Para 2017

Labels: Vida
"Vou estar pelos teus lados, queres almoçar?" Bastou uma mensagem assim para estar com o único amigo que tenho no Porto. Raramente nos vemos, para falar a verdade podemos até passar anos sem falarmos, mas quando nos encontramos é bom como sempre. Falamos de tudo e de nada, calamo-nos, abraçamo-nos muito, dizemos umas parvoíces, discutimos o sentido da vida, ou pelo menos o sentido das nossas vidas. É uma daquelas amizades sem merdas, sabem? Uma coisa rara entre homens e mulheres: uma amizade sem equívocos. Tenho a sorte de ter alguns (poucos, não chegam a uma mão cheia) bons amigos homens assim.
Curiosamente, chamam-se todos João.
Labels: Amigos
"Vou estar pelos teus lados, queres almoçar?" Bastou uma mensagem assim para estar com o único amigo que tenho no Porto. Raramente nos vemos, para falar a verdade podemos até passar anos sem falarmos, mas quando nos encontramos é bom como sempre. Falamos de tudo e de nada, calamo-nos, abraçamo-nos muito, dizemos umas parvoíces, discutimos o sentido da vida, ou pelo menos o sentido das nossas vidas. É uma daquelas amizades sem merdas, sabem? Uma coisa rara entre homens e mulheres: uma amizade sem equívocos. Tenho a sorte de ter alguns (poucos, não chegam a uma mão cheia) bons amigos homens assim.
Curiosamente, chamam-se todos João.
Labels: Amigos
Calhou estar na noite de natal em casa de uma amiga, ela ter recebido um gira-discos de presente e nós estarmos naquele momento a explorar os discos de vinil da nossa juventude. Calhou ela ter, ali, o Last Christmas e o Careless Whisper em 45 rotações e, de repente, sabermos que George Michael tinha morrido e ficarmos todos meio nostálgicos. A lembrarmo-nos. Aos 10 anos, dançávamos assim, aos saltinhos, a agitar os braços, muito leves, muito felizes. Mesmo crescida, sempre gostei mais do George Michael que se dançava do que daquele que sofria em melosas baladas românticas. Não posso dizer que tenha sido um músico assim muito importante para mim mas admito que, muito por causa do trabalho mas não só, tenho ouvido as suas canções nos últimos dias e é verdade que as conheço quase todas e até sei cantar os refrões. Acho mesmo que é preciso ter crescido nos anos 80 para entender isto.
Wake Me Up Before You Go Go (1984)
I Want Your Sex (1987)
Faith (1987)
Too Funky (1992)
Outside (1998)
Calhou estar na noite de natal em casa de uma amiga, ela ter recebido um gira-discos de presente e nós estarmos naquele momento a explorar os discos de vinil da nossa juventude. Calhou ela ter, ali, o Last Christmas e o Careless Whisper em 45 rotações e, de repente, sabermos que George Michael tinha morrido e ficarmos todos meio nostálgicos. A lembrarmo-nos. Aos 10 anos, dançávamos assim, aos saltinhos, a agitar os braços, muito leves, muito felizes. Mesmo crescida, sempre gostei mais do George Michael que se dançava do que daquele que sofria em melosas baladas românticas. Não posso dizer que tenha sido um músico assim muito importante para mim mas admito que, muito por causa do trabalho mas não só, tenho ouvido as suas canções nos últimos dias e é verdade que as conheço quase todas e até sei cantar os refrões. Acho mesmo que é preciso ter crescido nos anos 80 para entender isto.
Wake Me Up Before You Go Go (1984)
I Want Your Sex (1987)
Faith (1987)
Too Funky (1992)
Outside (1998)
Véspera de Natal, por Adoniran Barbosa
"Eu me lembro muito bem
Foi numa véspera de natal
Cheguei em casa
Encontrei minha nega zangada, a criançada chorando,
Mesa vazia, não tinha nada.
Saí, fui comprar bala mistura,
Comprei também um pãozinho de mel
E cumprindo a minha jura,
Me fantasiei de papai noel
Falei com minha nega de lado
Eu vou subir no telhado
E descer na chaminé
Enquanto isso você
Pega a criançada e ensaia o dingo-bel
Ai meu deus que sacrifício
O orifício da chaminé era pequeno
Pra me tirar de lá
Foi preciso chamar
Os bombeiros"
Véspera de Natal, por Adoniran Barbosa
"Eu me lembro muito bem
Foi numa véspera de natal
Cheguei em casa
Encontrei minha nega zangada, a criançada chorando,
Mesa vazia, não tinha nada.
Saí, fui comprar bala mistura,
Comprei também um pãozinho de mel
E cumprindo a minha jura,
Me fantasiei de papai noel
Falei com minha nega de lado
Eu vou subir no telhado
E descer na chaminé
Enquanto isso você
Pega a criançada e ensaia o dingo-bel
Ai meu deus que sacrifício
O orifício da chaminé era pequeno
Pra me tirar de lá
Foi preciso chamar
Os bombeiros"
O meu primeiro médico de família, em Lisboa, era um daqueles médicos mais antigos, super experientes. Foi ele que me passou as receitas das análises, todos os meses, nas duas gravidezes. Aproveitava que tinha ali uma pessoa saudável e bem disposta à sua frente para desanuviar das consultas dos velhinhos, dizia, e ficávamos imenso tempo a conversar sobre política e saúde e jornalismo. Quando ele se reformou, fiquei sem médico de família. Fiz um requerimento e passei para a unidade de saúde familiar mais próxima. Eu adoro a minha USF. Fomos sempre atendidos com toda a atenção lá, quer pelas administrativas quer pelas enfermeiras, nada daquele ambiente caótico do centro de saúde onde as pessoas se degladiavam por uma senha às oito da manhã. Mas com a médica de família nunca tive grande empatia, sempre muito enjoadinha, quase nem olhava para mim. Um dia, apareci lá com uma tosse cavernosa que se arrastava há que tempos. Disse-me que era uma faringite. Uma semana depois voltei para lhe pedir uma baixa, com o diagnóstico de pneumonia confirmado num hospital particular. Comecei a ser seguida por um pneumologista no privado e não fiquei com grande vontade de lá voltar. Continuámos a ir à USF fazer as vacinas, trocar pensos nas cicatrizes das crianças e essas coisas, e apercebi-me que a minha doutora estava de baixa. Passaram-se meses, anos talvez. Até que, finalmente, tenho uma nova médica de família. Fui convocada para uma consulta, caso contrário perdia direito à médica. Lá fui. E adorei. Fiquei mesmo contente. Tive direito a exame ginecológico, pedido de análises de rotina, referenciação para uma consulta de alergologia, conversa sobre tudo e mais alguma coisa, um mail para escrever sempre que precise, e uma convocatória para voltar daqui a três meses com a família completa.
A parte pior foi, dois dias antes do natal, ser intimada a perder peso. Pela minha saúde e pela minha felicidade, diz ela. Eu concordo, mas isto vai custar-me horrores. Segunda-feira começo a pensar nisso, ok?
O meu primeiro médico de família, em Lisboa, era um daqueles médicos mais antigos, super experientes. Foi ele que me passou as receitas das análises, todos os meses, nas duas gravidezes. Aproveitava que tinha ali uma pessoa saudável e bem disposta à sua frente para desanuviar das consultas dos velhinhos, dizia, e ficávamos imenso tempo a conversar sobre política e saúde e jornalismo. Quando ele se reformou, fiquei sem médico de família. Fiz um requerimento e passei para a unidade de saúde familiar mais próxima. Eu adoro a minha USF. Fomos sempre atendidos com toda a atenção lá, quer pelas administrativas quer pelas enfermeiras, nada daquele ambiente caótico do centro de saúde onde as pessoas se degladiavam por uma senha às oito da manhã. Mas com a médica de família nunca tive grande empatia, sempre muito enjoadinha, quase nem olhava para mim. Um dia, apareci lá com uma tosse cavernosa que se arrastava há que tempos. Disse-me que era uma faringite. Uma semana depois voltei para lhe pedir uma baixa, com o diagnóstico de pneumonia confirmado num hospital particular. Comecei a ser seguida por um pneumologista no privado e não fiquei com grande vontade de lá voltar. Continuámos a ir à USF fazer as vacinas, trocar pensos nas cicatrizes das crianças e essas coisas, e apercebi-me que a minha doutora estava de baixa. Passaram-se meses, anos talvez. Até que, finalmente, tenho uma nova médica de família. Fui convocada para uma consulta, caso contrário perdia direito à médica. Lá fui. E adorei. Fiquei mesmo contente. Tive direito a exame ginecológico, pedido de análises de rotina, referenciação para uma consulta de alergologia, conversa sobre tudo e mais alguma coisa, um mail para escrever sempre que precise, e uma convocatória para voltar daqui a três meses com a família completa.
A parte pior foi, dois dias antes do natal, ser intimada a perder peso. Pela minha saúde e pela minha felicidade, diz ela. Eu concordo, mas isto vai custar-me horrores. Segunda-feira começo a pensar nisso, ok?
Eu ia preparada, conheço mais ou menos a obra do Ken Loach e tinha lido as críticas nos jornais, mas ainda assim foi cá um murro no estômago. É uma história tão simples e tão verdadeira de um homem que teve um ataque cardíaco e por isso se vê impedido de trabalhar mas que não tem direito ao subsídio de invalidez porque uma técnica sentada a uma secretária e sem qualquer conhecimento médico achou que ele estava apto para o trabalho. Daniel Blake passa horas em espera ao telefone, espera horas em filas para expor o seu caso. E à medida que o tempo passa e o dinheiro escasseia vai conhecendo essa miséria que se instala de mansinho. Esta é também a história de uma mãe solteira que perde o seu subsídio porque se enganou no autocarro e chegou atrasada à reunião na segurança social. Uma mãe que passa fome para alimentar os seus dois filhos (a cena no banco alimentar é absolutamente avassaladora). Eu, Daniel Blake é um filme sobre nós, sobre esta sociedade que nós construímos, onde as pessoas são reduzidas a números, onde a burocracia impera, onde não há preocupação com o outro, onde o Estado, que devia ser o garante da justiça e da segurança, é quem mais nos rouba e atrapalha e humilha.
"I am not a client, a customer, nor a service user. I am not a shirker, a scrounger, a beggar nor a thief. I am not a national insurance number, nor a blip on a screen. I paid my dues, never a penny short, and was proud to do so. I don’t tug the forelock but look my neighbour in the eye. I don’t accept or seek charity. My name is Daniel Blake, I am a man, not a dog. As such I demand my rights. I demand you treat me with respect. I, Daniel Blake, am a citizen, nothing more, nothing less. Thank you."
Labels: cinema
Eu ia preparada, conheço mais ou menos a obra do Ken Loach e tinha lido as críticas nos jornais, mas ainda assim foi cá um murro no estômago. É uma história tão simples e tão verdadeira de um homem que teve um ataque cardíaco e por isso se vê impedido de trabalhar mas que não tem direito ao subsídio de invalidez porque uma técnica sentada a uma secretária e sem qualquer conhecimento médico achou que ele estava apto para o trabalho. Daniel Blake passa horas em espera ao telefone, espera horas em filas para expor o seu caso. E à medida que o tempo passa e o dinheiro escasseia vai conhecendo essa miséria que se instala de mansinho. Esta é também a história de uma mãe solteira que perde o seu subsídio porque se enganou no autocarro e chegou atrasada à reunião na segurança social. Uma mãe que passa fome para alimentar os seus dois filhos (a cena no banco alimentar é absolutamente avassaladora). Eu, Daniel Blake é um filme sobre nós, sobre esta sociedade que nós construímos, onde as pessoas são reduzidas a números, onde a burocracia impera, onde não há preocupação com o outro, onde o Estado, que devia ser o garante da justiça e da segurança, é quem mais nos rouba e atrapalha e humilha.
"I am not a client, a customer, nor a service user. I am not a shirker, a scrounger, a beggar nor a thief. I am not a national insurance number, nor a blip on a screen. I paid my dues, never a penny short, and was proud to do so. I don’t tug the forelock but look my neighbour in the eye. I don’t accept or seek charity. My name is Daniel Blake, I am a man, not a dog. As such I demand my rights. I demand you treat me with respect. I, Daniel Blake, am a citizen, nothing more, nothing less. Thank you."
Labels: cinema
Este post contém spoilers.
Andava toda a gente à minha volta a ler a Ferrante e a dizer-me que era fabulosa. Quis ler também, pedi os livros da "Tetralogia de Nápoles" emprestados e lá fui eu. Primeira impressão: é uma escrita, de facto, viciante. Se há coisa que Elena Ferrante é é uma boa contadora de histórias. Vai intercalando historietas, grandes acontecimentos, descrições, criando suspense nos momentos certos - às vezes no final de um livro, deixando-nos em angústia até ao próximo. Raramente nos aborrece (só talvez mais para o fim, mas já lá vamos).
Informações úteis:
Elena Ferrante é o pseudónimo de uma escritora italiana que é, neste momento, um grande sucesso em todo o mundo. Estes não são os primeiros livros dela. Antes, publicou Um Estranho Amor (1992), Os Dias do Abandono (2002) e A Filha Obscura (2006). Os três foram reunidos em 2014 num único livro a que a editora chamou Crónicas do Mal de Amor. A Amiga Genial foi publicado em 2011 mas percebe-se que na cabeça da autora já estariam os outros volumes que se seguiram: História do Novo Nome (2012), História de Quem Vai e de Quem Fica (2013), História da Menina Perdida (2014) - esta é a tetralogia. Publicou ainda A Praia da Noite, um conto infanto-juvenil, e Escombros, recolha de correspondência e entrevistas à imprensa, cuja segunda versão, revista e aumentada, acabou agora de ser editada.
Ferrante mantém o anonimato desde o início, só dá entrevistas por escrito, raramente fala de si e quando o faz pensa-se que ficciona bastante. Na sua opinião, os livros valem pelo que são e não por quem são escritos. O autor é desinteressante. E é irrelevante para se compreender ou gostar dos livros. Para saberem mais, aconselho a leitura deste artigo da Isabel Lucas, que também a entrevistou.
Eu só li a chamada "Tetralogia de Nápoles".
O que eu gostei mais?
- Toda a parte histórica e social. Os quatro livros levam-nos em viagem desde a Itália do pós-guerra até à actualidade, centrando-se sobretudo em Nápoles mas passando por outras cidades. As descrições do bairro de Lila e Lenú nos anos 40 e 50 lembram-nos, inevitavelmente, aqueles filmes com mulheres aos gritos das janelas para as crianças que brincam descalças no pátio. Há uma grande atenção a toda a complexidade social e política - o fascismo, sempre presente; as máfias locais; as aspirações dos jovens estudantes comunistas em sintonia com os acontecimentos de França nos anos 60; a pobreza extrema das classes trabalhadoras; as Brigadas Vermelhas e os ataques terroristas; o fim das utopias; a disseminação da droga nos anos 80 e o novo comércio em torno dela; a corrupção na política. Muitas vezes, o contexto social e político serve apenas como pano de fundo, outras vezes as personagens estão de facto envolvidas nestes acontecimentos. Em todo o caso, seja graças às descrições seja graças à acção, Elena Ferrante tem uma capacidade extraordinária de nos levar para um tempo e um espaço e de nos fazer viver esse tempo e esse espaço. O que me leva ao ponto seguinte:
- A profundidade. Tudo é contado com tempo e grandes pormenores. Seja um vestido, seja a decoração de uma sala, a vista da janela, o caminho até à praia, aquela personagem que só vai aparecer agora e depois vai-se embora. Só assim é possível que entremos verdadeiramente naquela história. Passeamos pelas ruas de Nápoles, apanhamos comboios, vamos a festas e casamentos. É delicioso de ler. Isso e o facto de as personagens serem, no essencial, as mesmas ao longo dos quatro volumes, o que nos permite acompanhar o seu crescimento, a sua evolução e o seu envelhecimento, construindo a sua personalidade. Apercebemo-nos dos seus sentimentos, antecipamos as suas reacções, compreedemos algumas das suas atitudes. Por tudo isto, parece-me que a escrita de Ferrante é ligeira mas não é "light". Ao contrário de alguma literatura contemporânea muito preocupada com a velocidade da acção, com personagens que aparecem em catadupa sem qualquer profundidade, Elena Ferrante opta pela duração, pela permanência, pelo aprofundamento do conhecimento que temos daquela gente, página a página.
- As mulheres. A vida das mulheres não era fácil. Mal-tratadas pelos pais, sem direito a opinião, muitas vezes sem direito a estudar ou a ter uma carreira própria, usadas pelos namorados, reduzidas a mulheres submissas, submetidas à moral machista dominante, as mulheres não podiam reclamar nem tinham direito a ter os seus próprios desejos, levavam pancada, aturavam as amantes dos maridos, caladas ou apelidadas de putas - a condição femina está ali muito bem retratada. Era num bairro pobre em Nápoles, mas podia ser na Lisboa dos anos 60 (ou qualquer outro lugar de Portugal, muitos anos depois). Elena Ferrante não faz este relato como uma denúncia, não é panfletária. Trata-se apenas de contar as coisas como elas eram, como as duas personagens principais - Lenú e Lila - as viveram. A maneira como, na adolescência, as meninas vivem o aparecimento do "sangue" chega a ser comovente. Ou quando Lila descreve a sua noite de núpcias. A descoberta de Lenú de que pode ter uma palavra a dizer, que quer interromper este ciclo.
- As mulheres ainda. Os livros são contados na primeira pessoa por Lenú e dão-nos todas as contradições que passam por aquela cabeça. Os medos, os muitos medos (serei suficientemente boa?), os desejos, as paixões. Desse ponto de vista, é um livro admirável. Porque todas nós nos iremos reconhecer em alguma parte. Aquela paixão juvenil escondida. O medo de ser recusada. As decisões pouco racionais. A inveja da beleza da amiga. O querer parecer melhor do que se é. A procura de uma aceitação. E, acima de tudo, aquela vontade de sair do bairro, de se completar fora dali, de ascender socialmente, de ser diferente dos seus pais e dos amigos de infância, de ser alguém - uma mulher que recusa o seu papel de mulherzinha. A relação com a mãe (foi uma das coisas de que mais gostei, o modo como a relação com a mãe se vai modificando, as expectativas que a mãe tem para a filha, aquela relação quase de amor-ódio, em que a mãe não parece respeitar as decisões da filha mas depois aparece para ajudá-la nos momentos mais complicados, o amor que as liga mas que nenhuma quer admitir, as semelhanças entre elas à medida que envelhecem). As relações sexuais, que não são como se imaginou que fossem ser, que não são, na sua maioria, fruto de paixões arrebatadoras típicas dos livros românticos, que são muitas vezes apenas aquilo que são e assim são descritas, sem grandes assombramentos. O regresso a casa - aquela necessidade de sair e ao mesmo tempo a necessidade de voltar (sei tão bem como é).
- A escrita fluída mas sempre correcta. Às vezes, pareceu-me que estava perante uma telenovela, tal o enredo enrolado, os amores e desamores trocados, mas há que dizer que, apesar da ligeireza dos temas, Ferrante nunca se deixa cair para uma escrita banal. Pelo contrário. Há um pormenor muito importante. O livro é escrito como se a sexagenária Lenú estivesse a fixar as suas memórias. Quando conta a infância, o conhecimento que ela tem daqueles acontecimentos é o conhecimento que tinha em criança. Os sentimentos que recorda são os sentimentos de uma criança. Mesmo que isso não corresponda ao que efectivamente aconteceu, ela conta aquilo que era o seu conhecimento enquanto criança. Com uma certa ingenuidade. A mesma coisa para as memórias da juventude e para os acontecimentos mais recentes, da sua vida adulta. O ponto de vista vai-se alterando, mas nunca é o de um narrador omnisciente. Ela naquele momento só sabia aquilo. Depois, junta-lhe o que os outros lhe contaram, muitas vezes o que Lila lhe contou. Nós só sabemos de Lila o que ela decide partilhar com Lenú ou com outros, esse é sempre o grande mistério que atravessa os livros e que faz com que haja buracos negros na história, tal como acontece na nossa vida.
O que eu gostei menos:
- Confesso que me irritou profundamente a personagem de Lila. E que me irritou o facto de Lenú se deixar pisar frequentemente. Ao fim de dois ou três confrontos, já todos sabíamos como é que aquilo ia correr, como é que Lila ia ser má e como é que Lenú iria afastar-se para não se zangar e, depois, no fim, perdoar porque sentia que precisava dela. Se calhar sou eu que não percebo nada de amizades (ou de amizades de mulheres) mas aquela ligação delas não é uma coisa nada normal e foi preciso um grande esforço da minha parte para "acreditar" que isto poderia de facto de acontecer. Sessenta anos assim? Não há pachorra. Mas, pronto, elas é que são amigas, elas que se entendam.
- O problema de ganhar intimidade com as personagens é que, às vezes, nós queremos que elas se comportem de determinada maneira e depois isso não acontece e ficamos desiludidos. Aconteceu-me algumas vezes com a Lenú. Tive vontade de lhe gritar. De lhe dizer: não faças isso. Sobretudo com a Lenú adulta. Se é fácil pormo-nos no papel de uma mãe trabalhadora, a tentar ter uma carreira e ao mesmo tempo cuidar da família, há algumas atitudes dela que podem parecer incompreensíveis: a sério, Lenú, que vais sair de casa para ficar com esse que tu sabes bem como é inconstante e tratou mal outras mulheres antes de ti? E, depois, caio em mim e penso: isto está sempre a acontecer, montes de pessoas são levadas todos os dias pelas suas paixões a cometer actos irracionais, quem és tu para te pôres com essa superioridade moral? (isto sou eu, leitora, a falar comigo mesma).
- Em termos muito objectivos, parece-me que os livros são todos muito bons até ao desaparecimento de Tina. A partir dali a história derrapa um bocado. Parece, por um lado, que Lenú não dá suficiente importância, nem na sua vida nem na narrativa, a este acontecimento traumático (foi uma ideia que estive a debater ontem com a Lina, que estava muito desiludida e até indignada com a frieza da Lenú). Claro que isso é justificado pelo facto de, nessa altura, as duas amigas se separarem de modo irreversível, o que nos deixa sem acesso à cabeça de Lila. Mas a verdade é que a partir daí a sensação que tenho é que a autora já não tem mais nada de importante para contar. Toda a história das filhas, e até o facto de uma delas fugir de casa, já não faz parte desta história. É já outra coisa. E portanto tudo é contado de forma atabalhoada e sem grande alma, para chegarmos rapidamente de novo ao ponto de partida. Até me parece que a Ferrante mandou as filhas para o estrangeiro só para não ter que se preocupar com as histórias delas. Enfim. Depois há ainda aquelas páginas, quase no final, dedicadas a Nápoles, com descrições intermináveis, completamente desnecesárias, e num momento em que um pobre leitor já só quer saber como é que aquilo acaba e porque é que a Lila desapareceu do mapa. Páginas desperdiçadas. Li em diagonal.
- O final deixa, claramente, a porta aberta a mais um volume. Ficamos sem saber porque é que Lila desapareceu. E também ficamos sem saber porque é que guardou as bonecas tantos anos e porque as devolveu agora. Ficamos sem saber nada do que se passa dentro daquela cabeça louca, afinal. No entanto, espero que Elena Ferrante não caia na tentação de continuar esta saga. Está bom como está.
Agora, quem será o primeiro a querer fazer um filme disto? Essa é que me parece a questão que se segue.
Este post contém spoilers.
Andava toda a gente à minha volta a ler a Ferrante e a dizer-me que era fabulosa. Quis ler também, pedi os livros da "Tetralogia de Nápoles" emprestados e lá fui eu. Primeira impressão: é uma escrita, de facto, viciante. Se há coisa que Elena Ferrante é é uma boa contadora de histórias. Vai intercalando historietas, grandes acontecimentos, descrições, criando suspense nos momentos certos - às vezes no final de um livro, deixando-nos em angústia até ao próximo. Raramente nos aborrece (só talvez mais para o fim, mas já lá vamos).
Informações úteis:
Elena Ferrante é o pseudónimo de uma escritora italiana que é, neste momento, um grande sucesso em todo o mundo. Estes não são os primeiros livros dela. Antes, publicou Um Estranho Amor (1992), Os Dias do Abandono (2002) e A Filha Obscura (2006). Os três foram reunidos em 2014 num único livro a que a editora chamou Crónicas do Mal de Amor. A Amiga Genial foi publicado em 2011 mas percebe-se que na cabeça da autora já estariam os outros volumes que se seguiram: História do Novo Nome (2012), História de Quem Vai e de Quem Fica (2013), História da Menina Perdida (2014) - esta é a tetralogia. Publicou ainda A Praia da Noite, um conto infanto-juvenil, e Escombros, recolha de correspondência e entrevistas à imprensa, cuja segunda versão, revista e aumentada, acabou agora de ser editada.
Ferrante mantém o anonimato desde o início, só dá entrevistas por escrito, raramente fala de si e quando o faz pensa-se que ficciona bastante. Na sua opinião, os livros valem pelo que são e não por quem são escritos. O autor é desinteressante. E é irrelevante para se compreender ou gostar dos livros. Para saberem mais, aconselho a leitura deste artigo da Isabel Lucas, que também a entrevistou.
Eu só li a chamada "Tetralogia de Nápoles".
O que eu gostei mais?
- Toda a parte histórica e social. Os quatro livros levam-nos em viagem desde a Itália do pós-guerra até à actualidade, centrando-se sobretudo em Nápoles mas passando por outras cidades. As descrições do bairro de Lila e Lenú nos anos 40 e 50 lembram-nos, inevitavelmente, aqueles filmes com mulheres aos gritos das janelas para as crianças que brincam descalças no pátio. Há uma grande atenção a toda a complexidade social e política - o fascismo, sempre presente; as máfias locais; as aspirações dos jovens estudantes comunistas em sintonia com os acontecimentos de França nos anos 60; a pobreza extrema das classes trabalhadoras; as Brigadas Vermelhas e os ataques terroristas; o fim das utopias; a disseminação da droga nos anos 80 e o novo comércio em torno dela; a corrupção na política. Muitas vezes, o contexto social e político serve apenas como pano de fundo, outras vezes as personagens estão de facto envolvidas nestes acontecimentos. Em todo o caso, seja graças às descrições seja graças à acção, Elena Ferrante tem uma capacidade extraordinária de nos levar para um tempo e um espaço e de nos fazer viver esse tempo e esse espaço. O que me leva ao ponto seguinte:
- A profundidade. Tudo é contado com tempo e grandes pormenores. Seja um vestido, seja a decoração de uma sala, a vista da janela, o caminho até à praia, aquela personagem que só vai aparecer agora e depois vai-se embora. Só assim é possível que entremos verdadeiramente naquela história. Passeamos pelas ruas de Nápoles, apanhamos comboios, vamos a festas e casamentos. É delicioso de ler. Isso e o facto de as personagens serem, no essencial, as mesmas ao longo dos quatro volumes, o que nos permite acompanhar o seu crescimento, a sua evolução e o seu envelhecimento, construindo a sua personalidade. Apercebemo-nos dos seus sentimentos, antecipamos as suas reacções, compreedemos algumas das suas atitudes. Por tudo isto, parece-me que a escrita de Ferrante é ligeira mas não é "light". Ao contrário de alguma literatura contemporânea muito preocupada com a velocidade da acção, com personagens que aparecem em catadupa sem qualquer profundidade, Elena Ferrante opta pela duração, pela permanência, pelo aprofundamento do conhecimento que temos daquela gente, página a página.
- As mulheres. A vida das mulheres não era fácil. Mal-tratadas pelos pais, sem direito a opinião, muitas vezes sem direito a estudar ou a ter uma carreira própria, usadas pelos namorados, reduzidas a mulheres submissas, submetidas à moral machista dominante, as mulheres não podiam reclamar nem tinham direito a ter os seus próprios desejos, levavam pancada, aturavam as amantes dos maridos, caladas ou apelidadas de putas - a condição femina está ali muito bem retratada. Era num bairro pobre em Nápoles, mas podia ser na Lisboa dos anos 60 (ou qualquer outro lugar de Portugal, muitos anos depois). Elena Ferrante não faz este relato como uma denúncia, não é panfletária. Trata-se apenas de contar as coisas como elas eram, como as duas personagens principais - Lenú e Lila - as viveram. A maneira como, na adolescência, as meninas vivem o aparecimento do "sangue" chega a ser comovente. Ou quando Lila descreve a sua noite de núpcias. A descoberta de Lenú de que pode ter uma palavra a dizer, que quer interromper este ciclo.
- As mulheres ainda. Os livros são contados na primeira pessoa por Lenú e dão-nos todas as contradições que passam por aquela cabeça. Os medos, os muitos medos (serei suficientemente boa?), os desejos, as paixões. Desse ponto de vista, é um livro admirável. Porque todas nós nos iremos reconhecer em alguma parte. Aquela paixão juvenil escondida. O medo de ser recusada. As decisões pouco racionais. A inveja da beleza da amiga. O querer parecer melhor do que se é. A procura de uma aceitação. E, acima de tudo, aquela vontade de sair do bairro, de se completar fora dali, de ascender socialmente, de ser diferente dos seus pais e dos amigos de infância, de ser alguém - uma mulher que recusa o seu papel de mulherzinha. A relação com a mãe (foi uma das coisas de que mais gostei, o modo como a relação com a mãe se vai modificando, as expectativas que a mãe tem para a filha, aquela relação quase de amor-ódio, em que a mãe não parece respeitar as decisões da filha mas depois aparece para ajudá-la nos momentos mais complicados, o amor que as liga mas que nenhuma quer admitir, as semelhanças entre elas à medida que envelhecem). As relações sexuais, que não são como se imaginou que fossem ser, que não são, na sua maioria, fruto de paixões arrebatadoras típicas dos livros românticos, que são muitas vezes apenas aquilo que são e assim são descritas, sem grandes assombramentos. O regresso a casa - aquela necessidade de sair e ao mesmo tempo a necessidade de voltar (sei tão bem como é).
- A escrita fluída mas sempre correcta. Às vezes, pareceu-me que estava perante uma telenovela, tal o enredo enrolado, os amores e desamores trocados, mas há que dizer que, apesar da ligeireza dos temas, Ferrante nunca se deixa cair para uma escrita banal. Pelo contrário. Há um pormenor muito importante. O livro é escrito como se a sexagenária Lenú estivesse a fixar as suas memórias. Quando conta a infância, o conhecimento que ela tem daqueles acontecimentos é o conhecimento que tinha em criança. Os sentimentos que recorda são os sentimentos de uma criança. Mesmo que isso não corresponda ao que efectivamente aconteceu, ela conta aquilo que era o seu conhecimento enquanto criança. Com uma certa ingenuidade. A mesma coisa para as memórias da juventude e para os acontecimentos mais recentes, da sua vida adulta. O ponto de vista vai-se alterando, mas nunca é o de um narrador omnisciente. Ela naquele momento só sabia aquilo. Depois, junta-lhe o que os outros lhe contaram, muitas vezes o que Lila lhe contou. Nós só sabemos de Lila o que ela decide partilhar com Lenú ou com outros, esse é sempre o grande mistério que atravessa os livros e que faz com que haja buracos negros na história, tal como acontece na nossa vida.
O que eu gostei menos:
- Confesso que me irritou profundamente a personagem de Lila. E que me irritou o facto de Lenú se deixar pisar frequentemente. Ao fim de dois ou três confrontos, já todos sabíamos como é que aquilo ia correr, como é que Lila ia ser má e como é que Lenú iria afastar-se para não se zangar e, depois, no fim, perdoar porque sentia que precisava dela. Se calhar sou eu que não percebo nada de amizades (ou de amizades de mulheres) mas aquela ligação delas não é uma coisa nada normal e foi preciso um grande esforço da minha parte para "acreditar" que isto poderia de facto de acontecer. Sessenta anos assim? Não há pachorra. Mas, pronto, elas é que são amigas, elas que se entendam.
- O problema de ganhar intimidade com as personagens é que, às vezes, nós queremos que elas se comportem de determinada maneira e depois isso não acontece e ficamos desiludidos. Aconteceu-me algumas vezes com a Lenú. Tive vontade de lhe gritar. De lhe dizer: não faças isso. Sobretudo com a Lenú adulta. Se é fácil pormo-nos no papel de uma mãe trabalhadora, a tentar ter uma carreira e ao mesmo tempo cuidar da família, há algumas atitudes dela que podem parecer incompreensíveis: a sério, Lenú, que vais sair de casa para ficar com esse que tu sabes bem como é inconstante e tratou mal outras mulheres antes de ti? E, depois, caio em mim e penso: isto está sempre a acontecer, montes de pessoas são levadas todos os dias pelas suas paixões a cometer actos irracionais, quem és tu para te pôres com essa superioridade moral? (isto sou eu, leitora, a falar comigo mesma).
- Em termos muito objectivos, parece-me que os livros são todos muito bons até ao desaparecimento de Tina. A partir dali a história derrapa um bocado. Parece, por um lado, que Lenú não dá suficiente importância, nem na sua vida nem na narrativa, a este acontecimento traumático (foi uma ideia que estive a debater ontem com a Lina, que estava muito desiludida e até indignada com a frieza da Lenú). Claro que isso é justificado pelo facto de, nessa altura, as duas amigas se separarem de modo irreversível, o que nos deixa sem acesso à cabeça de Lila. Mas a verdade é que a partir daí a sensação que tenho é que a autora já não tem mais nada de importante para contar. Toda a história das filhas, e até o facto de uma delas fugir de casa, já não faz parte desta história. É já outra coisa. E portanto tudo é contado de forma atabalhoada e sem grande alma, para chegarmos rapidamente de novo ao ponto de partida. Até me parece que a Ferrante mandou as filhas para o estrangeiro só para não ter que se preocupar com as histórias delas. Enfim. Depois há ainda aquelas páginas, quase no final, dedicadas a Nápoles, com descrições intermináveis, completamente desnecesárias, e num momento em que um pobre leitor já só quer saber como é que aquilo acaba e porque é que a Lila desapareceu do mapa. Páginas desperdiçadas. Li em diagonal.
- O final deixa, claramente, a porta aberta a mais um volume. Ficamos sem saber porque é que Lila desapareceu. E também ficamos sem saber porque é que guardou as bonecas tantos anos e porque as devolveu agora. Ficamos sem saber nada do que se passa dentro daquela cabeça louca, afinal. No entanto, espero que Elena Ferrante não caia na tentação de continuar esta saga. Está bom como está.
Agora, quem será o primeiro a querer fazer um filme disto? Essa é que me parece a questão que se segue.
Na sexta-feira fui, finalmente, ver Tristeza e Alegria na Vida das Girafas, um espectáculo de Tiago Rodrigues, com um fantástico grupo de actores - Carla Galvão, Tonan Quito, Pedro Gil e Miguel Borges. O espectáculo estreou em 2011 na Culturgest, depois andou em digressão, entretanto já tinha voltado a Lisboa e eu nunca tinha conseguido vê-lo. Este mês, voltou a estar em cena, no Teatro Nacional D. Maria II, e eu lá consegui, mesmo antes de terminar a carreira. Em boa hora. É um grande espectáculo. Eu fui à confiança, porque gosto muito daquela gente toda, juntos ou em separado, mas a verdade é que já tinha ouvido grandes elogios e algumas críticas mesmo más, por isso não sabia muito bem o que esperar.
A história em linhas gerais é isto: há uma menina de oito anos que está a fazer um trabalho para a escola sobre girafas e, por isso, precisa muito de ter o discovery channel. Mas a mãe morreu há pouco e o pai ficou desempregado e por isso não tem dinheiro para pagar a televisão por cabo. Então a menina revolta-se e parte numa aventura por Lisboa com o seu urso de peluche, chamado Judy Garland, à procura de uma solução. Claro que isto dito assim não parece muito estimulante. O segredo é a forma como isto é contado. É a menina, que está habituada a encontrar todas as explicações que precisa no dicionário, falar como se fosse um dicionário. É aquele urso ser um "bocadinho" malcriado (confesso que houve ali uma altura em que o excesso de palavrões me incomodou um bocado, pareceu-me que estavam a desviar a atenção do que era importante, mas na verdade tudo encaixa, não é algo despropositado). É o pai ser actor e sonhar com Tchekhov. É o Passos Coelho a comer um croissant, descalço, no seu gabinete. É tudo junto. Nesta aventura, a menina cresce. Cresce muito.
Fazendo jus ao título que fala de tristeza e alegria, neste espectáculo ri e chorei, sim, chorei, é mesmo muito tocante. É um espectáculo que olha para a nossa sociedade, que crítica de forma muito clara estes tempos de crise em que vivemos, mas também fala de nós, daquilo que somos na nossa intimidade, da família, de pais e filhos, da infância, dos medos das crianças e do que é ser adulto.
Tenho muita pena de não ter ido vê-lo mais cedo só para vos dizer: não percam.

Labels: teatro
Na sexta-feira fui, finalmente, ver Tristeza e Alegria na Vida das Girafas, um espectáculo de Tiago Rodrigues, com um fantástico grupo de actores - Carla Galvão, Tonan Quito, Pedro Gil e Miguel Borges. O espectáculo estreou em 2011 na Culturgest, depois andou em digressão, entretanto já tinha voltado a Lisboa e eu nunca tinha conseguido vê-lo. Este mês, voltou a estar em cena, no Teatro Nacional D. Maria II, e eu lá consegui, mesmo antes de terminar a carreira. Em boa hora. É um grande espectáculo. Eu fui à confiança, porque gosto muito daquela gente toda, juntos ou em separado, mas a verdade é que já tinha ouvido grandes elogios e algumas críticas mesmo más, por isso não sabia muito bem o que esperar.
A história em linhas gerais é isto: há uma menina de oito anos que está a fazer um trabalho para a escola sobre girafas e, por isso, precisa muito de ter o discovery channel. Mas a mãe morreu há pouco e o pai ficou desempregado e por isso não tem dinheiro para pagar a televisão por cabo. Então a menina revolta-se e parte numa aventura por Lisboa com o seu urso de peluche, chamado Judy Garland, à procura de uma solução. Claro que isto dito assim não parece muito estimulante. O segredo é a forma como isto é contado. É a menina, que está habituada a encontrar todas as explicações que precisa no dicionário, falar como se fosse um dicionário. É aquele urso ser um "bocadinho" malcriado (confesso que houve ali uma altura em que o excesso de palavrões me incomodou um bocado, pareceu-me que estavam a desviar a atenção do que era importante, mas na verdade tudo encaixa, não é algo despropositado). É o pai ser actor e sonhar com Tchekhov. É o Passos Coelho a comer um croissant, descalço, no seu gabinete. É tudo junto. Nesta aventura, a menina cresce. Cresce muito.
Fazendo jus ao título que fala de tristeza e alegria, neste espectáculo ri e chorei, sim, chorei, é mesmo muito tocante. É um espectáculo que olha para a nossa sociedade, que crítica de forma muito clara estes tempos de crise em que vivemos, mas também fala de nós, daquilo que somos na nossa intimidade, da família, de pais e filhos, da infância, dos medos das crianças e do que é ser adulto.
Tenho muita pena de não ter ido vê-lo mais cedo só para vos dizer: não percam.

Labels: teatro
Afinal, tinha ainda mais coisas para dizer sobre a Cornucópia. Estive lá ontem, na despedida, e foi bonito e emocionante. Admiro muito a serenidade e a lucidez de Luís Miguel Cintra e de Cristina Reis. É óbvio que pensaram muito nesta decisão antes de a tomarem. Não é à toa que uma companhia com 43 anos de trabalho decide que não se vai recandidatar aos apoios do Estado e, assim, declara que termina a sua actividade.
Se isto fosse, de facto, uma jogada, como alguns acusam, não o teriam feito assim - o fim foi propositadamente "escondido" num mail enviado à comunicação social há duas semanas, onde se anunciava a récita de ontem. Mesmo quando o assunto começou a ser falado, esta semana, Cintra recusou-se a responder às perguntas dos jornalistas. Só falou na sexta-feira. A despedida era sábado. O prazo para a recandidatura aos subsídios termina na próxima sexta-feira, dia 28. Se fosse uma jogada, seria muito arriscada, não acham? Eles, melhor do que ninguém, sabem que os estatutos de excepção não se cozinham em meia dúzia de dias na semana do natal.
O que eu senti foi que tanto o Luís Miguel como a Cristina estavam tranquilos com a decisão que tomaram. Tristes mas conscientes de que terminar assim é a melhor maneira de terminar - sem fazer concessões no seu trabalho e sem se endividarem. Estão cansados, disseram-no tantas vezes ontem. O Luís Miguel está bastante debilitado. Não querem continuar nestes moldes e estão no seu direito.
Estariam dispostos a continuar noutros moldes? Claro que se entra por ali um furacão Marcelo a propor estatutos de excepção e a perguntar "se lhes dessem mais dinheiro vocês continuariam?", até eles ficaram um pouco entusiasmados com a ideia. Quem não ficaria? As televisões a filmar e o professor a querer uma resposta concreta para poder sair dali rapidamente e com a imagem de salvador. Mas é óbvio que os problemas estruturais do teatro português não se resolvem com uma intervenção "espectacular" do Presidente da República (se fosse assim tão simples, alguém já o teria feito). E o que ficou claro, não só naquele momento como depois, em tudo o que foi dito ao longo da tarde (e noite), é que não há tempo e muito provavelmente também não há paciência nem disposição para muito mais negociações. Posso estar enganada, claro, vamos ter que esperar pelos próximos acontecimentos.
Quanto ao resto, os que lá estiveram sabem que assistiram a um momento especial. Mais um naquela casa.

(fui roubar esta foto ao instagram da Maria João Costa porque, para mim, é mesmo a melhor)
Afinal, tinha ainda mais coisas para dizer sobre a Cornucópia. Estive lá ontem, na despedida, e foi bonito e emocionante. Admiro muito a serenidade e a lucidez de Luís Miguel Cintra e de Cristina Reis. É óbvio que pensaram muito nesta decisão antes de a tomarem. Não é à toa que uma companhia com 43 anos de trabalho decide que não se vai recandidatar aos apoios do Estado e, assim, declara que termina a sua actividade.
Se isto fosse, de facto, uma jogada, como alguns acusam, não o teriam feito assim - o fim foi propositadamente "escondido" num mail enviado à comunicação social há duas semanas, onde se anunciava a récita de ontem. Mesmo quando o assunto começou a ser falado, esta semana, Cintra recusou-se a responder às perguntas dos jornalistas. Só falou na sexta-feira. A despedida era sábado. O prazo para a recandidatura aos subsídios termina na próxima sexta-feira, dia 28. Se fosse uma jogada, seria muito arriscada, não acham? Eles, melhor do que ninguém, sabem que os estatutos de excepção não se cozinham em meia dúzia de dias na semana do natal.
O que eu senti foi que tanto o Luís Miguel como a Cristina estavam tranquilos com a decisão que tomaram. Tristes mas conscientes de que terminar assim é a melhor maneira de terminar - sem fazer concessões no seu trabalho e sem se endividarem. Estão cansados, disseram-no tantas vezes ontem. O Luís Miguel está bastante debilitado. Não querem continuar nestes moldes e estão no seu direito.
Estariam dispostos a continuar noutros moldes? Claro que se entra por ali um furacão Marcelo a propor estatutos de excepção e a perguntar "se lhes dessem mais dinheiro vocês continuariam?", até eles ficaram um pouco entusiasmados com a ideia. Quem não ficaria? As televisões a filmar e o professor a querer uma resposta concreta para poder sair dali rapidamente e com a imagem de salvador. Mas é óbvio que os problemas estruturais do teatro português não se resolvem com uma intervenção "espectacular" do Presidente da República (se fosse assim tão simples, alguém já o teria feito). E o que ficou claro, não só naquele momento como depois, em tudo o que foi dito ao longo da tarde (e noite), é que não há tempo e muito provavelmente também não há paciência nem disposição para muito mais negociações. Posso estar enganada, claro, vamos ter que esperar pelos próximos acontecimentos.
Quanto ao resto, os que lá estiveram sabem que assistiram a um momento especial. Mais um naquela casa.

(fui roubar esta foto ao instagram da Maria João Costa porque, para mim, é mesmo a melhor)
Sinto-me uma privilegiada. Por ter visto alguns dos espetáculos da Cornucópia. Por ter visto "Demónios", de Lars Nóren, na primeira vez que fui ao Teatro do Bairro Alto em 1997. "O Casamento de Fígaro" com aquele grupo de actores - Rita Durão, Rita Loureiro, José Airosa e Ricardo Aibéo. "O Colar", de Sophia, que era uma preciosidade. "A Gaivota", de Tchekov. "A Tempestade", de Shakespeare, com Nuno Lopes e João Pedro Vaz. "A Varanda", de Genet. Tantos outros. Mesmo quando algum espectáculo não me enchia as medidas, saí sempre de lá mais rica. Sinto-me uma privilegiada. Por ter visto Luís Miguel Cintra a representar. E por ter tido a oportunidade de conversar com ele, de o ouvir a explicar-me o teatro e a vida. A Cornucópia ajudou-me a ser uma espectadora melhor, mais atenta, mais exigente. A Cornucópia fez-me pensar. Mas também me divirtiu, deliciou-me, fez-me rir, comoveu-me. É tudo isso o bom teatro.
É verdade que já não se faz muito teatro assim, como o deles. Com aquele cuidado em cada pormenor, com aquela beleza, com aqueles cenários maravilhosos da Cristina Reis, com aquela dedicação exclusiva. Ali acreditava-se que para se conseguir a excelência era necessário tempo - para pensar, para criar, para investigar, para ensaiar, para errar e emendar e repetir, para reflectir, para descansar. Este tempo custa dinheiro. Hoje em dia, a maioria dos atores, encenadores e outros criadores tem que se dividir por muitas actividades, têm que fazer telenovelas de manhã, varrer o chão do teatro à tarde e subir ao palco à noite para conseguirem sobreviver. As companhias têm que preencher muitos quadros em excel, cumprir muitos objectivos, fazer não sei quantas criações novas por ano e mais as digressões e mais o serviço pedagógico e preencher mais uns formulários e cumprir não sei quantos prazos e regras e requisitos. A Cornucópia assumiu que não está para isso. Já fez o que tinha a fazer, já deu provas da sua qualidade ao longo destes 43 anos. As pessoas estão mais velhas, o Luís Miguel está doente. Não se vai pôr a fazer monólogos e peças portáteis só para cumprir objectivos de secretaria. Não poderia nunca baixar a fasquia da qualidade. "Não querem assim como nós fazemos, paciência", dizia ele de há uns anos para cá. "Não me vou pôr a mendigar subsídios." Mas mesmo com todos os avisos, mesmo vendo os sinais, não queríamos acreditar que este momento fosse chegar. (teria sido possível, como alguns defendem, ter aberto um regime de excepção para que esta companhia, ou outras, não tivessem que se sujeitar às mesmas regras dos grupos mais recentes e com outros modelos de produção? gostaria de acreditar de sim. mas temo que os problemas e as polémicas e até as injustiças que essa solução iria originar iriam acabar por torná-la desastrosa)
É muito triste, como me dizia o Tiago Rodrigues, saber que os nossos filhos já não vão poder ver os espectáculos da Cornucópia. Eu própria sinto isso às vezes, mas ao contrário, penso que pena não ter visto este espetáculo que aconteceu quando eu era ainda criança. Mas é assim mesmo. O teatro é a arte do efémero. Por isso eu fico triste mas prefiro pensar que foi uma sorte e um privilégio ter estado por aqui, nesta cidade, a ver teatro, e ainda ter apanhado a Cornucópia em actividade.
(eu sou das que tendem a ver sempre o copo meio-cheio, mas sobre isso falarei amanhã que hoje já é muito tarde)

Esta é uma imagem do primeiro espetáculo da Cornucópia, "O Misantropo" (1973)
Labels: teatro
Sinto-me uma privilegiada. Por ter visto alguns dos espetáculos da Cornucópia. Por ter visto "Demónios", de Lars Nóren, na primeira vez que fui ao Teatro do Bairro Alto em 1997. "O Casamento de Fígaro" com aquele grupo de actores - Rita Durão, Rita Loureiro, José Airosa e Ricardo Aibéo. "O Colar", de Sophia, que era uma preciosidade. "A Gaivota", de Tchekov. "A Tempestade", de Shakespeare, com Nuno Lopes e João Pedro Vaz. "A Varanda", de Genet. Tantos outros. Mesmo quando algum espectáculo não me enchia as medidas, saí sempre de lá mais rica. Sinto-me uma privilegiada. Por ter visto Luís Miguel Cintra a representar. E por ter tido a oportunidade de conversar com ele, de o ouvir a explicar-me o teatro e a vida. A Cornucópia ajudou-me a ser uma espectadora melhor, mais atenta, mais exigente. A Cornucópia fez-me pensar. Mas também me divirtiu, deliciou-me, fez-me rir, comoveu-me. É tudo isso o bom teatro.
É verdade que já não se faz muito teatro assim, como o deles. Com aquele cuidado em cada pormenor, com aquela beleza, com aqueles cenários maravilhosos da Cristina Reis, com aquela dedicação exclusiva. Ali acreditava-se que para se conseguir a excelência era necessário tempo - para pensar, para criar, para investigar, para ensaiar, para errar e emendar e repetir, para reflectir, para descansar. Este tempo custa dinheiro. Hoje em dia, a maioria dos atores, encenadores e outros criadores tem que se dividir por muitas actividades, têm que fazer telenovelas de manhã, varrer o chão do teatro à tarde e subir ao palco à noite para conseguirem sobreviver. As companhias têm que preencher muitos quadros em excel, cumprir muitos objectivos, fazer não sei quantas criações novas por ano e mais as digressões e mais o serviço pedagógico e preencher mais uns formulários e cumprir não sei quantos prazos e regras e requisitos. A Cornucópia assumiu que não está para isso. Já fez o que tinha a fazer, já deu provas da sua qualidade ao longo destes 43 anos. As pessoas estão mais velhas, o Luís Miguel está doente. Não se vai pôr a fazer monólogos e peças portáteis só para cumprir objectivos de secretaria. Não poderia nunca baixar a fasquia da qualidade. "Não querem assim como nós fazemos, paciência", dizia ele de há uns anos para cá. "Não me vou pôr a mendigar subsídios." Mas mesmo com todos os avisos, mesmo vendo os sinais, não queríamos acreditar que este momento fosse chegar. (teria sido possível, como alguns defendem, ter aberto um regime de excepção para que esta companhia, ou outras, não tivessem que se sujeitar às mesmas regras dos grupos mais recentes e com outros modelos de produção? gostaria de acreditar de sim. mas temo que os problemas e as polémicas e até as injustiças que essa solução iria originar iriam acabar por torná-la desastrosa)
É muito triste, como me dizia o Tiago Rodrigues, saber que os nossos filhos já não vão poder ver os espectáculos da Cornucópia. Eu própria sinto isso às vezes, mas ao contrário, penso que pena não ter visto este espetáculo que aconteceu quando eu era ainda criança. Mas é assim mesmo. O teatro é a arte do efémero. Por isso eu fico triste mas prefiro pensar que foi uma sorte e um privilégio ter estado por aqui, nesta cidade, a ver teatro, e ainda ter apanhado a Cornucópia em actividade.
(eu sou das que tendem a ver sempre o copo meio-cheio, mas sobre isso falarei amanhã que hoje já é muito tarde)

Esta é uma imagem do primeiro espetáculo da Cornucópia, "O Misantropo" (1973)
Labels: teatro
Isto é bem bonito. Labirinto ou Não foi Nada (poema de David Mourão Ferreira sobre o Fado Vianinha, de Francisco Viana) é o primeiro single do novo disco de Gisela João, Nua. O videclipe foi realizado por André Tentugal e é protagonizado por Fernando Santos/ Deborah Cristal.
Labels: música
Isto é bem bonito. Labirinto ou Não foi Nada (poema de David Mourão Ferreira sobre o Fado Vianinha, de Francisco Viana) é o primeiro single do novo disco de Gisela João, Nua. O videclipe foi realizado por André Tentugal e é protagonizado por Fernando Santos/ Deborah Cristal.
Labels: música
Saímos da aula de bateria do Pedro já depois das sete e meia. Carregados de mochilas. Caminhámos uns dez minutos debaixo daquela chuvinha até casa. A última coisa que nos apetecia era voltar a sair. Já imaginávamos a nossa noite de sexta-feira passada no sofá, em frente da televisão, enroscados nas mantas. Mas... sabem, eu queria muito ir ver a Capicua. Eu nunca a tinha visto ao vivo e tinha passado o último mês a controlar a ocupação da sala no ticketline ao mesmo tempo que tentava convencer uma amiga a fazer-nos companhia, até que, à última hora, tinha conseguido uns bilhetes à borla mesmo irresistíveis, como é que eu poderia não ir? Vá lá, miúdos, façam isto pela mãe. Eles fizeram. E ainda bem. Foi mesmo bom. A nossa felicidade pode ser ver a felicidade de alguém, em cima do palco, a cantar uma música dedicada às mulheres que se levantam cedo para trabalhar ou outra para as mulheres que são maltratadas pelos homens, a dizer que "para ser rainha nunca foi preciso rei", a lembrar o 25 de abril e a cantar em rap as palavras de Sophia de Mello Breyner ("como casa limpa, como chão varrido, como porta aberta") e Sérgio Godinho ("só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, a habitação, saúde, educação"). Os miúdos, claro, pediam a Maria Capaz e Vayorken, que também chegaram, mais para o fim, quando já estávamos todos de pé e a fazer "muito barulho". Não sei muito bem o que é que eles perceberam de tudo o que foi dito mas sei que vê-la ali, tão feliz e genuína, com a sua blusa de bolinhas e folhos, a ser exactamente aquilo que quer ser, sem ligar a estereótipos parvos, e ouvir o que ela nos tem a dizer em forma de poemas ao mesmo tempo duros e belos, é uma grande lição. Para eles e para mim.
Capicua, Medo
e A Mulher do Cacilheiro.
Saímos da aula de bateria do Pedro já depois das sete e meia. Carregados de mochilas. Caminhámos uns dez minutos debaixo daquela chuvinha até casa. A última coisa que nos apetecia era voltar a sair. Já imaginávamos a nossa noite de sexta-feira passada no sofá, em frente da televisão, enroscados nas mantas. Mas... sabem, eu queria muito ir ver a Capicua. Eu nunca a tinha visto ao vivo e tinha passado o último mês a controlar a ocupação da sala no ticketline ao mesmo tempo que tentava convencer uma amiga a fazer-nos companhia, até que, à última hora, tinha conseguido uns bilhetes à borla mesmo irresistíveis, como é que eu poderia não ir? Vá lá, miúdos, façam isto pela mãe. Eles fizeram. E ainda bem. Foi mesmo bom. A nossa felicidade pode ser ver a felicidade de alguém, em cima do palco, a cantar uma música dedicada às mulheres que se levantam cedo para trabalhar ou outra para as mulheres que são maltratadas pelos homens, a dizer que "para ser rainha nunca foi preciso rei", a lembrar o 25 de abril e a cantar em rap as palavras de Sophia de Mello Breyner ("como casa limpa, como chão varrido, como porta aberta") e Sérgio Godinho ("só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, a habitação, saúde, educação"). Os miúdos, claro, pediam a Maria Capaz e Vayorken, que também chegaram, mais para o fim, quando já estávamos todos de pé e a fazer "muito barulho". Não sei muito bem o que é que eles perceberam de tudo o que foi dito mas sei que vê-la ali, tão feliz e genuína, com a sua blusa de bolinhas e folhos, a ser exactamente aquilo que quer ser, sem ligar a estereótipos parvos, e ouvir o que ela nos tem a dizer em forma de poemas ao mesmo tempo duros e belos, é uma grande lição. Para eles e para mim.
Capicua, Medo
e A Mulher do Cacilheiro.
Em julho de 2015, Arthur, um dos filhos de Nick Cave, morreu ao cair de um penhasco em Brighton. Tinha 15 anos. O músico estava nessa altura a meio do processo de criação de mais um disco, Skeleton Tree. As canções compostas antes só ficaram concluídas depois. Na fase final de produção, Nick Cave permitiu que uma equipa de filmagem dirigida por Andrew Dominik acompanhasse a gravação. O resultado é um filme extraordinário, One More Time With Feeling, onde o músico se mostra como nunca na sua fragilidade e no seu sofrimento, de forma desarmante, a tentar dar algum sentido à sua música, às suas palavras, à sua vida. É isso que vemos naquele ecrã, quase sempre a preto e branco, um pai a fazer o luto do seu filho da melhor maneira que sabe: a pôr mão no ombro do filho que lhe resta, Earl (eram gémeos), a sorrir para a mulher, Susan, a entregar-se ao trabalho e a criar mais um disco com os companheiros de sempre, os Bad Seeds, e pelo meio a tentar construir frases sabendo à partida que tudo o que disser sobre o assunto é bullshit e só pode ser bullshit. Não há narrativa possível.
Mas não é só bullshit, claro. Reconhecemos aquela culpa, o desespero, as perguntas por responder, a descrença, o sofrimento. A música que ganha novos sentidos. As imagens desfocadas. Será da câmara ou serão as nossas lágrimas? A dor que é dele e que é de todos nós. A mais temível de todas as dores.
Há um momento em que Cave fala de como o tempo é elástico. Houve aquele acontecimento traumatizante, onde o tempo parou, e depois a vida continuou e todos eles, mal ou bem, continuaram a viver. E é como se estivessem a esticar o elástico. Mais cedo ou mais tarde, são forçados a voltar ao ponto de partida. Àquele momento terrível. Por mais que façam, não podem apagar aquele acontecimento. As pessoas dizem-lhe "ele continua a viver no nosso coração" e Cave diz que sim, ele continua no seu coração, mas "já não vive". Essa é a dura verdade. "Isto aconteceu-nos a nós, mas aconteceu-lhe também a ele." Há uma vida que foi interrompida. Que ficou por viver.
Um trauma destes muda-nos de maneira profunda. Tornamo-nos outros, diz ele, que não se reconhece no espelho, que não consegue prever as suas próprias reacções nem os seus sentimentos. Não sabe muito bem quem é agora. O novo Nick Cave deixa que o filmem a mudar de camisa, com a voz embargada, a dar a mão à mulher por baixo da mesa, a dizer que não tem a certeza se quer ser filmado. "O que é que eu estou a fazer?"
Ele é outro. Assim como Susan e Earl também serão outros. E, no entanto, ali estão eles: "Decidimos ser felizes. É o nosso desafio."
Mesmo que, no final, só reste um vazio.
E, nós, depois disto, dizendo umas piadas para tornar mais suportável o momento em que nos encaramos todos à medida que as luzes se acendem, saímos do cinema, enfrentamos o frio, corremos para abraçar os nossos. E ouvimos as músicas de Skeleton Tree como se fosse a primeira vez. One more time with feeling.
Em julho de 2015, Arthur, um dos filhos de Nick Cave, morreu ao cair de um penhasco em Brighton. Tinha 15 anos. O músico estava nessa altura a meio do processo de criação de mais um disco, Skeleton Tree. As canções compostas antes só ficaram concluídas depois. Na fase final de produção, Nick Cave permitiu que uma equipa de filmagem dirigida por Andrew Dominik acompanhasse a gravação. O resultado é um filme extraordinário, One More Time With Feeling, onde o músico se mostra como nunca na sua fragilidade e no seu sofrimento, de forma desarmante, a tentar dar algum sentido à sua música, às suas palavras, à sua vida. É isso que vemos naquele ecrã, quase sempre a preto e branco, um pai a fazer o luto do seu filho da melhor maneira que sabe: a pôr mão no ombro do filho que lhe resta, Earl (eram gémeos), a sorrir para a mulher, Susan, a entregar-se ao trabalho e a criar mais um disco com os companheiros de sempre, os Bad Seeds, e pelo meio a tentar construir frases sabendo à partida que tudo o que disser sobre o assunto é bullshit e só pode ser bullshit. Não há narrativa possível.
Mas não é só bullshit, claro. Reconhecemos aquela culpa, o desespero, as perguntas por responder, a descrença, o sofrimento. A música que ganha novos sentidos. As imagens desfocadas. Será da câmara ou serão as nossas lágrimas? A dor que é dele e que é de todos nós. A mais temível de todas as dores.
Há um momento em que Cave fala de como o tempo é elástico. Houve aquele acontecimento traumatizante, onde o tempo parou, e depois a vida continuou e todos eles, mal ou bem, continuaram a viver. E é como se estivessem a esticar o elástico. Mais cedo ou mais tarde, são forçados a voltar ao ponto de partida. Àquele momento terrível. Por mais que façam, não podem apagar aquele acontecimento. As pessoas dizem-lhe "ele continua a viver no nosso coração" e Cave diz que sim, ele continua no seu coração, mas "já não vive". Essa é a dura verdade. "Isto aconteceu-nos a nós, mas aconteceu-lhe também a ele." Há uma vida que foi interrompida. Que ficou por viver.
Um trauma destes muda-nos de maneira profunda. Tornamo-nos outros, diz ele, que não se reconhece no espelho, que não consegue prever as suas próprias reacções nem os seus sentimentos. Não sabe muito bem quem é agora. O novo Nick Cave deixa que o filmem a mudar de camisa, com a voz embargada, a dar a mão à mulher por baixo da mesa, a dizer que não tem a certeza se quer ser filmado. "O que é que eu estou a fazer?"
Ele é outro. Assim como Susan e Earl também serão outros. E, no entanto, ali estão eles: "Decidimos ser felizes. É o nosso desafio."
Mesmo que, no final, só reste um vazio.
E, nós, depois disto, dizendo umas piadas para tornar mais suportável o momento em que nos encaramos todos à medida que as luzes se acendem, saímos do cinema, enfrentamos o frio, corremos para abraçar os nossos. E ouvimos as músicas de Skeleton Tree como se fosse a primeira vez. One more time with feeling.
Gostei tanto de conversar com a Kim, a Helena, o António e o Carlos. São pessoas mesmo bonitas e inspiradoras e eu tenho esta sorte de os conhecer e de os ver em palco e de ainda poder escrever sobre eles. Este fim-de-semana eles e os outros elementos da Companhia Maior vão estar no CCB a fazer o seu Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare, com encenação de Tónan Quito.
Sou fã da Companhia Maior, como podem ver pelo que escrevi em 2010, em 2011, em 2013, em 2014 e em 2015 (só falhei um ano, mas 2012 foi um ano de muitas falhas, vá-se lá saber o que aconteceu). Envelhecer a fazer o que mais se gosta, seja no palco ou fora dele. É o que todos queremos.
Vão, vão, que não se vão arrepender.
A foto do ensaio é do Gustavo Bom/Global Imagens.
Labels: jornalismo, teatro
Gostei tanto de conversar com a Kim, a Helena, o António e o Carlos. São pessoas mesmo bonitas e inspiradoras e eu tenho esta sorte de os conhecer e de os ver em palco e de ainda poder escrever sobre eles. Este fim-de-semana eles e os outros elementos da Companhia Maior vão estar no CCB a fazer o seu Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare, com encenação de Tónan Quito.
Sou fã da Companhia Maior, como podem ver pelo que escrevi em 2010, em 2011, em 2013, em 2014 e em 2015 (só falhei um ano, mas 2012 foi um ano de muitas falhas, vá-se lá saber o que aconteceu). Envelhecer a fazer o que mais se gosta, seja no palco ou fora dele. É o que todos queremos.
Vão, vão, que não se vão arrepender.
A foto do ensaio é do Gustavo Bom/Global Imagens.
Labels: jornalismo, teatro