Wednesday, May 20, 2009

A minha escola


Eu andei sempre na escola pública. Tive bons colegas e maus colegas. Ricos e pobres. Limpos e sujos. Espertos e preguiçosos. Sou do tempo em que ainda havia a escola primária e o ciclo, em que havia furos e sempre que um professor faltava ficávamos por ali a deambular, em que os currículos não eram enriquecidos e não havia ninguém para me orientar o estudo. As coisas eram o que eram. Havia bons alunos e maus alunos e alunos médios. Havia os que já sabiam o que queriam ser quando fossem grandes, havia os que queriam ir para a universidade e os que se ficavam pelo caminho. Sem dramas. Havia chumbos e não havia cá recuperações nem programas especiais. Tive colegas que deixaram a escola no oitavo ano para se juntarem com o namorado, para terem filhos, para irem trabalhar numa oficina. Eu sou do tempo em que o balneário do ginásio tinha duche colectivo e quando as meninas estavam com o período pediam dispensa da ginástica ao professor porque não sabiam muito bem como resolver a coisa. Sou do tempo em que nas aulas de trabalhos manuais aprendíamos a fazer macramé e fada-do-lar (lembram-se?), em que fazíamos bonecos horrorosos em barro e chaveiros de madeira. Não tínhamos disciplinas com nomes pomposos mas aprendíamos a escrever à máquina e a redigir cartas comerciais. Os testes eram dados em stencil e, com sorte, nas aulas havia uns acetatos manhosos projectados no quadro. Fazíamos trabalhos de grupo, em cartolinas ou em folhas A4 escritas à mão - não havia internet nem copy-paste, era preciso ler livros e copiar letra a letra (e enquanto líamos e escrevíamos e passávamos a limpo e tudo isso, alguma coisa ia ficando na cabeça). Eu tive bons professores e maus professores. Péssimos e excelentes. Tive professores apaixonados, que não se limitavam a dar matéria, que não se limitavam à matéria. E tive professores que não faziam a mínima ideia do que estavam a ensinar (para terem uma ideia um dos meus professores de biologia é hoje, na mesma escola, professor de culinária). Tive professores que não sabiam domar as feras de doze anos, que eram gozados e aldrabados, que tinham alcunhas feias e que, se fosse hoje, teriam as aulas no youtube para serem criticados pelo país inteiro e quem sabe até com direito a processos disciplinares. Tive professores na faculdade que de doutores só tinham o nome, que se estavam a marimbar para nós, que não davam as aulas ou que só queriam que nós os ajudássemos a fazer investigação para as suas teses de doutoramento.
A minha escola tinha problemas, pois tinha, mas não foi nada disso que me fez ser pior pessoa ou mais burra ou mais inculta ou mais mal educada. Porque o mais importante da educação não vem da escola, vem de casa. O mais importante de tudo foi o que os meus pais me ensinaram. Uma ética que me fez ir sempre às aulas, que me coibia de cabular, que me fazia estudar sem ser obrigada (porque esse era o meu trabalho e porque ainda acreditávamos todos que o bom trabalho seria recompensado). Um brio que me fazia querer fazer as coisas bem feitas, ir para além da mediania, dar o máximo. Uma curiosidade que me fazia querer saber mais, não ficar só a a marrar para os testes mas gostar realmente de aprender. Sem isto, a escola até pode ser a melhor do mundo, ter milhares de magalhães e quadros interactivos, ter professores com a papelada toda em dia e currículos muito bonitos. Mas não adianta nada.

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23 Comments:

Blogger Fofocas said...

ipsis verbis.
sem tirar nem por.
eu não diria melhor.
poderia ter sido eu a descrever tudo isto.
sou de 1973 e esta foi a minha infância/adolescencia

11:59 PM  
Anonymous sorcha said...

clap clap clap... que se batam palmas. Pois sempre assim pensei e continuo a pensar. E um viva à minha professora da primária, a D.Regina... linda, esbelta, exigente, unhas vermelhas, já era velha na altura... mas deixou-me saudades.

9:34 AM  
Blogger I. said...

Palmas de pé. Sou de 1971, e esta foi a minha escola.
Sou também do tempo em que se os alunos tivessem más notas os pais os punham de castigo, e não iam tirar satisfações (ou dar umas galhetas) ao professor.

10:44 AM  
Blogger marta said...

clap, clap, clap.

10:45 AM  
Blogger 3Picuinhas said...

e esqueceste os castigos construtivos por parte da entidade parental: chumbas vais trabalhar nas férias! muito construtivo quanto a mim.
E a frase chave do meu pai que já dei por mim a repetir ao meu sobrinho mais velho: a escola é o teu trabalho! trabalhas, tens ténis novos; não trabalhas vais ter de ser tu a arranjar dinheiro para os Sanjo

11:09 AM  
Blogger AnaD/FG said...

É pena que hoje em dia se ache que a educação se dá na escola ... tal como o texto diz, a essência da educação nasce em casa.

Não tenho filhos, mas tenho crianças que me são próximas e preocupa-me muito e cada vez mais a questão da educação. Felizmente as "minhas" são à moda antiga.

12:05 PM  
Blogger Débora said...

BRAVO

2:47 PM  
Blogger Sanxeri said...

A escola deve ensinar-nos a crescer. Se puserem as crianças numa redoma de ouro, vao atrofiar.

3:38 PM  
OpenID gilvas said...

a existência dos problemas nos alimentava a gana e a vontade de vencê-los, e assim aprendíamos, os conhecimentos forjados em nossas cabeças pelas tais condições difíceis. muito bom o teu texto.

4:51 PM  
Anonymous Maria_S said...

Gostei muito do texto. Sou de 1963 :).

7:57 PM  
Blogger Espiral said...

Bem eu nasci em 1985, e a minha primária (e liceu) também foi exactamente assim. Sem tirar nem pôr. =)

E também nunca tive recompensas pelas boas notas, porque "não fazes mais que a tua obrigação". e realmente é verdade.

E tive bons e maus professores e fiz trabalhos em cartolinas e aprendi ponto-de-cruz. E quando os professores faltavam era uma festa.

E as aulas 100? Alguém tinha as festas das aulas 100? e das aulas 200? e das 101 ou 99 (quando eram pegadas à 100)? Será que hoje em dia ainda há? Com musica e doces e muito barulho? Duvido.

Ah, que saudades =)

Espiral

11:29 PM  
Blogger Carlos Barbosa de Oliveira said...

Pois, mas isso era no tempo ( que também era o meu...)em que os pais ainda não se tinham demitido de educar os filhos, e não delgavam a sua educação nos professores.
Hoje, a maioria dos pais encara a escola como depósito e sucedâneo da educação familiar ( Sei bem que não é o seu caso...) e transmite isso aos filhos.
Depois dá nisto.

11:41 PM  
Blogger Rita Quintela said...

gostei muito

2:00 PM  
Anonymous Anonymous said...

Concordo consigo em 99%. Ainda sou mais antiga de 1961...outros tempos.È pena que esta nova geração esteja tão mal educada. Infelizmente num futuro próximo iremos ter as consequências deste facto.Sou mãe e tenho prescindido de muitas coisas na minha vida pela minha filha, contudo não me arrependo de nada muito pelo contrário, hoje já posso levantar a cabeça e gritar um bem haja a tudo o que faço por ela. Refiro-me essencialmente ao tempo que passo com ela e á atenção que lhe dou, apesar de ser uma mãe trabalhadora.

2:49 PM  
Blogger MaLLu said...

:)
É tão verdade tudo o que dizes. Da escola primária e do ciclo. E também da faculdade (onde fomos colegas).
Não passou assom tanto tempo, no entanto mudou tanta coisa. Agora dou aulas (curso de comunicação social) e... e não há palavras capazes de descrever os alunos de hoje em dia. É triste. Muito triste.
Tal como tu, sempre andei em escolas públicas. Mas agora, olho para o meu filho de apenas 14 meses e para a esola (pública) onde dou aulas e... e ele já está inscrito num colégio privado. Não será garantia de nada mas...
Bjs,
Raquel

11:05 PM  
Blogger Mario said...

Vénia, profunda de concordância. Claro que os tempos mudam os modos, e é difícil, tão difícil como o tiro ao melro, perceber onde está a origem desta espiral "desqualitativa" que parece campear nas nossas escolas. Mas, tal como nos tempos descritos existiam desvios e efeitos perversos do sistema, hoje apanhamos com os cacos desses efeitos, dos antigos e dos modernos: a democracia e as leituras particulares que dela fazemos, a "escola para todos" e os mitos associados, a re-escalação dos valores e atitudes. Claro que a velocidade de circulação da informação e o voyeurismo anónimo, pastoso e electronicamente distante, potenciam, agudizam e dão visibilidade de mancha a algo que faz parte da nossa matriz cultural: a ignorância, a subserviência e a improdutividade. A mim, que também sou da "gera" dos 60's, e "profe", parece-me um problema de escala (há mais escolas, mais alunos, logo, mais problemas)e de adaptação das famílias aos vomitadores de "leis" e "certezas" (des)várias sobre famílias, crianças, pais, mães, escolas e tutti quanti.
E continuo a pensar que, num professor, o que o aluno procura descortinar primeiro, é se ele percebe daquilo e se é um bom continente do grupo. Se além disto, também for um bacano, então temos gente. Senão, é mais um adulto para confrontar. Mas, já em 68, 74, 80, ..., também era assim.
Todavia, realce-se a importância de recordar, fixar e valorizar o que a Escola Pública era, de modo a poder defendê-la dos ataques presentes, encapotados de "políticas de progresso e blá blá blás". Mais, no "meu tempo", só andavam na "escola paga" os enfezados ricos, os ricos abandonados pelos pais que tinham mais que fazer, os filhos dos cagões e os ricos burros. Seria interessante inquirir se os iluminados que nos vêm governando também se inscrevem nalguma dessas categorias...

3:17 PM  
Blogger Marinho said...

Subscrevo. Aliás, escrevo-o doutros modos e noutro registo, mas na mesma base(http://amigospontevelha.blogspot.com/).
Por isso, da mesma forma que roubava fruta, também lhe vou roubar este post. Vá lá, ainda tem sorte numa coisa: os meus pais ainda atendem queixas sobre mim e actuam em conformidade.
Obrigado e desculpe o topete.

3:26 PM  
Blogger Laidita said...

Assino em baixo a 100%. Tb andei numa escola pública e o meu filho tb anda numa escola pública (com mais condições do que a universidade onde andei) e eu não percebo aquelas pessoas que mandam a boca " pois, anda na escola pública...", quase com pena. Muitas vezes os pais viram-se do avesso para meterem os filhos em escolas que custam mais que uma universidade só para fazer bonito ou na esperança de que isso os vá tornar melhores. Esquecem-se que não é por causa disso que vão ser melhores pessoas ou profissionais...Esta ostentação do vivo uma vida que não posso pagar além de ser patético e uma das razões para haver tantos portugueses endividados. E pergunto eu, que mal é que faz a escola pública? Muitas vezes no privado têm condições muito piores.

6:01 PM  
Blogger rnpv said...

linkei faz muito mal?

:)*

3:13 PM  
Blogger Cookie said...

Sem duvida... e como mãe aquilo que espero é conseguir transmitir à minha filha essa ética de que falas!

10:45 PM  
Blogger Este Blogue precisa de um nome said...

Fui da turma da Fofocas que está lá em cima :)! E sim, a nossa Escola também era assim! Fui muito feliz!
Mas olha que o colégio da minha filha assemelha-se muito à tua descrição! E todos os dias tento passar-lhe essa ética (como diz a Cookie)! Beijo e obrigada pelo revivalismo!

12:40 PM  
Blogger Papoila said...

Fada-do-lar!!! Meus Deus, tanto que eu falo disso mas ninguém dos meus amigos conhece e há taaantos anos que não o via. Mas acho que eu dava outro nome. Bigaaaaada!!!

2:40 PM  
Anonymous MC said...

Sinto e penso exactamente o mesmo. Sou professora do ensino superior e, semestre após semestre, verifico que esse tempo já passou... algumas coisas melhoraram, sem dúvida, mas muitas outras (talvez a maior parte delas) caminharam para pior. Hoje em dia, os alunos (obvia e felizmente, não todos) não têm votade de aprender, não têm respeito nem pelo professor nem pelos colegas e são completamente irresponsáveis (pouco importa quantos anos demoram a tirar o curso porque os pais tudo pagam e tudo fazem para que os filhos sejam "doutores"). Adoro ensinar, mas fico triste com as metodologias que, cada vez mais, somos "forçados" a adoptar. Parece que a única coisa que importa é trabalhar para a estatística. Temos de ter um Portugal recheado de licenciados, mestres e doutores, mas a qualidade vai-se perdendo em todo este processo.

7:28 PM  

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