"Conclave": intriga no Vaticano
Tenho um certo preconceito em relação ao Vaticano. Digo que é um preconceito porque na verdade pouco sei sobre o que ali se passa. Mas, sinceramente, não consigo ter qualquer empatia com um local povoado predominantemente por homens - um grupo de homens fechados num enorme condomínio, vivendo com mil mordomias, presos a uma série de regras e rituais. Liderados por um homem rodeado de criadagem e salamaleques e que dá sermões ao mundo inteiro. Estou a ser simplista, admito. E até tenho alguma simpatia pelo Papa Francisco. Mas, para mim, a Igreja não é nada disto. O Vaticano, com todo o secretismo e todo o luxo em que está envolto, parece-me tão distante do mundo, das pessoas, da vida. E as poucas notícias que vamos tendo de lá - sobre corrupção, lavagem de dinheiro, associação a líderes políticos pouco democráticos, abusos sexuais ou encobrimento de outro tipo de abusos (nomeadamente envolvendo crianças e jovens, como no caso das lavandarias) - não me deixam mais descansada.

Dito isto, diverti-me a ver Conclave, o filme de Edward Berger (o mesmo realizador de A Oeste Nada de Novo), que mostra o que acontece após a morte de um Papa, quando cem cardeais vindos de todo o mundo se juntam para eleger o seu sucessor. Claro que o que ali se passa é tudo ficção e nem sei se terá alguma semelhança com a realidade. Mas não deixa de ser interessante imaginar o ambiente do conclave, com todos os rituais e todas as regras impostas àqueles homens, a maneira como se processa a votação. E depois aquele ambiente de conspiração. As invejas. Os jogos políticos. A ambição. A competição. As dúvidas e os dilemas. Visualmente é tudo muito bonito. E Ralph Fiennes tem uma óptima interpretação. Há momentos em que as discussões se tornam demasiado previsíveis e parecem seguir um mostruário dos temas ditos fracturantes. Mas também há reflexões importantes. Um Papa negro será um sinal de progresso se ele tiver visões retrógadas em relação à comunidade LGBTQ+? Quanto se pode modernizar uma religião sem que ela perca a sua essência? Qual é o melhor caminho para cumprir as palavras de deus, num mundo tão exigente como nosso? O que é e para que serve a fé? Às tantas, a história perde um bocadinho o rumo e o final é tão descabido quanto moralista, mas ainda assim.
(estou a tentar escrever sobre pelo menos alguns dos filmes que vi nos últimos tempos. não está fácil, a lista é grande, vamos ver o que se consegue)

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