Thursday, August 28, 2025

Melancolia

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Não li muito neste verão. Tenho lido coisas dispersas e tenho vários livros a meio. Mas esta Melacholia agarrou-me. Quem compra os livros do Francisco José Viegas é o meu pai. Foi ele que há muito tempo me falou do inspector Jaime Ramos e que até aprendeu a fazer o seu arroz de bacalhau. Eu vou lendo os livros emprestados, é já uma tradição. Não sei se os li todos, mas li vários, de cada vez deliciando-me com as palavras difíceis, com as descrições, com as muitas enumerações. Eu, que li muitos policiais na juventude, perco-me agora com estes livros que são exactamente o oposto desses: mais do que encontrar o culpado, aqui o crime é sobretudo um pretexto para olharmos para nós e para os outros, para viajarmos e reflectirmos. Desta vez, à medida que se anuncia uma pandemia e um confinamento, o inspector vai até à Póvoa do Varzim e infiltra-se no meio dos escritores, editores e críticos litrários que se encontram à beira-mar para massajar os egos e participar em mesas de discussão com nomes incompreensíveis. O autor ri-se baixinho de si mesmo e dos seus amigos. Os escritores também morrem e também matam, também têm segredos de família, amores escondidos, fotografias guardadas. Jaime Ramos está mais velho e continua rabugento, a contornar as regras da polícia e a fumar charuto. É afastado do cargo e colocado numa prateleira, enfrenta os seus medos. Resolver o crime - nem que seja só na sua cabeça - é a sua maneira de resistir. Para nós, que estamos a ler, é puro prazer.

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Friday, August 08, 2025

Nenhures

O mundo está um lugar perigoso. E triste. Todos os dias leio notícias que me enervam ou comentários que me irritam, todos os dias me desiludo um pouco mais com os donos disto tudo, com os políticos que elegemos, com as pessoas em geral. Quem são estas pessoas racistas, machistas, egoístas, mercantilistas, fascistas, que, de repente, decidiram sair do seu buraco e desatar a gritar alarvidades? Quem são estas pessoas que odeiam as mulheres, que querem os trabalhadores escravizados, que defendem os ricos e espezinham os pobres, que apoiam ditadores, que apelam à violência, que não se comovem com a fome e a guerra e as injustiças do mundo? Quem são estas pessoas moralistas que têm gosto em achincalhar desconhecidos na internet, que perdem tempo a insultar toda a gente, que participam em espancamentos na via pública, que querem calar humoristas, controlar os corpos das mulheres, eliminar o sexo da educação escolar, quem sabe até eliminar todo e qualquer sexo (toda e qualquer pessoa) que não siga os padrões delineados pelos machos-alfa? São tantas as atrocidades à nossa volta que fica difícil comentar. Começar por onde? 


O mundo está um lugar perigoso. E triste. Sei que não podemos baixar os braços, que nos cabe a nós, todos, enquanto comunidade, fazer deste um lugar melhor. Mas há dias em que é muito difícil. Há dias em que só me apetece fugir. Ir para um sítio qualquer, não interessa muito bem qual, no meio de nenhures, onde pudesse estar desligada de toda a tecnologia - o que implicaria, obviamente, não ter o trabalho que tenho hoje - e só estivesse rodeada de pessoas boas, amigas, solidárias, empáticas. Sem ódio nem violência. Com espaço para existirmos todos, com as nossas diferenças, em liberdade. Um lugar para dar abraços. 


Infelizmente, esse lugar não existe.


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Tenho andado pouco pelo largo, mas vou esforçar-me para ser mais assídua. Até porque este largo que criámos juntas é um desses lugares bons, onde vale a pena estar, e que me faz ter alguma esperança em dias melhores. Comigo estão:


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Saturday, August 02, 2025

Julho - o que vale a pena guardar

Há 25 anos, quando estreou no Citemor o solo Os Olhos de Gulay Cabbar, Olga Roriz falava-me do envelhecimento, de como o seu corpo de bailarina estava a mudar e de que maneira isso tinha consequências na sua criação. Lembro-me dessa conversa, já tarde na noite, depois de um ensaio, num casarão em ruínas em Montemor-o-Velho. Há 25 anos, Olga Roriz era mais nova do que eu sou hoje. Há umas semanas fui vê-la em O Salvado. Outra vez sozinha em palco, ali está aquele corpo de quase 70 anos, aquela mulher inteira, que ainda dança embora já não dance como antes, exprimindo as suas preocupações, os seus devaneios, os seus pensamentos, as suas dores. O seu fantástico sentido de humor e de auto-humor. [leiam o texto da Cláudia Galhós que vale bem a pena]


Saí desse espectáculo a pensar como o tempo passa por nós e como o nosso corpo tem tantas histórias para contar, as rugas das gargalhadas, as estrias das gravidezes, as cicatrizes das operações, as marcas do sol, os quilos que ganhámos em jantares felizes e os quilos que ganhámos com os chocolates que comemos para curar as tristezas, os músculos conseguidos com sofrimento no ginásio e os músculos doloridos de carregar os bebés e as compras, os arranhões de todas as quedas que demos, até mesmo as invisíveis, está tudo ali, trazemos a nossa história connosco e não dá para fugir disto que somos, mesmo que façamos dietas e lipoaspirações, que nos mascaremos de outros, que tentemos esquecer.


Não dá para mudar o que foi, mas estamos sempre a tempo para mudar o que vai ser. Ou pelo menos, quero acreditar nisso. 


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Outras coisas de julho:


Andava há meses a segui-las no instagram mas só agora consegui, finalmente, ir a uma roda de samba do Coletivo Gira. São mulheres, são brasileiras, são feministas, são queer. Os eventos transbordam de alegria e empoderamento. Não sei sambar, mas adorei e quero voltar.


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A exposição de Paula Rego e Adriana Varejão, no CAM - Centro de Arte Moderna, é muito boa. Não conhecia o trabalho desta artista brasileira mas gostei muito. É, tal como Paula Rego, uma artista que fala muito das mulheres, de forma violenta e íntima, de uma forma mais crua e mais explícita ainda do que Paula Rego. Mais em carne viva. E junta a isto uma reflexão muito interessante sobre colonialismo. Ver as obras destas duas artistas juntas faz todo o sentido. Fiz uma visita guiada e acabou por ser uma boa opção porque me levou a prestar atenção em pormenores e interpretações que de outra forma talvez me tivessem passado despercebidos.


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O mês terminou com Partes Sensíveis, um espectáulo de dança de David Marques e Nuno Pinheiro. Foi uma boa surpresa. Um espectáculo sobre a intimidade, sobre as pequenas e grandes coisas que partilhamos quando partilhamos uma casa, sobre a descoberta do outro - quando moramos com alguém é quase como se víssemos o outro através de uma lupa, descobrindo coisas que não conhecíamos, as suas características aumentadas. Estava muito muito muito calor na sala da ZDB em Marvila, mas sobrevivemos.


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Julho teve isto tudo e ainda teve uns dias de férias com momentos de cumplicidade com os miúdos, teve dias de praia e encontros bons com alguns amigos, e teve um dia muito especial em que voltei à Colónia, mas, desta vez, levei o meu pai, a minha irmã e o meu cunhado e foi tudo muito bom. Julho também teve dias de grande solidão, desalento e muitas dúvidas. Continuo à procura do equilíbrio. Não tem sido fácil. A arte ajuda, as minhas pessoas ajudam, mas não tem sido fácil. A luta continua.

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