Friday, August 30, 2024

Ainda sobre isto de ser uma mulher sem útero

I


Houve por aí grande "polémica" (polémica entre aspas que isto as polémicas do twitter e dos articulistas dos jornais raramente interessa ou sequer chega à maioria das pessoas, é uma polémica numa bolha) sobre se se deve dizer mulher ou "pessoa que menstrua" ou "pessoa com útero". Os conservadores vão às aranhas e vêm logo com pedras na mão, ai a cultura woke, oh da casa, que é um ultraje. Mas não há motivo para tanto. De onde eu vejo isto é muito simples. As expressões não são sinónimas nem sequer equivalentes. Há alturas em que se deve dizer mulher, há outras alturas em que será mais correcto dizer pessoa que menstrua ou pessoa com útero. A sério. Não andámos aqui durante anos a lutar pela distinção entre sexo e género, a defender que as pessoas não se definem pelos órgãos que têm no corpo, para agora voltarmos tudo atrás.


Há pessoas (poucas, mas há) que menstruam ou que têm útero e que não são mulheres - estamos a falar de homens transgénero que não fizeram a transição ou de pessoas não-binárias.


Há mulheres (muitas, muitas mais do que se imagina) que não menstruam. Desde logo as raparigas, que são crianças ainda, sim, mas são mulheres no género. Depois, as mulheres que devido a algum problema de saúde não menstruam. As que usam métodos contraceptivos que inibem a menstruação. As grávidas. As mulheres trans. As que já estão na menopausa.


Portanto, haverá situações onde é importante saber que estamos perante uma pessoa que menstrua ou que tem útero, ainda que não seja uma mulher. Por exemplo, em contexto clínico essa informação é relevante. Lá porque se chama José e se apresenta como homem, é importante que os médicos entendam o seu corpo como ele é.


E há situações onde a palavra a usar é mulher e pronto. 


Eu sou uma mulher. Sem útero. Sem menstruação. Mas mulher. Era o que faltava permitir que uma cirurgia viesse definir aquilo que sou.


 


II


Quero agradecer a todas as pessoas que enviaram mensagens, que telefonaram, que quiseram saber, que mandaram miminhos, que partilharam comigo a sua história ou a história de mulheres que conhecem. É muito importante saber que não estou sozinha nisto. É muito gratificante perceber que as palavras que escrevo aqui fazem sentido para outras pessoas. E fico muito feliz se contribuí, ainda que de forma ínfima, para que alguma mulher se sinta mais acompanhada ou mais confiante para poder abordar este tema com o seu médico.


Algumas pessoas ficam surpreendidas e perguntam-me como é que consigo falar de coisas tão íntimas, se não tenho vergonha de me expor. O que posso dizer? Não foi sempre assim, mas cada vez me preocupo menos com o que é que as outras pesssoas pensam de mim. Acredito verdadeiramente que é muito importante falarmos abertamente sobre estes e sobre todos os assuntos. Temos mesmo que perder a vergonha que nos impingiram ao longo de séculos de patriarcado. Até porque, se pensarmos bem, não há motivo nenhum para ter vergonha. 


Entretanto, a médica diz que está tudo a correr bem e que posso retomar a minha vidinha normal, ainda que com alguns cuidados. Parece que sempre vou conseguir aproveitar uns dias de praia antes do famigerado regresso às aulas. Só o Bandido vai ter saudades dos dias no sofá.


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Tuesday, August 27, 2024

Binge-watching para estes dias compridos

O que faz uma pessoa que não pode sair de casa e, estando em casa, nem sequer pode dedicar-se às limpezas? Faz binge-watching, ou seja, vê séries até cair para o lado de exaustão. No meu caso, foram estas três:


The Bear (3ª temporada)


Demorei a entrar na loucura da primeira temporada, parecia que estavam sempre todos aos gritos e o stress era imenso, mas quando entrei adorei. A segunda temporada foi ainda melhor, embora nos sentíssemos a mergulhar cada vez mais fundo na melancolia de Carmy Berzatto. Não sei se estava preparada para os níveis de ansiedade causados por esta terceira temporada. Existe o excelente episódio dedicado a Tina e há um episódio só para o parto (com a cada vez melhor Jamie Lee Curtis), passamos ao de leve pelos dramas de Sidney, de Richie e de Marcus, mas, na verdade, em grande parte do tempo estamos na cabeça de Carmy, na confusa, deprimida e obsessiva cabeça de Carmy. A cozinha é o seu quarto e a comida é o seu oxigénio. Tudo o que se passa ali, entre facas e panelas e condimentos e molhos com nomes esquisitos, é uma consequência (e uma metáfora) do que se passa na sua cabeça. Está tudo ligado e é lindo de uma maneira triste. A cada episódio sentimos o peito mais apertado porque não sabemos se ele vai ser capaz de continuar com o restaurante ou sequer de continuar com a sua vida. A série é muito bem feita. Tudo. O argumento é excelente (o atrevimento de começar a temporada com um episódio quase sem diálogos e, no entanto, faz tanto sentido), os actores são óptimos, a música continua a ser escolhida a dedo. A única crítica a apontar: sabemos que a quarta temporada já foi gravada e parece-me que isso se nota, esta é uma temporada onde o tempo corre muito devagar e onde muito pouco acontece de facto, é como uma pausa, como se estivessem todos a pensar o que irão fazer na temporada seguinte. Não é necessariamente mau. É só muito aflitivo para quem se envolve emocionalmente com as personagens como eu.


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Lady in the Lake


Se ignorarmos o horrível genérico (sim, eu vejo o genérico, nem que seja uma vez), o resto é bastante bom. Estamos em Baltimore nos anos de 1960 e temos duas personagens centrais, duas mulheres muitos distintas: Maddie Schwartz (Natalie Portman), judia, privilegiada, casada e com um filho adolescente, dona-de-casa dedicada a eventos de caridade, com "tudo" para ser feliz mas, na verdade, muito infeliz; e Cleo Johnson (Moses Ingram), negra, pobre, com um casamento problemático e dois filhos, trabalha como manequim em lojas de roupa para senhoras ricas e como guarda-livros para um dos big bosses da comunidade negra (e do crime local). As vidas das duas mulheres acabam por se cruzar devido ao homicídio de uma menina. Esta poderia ser uma série sobre um crime, ou até sobre racismo, e também é, mas mais do que tudo é uma série sobre duas mulheres que estão fartas de estarem presas numa vida de que não gostam, que estão fartas de viverem submissas, num mundo masculino e cheio de regras, querem mudar, querem evoluir, querem controlar a sua história. Só que o caminho para lá chegarem não é igual. Gostei muito desta série embora por vezes ficasse um bocadinho farta do egoísmo e egocentrismo de Maddie (também é engraçado ver como são retratados os jornalistas e o desmazelo do trabalho jornalístico, mas pronto, adiante). Se calhar tirávamos aquelas partes dos pesadelos de Maddie e não se perdia nada, não?


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The Good Mothers


Um mergulho na 'Ndrangheta, a mafia da região de Calabria, pelos olhos das mulheres: as filhas, as mães, as irmãs e as mulheres dos mafiosos têm um papel secundário na organização criminosa mas são essenciais para manter a cola desta grande "família". Neste mundo absolutamente machista, as mulheres querem-se submissas, donas-de-casa e cuidadoras dos filhos, de lábios pintados para os maridos mas de olhos fechados para os mundo, prontas a levarem uma estalada (ou mais do que isso) sempre que ousarem responder ou desobedecer. "É assim, tens que aceitar", ensinam as mães às filhas. A lealdade - à família e ao chefe da família - é o valor mais importante aqui, mais importante do que o amor, a liberdade, a honestidade, a auto-estima. Mas e se algumas mulheres não quiserem continuar a viver assim? Destaque para as interpretações de Valentina Bellè e Gaia Girace (que conhecemos d'A Amiga Genial). Aconselho muito.


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Saturday, August 24, 2024

De volta à terra

Na feira do livro do ano passado não consegui comprar o Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos porque o livro ficou esgotado em pouco tempo. Parecia que toda a gente andava a ler a Olga Tokarczuk, lembram-se? Acabei por comprá-lo em julho deste ano, numa fnac manhosa no intermarché de Lagos, numa semana em que estive na praia e, sabe-se lá como, ao fim de uns dias já tinha lido os três livros que tinha levado. Não foi fácil. Vinha embalada com a escrita gulosa da Alda de Céspedes, da Alana S. Portero e do Salman Rushdie (de que ainda hei-de falar um dia destes). E de repente encalhei ali em palavras menos comuns, numa escrita mais exigente. Desde logo porque me transportava para uma paisagem agreste e para mim completamente estranha, na Polónia. A autora entretém-se em pormenorizadas descrições da natureza, que me aborreceram. A natureza impõe-se em todo o livro: os animais, as plantas, os montes, a neve. Já para não falar da obsessão da protagonista com a astrologia, um mundo que nada me diz. Acabei por "entrar" no livro e até por simpatizar com aquela mulher, Janina, talvez um pouco "doida", como todos diziam, mas com uma sensibilidade especial e uma enorme capacidade de se dar aos outros, sobretudo os mais frágeis. O livro também retrata bem a maneira como as pessoas estão ligadas numa aldeia, e como os pequenos ódios e as pequenas amizades acabam por ser tão importantes neste microsmos. Confesso que fiquei curiosa para ver que mais escreveu esta autora premiada com o Nobel.


Estava eu a pensar no que iria ler a seguir quando me chegou à caixa do correio A Forasteira, de Olga Merino. Nunca tinha ouvido falar desta autora espanhola e não tinha qualquer referência sobre o livro. Mas algo ali me chamou a atenção. Estava mais uma vez perante uma protagonista feminina, a narrar-se na primeira pessoa. E mais uma vez perante uma mulher que, depois dos desaires da vida, encontra no campo a sua casa. Neste caso, um campo que me pareceu muito familiar. Era em Espanha, mas podia ser no Alentejo. O calor abrasador, a terra ressequida, a aldeia de portas fechadas, as vendas onde os homens bebem ao fim do dia, os suicídios, tudo ali eu conhecia, até a linguagem, com recurso a palavras antigas e até esquecidas mas que me faziam todo o sentido. Angie cresceu nos anos 80, como eu. Conheço as canções que lhe povoam a memória. Percebo a sua vontade partir, de se encontrar longe da aldeia. Percebo a sua vontade de voltar e de se encontrar na aldeia. É como se ela fosse uma velha conhecida, não uma amiga mas alguém com quem me consigo relacionar, porque partilhamos o mesmo mundo, vimos de terras que enfrentam problemas semelhantes com a agricultura e a falta de mão-de-obra e a falta de futuro. Não sei o que é que outras pessoas, com outras experiências, vão achar do livro, mas para mim foi realmente uma boa surpresa.


Completamente por acaso, o livro que li a seguir foi Terrinhas, de Catarina Gomes. Outra vez uma mulher a braços com as suas memórias e com um regresso à terra dos pais. Aqui a terra era outra - mais a norte, mais verdejante e montanhosa, plantada com batatas. Aqui não foi a terra que me conquistou mas foi a descrição exacta de como foi crescer naquele tempo. Os brinquedos, os programas na televisão, a decoração das casas. Aquela contenção que havia, não porque fosse mesmo necessária, mas porque era assim que devia ser. Aqueles pais sempre preocupados com um caminho que fosse um bocadinho mais incerto, "mas depois consegues arranjar trabalho, filha?". Aquele "o que é que as pessoas vão pensar" que orientava a nossa conduta. Outra vez o querer sair e o querer voltar. Este livro é, antes de mais, um grande hino à família e ao que existiu antes e que nos enforma de maneiras que nem sempre percebemos. Podemos tentar fugir, como Janina ou Angie ou Cláudia, mas dificilmemte conseguimos escapar ao nosso passado, tal como não nos conseguimos livrar da terra que se entranha nas unhas e na pele


Eu nunca usei a expressão "ir à terra", até porque nunca tive, efectivamente, uma ligação à terra. Venho do Alentejo mas de terras não sei nada, sou da vila, do alcatrão, das casas muito brancas, das ruas perpendiculares e paralelas. Durante muito tempo ia a casa, porque era ali de facto a minha casa. Depois, quando arranjei uma casa minha, passei a ir a casa dos meus pais ou, simplesmente, a Ferreira. Ainda assim, quando andei à procura de uma imagem para este post decidi roubar ao meu pai esta foto de terra. Cada pessoa tem a sua paisagem-casa. A minha é mais ou menos assim.


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Wednesday, August 21, 2024

Uma mulher sem útero

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Odeio anestesias. Lembrava-me perfeitamente das duas anestesias gerais que levei em criança. Lembrava-me da sensação de vazio que senti ao acordar. A sensação de ter perdido aquelas horas da minha vida. Não, não é como dormir. É como um salto no tempo. Um tempo que é como se não tivesse existido. O mais parecido, imagino eu, com a morte. Odeio anestesias e quando a médica me falou a primeira vez na hipótese da cirurgia foi só isso que me amedrontou, esse medo inexplicável de um sono tão pesado que não permite sonhos nem memórias nem nada, esse salto no vazio absoluto, essa sensação de morte. Fiz-me de forte. O medo era (como quase sempre) irracional, e eu sou uma pessoa bastante racional.


Há uma semana fui internada. Foi o António que me levou, contando piadas para disfarçar os nervos. Cada um tem a sua maneira de lidar com as situações de tensão e no caso dele é dizer parvoíces e manter aquele ar blasé, de chinelo no pé e sorriso na cara, como se não fosse nada. Tinha explicado aos rapazes todo o procedimento e o que me levou até ele. Faço questão de ser honesta com os miúdos sobre todos os assuntos, tentando ao mesmo tempo poupá-los a preocupações desnecessárias. É um equilíbrio nem sempre fácil de conseguir. Quando fiquei sem emprego ou quando a minha mãe adoeceu, por exemplo, senti que eram temas demasiados importantes para não serem falados, afinal, também faz parte do crescimento perceberem que existem problemas e que temos de lidar com eles da melhor maneira possível. Neste caso, não havia mesmo por que ficarem preocupados. A coisa era bastante simples.


A cirurgia - histerectomia total laparascópica por via vaginal - apresentou-se como a melhor solução para um problema que me atormentava há pelo menos dois anos: uma hemorragia constante e de grandes dimensões que não dava mostras de ceder à medicação. O meu médico anterior, um tipo simpático e de quem não tinha queixas até ao momento, não revelou qualquer empatia pela situação. "É só sangue", disse-me, como se eu me estivesse a queixar sem motivo, explicando-me que são coisas normais nesta idade e que o que tinha a fazer era aguentar até à menopausa. Eu aguentei durante algum tempo mas depois decidi procurar outra médica. Às vezes, a única coisa que queremos dos médicos é que nos ouçam, que valorizem aquilo que dizemos. Se eu digo que não estou bem é porque não estou bem, não é porque sou uma mulher histérica. As mulheres sangram todos os meses durante grande parte da sua vida. Aprendemos a viver com este desconforto. Mas houve um momento em que aquilo começou a perturbar-me realmente. Sangrar dias e dias seguidos, sangrar de maneira incontrolável é viver em permanente estado de alerta, sem saber se vou estar toda suja quando me levantar da cadeira, se vou ter que trocar outra vez os lençóis, se tenho tampões e pensos que cheguem para o dia, se vou ter forças para ir trabalhar, se me vai apetecer sequer sair de casa. O sangue afetou a minha vida e a minha auto-estima, deixou-me insegura, suja, cansada, envergonhada e, no fim de contas, doente, uma vez que fiquei com uma anemia brutal. A nova médica ouviu-me com atenção e mandou-me fazer alguns exames. "Vamos tentar resolver a situação", garantiu-me. E acho que só por isso senti-me logo melhor. Reencaminhou-me para outra médica, mais especialista. O que se concluiu foi que sim, estava na perimenopausa, e as hemorragias abundantes são parte dos sintomas desta fase, e que também tinha vários miomas, um deles, pelo menos, de grandes dimensões, que também provocavam hemorragias. Tudo coisas inofensivas. Perante isto, tinha duas soluções: continuar com a medicação para controlar as perdas (depois de várias experiências, chegámos a um cocktail de comprimidos diários que não resolviam completamente o problema mas tinham-no tornado suportável) até que fosse necessário, o que poderiam ser alguns meses ou alguns anos, ou fazer a cirurgia e acabar com isto de uma vez. Fui eu que optei por esta solução.


Percebi, nestes últimos tempos, que há inúmeras mulheres a passarem pelo mesmo que eu. Mulheres que sangram, que sofrem, que choram, que se encolhem, que dormem de fraldas, que desesperam. Nunca ninguém me tinha falado disto. Falam dos calores e que se engorda, que se envelhece e pronto. As mulheres sempre foram muito boas a esconderem as suas dores. Mas quando eu comecei a desabafar logo houve quem dissesse eu também e ela também e vai-se a ver éramos muitas. Não me serviu de consolo. Não foi uma decisão leviana. Sei que não é consensual, mas não me apetece agora estar a justificar-me. Tive dúvidas, claro. Mas decidi. Pode ser que me arrependa um dia destes. Não há como saber. Não há soluções mágicas, há apenas soluções que, para cada um de nós, naquele momento, nos parecem melhores.


Eu estava calma. Descobri há já algum tempo que tenho esta capacidade de me manter calma em situações adversas. Não quis tomar nenhum calmante, entrei desperta na sala de operações, falei com toda a gente, e no momento de me darem a anestesia, quando senti aquele fresquinho a entrar-me pelo braço, ainda tive tempo para pensar "que maluqueira, maria joão, o que é que tu estás a fazer?"


Logo a seguir estava a acordar. Outra vez a sensação de vazio. O salto no tempo. A morte ali tão perto. A cabeça tonta, as náuseas, aquela desorientação inicial. Caramba, porque é que me meti nisto? Instintivamente levei a mão à barriga, só para confirmar que tinha tudo corrido como planeado, e fiquei imediatamente mais descansada: nada de pensos nem cicatrizes. "Correu tudo bem?", perguntei a um enfermeiro (tenho um carinho enorme pelos enfermeiros, as pessoas que nos cuidam nos momentos em que estamos mais frágeis). Nas horas seguintes esteve tudo muito nublado.


Ligaram ao António a avisar que eu já estava no quarto e vinte minutos depois estavam os dois ali a olhar para mim. O António a falar sem parar, o Pedro muito sério, muito calado, muito Pedro, a manter a distância. "É estranho, nunca te tinha visto assim", disse ele. Nunca tinham visto a mãe-fortaleza deitada numa cama, com soro na veia, um saco de xixi pendurado ao lado, a voz arrastada de quem ainda não está no seu perfeito juizo. Estavam apreensivos, isso era óbvio. O que terão pensado durante aquelas horas todas? Será que exigi demais deles desta vez? Será que não deveria ter permitido que viessem ver-me? 


Nessa noite, a médica apareceu para me confirmar que tinha corrido tudo bem e que, a continuar assim, teria alta no dia seguinte. A mim, ali deitada, ainda meia tonta, algaliada, incapaz de me mexer, pareceu-me um bocadinho exagerado, confesso. E, no entanto, o dia amanheceu e tudo estava realmente melhor. 


Sensivelmente 24 horas depois de ter acordado da cirurgia vim para casa pelo meu próprio pé. Apreensiva mas sem dores. Só tomei paracetamol nessa noite porque sentia um certo desconforto e não conseguia encontrar posição para dormir. Mais nada. A médica tinha razão. A medicina, de facto, evoluiu de forma incrível. Sei que existe uma cicatriz, mas é interior, não está à mostra. Sinto que fui "mexida", ainda não estou a cem por cento, mas é uma coisa mínima. Às vezes até me esqueço. E aqui estou. Com ordens para não fazer esforços, não carregar pesos, não me mexer muito. Mas também para me mexer cada vez mais. A cada dia que passa sinto-me melhor. Tenho aproveitado para ver filmes e séries, ler, pensar na vida. Tento não passar o dia a comer (um desafio e tanto). Atribuo-me pequenas tarefas (por exemplo, escrever este texto), faço planos que provavelmente nunca serão concretizados. Entedio-me. Houve ali um momento em que me comecei a enervar porque me apetecia aspirar a casa e lavar o chão, mas não podia, e os meus filhos têm sido uns queridos, lavam a loiça, levam o lixo e estão sempre a perguntar se estou bem, mas foi difícil convencê-los da necessidade de limpar a casa-de-banho. 


Um dia de cada vez. 


Já passou uma semana. Ainda só passou uma semana. Tudo depende do ponto de vista. So far so good. Não quero precipitar-me mas estou confiante e a verdade é que já só penso que ainda quero ir à praia. Espero que a médica me dê alta, espero que o verão se aguente, espero que tudo volte ao seu lugar. Não. Corrijo. Que tudo volte a um lugar melhor. Assim é que é. Muito melhor. 

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Tuesday, August 20, 2024

É por estas e por outras que o jornalismo ainda vale a pena

"Adeus, estômago" é uma reportagem que já tem algum tempo mas que só agora tive tempo de ver. Estou a aproveitar que tenho passado alguns dias em casa para recuperar coisas que me aconselharam e a que, por alguma razão, ainda não tinha dado atenção. Como sabem, muitas vezes o jornalismo que fazemos desilude-me e entristece-me muito. Por isso, é uma grande alegria poder ler, ver e ouvir trabalhos tão bons. Dá-me alguma esperança. Deixo aqui alguns links de coisas de que gostei, mas sei que há muitos outros trabalhos por aí que valem a pena, sobretudo no que toca a podcasts, vou tentar pôr-me a par.


As entrevistas d'"A Beleza das Pequenas Coisas", do Bernardo Mendonça, são, geralmente, um prazer para os ouvidos. Esta, ao André Barata, é só um exemplo. 


"Colonos em Angola e Moçambique. Retornados em Portugal", um trabalho muito profundo sobre o colonialismo português, o seu racismo intrínseco e o regresso dos retornados. Feito pela minha querida Joana Gorjão Henriques, no Público.


"Mitra, o “depósito” de Lisboa onde o Estado Novo fechava os indesejáveis": uma reportagem muito boa sobre o asilo para mendigos criado em 1933. No Expresso. Vejam também o vídeo. Tinha apenas uma vaga ideia sobre o que era a Mitra e é muito impressionante.


As entrevistas a Nick Cave valem sempre a pena. Já tinha visto esta, mas a que a nossa Lia Pereira fez, no Expresso, também está muito boa. Claro que ele diz coisas muito profundas sobre a perda e o luto, mas também tem palavras muito esperançosas e um olhar bastante tranquilo sobre a vida. Vejam, por exemplo, o que diz sobre o disco novo:


"O “Wild God” é sobre algo em que acredito piamente: que temos de permanecer atentos e conscientes da alegria no presente, do riso no presente, em vez de nos agitarmos neuroticamente a pensar naquilo que as coisas deveriam ou poderiam ser. A um nível mais amplo, penso que o grande problema da socie­dade neste momento é o facto de não entendermos que há muito para amar neste mundo. Tudo o que nos dizem e que sentimos é que o mundo é um sítio para odiar, para desprezar, e que nós, seres humanos, não somos capazes de fazer nada de bom, nada de valor, que só estragamos coisas e magoamos e oprimimos pes­soas. Talvez em parte seja verdade, mas eu sinto que temos de estar atentos ao facto de o mundo e os seus seres poderem ser extraordinariamente belos." 

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Sunday, August 18, 2024

Sou da geração "brincando aos clássicos"

O primeiro disco que me lembro de termos, eu e a minha irmã, era do Carlos Alberto Moniz e da Maria do Amparo. Lembro-me da capa com ilustrações coloridas, das canções sobre a primavera e os cogumelos, da canção do capuchinho verde contada pela voz do Júlio Isidro. Não tenho dúvidas que se pusesse agora o vinil a rodar seria capaz de acompanhar, cantando quase tudo. Tenho o mesmo sentimento com os discos que tivemos a seguir: os dois volumes do "Brincando aos Clássicos", com a cara de Ana Faria a ocupar toda a capa, e, depois, o "Queijinhos Frescos". Ouvimo-los incontáveis vezes. Tínhamos canções preferidas, claro, mas ouviamo-las a todas, de seguida, acompanhando a audição com a leitura das letras que estavam na contracapa. O Luís, o Luís quer ir a Paris. Oh, Clarinha, olha as pombas, vem, não tenhas medo não. A Rita é catita só irrita a almoçar, ò Rita, a batata-frita não chega para alimentar. Quando acorda de manhã, o Nuno quer ser Tarzan, passear com a Chita, que é uma macaca bonita. Não preciso ir procurar na internet para saber. O João, o João quer ser cowboy ou então, então, super-herói. Ana, tens de dormir, já é tão tarde, dormes a sorrir. Lá vem o Miguel, dos olhos de mel, sempre a cavalgar, a galopar no seu corcel. A Joana, que como eu, adorava o Natal. A Catarina que, também como eu, brincava e corria no recreio. O Zé que jogava à bola. A Marta com os seus ursinhos. O casmurro do Tóino. A Elisa com o seu cheiro a alecrim. O Ricardo com coração de leão. Os "Brincando aos Clássicos" adaptavam música clássica de compositores como Verdi ou Mozart, o "Queijinhos Frescos" era já um passo em frente, com músicas pop, como o Thriller, de Michael Jackson, e letras mais elaboradas, até porque a carreira de Ana Faria acompanhava o crescimento dos filhos, que eram mais ou menos da minha idade. Havia aquela canção que tanto nos fazia rir, "Onde tás ò Zé, vem estudar praqui, estou no balancé e a lição já li, e o que fizeste ao i?", com um sotaque alentejano carregado, mas que não levávamos a mal. Tínhamos onze anos e cantávamos a Ana Faria e a Madonna com a mesma intensidade. Depois vieram os Onda Choc, que foram um enorme sucesso. Era a Ana Faria que adaptava os hits do momento, escrevia as letras e ensaiava os miúdos. Ainda ouvi os Onda Choc, claro, ainda cantei que ele é o reeeei lá do liceu e que ela só quer, só pensa em namorar, mas já não tive esses discos e só me lembro de poucas canções porque entretanto meteu-se a adolescência e os Wham e os Xutos e no Natal pedia era os Polystar. 


A última vez que vi a Ana Faria foi há cinco anos, quando fui entrevistar o marido, que foi seu parceiro musical e produtor dos discos. Nessa altura ela já não estava capaz de dar entrevistas, não me lembro se com Alzheimer ou outra doença mental, mas estava numa sala ao lado, entretida a pintar, e de vez em quando vinha mostrar os quadros que estava a fazer. Foi muito estranho vê-la, a mesma cara que estava nos discos que tanta companhia me fizeram, mas já não era bem ela. Morreu ontem, com 74 anos. É sempre um bocadinho triste quando morre alguém de quem temos tantas boas memórias. 


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Friday, August 02, 2024

Julho teve calor, muito calor. E também teve isto

Julho. Tivemos os nossos dias de praia, poucos mas bons. Depois os miúdos também tiveram os seus dias de praia. Mandam-me fotografias repletas de céu azul e sorrisos rasgados. Estão enormes. Como crescem os filhos quando estão longe de nós. Temo que no regresso já não me caibam nos abraços que lhes quero (preciso) dar. A parte boa de os filhos estarem de férias sem mim é que, apesar de estar a trabalhar, tenho tempo de sobra para fazer as minhas coisas sem sentimentos de culpa nem pensar no que vai ser o jantar. Coisas como ficar horas sentada no sofá a ver os jogos olímpicos. Ou jantar com amigos. Ou ir fazer um workshop de cozinha do Médio Oriente no Mezze. Ou não fazer nada. Ou isto:


Dois espectáculos 


À Primeira Vista, texto de Suzie Miller, encenação de Tiago Guedes, interpretação de Margarida Vila-Nova. Sobre isto de ser mulher, as agressões sexuais a que estamos sujeitas, o machismo da sociedade em que vivemos mas, sobretudo, do sistema judicial. As estatísticas dizem que uma em cada três mulheres já sofreram algum tipo de agressão sexual. Então, porque continuamos a tratar assim as vítimas? Porque continuamos a duvidar das suas palavras? A menosprezar o trauma que sofreram? A dar o benefício da dúvida aos agressores? Oh, coitado, foi só um deslize, tinha bebido de mais, ele no fundo não é má pessoa. O texto é muito bom. A Margarida Vila-Nova aguenta-se à bronca. O resultado não é uma obra-prima mas é bom. E importante. Depois de uma primeira temporada esgotada, o espectáculo vai voltar ao Teatro Maria Matos de 18 de setembro a 27 de novembro.


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Madrinhas de Guerra, de Keli Freitas. Uma reflexão sobre o colonialismo e o modo como, em 2024,  ainda romantizamos as "descobertas" dos portugueses que "deram novos mundo ao mundo" e a guerra onde tantos rapazes morreram e sofreram em nome de um império que não era seu. É um olhar inquiridor mas ao mesmo tempo com sentido de humor. Um espectáculo que parece estar inacabado, que levanta mais perguntas do que dá respostas, que nos deixa com vontade de mais. Vi-o no auditório do Museu de História Natural e só isso já foi uma experiência. Se o voltarem a encontrar por aí não percam.


Um livro


Tudo é rio, de Carla Madeira


Preparem-se para todo o balanço e toda a doçura que o português do Brasil nos pode dar. Porque há sotaques que parecem perfeitos para contar o amor (e desamor) e o desejo. Esta é a história de um improvável trio amoroso, a prostituta Lucy, o instável Venâncio e a doce Dalva, mas é também a história das suas famílias, das dores que trazemos connosco e da importância de procurarmos a alegria contra todas as evidências em contrário. Uma delícia.


Um filme


Memória, realizado por Michel Franco, com Jessica Chastain e Peter Sarsgaard. Um encontro improvável entre uma mulher que luta para sobreviver ao trauma (outra vez uma agressão sexual e todas as suas consequências) e manter-se longe do álcool e um homem que sofre de demência e está a perder a memória. Uma batalha entre aquilo que queremos recordar e aquilo que gostaríamos de esquecer. A alegria (a tal alegria) de descobrir o amor confronta-se com as dificuldades da vida real. A verdade é que todos precisamos de quem cuide de nós.



Uma série


Nem uma mais, série espanhola na Netflix, sobre como a violência sexual está presente no dia a dia de um grupo de amigas no liceu (outra vez, sim, juro que não foi de propósito, mas é um tema mesmo importante, ainda bem que se fala disto). Um namorado, um amigo, um professor, qualquer um pode ser um abusador. Mais uma vez, não é uma obra prima, mas é uma série muito bem feita, as miúdas são fantásticas e tenho a certeza que muitas de nós se vão relacionar com aquelas situações. 


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