Wednesday, December 31, 2025

2025: o mundo está terrível, mas dentro de casa estamos em paz

Mais um ano. O mundo está um lugar triste e perigoso. O nosso país também. À minha volta há cada vez mais ódio e egoísmo. Na política, nas redes sociais, na rua. Temo que nos próximos anos nos vamos afundar ainda mais neste caldo de extremismos temperado por trumpes e venturas, que vamos ter ainda mais conflitos sociais e guerras mortíferas, que vamos viver tempos terríveis antes de retormamos, outra vez, o caminho do humanismo. Resta-nos continuar a lutar - cada um à sua maneira - por aquilo que julgamos correcto, pela igualdade, pela liberdade, pelo bem comum, pela solidariedade.


Pessoalmente, 2025 foi um ano bom. Nem me lembro da última vez que disse uma coisa destas. Não aconteceu nada de extraordinário, mas também não aconteceu nada de trágico. Mais importante: chego ao final do ano a sentir-me em paz, como há muito tempo não sentia. 


O segredo para ser feliz num mundo assim não é segredo nenhum: é rodearmo-nos de pessoas boas, encontrar/criar uma comunidade de gente que nos acompanhe neste olhar para o lado bom do mundo, sem alimentar a raiva e o ressentimento, que nos estenda a mão e nos acolha no seu colo nos momentos maus, gente com quem podemos conversar sobre tudo, com quem podemos chorar e gargalhar, pensar, dançar, viajar ou apenas estar. Tenho muita sorte por ter algumas pessoas assim na minha vida. Os melhores momentos do ano foram, como sempre, todos aqueles que passei com os meus amigos e a minha família. 


Para memória futura:


Não falei de tudo aqui, mas como habitualmente entre o melhor do ano estão os livros, os espectáculos de teatro e dança, os concertos, muitos filmes e muitas séries, algumas exposições. Nestes tempos sombrios é ainda mais importante alimentar o espírito.


Aceitei participar num grupo de escrita. O nosso largo está cheio de mulheres muito diferentes e com ideias diversas. Tem sido um desafio e tanto, e nem sempre consigo corresponder, mas espero que continuemos a escrever juntas.


Sobrevivemos ao apagão


Fui ao Tremor, em São Miguel. Foi incrível. Vamos voltar. 


O António saiu de casa durante sete meses. Esteve a morar noutra cidade, a três horas daqui, trabalhou, cresceu e depois voltou. Está mais responsável, mais decidido, mais autónomo. Está a transformar-se num adulto com a cabeça no lugar e o coração no sítio certo. Às vezes custa-me acreditar. Acho que até sinto um certo orgulho (não quero lançar foguetes antes do tempo, mas estou contente, sim).


O Pedro ainda me dá (e vai continuar a dar) muitas dores de cabeça. Seguimos fortes nesta travessia pela adolescência. 


Os meus filhos são o meu barómetro. Se eles estão bem, já é meio caminho andado. E este é o meu texto preferido do ano neste blogue.


Fui à Ucrânia e a Madrid. Há muito tempo que o trabalho não me levava a entrar em aviões e foi bom como sempre é. Sobretudo porque na maior parte dos dias o trabalho não me dá grandes motivos de felicidade. Parece que vamos ter de trabalhar até quase aos 68 anos, não sei como irei aguentar.


De um dia para o outro, o envelhecimento tornou-se real. Nos meus grupos de amigas, fala-se muito sobre menopausa, queixamo-nos dos males dos nossos corpos, trocamos mezinhas e recomendações médicas. Angustiamo-nos com o envelhecimento dos nossos pais, entristecemo-nos com as perdas, cada vez mais comuns.


Mas também há bebés, e a cada bebé renova-se a esperança. Nasceu o Xavier. Em breve nascerá a Emília. Por causa dos filhos das minhas amigas, voltei a bordar em ponto-de-cruz e tem sido muito divertido.


Mergulhei no Mediterrâneo. Foi fantástico (e não só por causa da temperatura da água). Estes últimos anos têm me ensinado a não fazer planos. Desfrutar o presente, aproveitar cada minuto como se fosse o último, é um desafio nem sempre fácil. "Contra todas as evidências em contrário, a alegria" - mais uma vez, ainda, enquanto for bom.


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Thursday, December 25, 2025

Para não perder a esperança

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The New Yorker at 100 é um documentário que está disponível na Netflix sobre a fantástica revista New Yorker, que está a celebrar os seus 100 anos. Para além de ficar a saber a história da revista, para um jornalista é incrível poder espreitar por dentro da New Yorker, conhecer um pouco as pessoas que lá trabalham e perceber como o fazem. É incrível e é ao mesmo tempo um bocadinho triste, diria. Se, por um lado, é muito bom saber que há redacções com um tal grau de exigência e de compromisso - veja-se o modo como verificam os factos, as discussões em cada reunião de fecho de um artigo ou até o debate sobre o livro de estilo da revista; veja-se os temas que elegem, a seriedade com que os abordam, a liberdade com que pensam -, por outro lado, é impossível não ficar um pouco deprimida ao constatar quão longe estamos (eu, nós, na minha empresa, no nosso país) desta realidade. Mesmo nos sítios melhores. Mesmo naqueles sítios que nos servem de farol. [senti mais ou menos o mesmo ao ver um outro documentário, há uns anos, sobre The New York Times]. O debate sobre o jornalismo que fazemos fica para outra ocasião. Em vez de entrar em depressão e me pôr para aqui com lamúrias, decidi aproveitar uma promoção e assinar a New Yorker por um ano. E que prazer tem sido. 



PS - Tenho uma lista de filmes vistos e sobre os quais ainda quero escrever. Não me tem apetecido escrever sobre filmes, não sei muito bem porquê. Mas a lista já vai longa e não tarda nada começa a época de prémios, por isso, prometo que me vou esforçar.

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Friday, December 19, 2025

Dançar

Ah, dançar. Eu adoro dançar. Dançar era “a” minha cena, sabem? Fechar os olhos e dançar, ocupar a pista sem pensar, ignorar os olhos que me olham, mexer o corpo sem regras. Odeio coreografias, sou incapaz de dançar em par, agarrada a alguém, mas dançar, entregar-me à dança e deixar-me ir é qualquer coisa de extraordinário. Dançar desde os tempos da Fonte Velha, a primeira discoteca da minha terra, que abriu tinha eu uns 15 anos ou por aí, das primeiras vezes ia com o meu pai, só para terem ideia, eu era a miúda que tinha o pai fixe que levava a filha e as amigas à discoteca, bebíamos Ginger Ale e dançávamos com o mesmo empenho o “Pump Up the Jam” e os U2. Dançar e saber que os rapazes me olhavam, imitar os movimentos que via nos telediscos do Prince, ir pedir ao DJ para tocar o “Mistify”. Depois, na pista da Pandora, ainda no Alentejo, sem óculos, a ver tudo nublado e a cantar “Sit down next to me”. No Tóquio, na rua que ainda não era cor-de-rosa mas era das prostitutas, onde, já na faculdade, dançávamos Pixies e Cure e Violent Femmes e eu percebi, logo aí, a cantar em coro “Here comes your man”, que aquela era a minha tribo. Nos Três Pastorinhos, a pista cheia de jornalistas como eu estava ainda a começar a ser e foi mesmo o começo de tanta coisa. Ah, dançar. Fui tão feliz a dançar no Plateau. E no Captain Kirk. E no Roterdão. E no Frágil. Foi às seis da manhã, quando me levava a casa depois de horas e horas a dançar no Lux, que ele me perguntou: “Então, também gostas de música brasileira?”, e dois anos depois casámos. Foi no Jamaica, no antigo Jamaica, que afoguei muitas mágoas, depois de me separar, apertados como sardinhas em lata, corpos desconhecidos a roçarem-se, o cheiro a tabaco a entranhar-se nas roupas e no cabelo, os copos de gin a entornarem-se por cima das roupas, os sapatos a colarem ao chão e nós a dançarmos para nos esquecermos de tudo, outra vez. “Last night she said Oh, baby, I feel so down”. É ao Incógnito, àquela pista minúscula, por baixo dos globos espelhados, que volto ainda quando quero dançar, o que acontece cada vez menos - quando foi mesmo a última vez? Ah, dançar, eu adoro dançar, mas há muito que não tenho paciência para sair à noite, para as filas, para os encontrões, para as bebedeiras, para as multidões. Das últimas vezes, mesmo voltando para casa - relativamente - cedo, acordei na manhã seguinte a sentir-me um farrapo, o corpo moído, a cabeça a zumbir.  Tenho tantas saudades de dançar. Bora organizar matinés, sem álcool nem multidões, só nós, de olhos fechados, a cantar as letras todas e a dançar, a dançar, a dançar, o que me dizem, miúdas?


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Existe uma tag dançar neste blog. Existe até uma playlist com algumas (só algumas) músicas boas para dançar. E existe esta música, que diz isto tudo que estive para aqui a dizer, mas em bom.


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Atrasei-me uma semana a vir dançar ao largo, mas aqui estou. 


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Saturday, December 13, 2025

Madrid me encanta

Fui num instantinho a Madrid em trabalho. Foram pouco mais de 30 horas na cidade, que tentei rentabilizar ao máximo. Claro que tive de trabalhar: entrevistar a diretora da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporânea durante a tarde, ver o espectáculo Amaramália à noite, ficar no hotel a escrever o texto durante a manhã. Mas todo o resto do tempo foi para aproveitar.


O que fiz:


- Visitei a exposição Leica. Un siglo de fotografía 1925-2025, no Centro Cultural Fernán Gomes, com fotografias de Steve McCurry, Elliot Erwin, Sebastião Salgado, Alberto Korda e muitos outros. Muito fotojornalismo e muita street photography. Gostei bastante. A entrada é livre.


- Fui ao Museu Thyssen-Bornemisza porque queria ver a exposição que junta Picasso e Paul Klee (tenho esta ideia de que as obras de Picasso nunca são de mais na nossa vida), depois acabei por ver também a exposição Warhol, Pollock e outros espaços americanos (é muito desigual, tem coisas muito interessantes e outras nem por isso) e por espreitar as salas da arte moderna e contemporânea.


- Entrei na Caixa Forum para ver a exposição do Matisse porque estava a chover e acabou por ser uma bela surpresa. Só conhecia aquelas obras mais famosas do Matisse e descobri que, afinal, ele teve uma carreira bastante longa e diversificada.


- Andei a passear pelo Barrio das Letras, um sítio bem agradável, com lojas mais alternativas e restaurantezinhos com um ar bastante simpático. Como continuava a chover, aproveitei para fazer uma visita guiada à casa de Lope de Vega. A guia era super divertida e empática e contou imensos pormenores sobre a vida do escritor. A entrada é livre mas é necessária inscrição porque as vagas são limitadas. 


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(no Barrio de las Letras)


E ainda consegui sentar-me a jantar e a pôr a conversa em dia com a minha querida Milú.


Não tenho a certeza, mas penso que só tinha ido uma ou duas vezes a Madrid, sempre em trabalho e sempre a correr. Lembro-me que fui ao Prado, onde vi obras de Goya e de Hieronymus Bosch, e ao Museu Reyna Sofia, ver a Guernica, pois claro. E pouco mais. Desta vez, quis evitar os museus maiores, até porque já não tenho paciência para passar horas infindas num museu, e consegui passear mais nas ruas, andei de metro, sentei-me a comer com calma. Deu para sentir mais a cidade, mas claro que ainda ficou muito por explorar. 


Uma coisa de que gostei: em todos os museus a que fui havia bastantes pessoas (mas não tantas que se tornasse impossível ver as obras), muito diferentes - turistas, crianças das escolas, grupo de idosos com um guia, casais e famílias espanholas - e todas muito interessadas. Na visita à Casa de Lope de Vega, só com espanhóis, as pessoas fizeram imensas perguntas. Nos museus havia gente a tirar selfies, grupos a conversar, o ambiente era descontraído, muito diferente da solenidade que costumamos ver por cá. Sei que às vezes os museus mais conhecidos têm a gente a mais e isso também me incomoda, mas, neste caso apenas senti que os museus estavam vivos e a ser desfrutados pelas pessoas, e isso é muito importante. Um museu demasiado vazio e silencioso é um péssimo sinal.

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Sunday, December 07, 2025

Uma viagem a Lampedusa e outros livros de não-ficção

Quero falar-vos também dos livros de não-ficção, que são sempre uma parte importante das minhas leituras.


Destes, destaco Lampedusa, o livro da Ana França que é uma grande reportagem sobre a ilha italiana que se tornou a porta de entrada de muitos imigrantes na Europa. Ao longo dos últimos anos, a jornalista do Expresso fez várias viagens a Lampedusa, investigou, entrevistou muitas pessoas e, no final, dá-nos um livro muito bem escrito, que nos mostra o lado mais humano deste drama sem esquecer toda a informação factual. 


Muito interessante também é Líbano: uma biografia, o livro onde a Safaa Dib conta a história da sua família, desde a vida atribulada dos antepassados no Líbano aos horrores da guerra civil que levaram os seus pais a vir morar em Portugal. No entanto, como li este livro logo a seguir ao excelente Lampedusa, não pude evitar constatar que faltou aqui o talento (e talvez um certo distanciamento) para transformar esta incrível saga familiar num livro igualmente incrível, ou, pelo menos, faltou um bom editor que conseguisse limar algumas arestas.


Li ainda três biografias, todas monumentais:


Logo a seguir à morte da Maria Teresa Horta, mergulhei n'A Desobediente, a biografia de autoria de Patrícia Reis, que já tinha cá em casa mas ainda não tinha tido tempo para ler. É uma óptima biografia. A Patrícia não só entrevistou várias vezes a Teresa como se tornou sua amiga, e essa proximidade traz uma outra camada ao relato de uma vida já tão cheia e com tantas coisas para contar. Não sou a maior fã da poesia de Maria Teresa Horta mas foi uma mulher extraordinária, corajosa e curiosa. Era uma pessoa por quem eu já tinha um enorme carinho, do pouco contacto que tivemos, e de quem fiquei a gostar ainda mais.


Li também a biografia que o Joaquim Vieira fez de Francisco Pinto Balsemão. É um trabalho de grande investigação, com imensos testemunhos e pormenores sobre as várias facetas de Balsemão. O biografado odiou este livro e acabou por escrever as suas próprias memórias, como que a querer deixar a sua versão dos factos. Mas o livro de memórias - que também li assim em diagonal, por motivos profissionais, é uma grande seca, há que dizê-lo.


E, finalmente, comprei na Feira do Livro, com desconto, Integrado e Marginal, biografia de José Cardoso Pires escrita por Bruno Vieira do Amaral. Não sabia muito sobre o escritor, de quem li alguns (poucos) livros e recordo sobretudo o De Profundis Valsa Lenta, que adorei. Achei que a celebração do seu centenário seria uma bela oportunidade para ficar um bocadinho menos ignorante. Foi uma excelente leitura. Tal como a biografia da Maria Teresa Horta, este é um livro que se lê como se fosse romance - como se fosse um bom romance - e isto é um grande elogio.


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Fica a faltar falar de uns dois ou três livros, tentarei fazê-lo em breve. Não sou, como já se sabia, uma leitora voraz, e os booktookers que devem estar neste momento a ler o seu 50º livro do ano ficarão, seguramente, a rir-se de mim; mas, apesar de tudo, estou muito contente. 

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Leituras boas e leituras falhadas

Perguntaram-me outro dia, num jantar com pessoas que gostam de livros, que livro mais tinha gostado de ler recentemente. Respondi de imediato, sem hesitar, que tinham sido todos os livros da Leila Slimani. A Leila, que foi a minha autora preferida de 2024, continuou a acompanhar-me este ano. Além de ter terminado a trilogia, li finalmente No Jardim do Ogre, que é um livro já de 2013 - talvez se note, um pouco, que é um livro escrito antes dos outros [escrito quando a autora era mais nova, talvez seja mais correcto dizer assim], mas é também muito bom e muito surpreendente. 


Nessa noite, vim para casa a pensar no que tenho lido. Tem sido um ano atípico, sinto que tenho lido menos do que habitualmente, menos do que desejaria, e nem sequer tenho vindo aqui falar sobre os livros, o que se calhar também contribui para esta sensação. Mas será verdade? Pus-me então a fazer mentalmente uma lista.


Concluo que continuo, com algumas boas exceções, a ler muitos mais livros escritos por mulheres do que por homens.


Além da Leila, li dois livros de autoras brasileiras de que gostei bastante: Meus Desacontecimentos, de Eliane Brum, que é um livro de autoficção, ou seja, onde a autora cria uma narrativa a partir da sua vida; e Se não fossem as sílabas do sábado, de Mariana Salomão Carrara, que me prendeu não só pelo inesperado ponto de partida - um homem cai do seu andar e, ao morrer, mata também o homem que ia a sair do prédio; a tragédia aproxima as duas viúvas, vizinhas que até aí não se conheciam e que se tornam amigas - mas também pela escrita algo poética da autora.


Aliás, fiquei tão fascinada com este livro que decidi comprar um outro livro da Mariana Salomão Carrara, É sempre a hora da nossa morte amém. E devo ter falado tanto dela que, nessa mesma altura, me ofereceram o seu livro mais recente, A árvore mais sozinha do mundo. Acontece que nenhum destes livros conseguiu cumprir as expectativas que tinha para eles. O primeiro aborreceu-me imenso, com as suas repetições; ainda me esforcei, avancei umas páginas na esperança que melhorasse, cheguei a meio mas não consegui terminá-lo. Com o outro foi ainda pior: não consegui mesmo envolver-me com a história daquela família de agricultores e penso que a culpa é do facto de a história ser contada por  uma árvore e por alguns objectos. Alguém me disse: se insistires, acabas por gostar. Mas, sinceramente, aquelas páginas que li custaram-me tanto que não me apeteceu continuar.


Percebo agora que este ano foi pródigo em leituras falhadas. 


Tentei o muito elogiado A Breve Vida das Flores, da francesa Valéri Perrin, e não consegui de todo. Disseram-me, então, que dela deveria ler o Querida Tia, e eu, obediente, tentei. Achei um pouco melhor, ainda resisti uns quantos capítulos, mas acabou por me desinteressar. Mais uma vez, o ponto de partida da história era muito bom, o que me afastou foi o estilo de escrita da autora. Não vos consigo explicar, sei dizer apenas que é uma escrita que não me agrada, parece-me tudo muito básico e ao mesmo tempo muito forçado.


O melhor exemplo disso são as gravações deixadas pela tia: mas alguém, alguma vez, falaria assim? Aquilo começou a complicar-me muito os nervos. Acertar no tom de uma fala em discurso directo é muito difícil. Imaginar diálogos ou cartas escritas por alguém é um dos grandes desafios da ficção, são poucos os que o conseguem fazer bem.


Essa foi também uma das coisas que me incomodou no romance de estreia da Luísa Sobral, Nem Todas as Árvores Morrem de Pé, que, no geral, achei muito fraco e sem qualquer densidade. Se não fosse ter-me comprometido a lê-lo por motivos profissionais não teria passado das primeiras páginas.


Ler um mau livro (um livro de que não estou a gostar) é algo muito penoso para mim. Começo a engonhar, a arranjar desculpas para não ler, passam os dias e eu tenho cada vez menos vontade de lhe pegar. Quando percebo que isso está acontecer, o melhor é desistir e passar para outro.


Felizmente, houve outros livros bons este ano. Irei falar deles já a seguir.


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Tuesday, December 02, 2025

Na pasmaceira, a felicidade de ter amigos assim

No fim-de-semana, fugi do mundo e fui para o Alentejo. Mas não fui sozinha. No sábado, rumei a Évora para o almoço de 50 anos de um grande amigo e foi mais do que bom reencontrar tantas pessoas que já não via há tanto tempo. O JP estava felicíssimo, a sopa de cação foi uma consolação e o grupo Cantares de Évora foi a sobremesa perfeita. Terminado o almoço, deixei os convivas animados a decidirem onde prosseguiriam os festejos e rumei para a costa, para o Cercal, onde um grupo de amigos-queridos e futuros-amigos me esperava para um fim de semana de poesia e pasmaceira. Caminhámos no campo, desfrutámos do silêncio, comemos e bebemos e partilhámos poemas e palavras e abraços. Foi bom de mais. A lareira aquecia a casa, a paisagem do Alentejo aqueceu-me a alma, os amigos aqueceram-me o coração. E ainda houve quem, antes da despedida, se atrevesse no mar gelado da costa vicentina. No regresso, conduzindo a sentir aquele calorzinho do sol cada vez mais baixo no horizonte, a luz incomparável do outono, vinha a pensar na sorte que tenho por ter na minha vida pessoas que me proporcionam momentos tão incríveis. E assim entramos em dezembro.


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