Tuesday, December 31, 2024

2024 termina, a luta continua

Este ano não me apetecia muito fazer balanços, mas, por outro lado, sei que me vai fazer bem este momento de reflexão, portanto, vamos a isso. Há dois aspectos da minha vida - o trabalho e os filhos - que continuam a ser motivo de enorme frustração. Não vou aprofundar este tema. É o que é, um dia voltarei à terapia e terei muito que contar, por agora é lidar o melhor possível com a situação. Aprendi as minhas lições. Para não cair em depressão, optei por contrabalançar as tristezas enchendo os dias com muitas outras coisas muito boas. E, aqui e ali, a felicidade acontece. Foi assim que se passou mais um ano:


A democracia fez 50 anos e eu também.


Tatuei a liberdade e os meus dois amores. 


Tirei o útero e isso melhorou muito a minha vida.


Fui mais vezes ao teatro e vi espectáculos maravilhosos (ainda assim, não vi todos os que desejaria), li livros que me encheram as medidas, vi muitos bons filmes, alguns bons concertos (A Garota Não - outra vez -, mas também Patti Smith, Sérgio Godinho, Luísa Amaro, Ana Lua Caiano, Expresso Transatlântico, Cara de Espelho, Samuel Úria, Nick Cave, Rodrigo Amarante, Dora Morelenbaum), poucas exposições (recordo duas idas ao MAAT, para ver a Joana Vasconcelos e a instalação de Ernesto Neto, o novo CAM, as fotografias de  Luís Pavão, Eduardo Gageiro, Maria Lamas, Júlia Ventura e Sebastião Salgado, as enormes mostras de João Abel Manta e Pedro Cabrita Reis). 


Aceitei desafios que me fizeram tremer a voz - e isso foi bom.


Continuo no caminho (tortuoso) para me mexer mais e comer melhor.


Fui muito feliz com os meus amigos. Estou cada vez melhor nisto de estar sozinha, mas os melhores momentos, aqueles que quero recordar e repetir, foram todos, mas todos, vividos acompanhada.


"Contra todas as evidências em contrário, a alegria". Trouxe o verso de Manuel Gusmão  de 2023 e ele acompanhou-me ao longo de 2024. Ainda não sei muito bem o que fazer com esta alegria inesperada. Espero levá-la para o ano que aí vem. Juntamente com este sorriso.


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“Posso morrer porque amei e fui amada"

Estive com a Adília Lopes uma única vez, há mais de vinte anos, num ensaio do espectáculo A Birra da Viva, de Lúcia Sigalho. Queria lembrar-me melhor desse espectáculo, desse momento. Tenho tão boas memórias das noites passadas no Armazém do Ferro. A Lúcia Sigalho e a Mónica Calle foram uma revolução na minha vida. Eu era ainda uma miúda, mal tinha começado a pensar nestas coisas, e elas a fazerem espectáculos sobre isto de ser mulher, a dizerem-me que o importante é sermos quem realmente somos, assumirmos os nossos desejos e deitarmos fora a culpa, elas a mostrarem-me o caminho. Devo-lhes tanto. Foi por causa da Lúcia e desse espectáculo sobre mulheres e mães e sobre corpos que dão vida e morte que fiquei com vontade de ler a Adília. Foi depois de a ver ali, de ouvir a maneira contida, desassombrada, crua como falava, que fui descobrir os seus poemas. A Adília Lopes morreu ontem e eu li a notícia e não queria acreditar. Tinha apenas 64 anos. Fiquei tão triste.  Chorei por ela e por mim e por todas as mortes que ficaram por chorar. 


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“Posso morrer porque amei e fui amada. Gostei de homens, de mulheres, de velhas (de velhos não), de bebés, de bichos, de plantas, de casas, de filmes, de concertos, de quadros, de teorias, de jogos, de pastéis de natas, de jesuítas, de russos, de hamburgers, de Paris e de Londres. Nunca fui a Nova York e gostava de ir, mas não me importo de morrer sem ter ido. Também nunca tive um orgasmo. Não me arrependo de nada. É claro que Nova York não se compara a um orgasmo. Um orgasmo é muito mais importante”


De Irmã Barata, Irmã Batata, de Adília Lopes


(na página 409 de Dobra, poesia reunida, 2021, Assírio & Alvim)

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Monday, December 30, 2024

Leila Slimani: da arte de contar histórias

A minha descoberta do ano é Leila Slimani, uma escritora franco-marroquina de 43 anos, que nasceu em Rabat e aos 17 se mudou para Paris, estudou Ciência Política e foi jornalista. Dela, li O Perfume das Flores à Noite, que é um ensaio nascido do convite para passar uma noite num museu em Itália, e é ok para o que é. Mas depois descobri a sua ficção e fiquei rendida.Canção Doce é um livro extraordinário e O País dos Outros não lhe fica muito atrás. Quero muito ler os outros livros dela. 


Canção Doce começa com um acontecimento trágico: uma ama mata as duas crianças de que é cuidadora. Voltamos depois atrás para conhecer a sua história. Estamos em Paris, em casa de um jovem casal de classe média culta, Paul e Myriam, não ricos mas com um bom nível de vida. Quando Myriam retoma a sua actividade profissional, como advogada, após o nascimento dos filhos, decidem contratar uma ama. Depois de várias entrevistas, a escolhida é Louise. A ama perfeita. Carinhosa com as crianças, boa dona de casa, excelente cozinheira, parece ter sempre tempo para fazer tudo e ainda brincar e dar atenção aos pequenos. Louise é a salvação daquela família. Mas, longe da vida de contos de fada da família, Louise também tem uma vida e tem os seus problemas, vive com dificuldades financeiras, sente-se sozinha, mal consegue dormir, há momentos em que a sua cabeça parece explodir. Aos poucos, a ama começa a ter comportamentos sufocantes, a relação com Myriam torna-se tóxica, tudo se desmorona até ao desfecho horrível.


Em O País dos Outros a acção passa-se em Meknés, em Marrocos, para onde os recém-casados Mathilde e Amine vão morar após a Segunda Guerra Mundial. Foi durante a guerra que Amine, marroquino que combateu no exército francês, conheceu Mathilde. Apaixonaram-se. Mas a vida em Marrocos acaba por ser um desafio enorme para esta jovem francesa, uma vez que, ali, as diferenças culturais tornam-se muito mais visíveis. A família instala-se numa quinta, Amine trabalha para que os campos produzam, Mathilde ocupa-se da casa, os filhos nascem e crescem ao mesmo tempo que o país inicia um processo revolucionário tendo em vista a independência. Mathilde sente-se sozinha. Amine teme pelo futuro. A relação nem sempre é pacífica, mas,  mesmo quando tudo corre mal, continuam juntos. A história, tanto quanto percebi, é inspirada na da família da autora.


O que torna estas histórias especiais é a maneira como Leila Slimani as conta, numa escrita clara mas sem facilitismo, recusando a linearidade, entrançando pequenas histórias e pequenos acontecimentos para dar corpo ao tronco principal da narrativa, desviando-se sempre que sente que é necessário porque nenhum desvio é tempo perdido, pelo contrário, como numa pintura, todos os pormenores fazem parte do quadro que se está a pintar. A mim encheu-me completamente as medidas. Gosto quando me sinto tão afundada nas histórias que estas quase me parecem reais, quando consigo imaginar os rostos das personagens, entender o que sentem, visualisar os seus gestos, mergulhar nos seus mundos. Gosto desta atenção aos detalhes. Que a acção principal seja simplesmente a vida a acontecer. Que não seja preciso explicar porque é que Louise cometeu um crime horrendo ou porque é que Mathilde fica, mesmo depois de ser espancada pelo marido. Que as personagens sejam tão humanas que quase nos pareçam familiares.


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Sunday, December 29, 2024

Tudo o que imaginamos como luz: a ilusão da cidade

Está nas listas todas de melhores do ano, da Sight & Sound a Barack Obama: All We Imagine As Light - Tudo o que Imaginamos como Luz, filme escrito e realizado pela indiana Payal Kapadia, é ao mesmo tempo lindo e triste, seja na forma como retrata a vida das mulheres, tão condicionadas pelas famílias, pela religião, pela moral, seja no modo como nos mostra aquela cidade, Mumbai, na sua enormidade e na sua pobreza. Uma cidade onde mais de 12 milhões de pessoas se movimentam (conseguem imaginar?) e onde a toda a hora se ouvem carros, buzinas, motores, mil ruídos.


Lembro-me que quando vim estudar para Lisboa, ainda nem 18 anos tinha, a cidade grande apresentava-se como um mundo de possibilidades. Aqui eu poderia ser quem eu quisesse e fazer o que me apetecesse. Andar na rua sem ter que cumprimentar todas as pessoas, sem que toda a gente me conhecesse e controlasse, era exactamente aquilo de que precisava naquele momento. A cidade cumpriu as expectativas. Não sou a maior fã de Lisboa, não consigo ver beleza em todos os seus recantos, mas sei que aquilo que sou hoje se deve em grande parte a todas as experiências que esta cidade me proporcionou. Aos cinemas. Aos teatros. Aos bares. Às ruas. Ao anonimato. Ao trabalho. Às pessoas. À diversidade. 



Para as três mulheres de All We Imagine As Light, Mumbai também representava essa liberdade. Mas as expectativas delas não se cumpriram. Vieram das suas terras para trabalhar no hospital, mas continuam ligadas a tradições, presas por preceitos antigos, dependentes das decisões de outros. A enfermeira Prabha casou com um homem que mal conhecia, escolhido pela família, que depois foi morar a Alemanha e praticamente a abandonou - e no entanto ela mantém-se fiel a este casamento infeliz. A jovem Anu, também enfermeira, apaixonou-se por um muçulmano e namora às escondidas, enquanto os pais procuram um marido para ela e lhe mandam fotografias de pretendentes. A cozinheira Parvaty, a mais velha das três, ficou viúva e agora está em risco de ser despejada porque o marido não lhe deixou os documentos que comprovariam que a casa é dela. O dia a dia delas, entre o hospital e as casas modestas, é molhado - estamos em plena época das chuvas -  e barulhento mas ao mesmo tempo solitário. A cidade acolheu-as, mas não lhes permite serem livres. Só fora dali, quando Parvaty decide voltar para a sua terra e as amigas a ajudam na mudança, é que elas se vão conseguir encontrar a si mesmas. 


All We Imagine As Light é um filme de sensibilidade e poesia, filmado sem pressas, o que deixou algumas pessoas inquietas na sala de cinema, constantemente a olharem para o telefone. Mas é tão bom quando nos deixamos levar por um filme, quando nos permitimos abrandar e esquecer o mundo lá fora. E ficar só ali, a apreciar todos os detalhes. A música. Os silêncios. Um amor a nascer. Os pequenos gestos. A amizade entre três mulheres. Os olhos delas.


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Saturday, December 28, 2024

"Caruncho", uma história de ódio e vingança

Passado na Espanha durante a ditadura e atravessado pelas memórias da guerra civil e do franquismo, Caruncho, de Layla Carvalho, é um livro sobre mulheres e sobre pobreza, sobre classes sociais e privilégio, sobre violência de género e desamor. Além disso, muito bem escrito. E, no entanto, custou-me muito avançar por aquelas 120 pequenas páginas. Achei que tinha sido talvez o facto de haver uma dimensão sobrenatural, quase de terror, com uns toques de bruxaria à mistura, que me tinha afastado da obra. Sim, mas não só. Terminada a leitura, à medida que o tempo foi passando e aquela narrativa foi assentando em mim, percebi que o que me afastou foi o ódio. As personagens - quase todas mulheres - são movidas a ódio e a desejos de vingança. O caruncho que percorre as paredes da casa corrói-lhes também os corações. Não há amor que lhes valha. Não há uma centelha de esperança. Tudo ali é tristeza e ressentimento.


“A vingança interessa-me muito, tanto na literatura como na vida real”, disse a escritora numa das entrevistas que deu na altura do lançamento do livro em Portugal. “É uma força muito destrutiva, que acaba por consumir também aquele que se vinga, mesmo que o consiga fazer. Mas é também a única forma de justiça para os oprimidos.”


Tenho muita resistência à ideia de que a vingança é a única forma de justiça para os oprimidos. Mas um livro que nos faz pensar e que fica aqui a remoer-nos por dentro é sempre um bom livro. 

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Friday, December 27, 2024

A justiça nem sempre é justa

O novo filme de Clint Eastwood, Juror #2, não chegou às salas de cinema portuguesas e estreou directamente no HBO Max. O Clint merecia melhor. No entanto, para ser honesta, a mim é-me mais ou menos indiferente. Gosto muito de ir ao cinema mas também gosto muito de ver filmes no conforto do meu sofá. Tornei-me um desses espectadores pouco exigentes que, como tão bem apontou o Vasco Câmara, não se importa de ver filmes em pequenos ecrãs de qualidade duvidosa e com um som péssimo. Sinto-me um bocadinho culpada, é verdade, mas, por outro lado, se não fosse assim sei que não veria nem metade dos filmes que vejo. Porque a vida é difícil, o tempo curto, a energia nem sempre existe e a maioria dos filmes fica pouco tempo em cartaz ou fica em horários que deus me livre. Conformei-me.


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Dito isto, o filme é muito bom. Muito Eastwood -  no tema e na forma. No centro da história, um homem, Justin (interpretação de Nicholas Hoult), marido dedicado e prestes a ser pai, que é escolhido para o júri no julgamento de um caso de homicídio. Tudo parece indicar que, após uma discussão num bar, um homem matou a namorada, tendo-a atirado de uma ponte. A procuradora (Toni Collette) não tem dúvidas que estamos perante um caso de violência doméstica. No entanto, na primeira sessão no tribunal, quando são relatados os factos do crime, Justin, apercebe-se, em pânico, que foi ele o responsável pela morte daquela mulher. Numa noite de chuva, com a cabeça nos seus problemas, Justin pensou ter atropelado um veado mas, na verdade, atropelou uma pessoa. E, agora, o que fazer? Não pode deixar que um inocente seja preso, mas, se assumir a culpa vai estragar por completo a sua vida que ainda agora parece estar a começar. Há muito aqui para explorar. Tudo começa na luta pessoal e íntima de Justin, atormentado pelo sentido de justiça, mas, das reuniões do júri às ambições políticas da procuradora, o filme explora o cinismo, os interesses e as vulnerabilidades do sistema judicial. Interpretado com contenção e filmado sem espalhafatos, Juror #2 é um belo exemplar do cinema de Clint Eastwood. Pode não ter conquistado os senhores que mandam na Warner, mas merece mesmo ser visto - ainda que num pequeno ecrã.


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Sunday, December 22, 2024

Porque nunca é demais repetir: fascismo nunca mais

Já passou algum tempo mas não queria deixar de vir aqui escrever porque quero mesmo guardar comigo esse momento maravilhoso que foi o espectáculo A Colónia, de Marco Martins. Antes de ir eu já sabia que ia gostar. Primeiro, por ter a ver com o Estado Novo e os presos políticos, e depois porque gosto muito de teatro documental e tenho esta panca com tudo o que tenha a ver com a memória e a fixação das memórias. Ainda assim, nada me preparou para esta avalanche.


A ideia surgiu de uma reportagem de Joana Pereira Bastos, publicada no Expresso, sobre a colónia de férias para filhos de presos políticos, que aconteceu em 1972, nas Caldas da Rainha e que, durante duas semanas,  juntou 18 crianças entre os 3 e os 14 anos. Mas o que se conta em palco vai muito além disso. Partindo dos testemunhos de duas dessas crianças, hoje crescidas, a Manuela e a Rita, e com a ajuda de Conceição Matos e Domingos Abrantes, começa-se por recordar o sistema opressivo em que se vivia, contar como era a vida dos opositores ao regime, a clandestinidade, a prisão e a tortura pela Pide. Só depois é que se passa para a colónia, juntando os testemunhos da monitora e de mais três dessas crianças. Como era para uma criança viver na clandestinidade, sem saber o seu verdadeiro nome e sem brincar com outras crianças? Como foi ver o pai a ser preso ou visitar o pai na prisão? 


Não se limitando a ter estas pessoas todas em palco a contar as suas histórias, o que já seria brutal, Marco Martins criou um espectáulo cheio de camadas e de uma grande beleza, com os extraordinários actores João Pedro Vaz, Sara Carinhas, Ana Vilaça e Rodrigo Tomás (e aquele achado inicial - viver em clandestinidade era, também, representar, interpretar diversas personagens), a que se juntaram um grupo de jovens actores e ainda B. Fachada e um pequeno coro infantil. E aquilo que era a história de um grupo de crianças passa a ser a história de um povo, a nossa história, a história das crianças e dos jovens de hoje, que se perguntam afinal o que é isso de ser livre.


Posso dizer-vos que chorei muito e embora isso não queira dizer nada sobre a qualidade da obra quer dizer muito sobre o quanto me tocou e me abalou. É muito importante que estas histórias sejam contadas uma e outra vez, que não sejam esquecidas. Fascismo nunca mais, gritou-se no momento dos aplausos. Fascismo nunca mais. Fascismo nunca mais.


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Ainda deste último mês temos a assinalar:


A Reunião, um espectáculo bonito e igualmente importante do Teatro Meridional. Confesso que não sou a maior fã de commedia dell'arte e nessa noite estava um pouco cansada e talvez não tenha apreciado devidamente a peça, mas o texto do Mário Botequilha é muito bom.


Um grande concerto dos Expresso Transatlântico no MusicBox. São todos óptimos, mas o Gaspar Varela tem, de facto, uma energia especial.


Um workshop com a Ana "apetite pela vida" sobre comida saudável, sem açúcares nem processados nem proteína animal. Vim de barriga cheia e com muitas dicas para melhorar as receitas cá de casa.


A figura do ano para mim é, sem dúvida, Gisèle Pelicot. No meio de todo o horror, esta mulher dá-nos alguma esperança. Este caso mexeu muito comigo e penso que não exagero quando digo que através da sua análise podemos perceber um pouco do tanto que precisamos mudar enquanto sociedade. 


(temos outras coisas a assinalar, boas e más, mas vou tentar escrever sobre elas com calma)


Ainda nem é natal e já estou empaturrada. De comida, sim, mas sobretudo de amor. Dezembro tem esta magia, fazemos um esforço para encaixar na agenda encontros com os amigos (não todos, mas quase). Só nesta última semana contaram-se um almoço e três jantares, deitando por terra o esforço dos últimos meses para comer menos e para comer melhor. Sim, eu sei, eu sei, se eu tivesse realmente força de vontade conseguiria, mas não tenho, portanto isto anda assim mais ou menos ao sabor do vento e das flutações da minha vida e da minha cabeça, mas não nos martirizemos, em janeiro retomamos o caminho.

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Monday, December 02, 2024

Quantos documentários sobre os Beatles consegues ver? Todos os que houver

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Acabei de ver o filme Beatles 64, centrado na primeira viagem do grupo aos Estados Unidos, em 1964, a partir das imagens captadas por David e Albert Maysles, que acompanharam os Beatles durante toda a digressão e passaram muitas horas com eles, no hotel, no carro, nos concertos, nas entrevistas. Ao início John, Paul, George e Ringo estão muito conscientes da câmara, depois, aos poucos, vemos como se vão libertando e até se esquecem que estão a ser filmados. São quatro amigos em permanente brincadeira, outras vezes cansados, felizes por poderem tocar a sua música e sem ter ainda noção de quão grandes se estavam a tornar. As imagens e o som de 1964 foram restaurados digitalmente e nós também quase nos esquecemos que estamos a ver imagens antigas. É sempre incrível ver a loucura que foi. Eles os quatro tão novinhos, apanhados de surpresa por tudo aquilo. E as raparigas (eram sobretudo raparigas) aos gritos, a persegui-los, sempre aos gritos. O realizador David Tedeschi juntou a estas outras imagens da época - vemos, por exemplo, Leonard Bernstein, Marshall McLuhann ou Betty Friedman. Há entrevistas antigas feitas a John Lennon e George Harrison e entrevistas novas a Paul McCartney e Ringo Starr, conduzidas por Martin Scorsese (também produtor do documentário). Há mais umas quantas entrevistas a pessoas que viveram aquele momento, sejam músicos que contactaram com os Beatles ou fãs, que contam as suas memórias. E depois há a música, claro. O resultado é um retrato muito completo do que foi aquela viagem e do que foram aqueles tempos, quem eram os Beatles naquele momento e como suscitavam tanta histeria entre os jovens e ao mesmo tempo tanta incompreensão de uma parte mais conservadora da sociedade. Fala-se muito do cabelo deles e é engraçado como, olhando agora, não parece nada que os cabelos sejam assim tão compridos (sobretudo se nos lembrarmos como aqueles cabelos ainda iriam crescer muito mais). Um dos entrevistados conta que o pai o proibia de ouvir os Beatles. "Os adultos achavam que eles iam subverter os jovens." Qual era a subversão? "Os Beatles incentivavam os jovens a divertir-se."  


Eu sou suspeita, porque sou fã e por isso muito pouco objectiva, mas eu também me diverti muito a ver a este filme.


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