Saturday, October 21, 2023

Orlando: sobre transição, identidade e reconhecimento

É importante estarmos disponíveis para olhar para o outro, para conhecermos o outro, diferente de nós, seja qual for essa diferença, a cultura, o género, a língua, disse o André Tecedeiro numa pequena conversa com o público após uma sessão do filme Orlando - A Minha Biografia Política, de Paul B. Preciado. Gostei tanto deste filme. Desafiado a fazer um filme sobre a sua vida, Preciado respondeu que preferia fazer uma adaptação documental de Orlando de Virginia Woolf. Escrito em 1928, Orlando foi o primeiro romance em que a personagem principal muda de sexo no meio da história. Ou, dito de outra forma, como ele diz no filme, Preciado achava que não havia necessidade de escrever uma nova biografia, uma vez que ela já tinha sido escrita. Como se todas as histórias das pessoas transgénero se misturassem, de alguma forma, com a história de Orlando. Todas são Orlando, embora cada uma à sua maneira. E, assim, em vez de se mostrar a si mesmo, desafiou outras pessoas transgénero a serem Orlando neste filme e a contarem um pouco das suas histórias. Da incompreensão da sociedade aos consultórios dos psiquiatras, da busca incansável (e tantas vezes frustrante) pelo amor, à busca por um corpo a que possa chamar seu (uma cena tão bonita na sala de operações) e ao direito a um nome, ou seja, uma identidade. Que cada um possa ser o que quiser ser, nos seus próprios termos, é de facto uma conquista importante - para cada um de nós, para todos nós, enquanto sociedade. E, no entanto, parece que é (ainda) tão dificil. Tantos passos já dados, tantos passos ainda por dar. 



A propósito: 


Uma entrevista do Paul B. Preciado em que ele explica a ideia para o filme.


"Este é o meu corpo", uma reportagem do meu colega Wilson Ledo sobre algumas destas questões.


Falei com a Maria João Vaz, a propósito do livro de memórias que publicou, e fiquei desarmada com a sua honestidade e felicidade.


Sobre este tema, Girl - O Sonho de Lara é um filme de 2018 de Lukas Dhont que me perturbou muito quando o vi, por todo o sofrimento que vemos na protagonista. Está disponível no Filmin, tal como outro filme de Dhont, que não é sobre pessoas trans mas continua a ser sobre a importância de podermos ser quem somos e sobre a pressão que a sociedade exerce sobre todos nós para nos "conformarmos" à norma: Close esteve nomeado para o Óscar de Melhor Filme Internacional e é tão belo quanto triste.

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Wednesday, October 18, 2023

Olhando o sofrimento dos outros

Não sei bem que dizer. Quando o terror é imenso perdemos as palavras, não é? Nestes últimos dias tenho tentado fazer algumas leituras, preencher algumas lacunas que ainda há pouco admitia aqui, quando escrevi sobre a Golda. Ainda assim, tudo o que possa dizer é de uma enorme banalidade. Toda a violência é terrível mas a violência sobre civis, inocentes, é sempre pior. Porque odiamos?, volto a perguntar. Não tenho respostas. Surpreendem-me muito as pessoas que tomam posições muito convictas sobre este conflito (e sobre outros também, mas sobre este especificamente). A mim sobram-me as dúvidas. 


Deixo algumas pistas:


Falei com a Nofouz, 23 anos, estudante de medicina, da Cisjordânia. É só um lado da história, claro. A mim tocou-me muito.


Uma fotogaleria da Palestina antes de ser Israel, que me fez olhar para trás. As fotos são maravilhosas mas o que ali está é o retrato de uma região colonizada.


"Somos todos animais", um texto da Alexandra Lucas Coelho, que tem dito coisas que me fazem muito sentido.


A Isabel Lucas escolheu alguns livros que poderão ajudar a entender o que se passa na Palestina. Também há uma selecção de filmes, escolhidos pelo Palestine Film Institute.


Também podem ir (re)ler e (re)ouvir a série de reportagens que o Fumaça fez em 2017: "Palestina: Histórias de um país ocupado".


Com tantas imagens horríveis que nos chegam, lembrei-me da Susan Sontag e do seu "Olhando o sofrimento dos outros". Nunca o li todo, confesso, talvez seja este o momento certo.


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Palestinianos procuram sobreviventes após mais um bombardeamento na Faixa de Gaza (AP Photo/Abed Khaled)


 


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"Tragam-nos para casa". Em Telavive, uma mulher apela à libertação dos reféns israelitas (AP Photo/Petros Giannakouris)


 


(e, não sei se repararam, mas de repente deixámos de falar da Ucrânia. a guerra continua lá mas é como se já não estivesse a acontecer. isto devia tanto fazer-nos reflectir.)


 

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Thursday, October 05, 2023

Jon Fosse

Nobel da Literatura para Jon Fosse. Conheço-o pelo teatro. Peças minimalistas, becktianas, quer pela forma quer pelo conteúdo, sempre a questionar o sentido disto tudo, a confrontar-nos com o absurdo do quotidiano. Poucas palavras, repetições, uma musicalidade que nos embala. Angústia, tristeza. Lembro também o seu jeito tímido, quase envergonhado, engolindo as palavras num inglês enrolado.


Dia de lembrar o Jorge e os dias d'A Capital. De agradecer ter vivido o que vivi. A brincar, a brincar, esta pessoa especialista em coisa nenhuma já entrevistou dois prémios Nobel da Literatura. Não está na internet, mas garanto-vos que aconteceu.


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