Friday, February 28, 2025

Carimbo

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A primeira foi uma borboleta. Já sei que é uma piroseira, mas eu sou um bocadinho pirosa, por isso não me aborreçam. Hoje faria diferente, faria uma borboleta à mesma, mas de outra maneira, mais pequena, mais esvoaçante. Mas hoje sou outra pessoa e aquela borboleta, desenhada sem grande graça, é daquela pessoa que se sentiu a afundar num dia de maio e teve que se reinventar com o que tinha à mão. As pessoas complicam muito esta coisa das tatuagens. Porque “fica para a vida toda, tens de pensar bem”, disseram-me. Ora, ora. Os amores também eram para a vida toda e depois afinal não foram, mas mesmo quando terminam deixam-nos sempre marcas. É isso viver. Acumular marcas no corpo, quer sejam visíveis ou não. Rugas, cicatrizes, sinais, tatuagens, culpas, amores, desilusões, memórias, felicidades. Faz tudo parte. Não dá nunca para apagar aquilo que vivemos, por muito que queiramos, por mais que se lave e se esfregue o corpo com força e com raiva como a Fernanda Torres no filme Ainda Estou Aqui. O meu corpo conta a minha história. Cada carimbo que faço na pele é um capítulo dessa história. A borboleta do divórcio. Os corações que são os meus filhos (ai, que pirosa, outra vez). A liberdade dos 50 (meus e da Revolução), porque ser livre, ser verdadeiramente livre, é das coisas mais preciosas e mais difíceis, e é aquilo que procuro todos dias (falhando sempre, mas cada vez melhor, como dizia o Beckett). Quero fazer mais uma. Já decidi o que será, mas ainda não quando será. A seu tempo. Com alegria.


Quando for velha e enrugada, por entre as peles flácidas e as estrias, as minhas tatuagens dirão de mim tudo o que há para dizer, mesmo que eu já não o consiga lembrar.



Tatuagem, Chico Buarque


*


As minhas companheiras do largo também hão de andar a carimbar por aí:


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Friday, February 21, 2025

Teias de aranha

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Limpar armários. Tirar tudo, lavar, arrumar de volta. Limpar o fogão, mudar a areia do gato, esfregar nos intervalos dos azulejos, lavar as loiças da casa-de-banho, deitar lixívia na sanita, lavar o chão, sentir aquele cheirinho a flores do detergente. Trocar os lençóis das camas, limpar o pó, borrifar pronto pelos móveis, aspirar os tapetes, sacudir as almofadas. Despejar os baldes do lixo, arrumar a roupa espalhada pelos cabides, desviar o sofá, limpar atrás das cómodas, endireitar os livros nas estantes. Horas nisto, às tantas apetece-me desistir, mudo a playlist do spotify para algo mais animado a ver se custa menos. Doem-me as costas e juro que nunca mais. Mas, no fim, fica tudo um brinco. Há lá prazer maior do que este? Passeio-me pela casa como se estivesse de visita. Abro as portas dos quartos e fico a admirar a minha obra. Até parece uma casa como deve ser (a minha mãe ficaria orgulhosa, não consigo evitar este pensamento, lá se vai o feminismo pelo cano abaixo). Dura pouco a limpeza, daqui a nada chega um puto do futebol e vai tomar banho e o outro que deixa a mochila no chão, e os lanches e a vida, e logo à noite já ninguém vai saber do trabalho que tive, mas por agora deixem-me aproveitar, até me vou sentar aqui no sofá um bocadinho a descansar e a sorrir para a televisão desligada, tão limpa que quase me serve de espelho. 


Se pudéssemos limpar a vida como limpamos a casa, isso é que era de valor. Nada de teias de aranha na cabeça nem lixo a atrapalhar-nos os passos. 


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Este texto foi escrito com um colectivo de gente que gosta de se meter em trabalhos. Sigam as outras teias de aranha aqui:


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Thursday, February 20, 2025

"O Brutalista"

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(este texto contém spoilers)


A mim não me custou a extensão. São três horas e meia mas vê-se bem. Por aí já se vê que há coisas boas neste filme. A mim custou-me a falta de foco. O filme distrai-se por muitas personagens, pequenas histórias que, depois, são abandonadas e ficamos sem saber como acabam. Então, afinal, o que aconteceu ao milionário? E o filho violou a outra e? E a miúda começou a falar? Mas como? E ultrapassou os traumas e já está grávida e tudo? E afinal a mulher já anda? E que lhe aconteceu no fim? São muitas perguntas sem resposta. E claro que os filmes não têm que contar tudo, eu sei isso. Mas também é preciso saber dar esses saltos, não é assim de qualquer maneira. Para quê estar a investir naquelas personagens e em tantos pormenores para a seguir desprezá-las desta maneira? Na minha opinião, faltou ali um editor que cortasse as gorduras, como se dizia antigamente nas redacções dos jornais, e que orientasse um bocadinho a história. 


Mas tirando isso é um bom filme. A sério. Se não ligarmos a esses detalhes até é bastante bom. É a história de László Tóth, arquitecto húngaro, da escola Bauhaus, e judeu, sobrevivente do Holocausto, que emigra para os Estados Unidos em busca de uma nova vida e que enfrenta inúmeras dificuldades e até alguns preconceitos, contrariando um bocado aquela visão que os filmes americanos geralmente dão da "terra dos sonhos".  O Adrien Brody já sabe como é fazer de vítima da guerra e fá-lo na perfeição. Tóth acaba por ser contratado por um industrial rico, Harrison Van Buren (Guy Pearce), para construir um centro comunitário megalómano. A partir daí, começa a tensão entre as vontades do arquitecto e o orçamento de quem paga a construção. Todas as cenas em volta da arquitectura brutalista, do que Tóth imagina para o edifício que está a construir e da enormidade do projecto são muito interessantes. 


No fim não se percebe muito bem qual é o objectivo daquilo tudo, se é falar de arquitectura ou de imigração, se é mostrar a superação daquele homem que tanto sofreu ou mostrar os caminhos dos judeus após a guerra, se é falar da tensão de classes ou do modo como os ricos abusavam dos que estavam à sua volta sem lhes dar qualquer importância. Como eu dizia: falta de foco. Há tanta ponta por onde pegar e tanta ponta que fica solta que dá a sensação que o realizador Brady Corbet, também argumentista a meias com Mona Fastvold, deu um passo maior do que as pernas. 


Críticos respeitáveis deram-lhe cinco estrelas. Que este filme ande por aí a ganhar prémios e, possivelmente, vá ganhar Óscares, é coisa que não entendo. Mas isto acontece-me tanto que já não estranho.


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Sunday, February 16, 2025

Nos ouvidos

Sempre que posso, trabalho a ouvir a música. Desde o final do ano passado que a minha companhia têm sido os Fontaines DC. Tenho ouvido o último álbum, Romance, em loop. Este fim-de-semana estou a trabalhar e tenho músicas novas de Bon Iver e Beirut para me entreter. 


 


Everything is peaceful love, Bon Iver


 


Guernike's Unicorn, Beirut

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Friday, February 14, 2025

Atraso de vida

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Ultimamente tenho recebido muitas indirectas (e algumas directas) sobre o facto de me estar a tornar uma velha. Não sei muito bem como é que isto aconteceu. Num dia era a mais nova na sala, a quem todos chamavam miúda, e no outro estava a perguntar de quem é que vocês estão a falar que eu não conheço esse humorista, nunca ouvi essa música e é claro que não estou no tiktok. Tenho levado isto com alguma leveza e até faço piadas porque, como velha que sou, aprendi há muito tempo que a auto-depreciação é a melhor forma de lidar com os nossos medos e fingir que está tudo bem.


A velhice ataca-nos em duas frentes: no corpo e no espírito. Sobre a velhice do corpo já tenho falado por aqui, mas o que é novo agora é mesmo este sentimento de que estou a ficar velha na cabeça. Ao princípio custou-me um bocadinho. Mas lentamente estou a ficar mais em paz com esta nova situação pois percebi que a verdade é que eu não mudei assim tanto. Continuo com muitas curiosidades sobre o mundo, continuo a querer saber o que se passa, a querer aprender coisas novas e estar a par das novidades - mas só das novidades que me interessam, o que era uma coisa que já me acontecia quando eu era nova. Só que quando eu era nova podiam dizer que era esquisita porque me interessava por coisas diferentes. Agora, como as coisas que me interessam são claramente muito distintas das que interessam aos jovens de 20 anos, sou velha. É o que é. Já estou aceitando.


Nunca é tarde para mudar, dizem-me. Vá lá, não sejas obsoleta, não te deixes ficar para trás. Pois tudo muito bem, mas não vou mudar só por mudar, se não sentir necessidade. Gosto de ler e tenho descoberto novos autores (e até já tenho um kobo que recebi no natal, só ainda não o usei porque tenho livros pendentes em papel), mas não irei ler os livros de young adult nem de fantasia, de que nunca gostei; tenho redes sociais mas não me apanharão a falar para a câmara do telefone e a fazer stories em vídeo; vou a concertos de gente que ainda estou a descobrir mas não vou ouvir coisas que me fazem dor de cabeça; adoro cinema mas não vou ver filmes de terror, que odeio, ainda que estejam na moda; também não vou deixar de escrever mensagens com todas as letras e pontuação e não preciso de telemóveis de última geração nem de relógios que me entregam mensagens, pelo contrário, preciso é de desligar cada vez mais e por isso comprei um relógio de ponteiros. Evoluo, mas noutro sentido. Pura e simplemente deixei de conseguir acompanhar os tempos e estou-me bem nas tintas para isso. Até porque os tempos não são assim tão bons. 


Vem isto a propósito do Substack, de que muita gente me fala tanto bem. Eu já quase não uso Facebook, não tenho TikTok, só vou ver o que se passa no Twitter por motivos profissionais e às vezes até me esqueço que existe o Linkedin. A única rede social que me tem entusiasmado é o Instagram, porque gosto de álbuns de fotografias e da possibilidade de fixar momentos e memórias. Andei a cuscar no Substack e é verdade que encontrei algumas pessoas a escreverem muito bem e deu-me assim uma certa nostalgia do "tempo dos blogues". Mas 1) sinceramente, não acredito que o encantamento vá durar muito e não tarda aquilo já vai estar cheio de vídeos e de influencers e de coisas que não me interessam para nada (isso já está a acontecer); e 2) eu nunca deixei o meu blogue, mesmo quando todos os blogues à minha volta foram morrendo, eu mantive-me aqui, porque mais do que aparecer e estar onde os outros estão, eu precisava apenas de um sítio para escrever e para ir arrumando os meus pensamentos. Portanto, não vejo qualquer necessidade de mudar.


Para não dizerem que sou um atraso de vida, aceitei publicar os textos do nosso colectivo - que, a propósito, já tem nome e casa mas ainda não está operacional - no Substack. É a minha evolução. Continuo aqui mas, pontualmente, também por lá. Vamos ver como corre. Nunca digas nunca, não é?


Enquanto pintamos as paredes e aprontamos tudo para a grande inauguração, fazemos à moda antiga. Para encontrarem outros atrasos de vida basta seguir os links:


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Wednesday, February 12, 2025

Mais uma mão cheia de filmes

Pequenas coisas como estas


Baseado no livro de Claire Keegan, realizado por Tim Mielants e protagonizado por Cillian Murphy. É um filme muito realista e bem feito e com tudo o que geralmente gosto nos filmes. Estamos na Irlanda dos anos 80 e o protagonista, Bill Furlong, é um homem honesto, trabalhador e sensível, que cresceu apenas com a mãe. Sabe por isso como as mães solteiras são mal vistas e mal tratadas pela sociedade, e sente que não pode ficar calado quando percebe o que acontece às jovens que são entregues no convento para não envergonharem as famílias, mas que acabam por ser afastadas dos filhos e a ser exploradas pela Igreja. Ele não fala muito, é no seu olhar e nos seus actos que está tudo o que precisamos saber. O que falha, então, neste filme? Nem eu sei bem, mas sinceramente não consegui adorar. No final ficou só assim aquele ok.


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Maria


Não sei quem é que olha para a Angelia Jolie e vê a Maria Callas. Eu não consegui. Sempre vi só a Angelina com uns óculos enormes a esforçar-se por ser Maria e a falhar. Também não faço ideia se o que ali se conta sobre a famosa cantora tem algum fundo de verdade ou não, mas achei tudo um aborrecimento pegado. Uma curiosidade: o filme é realizado por Pablo Larraín, que também já tinha contado a história de outra paixão de Onassis, Jackie.


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Aqui


E por falar em aborrecimento, o que é isto? Robert Zemeckis realiza e Tom Hanks faz de Tom Hanks em Aqui, um filme que até parte de uma ideia interessante: o que acontece num mesmo local ao longo do tempo. Um local que já foi uma floresta, onde depois se derrubaram as árvores para fazer uma plantação e para construir uma casa. Uma casa que foi habitada por diferentes famílias em diferentes tempos. Um dos problemas é que são tantas as histórias intercaladas e algumas contadas tão pela rama que é difícil ir além dos clichés sobre cada época. Outro dos problemas é o excesso de efeitos digitais que em alguns momentos nos levam a questionar se estamos a ver um filme em live action ou em animação. E depois, não é só a câmara fixa que é aborrecida, é tudo tão previsível e tão lamechas e tão pouco profundo, mesmo quando ou sobretudo nos momentos em que aspira a sê-lo.


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Babygirl


Talvez com outra actriz tivesse resultado, mas com a Nicole Kidman definitivamente que não resulta. É que não me ocorre pessoa mais sem graça, sempre consciente de si, sempre tão rígida, até nos momentos em que deveria entregar-se à paixão parece sempre que está a fingir. E, no entanto, tem estado nomeada para imensos prémios (só para que vejam como eu não percebo nada disto). O filme é realizado por Halina Reijn, que eu não conhecia, e mostra-nos uma mulher que tenta controlar os seus desejos e ser apenas uma excelente profissional, uma mãe extremosa e uma esposa dedicada, mas que a determinada altura não consegue resistir aos encantos de um estagiário da sua empresa (interpretado por Harris Dickinson). Se calhar sou eu que não preciso de um homem a dar-me ordens e não gosto de me sentir dominada em contexto nenhum, e muito menos na cama, e por isso não consegui compreender totalmente aquela relação nem achar graça àquele miúdo estranho e com tendências para stalker. E, sem querer ser spoiler, mas aquele final assim que meio a desculpá-la também estraga um bocado a intenção do filme, não? 


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Queer


Realizado por Luca Guadagnino a partir do livro de William S. Burroughs e protagonizado por Daniel Craig, Queer é um filme muito bom até ao momento em que eles deixam a Cidade do México. Craig surpreende com o seu James Bond (sim, sim, está lá ainda um pouco de Bond) em versão gay, cheio de músculos mas totalmente só, perdido, frágil. A banda sonora também é inesperada, mas muito bem escolhida. Não imaginaríamos ouvir aqui, por exemplo, Come As You Are, dos Nirvana, mas acaba por ser bastante apropriado já que falamos de aceitação e de solidão. Acho óptimo que se normalizem cada vez mais as cenas de intimidade homossexual a ver se caem alguns preconceitos, e este filme faz a sua parte. [Não cheguei a escrever aqui sobre isso, mas Passages, de Ira Sachs, é um excelente filme sobre relações (de todo o tipo) e também tem algumas cenas de intimidade muito reais, lembrei-me disso enquanto via Queer.]  O filme só me perdeu durante a viagem, sobretudo quando entram na selva e têm aquelas experiências psicadélicas. Claro que isso é Burroughs e se calhar para os fãs de Burroughs faz todo o sentido. 


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Monday, February 10, 2025

"Didi"

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Porque há vida para além dos Óscares, hoje falo-vos de Didi, um filme de que gostei muito. É o primeiro filme realizado por Sean Wang, americano de uma família de Taiwan, e é semi-autobiográfico. A acção passa-se no verão de 2008, na Califórnia, tendo como protagonista um rapaz de 14 anos de uma família de Taiwan, que vive os dilemas de todos os adolescentes agravados pelo questionamento da identidade e das referências culturais pelo facto de a sua família ser imigrante. Os críticos chamam-lhe um "coming of age comedy-drama". O actor Izaac Wang conduz-nos por essa angústia adolescente, um pouco perdido entre os vídeos amadores e as tábuas de skate, o acne e o aparelho nos dentes, a mãe e os amigos, o advento da internet (o YouTube e o MySpace) e a miúda gira por quem tem uma paixoneta. É um filme sem grandes pretensões mas que acaba por encontrar o tom certo. 


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Friday, February 07, 2025

"A Substância": estas mulheres não me (nos) representam

Não gosto de filmes de terror nem gore, portanto, parece-me natural que não tenha gostado d'A Substância, realizado por Coralie Fargeat. Aliás, nem tinha intenções de perder tempo com isto. Mas depois apareceu-me ali no streaming do Movistar e eu ainda tinha uns dias até desactivar a conta e achei por bem aproveitar. Está visto, e a primeira coisa que me ocorre dizer é que é um disparate pegado.


Simplificando, é isto: Elisabeth, uma estrela de Hollwyood (Demi Moore), vai ser afastada porque está a ficar velha e já não corresponde ao estereótipo de beleza pretendido pelo produtor do seu programa de televisão. Então, decide experimentar uma substância inovadora que faz "nascer" do seu corpo uma versão mais jovem de si, Sue (Margaret Qualley). À custa de um complexo sistema de injecções, alimentam-se uma da outra e vivem em semanas alternadas, enquanto uma está inconsciente, a outra está activa. Até que Sue começa a gostar demasiado da sua vida e a aldrabar o esquema para prolongar a sua semana, e a partir daí as coisas descontrolam-se.


Eu, que sou da realidade, lido sempre muito mal com estes filmes de fantasia porque começo a encontrar falhas na história, coisas que não batem certo, que não podiam ser assim. Isso não me leva a lado nenhum, claro, porque para ver um filme destes a primeira premissa é aceitar o que nos dão sem questionar. Mas, vamos lá ver - e só vou perguntar isto -, se durante a semana em que estava "desligada" a Elisabeth não tinha qualquer consciência e não podia desfrutar da beleza e da juventude da Sue, para que é que aquilo lhe servia afinal?


Há ali uma cena em que Elisabeth se prepara para ir jantar fora com um homem, mas não satisfeita com a imagem que o espelho lhe devolve continua a emendar a maquilhagem à procura de uma perfeição que não existe, a tal ponto que a sua cara se transforma num borrão e ela acaba por desistir. Essa cena é muito forte.


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Mas, honestamente, se queriam encontrar uma mulher que representasse o medo de envelhecer talvez tivesse sido bom ir buscar uma actriz que não estivesse tão esticada e botocada e que tivesse um corpo um bocadinho mais envelhecido (nada contra, atenção, o corpo dela é óptimo e ainda bem, só estou a dizer que não dá para uma pessoa normal sentir muita identificação com o seu medo de envelhecer - só para que tenham uma ideia, ela tem 62 anos e está a representar uma mulher de 50, sendo que o seu corpo é bem melhor do que o da maioria das mulheres de 50 que eu conheço). 


Por aquilo que li, A Substância tinha pretensões de fazer alguma crítica social e ter uma mensagem feminista. Não encontrei lá nada disso. Mas isso também já é hábito em mim, como se pode comprovar AQUI e AQUI.


Tudo bem, já sabemos que existe uma pressão da sociedade sobre os corpos das mulheres. Mas se  por um lado o envelhecimento não é só uma questão de corpo, por outro nem toda a juventude é bela e nem toda a velhice é feia. E que fixe que é quando conseguimos escapar desses estereótipos. Isso sim, seria uma verdadeira mensagem feminista. Pelo contrário, o que ali vejo são duas mulheres, uma mais jovem e outra mais velha, mas ambas igualmente obcecadas com o corpo e com a imagem e com necessidade de agradarem aos homens que babam à sua frente. Duas mulheres sem amigos, sem família, sem vida, sem objectivos que não manterem-se lindas e serem adoradas. Que estão dispostas a tudo, até a submeterem-se a tratamentos estranhos e sobre os quais não sabem absolutamente nada, em troca da promessa da eterna juventude. Que se destroem a si mesmas e que, até ao fim, não dão qualquer mostra de ter dois dedos de testa ou de fazer qualquer auto-crítica (nota-se que estou enervada com isto?, é porque estou).


E já nem falo nos grandes planos exagerados - completely male gaze, ainda que a realizadora seja uma mulherdas mamas e dos rabos das actrizes. Feminismo? Onde?


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Espelho meu

Em cima do móvel, no patamar a meio da escada, estavam as molduras com as fotografias dos casamentos das minhas avós. Sempre que precisava de um cachecol ou uma luvas, lá estavam elas, a preto e branco, a posar felizes com os seus vestidos de noiva. Intrigavam-me aquelas fotos, das poucas que tínhamos das minhas avós antes de serem minhas avós. Como é que a avó Celeste, que ali estava com cabelos negros e compridos e uma postura tão direita, de cintura apertada, se tinha transformado na velhota baixinha e redonda, de cabelo cinzento e ralo, que me descascava a fruta enquanto víamos a novela da noite? Aquelas fotos provavam que elas já tinham sido novas. E lembravam-me que, como elas, eu também seria velha. Eu, que herdei as ancas largas da minha mãe, que herdei os dedos esguios e os joanetes da avó Helena, e, dizem, as covinhas na cara e o bom feitio da avó Celeste, serei uma velha que só vagamente dará ares à jovem que fui. Mesmo que as pessoas que nos encontram, depois de anos de ausência, insistam em dizer “estás na mesma”. Não estamos. E isso é bom. Ainda que nos custe um bocadinho sempre que nos olhamos ao espelho.


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Não tenho as fotos dos casamentos, mas volto muitas vezes a esta foto. Aqui estamos todas. Eu e os meus espelhos. 


 


"Espelho meu" é o segundo texto do nosso colectivo ainda sem casa, mas nem por isso menos activo. O primeiro texto foi sobre "Espalhar-se ao comprido".  


Outros espelhos aqui:


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Thursday, February 06, 2025

"Sing Sing": do teatro como espaço de liberdade

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Na prisão de alta segurança de Sing Sing, nas margens do Hudson, em Nova Iorque, arrancou em 2005 um programa de reabilitação pelas artes que punha um grupo de prisioneiros a fazer teatro. E é assim que traficantes e ladrões, alguns até assassínos, dão por si a ler Shakespeare e a reflectir sobre o sentido da vida, a deixar cair a carapaça e a deixar-se levar pelas emoções. E também a descobrir como é importante confiar nos outros, que partilham consigo o palco, e estabelecer relações.


O filme Sing Sing, realizado por Greg Kwedar, não é um documentário, mas é baseado nas histórias reais daqueles homens, alguns deles colaboraram na escrita do argumento e participam como actores, fazendo versões ficcionadas de si mesmo. Eu não sabia isto quando vi o filme e posso dizer-vos que o facto de não serem actores profissionais não prejudica nada o filme, antes pelo contrário. Há ali uma verdade que passa através da tela. Quando, no final, percebi quem eles eram, a única coisa que pensei foi: ah, então é isso, está explicado.


Sing Sing assume, claramente, um ponto de vista sobre o papel e o funcionamento das prisões. E sobre isso é bom lembrar Angela Davis e o que ela nos diz sobre as prisões em todo o mundo e o sistema prisional americano em concreto. E também assume uma posição - política - sobre a reabilitação pelas artes e o que é isto de vivermos em sociedade. Dizer que o filme custou 2 milhões de dólares (para se ter uma ideia, O Brutalista custou mais de 19 milhões) e que os elementos da equipa que fez o filme ganharam todos o mesmo e ainda estão a receber um parte dos lucros é só sublinhar que, neste caso, as acções estão alinhadas com as palavras.


Não escrevi ainda sobre Trump, mas não deixo de me surpreender e revoltar todos os dias com as notícias que nos chegam dos Estados Unidos e que nos falam de um presidente que está a levar o liberalismo e o individualismo às suas últimas consequências, que despreza a solidariedade em todas as suas formas, e que está a pôr fim, um a um, a todos os projectos dedicados à promoção da igualdade e da inclusão social. No contexto em que o vemos, neste momento, Sing Sing assume também uma posição de combate que provavelmente não estava nas suas intenções originais.


Sing Sing não é um filme extraordinário, daqueles de encher o olho, mas é um óptimo filme, que conta bem a história que quer contar e que nos emociona sem cair em muitas lamechices. Colman Domingo tem aqui uma excelente interpretação (ainda não vi todos os filmes, mas não me chocaria se levasse o Óscar para casa). É um filme honesto. E ser honesto, nos dias que correm, é coisa rara e preciosa. 


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Tuesday, February 04, 2025

Maria Teresa Horta

Monday, February 03, 2025

Saoirse

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A Saoirse Ronan é bem capaz de ser a minha jovem actriz preferida. Tem 30 anos e já esteve quatro vezes nomeada para um Óscar, a primeira das quais quando tinha apenas 13 anos, por Expiação. E fez alguns filmes de que gosto muito, como Brooklyn, Lady Bird, Na Praia de Chesil, Maria, Rainha dos Escoceses, Mulherzinhas. Recentemente vi mais dois filmes com ela, muito diferentes.


Blitz, de Steve McQueen, conta a história de uma jovem mãe e do seu filho durante os bombardeamentos de Londres em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial. É um filme muito bem feito e muito bonito, com toques de Dickens e uma boa reconstituição histórica. Um filme "old fashioned", li algures. Imagino que os ingleses tenham adorado. As pessoas de Londres - e as memórias daqueles dias difíceis em que a guerra entrou nas suas casas - são os heróis aqui. A mim não me comoveu particularmente. Pareceu-me tudo demasiado previsível e delicodoce, com ar de conto infantil, mesmo nas cenas mais terríveis. Mas a Saoirse cumpre a sua parte e ainda temos uma participação especial do Benjamin Clementine, o que só por si já é motivo para gostar um bocadinho mais.



Pelo contrário, gostei muito de The Outrun. O filme basea-se no livro de memórias de Amy Liptrot e mostra a batalha de Rona contra o alcoolismo. Depois de uma vida de auto-destruição, a jovem decide "fugir" para Orkney, um arquipélago na Escócia, bastante longe do seu mundo. As ilhas são um lugar difícil, inóspito, frio. Mas as pessoas que ali vivem são acolhedoras. É nesse lugar de desconforto e de reencontro consigo mesma que Rona, entre passos à frente e passos atrás, vai percebendo como seguir com a sua vida. O tema tem alguns triggers muito pessoais e confesso que ao início pensei que ia odiar, mas, afinal, acabei por gostar, sobretudo pela crueza com que aborda a dependência, sem lições de moral. A realização é da alemã Nora Fingscheidt, de quem só tinha visto The Unforgivable, um filme (nada mau, por sinal) com a Sandra Bullock que está na Netflix. Este não sei onde o poderão ver, mas se o encontrarem por aí não o deixem fugir.


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Sunday, February 02, 2025

Costurar a direito

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Esta manhã desmarquei uma aula de body attack para ficar em casa a costurar um pano da loiça. Este ano ainda não tinha desmarcado nenhuma aula de domingo e estava muito orgulhosa de mim. Agora, sinto uma certa culpa, confesso. Estou a tentar dizer a mim mesma que não é o fim do mundo. E que querer passar um fim-de-semana inteiro em casa, a ver filmes de enfiada e a costurar um pano que provavelmente não vai servir para nada, também pode ser uma opção válida porque pode ser precisamente isso que o nosso corpo e a nossa cabeça precisam.


Levamos como podemos, não é?


Voltemos atrás. Ter um diário também serve para nos conhecermos melhor e para percebermos os nossos altos e baixos. Para mim, janeiro é geralmente um baixo. Este janeiro foi particularmente baixo. Meteu horários de merda e um cansaço descomunal, muitas frustrações no trabalho, uma formação que foi fixe mas que me tirou horas que costumam ser preciosas para fazer outras coisas e, de uma maneira geral, a sensação de que estive sempre a correr atrás do prejuízo. Falhei o aniversário de duas amigas porque não me senti com energia para fazer o que quer que fosse depois de um dia de trabalho. Fechei-me em casa (e em mim) mais do que o costume.


Ainda assim, e como sempre, aconteceram coisas boas.


Voltámos a ler poesia juntos.


Desci a Almirante Reis a dizer "não nos encostem à parede" e foi uma tarde de encontros com pessoas bonitas e de acreditar que é possível fazermos uma sociedade melhor, e no fim acabámos a jantar em casa da Nádia, com amigos que trazem outros amigos, num daqueles momentos especiais que acontecem quando menos se espera.


Mantive o meu compromisso de fazer exercício pelo menos duas vezes por semana (às vezes três), incluindo uma sessão de pilates no reformer e uma aula de body attack que acaba comigo.


A tal formação foi muito interessante e ainda que, na prática, não me vá servir para nada, já serviu para eu me sentir menos estagnada e para bater umas bolas sobre temas de que gosto.


Fui ver o concerto do Sérgio Godinho e da Márcia.


Estive com a Paula e com a Alda. Ter amigos com quem posso conversar sobre tudo, sem julgamentos, com empatia, é mesmo das coisas mais importantes.


Juntei-me a um grupo de pessoas que não conheço num desafio de escrita que ainda agora começou mas que, espero, me traga muitas alegrias.


Passei uma tarde num workshop na Retrosaria a recordar como funciona a máquina de costura. A máquina que eu pedi de prenda à minha mãe num natal há muito tempo e com a qual costurei então, improvisando e aldrabando, fatos de bruxo, capas de diabo e outras vestiotas mal enjorcadas para festas de natal e de fim de ano, carnaval e halloween, mas que, entretanto, ficou guardada na caixa e já estava a ganhar bolor. Não me parece que vá conseguir costurar grande coisa, assim como não sei tricotar nada de jeito. Mas gosto disto. Das horas que passo com as mãos entretidas, longe de aparelhos electrónicos, apenas concentrada nos fios e nos pontos. Engano-me, desmancho, volto atrás, faço de novo. Costurar a direito, como viver a direito, é mais difícil do que parece. O resultado é sofrível, é o processo que vale a pena. 


Levamos como podemos. Este fim-de-semana foi para parar e recuperar. E sem dar por ela já estamos em fevereiro.

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Saturday, February 01, 2025

"Por cada grunho um punho em sentido contrário"


A Capicua tem música nova. Chama-se Making Teenage Ana Proud e, como sempre, é certeira a falar dos nossos tempos. 

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