas jovens e animados, mas quando saímos dali, no regresso a Cracóvia, havia um silêncio estranho no autocarro. Além do horror, o sentimento de culpa é inevitável. Pergunto-me sempre como foi possível aquilo acontecer à porta da nossa casa. E como poderemos evitar que se repita.

O filme A Verdadeira Dor, realizado por Jesse Eisenberg (que interpreta, ao lado de Kieran Culkin) é uma comédia que tem como protagonistas dois primos, quarentões, judeus, americanos, que, depois da morte da avó, decidem homenageá-la viajando juntos até ao local onde ela nasceu e viveu, na Polónia. São muito diferentes: um mais sério, contido, hiper-consciente, certinho, o outro completamente o oposto, cada um a braços com os seus problemas e as suas neuroses, mas obrigados a conviverem durante a viagem. Nada de muito novo até aqui. Depois há, então, uma tentativa de reflexão sobre o trauma dos judeus que não viveram o Holocausto, a orfandade com a morte da avó, as memórias que parecem estar a perder-se. O tal do nós hoje a tentar dar sentido ao que aconteceu. As dores que nem sempre são visíveis e como lidamos com elas. As dores que são verdadeiras mas talvez não se possam comparar com a verdadeira dor. Há ali muitas pistas lançadas, mas parece que nunca se vai muito longe. É um filme simpático e com alguns momentos bem conseguidos, mas não percebo o entusiasmo.
Labels: cinema

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