Thursday, February 06, 2025

"Sing Sing": do teatro como espaço de liberdade

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Na prisão de alta segurança de Sing Sing, nas margens do Hudson, em Nova Iorque, arrancou em 2005 um programa de reabilitação pelas artes que punha um grupo de prisioneiros a fazer teatro. E é assim que traficantes e ladrões, alguns até assassínos, dão por si a ler Shakespeare e a reflectir sobre o sentido da vida, a deixar cair a carapaça e a deixar-se levar pelas emoções. E também a descobrir como é importante confiar nos outros, que partilham consigo o palco, e estabelecer relações.


O filme Sing Sing, realizado por Greg Kwedar, não é um documentário, mas é baseado nas histórias reais daqueles homens, alguns deles colaboraram na escrita do argumento e participam como actores, fazendo versões ficcionadas de si mesmo. Eu não sabia isto quando vi o filme e posso dizer-vos que o facto de não serem actores profissionais não prejudica nada o filme, antes pelo contrário. Há ali uma verdade que passa através da tela. Quando, no final, percebi quem eles eram, a única coisa que pensei foi: ah, então é isso, está explicado.


Sing Sing assume, claramente, um ponto de vista sobre o papel e o funcionamento das prisões. E sobre isso é bom lembrar Angela Davis e o que ela nos diz sobre as prisões em todo o mundo e o sistema prisional americano em concreto. E também assume uma posição - política - sobre a reabilitação pelas artes e o que é isto de vivermos em sociedade. Dizer que o filme custou 2 milhões de dólares (para se ter uma ideia, O Brutalista custou mais de 19 milhões) e que os elementos da equipa que fez o filme ganharam todos o mesmo e ainda estão a receber um parte dos lucros é só sublinhar que, neste caso, as acções estão alinhadas com as palavras.


Não escrevi ainda sobre Trump, mas não deixo de me surpreender e revoltar todos os dias com as notícias que nos chegam dos Estados Unidos e que nos falam de um presidente que está a levar o liberalismo e o individualismo às suas últimas consequências, que despreza a solidariedade em todas as suas formas, e que está a pôr fim, um a um, a todos os projectos dedicados à promoção da igualdade e da inclusão social. No contexto em que o vemos, neste momento, Sing Sing assume também uma posição de combate que provavelmente não estava nas suas intenções originais.


Sing Sing não é um filme extraordinário, daqueles de encher o olho, mas é um óptimo filme, que conta bem a história que quer contar e que nos emociona sem cair em muitas lamechices. Colman Domingo tem aqui uma excelente interpretação (ainda não vi todos os filmes, mas não me chocaria se levasse o Óscar para casa). É um filme honesto. E ser honesto, nos dias que correm, é coisa rara e preciosa. 


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