Famílias, tantas declinações (e outras reflexões)

No espaço de uma semana fui ver dois espectáculos sobre isto de se querer ter ou não filhos, o que muda nas nossas vidas, se estamos mesmo dispostos a isso e que expectativas temos. Na semana passada vi Corre, Bebé, de Ary Zara e Gaya de Medeiros (na foto), e ontem fui ver Começar Tudo Outra Vez, de Raquel André e Tonan Quito. Apesar de partirem do mesmo sítio - um casal de artistas que equaciona engravidar - e de percorrerem caminhos semelhantes, os dois espectáculos são bastante diferentes na sua forma. Corre, Bebé é mais abstracto e com uma maior componente de fisicalidade. Começar Tudo Outra Vez junta os universos da Raquel e do Tonan - ela mais ligada à realidade, fazendo entrevistas para procurar histórias reais, recorrendo ao vídeo; ele trazendo a sua formação de actor e os textos clássicos, de Sófocles, Shapeare ou Tchekhov. Foram duas experiências muito distintas mas que me deixaram feliz. Este é um tema de que gosto muito e que raramente é posto em palco, e não deixa de ser curioso que surjam na mesma altura, trazendo para a luz os problemas que as novas gerações enfrentam. No caso de Ary e Gaya, duas pessoas trans, as questões ligadas à paternidade/maternidade são bastante complexas, e só poder falar disto assim já é uma vitória. Mas, na verdade, são um casal como qualquer outro, a tentar perceber se quer ou não embarcar nesta viagem. No espectáculo da Raquel e do Tonan é impossível não nos comovermos com as histórias das famílias deles (que são as histórias de muitas famílias) e é muito engraçado ver como tem mudado a nossa percepção sobre o parto, o papel do pai ou a figura da madrasta.
Existe aquela famosa frase do Tolstoi, que toda a gente cita quando fala de famílias e eu também o vou fazer, que diz que "todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira". No final destes dois espectáculos, fica mais forte a convicção de que uma família para ser feliz, seja em que configuração for, tem de ser um sinónimo de amor, sempre, mais do que de sangue.
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Aconteceu outra coisa engraçada, que foi, em cada noite, encontrar pessoas que conheci há muito tempo e que me deram saudades daquela altura em que o meu trabalho me levava tantas vezes ao teatro e, por causa disso, decidi voltar à faculdade e fazer estudos de teatro, para ter mais ferramentas. Foi uma fase muito boa, em que conheci tanta gente, participei em conversas interessantes, li textos estimulantes. Era quase como se sentisse o meu pensamento a expandir-se, sabem? Parece que foi noutra vida. Entretanto, eu fui-me afastando desse mundo, arrastada pela vida. E de então para cá, também deixou de existir crítica de teatro, fosse na imprensa ou noutras publicações ou sites. Foi como se as redes sociais tivessem aniquilado qualquer hipótese de reflexão e não conseguíssemos ir mais além do gostei ou não gostei (que é o que eu faço aqui). Claro que há muita gente a reflectir, mas essa reflexão dificilmente chega ao público em geral - e eu hoje sou do público em geral e tenho saudades disso.
Para contrariar o que acabei de dizer:
O Tiago Bartolomeu Costa voltou a escrever sobre teatro, agora no Comunidade Cultura e Arte. O Tiago, que conheci nos tempos do blog O Melhor Anjo, está longe de ser uma pessoa consensual, mas é uma pessoa que pensa e que, com os seus textos, me dá sempre algo para pensar. É o que se quer de uma crítica, afinal.
A minha querida professora Maria João Brilhante (uma das minhas queridas professoras e professores, não quero ser injusta), que agora já se reformou, falou-me do seu último projeto, uma investigação sobre arquivos de companhia de teatro - que está disponível AQUI. Ainda tenho que explorar isto melhor, mas, num tempo tão fugaz e em que tudo é descartável, acho mesmo importante este trabalho sobre o arquivo e a memória.
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