Thursday, March 28, 2024

Março: "The power to dream, to rule/ To wrestle the world from fools"

"Estás bem?", uma pergunta tão simples, talvez a pergunta que mais vezes fazemos uns aos outros, "Está tudo bem?". É, na maior parte das vezes, uma pergunta inconsequente, ninguém quer saber realmente se estamos bem, e por isso respondemos de forma mecânica, "Tudo", e seguimos com a conversa sobre o tempo, sobre o trabalho, sobre os filhos, sobre as eleições, o que for. Mas o que responderíamos se quiséssemos ser verdadeiramente honestos? Estou bem? Mesmo que não esteja "tudo bem", que nunca está tudo bem, estamos bem? Estou bem, digo a mim mesma. Se reflectir um pouco, se pesar os pratos da balança, se der o devido valor às coisas que me irritam e entristecem (valem assim tanto?), se quiser ser verdadeira, tenho que dizê-lo: estou bem. A vida não é a preto e branco. Os dias muito bons sucedem-se a dias muito maus que se sucedem a dias mais ou menos. No mesmo dia, temos coisas óptimas a acontecerem-nos e coisas que nos deprimem. Não é assim com todas as pessoas? Estou bem.


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Fiquei muito deprimida com os resultados das eleições. Ainda estou deprimida com isto tudo. Há muitas coisas na minha vida de todos os dias que não são perfeitas, mas tudo fica pior porque tenho que ver televisão e acompanhar as notícias relacionadas com a extrema-direita. Ouvir AV a toda a hora, as suas mentiras, os seus joguinhos, aquela retórica populista, a sua extrema falta de educação e falta de respeito por nós todos tem sido um grande foco de tristeza e desesperança. Por outro lado, existe também uma vontade de agir e reagir, partilhada por algumas pessoas à minha volta. Não sabemos ainda como, quando, onde, mas sinto que temos a responsabilidade de fazer alguma coisa.


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Já quase ninguém escreve nos blogues. Eu própria quase não escrevo no blogue. Não temos tempo, não temos paciência, assim como assim ninguém lê, pois não? Somos cada vez mais descartáveis. O Facebook está praticamente morto. O Twitter é um ninho de víboras, pessoas desejosas de dizerem coisas, seja o que for, desejosas de provocar reacções. No Twitter sou apenas observadora, mas o Instagram transformou-se no meu álbum de fotografias e memórias. O Instagram, como bem escreveu a Gabriela (que também se lamenta por escrever cada vez menos, e é uma pena), é aquela "rede social onde os mais novos só deixam 'histórias' efémeras e os mais velhos registos vários para a posteridade. É muito isto que nos diferencia, parece-me. Instagrams que vivem de marcas que permanecem e os outros, que têm zero publicações, mas inúmeras histórias que as 24 horas apagam". Eu sou da permanência ("é urgente permanecer", diz o poema de Eugénio de Andrade). A mim faz-me falta a escrita. Faz-me falta escrever-me. Não me tenho sentido suficientemente livre para fazê-lo, não sei como explicar-vos. Tenho de pensar melhor nisto.


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Emocionei-me muito a ver Um Mini Museu Vivo de Memórias do Portugal Recente, um espectáculo do Teatro do Vestido, que conta um pouco da história Portugal dos anos da ditadura e da democracia. É mesmo preciso não esquecer.


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Os jornalistas fizeram greve. Não serviu para nada, não vamos ser aumentados nem vamos ter melhores condições de trabalho, os despedimentos vão continuar, os órgãos de comunicação continuam com problemas financeiros, e, no entanto, foi importante que nos juntássemos todos, que nos olhássemos, que os outros olhassem para nós, que disséssemos em voz alta que temos mesmo que fazer alguma coisa por nós, para mudar isto, que não podemos continuar a encolher os ombros. Foi um dia muito bonito.


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Fomos ver o Sérgio Godinho ao Coliseu. Foi tão bom, tão bom. Foi tão bom poder ouvir aquelas canções acompanhada daquelas pessoas (as pessoas são sempre o mais importante). Ouvir outra vez A Garota Não. Gritar pela paz, o pão e a habitação. Cantar o Zeca e o Zé Mário. Ter um "brilhozinho nos olhos" e acreditar que, apesar de tudo, este poderia ser o "primeiro dia do resto da nossa vida".


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Também fui ver a Patti Smith com os Soundwalk Collective ao CBB. Que maravilha. O espectáculo chama-se Correspondences e baseia-se na poesia de Patti Smith, a partir do trabalho de outros artistas, aquela voz incrível num ambiente composto por vídeos e sons, levando-nos numa reflexão sobre o mundo em que vivemos, a destruição da natureza, os desastres nucleares ou questões mais humanas da nossas existência. Foi uma experiência bastante intensa que terminou com um momento de libertação, o público todo de pé a cantar People Have The Power ("The power to dream, to rule/ To wrestle the world from fools").


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Ainda não tinha ido à Casa Fernando Pessoa depois da remodelação. Vale muito a pena. A exposição está muito bonita, com partes mais informativas e outras mais poéticas. Numa das salas há uma montagem de espelhos - porque cada um de nós é muitos, porque cada pessoa é diferente dependendo do ponto de vista. Aí, conseguimos ver-nos de costas. Completamente. Não sei se alguma vez me tinha visto de costas, como se fosse outra pessoa. Foi bastante estranho. Ficámos ali algum tempo. Há algo de quase transcendental nesta experiência.


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"I know not what tomorrow will bring" - foi esta a última frase escrita por Fernando Pessoa. Não sabemos o que o amanhã nos traz. Tenho feito um esforço para tentar viver o presente sem pensar no futuro. No meu futuro, no futuro dos meus filhos, no futuro em geral. Talvez seja por estar a chegar aos 50, não sei. Não é tanto um "seize the day" no sentido de fazer tudo e devorar o mundo como se não houvesse amanhã. Não é isso. É mais um ser feliz agora, por inteiro, sem alimentar expectativas para amanhã, tentando não me angustiar. Se me conhecessem saberiam que é um desafio e tanto. É quase como suspender o pensamento. Não vou dizer que é fácil, mas até agora tem sido possível e tem sido bom. Talvez o amanhã nos traga beijos e passeios de mão dada à beira-mar. Talvez o amanhã me traga uma tarde numa esplanada, sozinha, com um livro. Seja como for, o importante é estar em paz.


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Monday, March 25, 2024

"Each time you happen to me all over again"

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"Each time you happen to me all over again", diz Newland Archer a Ellen Olenska numa das vezes em que se reencontram. Ele nervosíssimo, capaz de inventar mentiras e revirar o mundo só para poder revê-la o mais cedo possível, ansioso com a espera. Será que ela ainda o deseja?, pergunta-se. Será que? Mas, no momento em que estão juntos novamente, todas as dúvidas se dissipam. O tempo pára. O mundo à sua volta não existe. Os rostos iluminam-se. E apaixonam-se de novo, como da primeira vez.


No outro dia, estive a rever pela milésima vez A Idade da Inocência (1993), de Martin Scorsese, a partir do livro de Edith Wharton, com a Michele Pfeiffer e o Daniel Day-Lewis. Nunca tinha reparado nesta frase. É engraçado como de cada vez que vemos um filme reparamos em coisas diferentes, o que tem mais a ver connosco do que propriamente com o filme.

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Wednesday, March 13, 2024

A luta continua

 


 


"Viemos com o peso do passado e da sementeEsperar tantos anos, torna tudo mais urgenteE a sede de uma espera só se estanca na torrenteE a sede de uma espera só se estanca na torrente

 

Vivemos tantos anos a falar pela caladaSó se pode querer tudo quando não se teve nadaSó quer a vida cheia quem teve a vida paradaSó quer a vida cheia quem teve a vida parada

Só há liberdade a sérioQuando houver

A paz, o pão, habitaçãoSaúde, educaçãoSó há liberdade a sério quando houverLiberdade de mudar e decidirQuando pertencer ao povo o que o povo produzirE quando pertencer ao povo o que o povo produzir"

 

Liberdade, Sérgio Godinho

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Sunday, March 10, 2024

Esta noite também há Óscares

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Estou contente com esta temporada dos Óscares. Vi muitos filmes de que gostei bastante e entre eles estão alguns dos nomeados ao Óscar de Melhor Filme. São eles:


1. Os Excluídos


2. Assassinos da Lua das Flores


3. Anatomia de uma Queda


Na minha modesta opinião, qualquer um destes filmes seria um bom vencedor. Mas não deve acontecer. Tudo indica que este será o ano de Oppenheimer. Quanto aos outros filmes nomeados na categoria principal, estão mais ou menos assim ordenados:


4. Vidas Passadas 


5. Zona de Interesse


6. Maestro


6. Oppenheimer


7. Barbie


7. Pobres Criaturas


8. American Fiction


Sinto-me um bocadinho a falhar enquanto feminista, uma vez que não gostei dos dois filmes alegadamente feministas da lista (Barbie e Pobres Criaturas). Mas, enfim, é o que é. Mencionei vagamente o Maestro num outro post, acho que é um filme bem feito, com pormenores muito bons, mas aquelas personagens não me tocaram minimamente. Sobre o American Fiction não cheguei a escrever - gostei do ponto de partida, mas não me encheu as medidas e odiei o final, isso irritou-me e deixou-me uma sensação de frustração que não consegui ultrapassar. De resto, está tudo explicadinho - basta seguir os links.


Também escrevi sobre os candidatos a melhor filme internacional.


Dos documentários, só vi o 20 Dias em Mariupol mas, por mim, já ganhou.


E, pronto, "that's all, folks". Já sabem, vão ler críticas decentes, escritas por gente que saiba do que está a falar. Isto aqui é só conversa de café. E não fiquem acordados que não vale a pena. Dormir bem é muito importante e, além disso, o mais divertido dos Óscares é sempre ver os filmes. Depois, assim como assim, de manhã, as partes melhores vão estar todas na internet 


(na foto, que também encontrei na net, está o Charlie Chaplin. só porque sim)

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Hoje é um dia importante

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Nas primeiras eleições após o 25 de Abril, "o número de eleitores recenseados passou de cerca de 1 milhão e 800 mil para 6 milhões e 200 mil, e foram as eleições mais participadas de sempre, com uma taxa de abstenção de apenas 8%". As eleições foram uma festa, as pessoas estavam felizes por poder finalmente exercer o seu direito de voto e, livremente, decidir o futuro do país.


Como é que em menos de 50 anos chegámos aqui, a uma taxa de abstenção de cerca de 40%, com um partido populista e anti-democrático a ser a terceira força política no Parlamento?


Vão votar. Não deixem que os outros decidam por vocês.

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Friday, March 01, 2024

This is a man's world

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Ferrari é a história de um homem em conflito com o seus desejos e ambições. Ele quer ser grande nas pistas, mas para isso precisa de muito dinheiro. Ele quer ganhar corridas, para isso precisa de pilotos que estejam dispostos a arriscar tudo. Ele quer ser feliz com a sua amante, mas isso implica enfrentar a mulher que é também sua parceira de negócios. Estamos em 1957 e o senhor Enzo Ferrari encontra-se num momento decisivo.


Devo dizer que não sou a maior fã de corridas de carros (nem de motas, nem de bicicletas, já agora), nem tenho qualquer interesse por este mundo, por isso já não parti para Ferrari, de Michael Mann, com o maior dos entusiasmos. Mas, honestamente, acho que nem foi isso. O que me atrapalhou verdadeiramente foram os estereótipos (sobretudo as mulheres, claro, a esposa e a amante, mas, na verdade, toda a representação de uma certa "italianidade" idealizada), a interpretação distanciada de Adam Driver, a interpretação exagerada da Penélope Cruz e aquele sotaque "italiano" ridículo de todos eles.


Nem tudo foi mau. Achei as cenas com os carros muito bem feitas. Surpreendentemente, foram, de longe, as minhas preferidas. Mas, pronto, se calhar tenho mesmo que admitir que este filme não era para mim.


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