Dez anos.
Dizer o quê?
Estar sozinha com filhos é difícil. Não vale a pena desvalorizar isso. É difícil por motivos logísticos e emocionais. É exigente de muitas maneiras. E aviso já que não melhora quando eles crescem. Quero dizer, sim, melhora numas coisas, mas piora noutras. Eu achava que já dominava a cena e depois veio a adolescência e depois veio a pandemia e depois. Estar sozinha com filhos é difícil, sobretudo se o pai for ausente e não houver semanas partilhadas nem nada disso. Se nos perguntarem, a gente diz que está tudo bem, e está, e põe fotos bonitas no instagram e somos tão convicentes que as outras pessoas até acreditam que é fácil. Mas não se iludam, é muito difícil.
Educar filhos é difícil de qualquer maneira, sozinha piora um pouco. Porque não há ninguém com quem partilhar. Não há folgas. Não dá para ir ali apanhar ar e já venho. É necessária muita organização. Não acho que faça sacrifícios pelos filhos, não lhes chamo sacrifícios, limito-me a fazer o que acho correcto, o que escolho fazer. Mas sei que é importante definir muito bem as nossas prioridades e estar disposta a acordar às sete da manhã de um domingo para ir a um jogo de futebol e depois correr para deixar o outro numa festa de anos e depois correr para ir buscar um e depois o outro e pelo meio ir às compras e fazer o almoço e manter a calma porque ainda temos de estudar as equações de segundo grau. E é difícil porque és só tu, para decidir, para conversar, para zangar e para dar colinho, és só tu e não há ninguém com quem dividir dúvidas e preocupações e frustrações. És só tu para tudo. É muito pesado.
E ainda há a culpa. Ah, pois, a culpa, essa maldita que atormenta a vida de todas as mães mas que, estou em crer, atormenta mais as mães sozinhas. A culpa por não ter escolhido um pai melhor para eles. A culpa por não lhes ter proporcionado uma vida familiar estável. A culpa por não conseguir ser melhor, por não lhes poder dar tudo o que gostaria (e não estou a falar só de coisas materiais mas outras coisas, como tempo ou paciência). A culpa não vai passar nunca, pois não?
Estar sozinha é difícil. Há os amigos, há a família e são todos importantes e maravilhosos e ainda bem que existem. Mas é legítimo que queiramos ter alguém especial na nossa vida. Porque é bom ter com quem conversar conversas de adulto ao fim do dia e é bom ter com quem ir jantar fora e ir ao teatro sem ter que andar a ver qual é a amiga solteira que vamos chatear esta sexta-feira, é bom ter alguém que gosta de nós e nos dá miminhos, é bom gostar de alguém e sentir aquela vontade de fazer essa pessoa feliz. Podemos viver sem isso, que podemos, mas é melhor quando se tem. E não é fácil ter tempo e disponibilidade mental e emocional para arranjar alguém quando se está sozinha com os filhos. Ou então sou eu que sou muito esquisita (o que é verdade) e não tenho lá muita sorte (o que também é verdade) e se calhar não sou uma pessoa muito gostável (o que pode ser verdade) e depois o tempo passa e cada vez parece mais difícil. Apetece desistir mas cá dentro não consigo desistir. É como se faltasse sempre qualquer coisa.
Reparo agora que a palavra que mais vezes escrevi neste texto é "difícil". E é verdade. É difícil. Mas não é só difícil. Não posso ser injusta. Também aconteceram coisas muito incríveis e muito boas na minha vida, muitas delas com os meus filhos e outras tantas sem eles. Não tenho dúvidas de que por estarmos só os três existe entre nós uma relação super-especial e íntima. Mesmo quando foi mais difícil. Mesmo no meio das correrias e das zangas e das febres e dos choros e das idas às urgências e dos trabalhos de casa e da playstation e de todas as angústias, conseguimos, ainda assim, viver momentos mesmo fixes. Além disso, tenho que reconhecer que sou uma pessoa muito privilegiada e que, apesar de tudo ser tão difícil, consegui manter uma vida social minimamente aceitável e estar com muitas das pessoas que são importantes (e até outras que nem por isso) e fazer muitas das coisas que gosto de fazer. Com esforço, sim, com sentimentos de culpa vários, claro, mas não posso dizer que tenham sido dez anos maus, que não foram, não foram mesmo.
Passaram dez anos. Nunca, nem por um momento, me arrependi de ter tomado a decisão de me divorciar. Por mais difícil que seja a vida assim, sei que teria sido muito mais infeliz (e não teria sido necessariamente mais fácil) se tivesse continuado casada. Tenho muitas dúvidas sobre muitas coisas, e sobre mim, mas disto tenha a certeza.
Seguimos, sorrindo.

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