Wednesday, November 29, 2023

Um filme, um livro e uma boa notícia

Um filme


Só há pouco vi o multipremiado Alma Viva, o filme de Cristèle Alves Meira. Não sei porque adiei tanto. Talvez porque tenho uma relação difícil com o cinema português. Ou porque na corrida dos Óscares estava a torcer pelo Great Yarmouth. Mas lá acabei por me resignar. E foi uma muito agradável surpresa, apesar de não ser grande fã do tema dos espíritos e do diabo. Na verdade este é mais um filme sobre um Portugal que às vezes, aqui em Lisboa, nos esquecemos que existe. O interior. Sobre as relações que se estabelecem numa pequena comunidade. Sobre emigração e raízes. Férias de verão por entre os montes, bailaricos e algodão doce, rezas e superstições, os badalos das cabras como música de fundo, os rituais da morte. Também é sobre a família - e os gritos e as desavenças e os abraços e tudo isso que faz as famílias. E sobre as mulheres. Todas bruxas, mesmo as que não. De sublinhar as excelentes interpretações de Lua Michel (a "garota", Salomé, que na vida real é filha da realizadora) e Ana Padrão. 



Um livro


Mulher, Vida, Liberdade é um pequeno tesouro. Organizado pela Marjane Satrapi, artista iraniana que nos deu Persépolis, mas com a participação de vários ilustradores, este livro é tanto uma homenagem à luta das mulheres do Irão como uma aula de história ou um documentário sobre um país que vive num regime extremista do ponto de vista religioso e ditatorial do ponto de vista político. Satrapi acredita que a revolta pode sair vitoriosa. Eu não tenho tanta certeza. Podem saber mais neste artigo.


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Uma boa notícia


No próximo ano celebram-se os 50 anos do 25 de Abril e, apesar de temer pelo resultado das eleições de março, estou pronta para, aconteça o que acontecer, descer a avenida da Liberdade e emocionar-me várias vezes a cantar o Grândola, Vila Morena. A propósito, publiquei hoje esta notícia sobre a classificação como Património Nacional de dois registos desta canção de Zeca Afonso: no I Encontro da Canção Portuguesa, em 29 de março de 1974, e no programa "Limite", da Rádio Renascença, na madrugada de 25 de Abril, onde serviu como senha para dar início às movimentações dos militares. 

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Monday, November 27, 2023

"When you eat together, you stick together"

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O novo filme de Ken Loach, The Old Oak, fala da pobreza e da solidão. Da falta de empatia pelo outro. Da importância da comunidade. O pretexto é a chegada de um grupo de refugiados sírios a uma pequena localidade no norte de Inglaterra. A população, muito pobre também, reage mal ao facto de aos estrangeiros lhes serem oferecidas casas e outros apoios. Cria-se um ressentimento que logo se transforma em ódio xenófobo. É ali, numa antiga vila mineira do Reino Unido, podia ser algures no Alentejo. Os outros, que se vestem de maneira diferente, que falam uma língua que não entendemos, que cozinham comidas com cheiros estranhos, são vistos como uma ameaça, mesmo que não haja uma razão objectiva para tal. The Old Oak está longe de ser tão pungente quanto Eu, Daniel Blake (2016) e nem sequer é um dos melhores filmes de Loach. E tem uma mensagem de esperança, que não deixa de parecer um pouco fora do tempo, tendo em conta o estado actual do mundo. Mas é preciso ter um coração de pedra para não se ficar um bocadinho comovido.



Sobre a questão dos migrantes na Europa, vi, no Leffest, um outro filme que me deixou meio abananada: Io Capitano, de Matteo Garrone.  Esta é a história de Seydou, um rapaz de 15 anos, do Senegal, que quer ser rapper e sonha com uma vida melhor na Europa. Mas, para isso, tem de sobreviver à terrível viagem, a pé sob o sol do deserto ou num barco sobrelotado perdido no Mediterrâneo, enganado e mal tratado pelas redes de tráfico humano, roubado e explorado. O filme é de uma enorme violência. Fechei os olhos algumas vezes, para não ver. 



Não tem de ser sempre assim, claro, os filmes podem ser experiências muito diferentes e ainda bem. Mas há filmes que conseguem pôr-nos a olhar para o mundo e a pensar. E isso é tão necessário. É que, na vida, não adianta fechar os olhos e desejar que o filme acabe depressa.

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Sunday, November 26, 2023

Maradona: o ídolo imperfeito

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Fiquei curiosa sobre o Maradona depois de ter estado em Nápoles e de ter visto a admiração que aquela cidade tem pelo futebolista. Não fazia ideia. Na altura, o Maradona passou-me um bocado ao lado. Eu era miúda e não acompanhava muito a bola e, confesso, na final do Mundial de 1990, que foi mais ou menos quando comecei a gostar de futebol, estava a torcer pela Alemanha. Primeiro, porque eu estudava alemão e o meu liceu tinha um intercâmbio com uma escola em Dortmund que me levou a andar de avião pela primeira vez na vida, portanto, estava numa fase em que até comia salsichas com chucrute e kartoffelsalat; e, depois, porque aquele homem pequenino, atarracado e de penteado piroso não poderia nunca competir com o Lothar Matthaus, não é?


Ontem, que foi o dia de aniversário de Maradona, passou num canal qualquer um documentário sobre o jogador. É um filme realizado por Asif Kapadia, o mesmo que fez os documentários sobre a Amy Winehouse e o Ayrton Senna, usando as milhentas imagens de arquivo, muitas delas de vídeos caseiros. Pus-me a ver. O Maradona a correr que nem um touro selvagem contra tudo e contra todos, a inventar fintas, a passar por entre os adversários e a marcar golos atrás de golos. Parecia imparável. O filme acompanha sobretudo os anos da sua passagem por Nápoles, a relação com a cidade e com a Camorra, a infância pobre e a concretização de sonhos nunca sonhados, as vitórias, o relógio de ouro e o casaco de peles, o filho que não reconheceu, o golo com a mão, as festas e as mulheres, a cocaína, a mulher que aturou isto tudo desde que se conheceram quando eram ainda jovens e pobres, o modo como passou de adorado a odiado pelos italianos. É impressionante também a transformação provocada pelo vício, toda a decadência física. Diego Maradona nunca foi um "menino bem comportado", nem dentro nem fora do relvado. 


A propósito, o Bruno Vieira do Amaral partilhou ontem, no Facebook, um texto sobre o Maradona, onde diz: "Não se pode comparar a nenhum jogador de futebol, por muito talentoso, competente e vitorioso que seja, porque foi muito mais do que um jogador de futebol. Sozinho, personificou a abundância de talento, a criatividade desmesurada e a desgraça previsível de todo um continente. A sua vida foi um épico, uma tragédia e uma farsa, muitas vezes ao mesmo tempo. Foi rei e bobo da corte. (...)  o único território que Diego alguma vez reclamou foi o do coração dos adeptos e o seu único poder era o amor que lhe tinham. Pode-se discutir o que se quiser sobre a qualidade futebolística, comparar títulos e estatísticas, usar argumentos como quem usa floretes, mas ninguém de boa-fé pode contestar uma verdade evidente: nenhum futebolista foi tão amado quanto Maradona."


Também vale a pena ler o que o Marco Vaza escreveu no Público (para assinantes) a propósito da sua morte em 2020.


Continuo sem entender a idolatria, não entendo nenhuma idolatria. Mas deu para conhecer um pouco melhor Diego Maradona. Após a vitória no Mundial do México, o jogador deu uma entrevista televisiva no quarto onde tinha passado o último mês: nas paredes, mostrou orgulhoso, tinha uma fotografia da namorada, uma imagem da Virgem Maria e um poster de uma pin-up em nu frontal. Acho que é um bom resumo.


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Monday, November 13, 2023

"O Sol do Futuro" - Moretti revisited

Já passaram algumas semanas mas não queria deixar de escrever sobre O Sol do Futuro, o filme de Nanni Moretti. Não é um filme extraordinário. É um filme imperfeito, como são geralmente as comédias do Moretti. Comédia dramática é como lhe chamam. Não é daqueles filmes em que se dê grandes gargalhadas. Fica sempre ali no limite entre o isto tem graça, isto é só parvo, isto é muito triste. Ainda assim, eu gostei bastante. 


Palombella Rossa, de 1989, abria com um acidente de carro. Michelle (interpretado por Moretti) perdia a memória. Quem sou eu?, perguntava-se. "Ah, eu sou um comunista". Não vi nenhum filme anterior dele mas sei que, pelo menos a partir daí, o debate sobre a relevância do comunismo e sobre o que é ser comunista é uma constante nos filmes de Moretti.


Destaque para dois documentários:


A Coisa (1990) reúne intervenções de comunistas italianos durante os debates que aconteceram em várias secções do partido, após a queda do Muro de Berlim e do Bloco de Leste e depois de o secretário-geral do PCI, Achille Occhetto, ter defendido uma remodelação do partido, mudando o nome e os símbolos, para acompanhar a nova realidade. A desilusão dos velhos comunistas italianos, as memórias da resistência ao fascismo, as perguntas que ficam sem resposta, a defesa dos trabalhadores e de um ideal que, apesar de tudo, parece continuar a fazer sentido - o filme é um documento interessantíssimo sobre aqueles tempos.


Santiago, Itália (2018) viaja até ao Chile de Allende, breve experiência de socialismo que termina com o golpe de estado de 11 de setembro de 1973. Com muitas imagens de arquivo e os relatos de um grupo de entrevistados que, percebemos depois, são todos antigos militantes da esquerda que, depois de prisões e torturas e percebendo que a ditadura estava só a começar, acabam por se refugiar na Embaixada de Itália e, finalmente, ser extraditados para Itália como refugiados políticos. 


Dos filmes de Moretti que vi, os meus preferidos são O Quarto do Filho (2001) e Três Andares (2021) que são, precisamente, aqueles que não são comédias e que têm menos política e mais família (cada pessoa tem as suas manias, não é?).



Mas, se olharmos para Palombella Rossa (1989), Caro Diário (1993), Abril (1998) e este O Sol do Futuro (2023), é muito fácil encontrar pontos de ligação. Antes de mais, porque as personagens interpretadas por Moretti são uma espécie de alter-egos do próprio realizador. Umas vezes mais assumidamente autobiográficas (como em Caro DiárioAbril), outras vezes menos, mas temos sempre ali um pouco de Moretti com os seus interesses, as suas dúvidas. Fazendo lembrar um pouco Woody Allen, até pela torrente de discurso atabalhoado e pelo tom auto-depreciativo, só que com questões muito diferentes. A política e o cinema são os seus temas de eleição, a política, o cinema e a vida misturam-se nos filmes como se misturam na vida de Moretti. Contaminam-se. Em Abril assistimos à chegada de Berlusconi ao poder. Nanni quer fazer um documentário sobre a campanha eleitoral mas, ao mesmo tempo, está a acompanhar a gravidez de Sílvia e o nascimento do seu filho, Pietro. A sua atenção dispersa-se. O pessoal e o político confrontam-se. 


É também engraçado ver como Moretti envelhece no ecrã, um filme a seguir ao outro, e como as suas questões se mantêm ou se alteram. Podemos comparar a crise existencial da personagem do realizador de Abril com a crise existencial de Giovanni, a personagem do realizador de O Sol do Futuro. Neste, Nanni (diminutivo de Giovanni) assume quase o papel de um "velho do Restelo", que não entende como os jovens fazem cinema nem se quer vender à Netflix. Com um "realizador em crise", com Margherita Buy e Silvio Orlando, actores que conhecemos de outros filmes de Moretti, com momentos musicais e uma grande parada final com todas as personagens, O Sol do Futuro dá-nos uma certa sensação de déjà vu. A acção passa-se em 1956, durante a invasão da Hungria pela URSS, que o PCI apoia. Voltamos a ter um confronto entre pessoal e político. Que espaço para as pessoas e que papel para as ideias individuais num partido comunista? Afinal, o partido somos nós ou temos que nos sujeitar às decisões da cúpula? 


Desta vez, talvez cansado de tanta desilusão, Moretti decide alterar o final da história e fazer da utopia realidade. Se não é para isso que serve ser o realizador do filme, então é para quê? Há uma ingenuidade grande naquele final povoado de bandeiras vermelhas, é verdade. Mas não nos enganemos: Moretti sabe que aquilo é um exercício de ficção sobre um futuro que poderia ter sido. Que está a mudar o passado porque não pode mudar o presente. É por isso que aquela alegria é também um bocadinho triste.


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Sunday, November 05, 2023

Os livros de Douglas Stuart são tanto um murro no estômago como uma torrada acabada de fazer

Quando comecei a ler Um Lugar para Mungo, de Douglas Stuart, confesso que fiquei um pouco desiludida. Era tudo demasiado parecido ao seu livro anterior, Shuggie Bain. A mesma mãe alcoólica e sozinha, a braços com três filhos, um rapaz rufia, uma rapariga a tentar ser alguém e um miúdo (o protagonista da história). A pobreza de Glasgow, uma cidade dividida entre católicos e protestantes, o desemprego, a violência das ruas. Depois o livro melhorou. Shuggie era uma criança, Mungo é um adolescente. E aquilo que em Shuggie era apenas indiciado, torna-se real em Mungo, um rapaz que descobre a sua sexualidade da melhor e da pior forma. Douglas Stuart tem uma capacidade extraordinária de construir personagens verdadeiras e de criar os ambientes onde elas se movem. Quase podemos visualizar tudo. Stuart consegue de facto transportar-nos para aquelas situações e fazer-nos ver os matizes dos sentimentos daquelas pessoas. Às vezes isso é tão bonito que é emocionante. Como os momentos em que Mungo descobre o que é o amor, fecha os olhos, abraça James e sente arrepios na pele. A inocência das primeiras vezes. Para quem nunca se tinha apaixonado um beijo pode ser "como uma torrada acabada de fazer quando estamos esfomeados. Mesmo bom". Outras vezes é terrível. As descrições das violações são de uma violência extrema. O nojo de Mungo a agoniar-nos, uma revolta crescente. A vida é injusta. E é difícil sair desde ciclo de miséria. Não basta querer. É uma luta que nem todos têm forças para travar. Mesmo quando existe alguém a acenar do outro lado da rua, dizendo: "Anda, vem-te embora".


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Estes também seriam livros bons para trazer para a próxima sessão do Coletivo de Leitura, não acham?

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Thursday, November 02, 2023

Vamos falar de livros que falam de mães, pais e filhos?

Vai mesmo acontecer. No próximo dia 16 de novembro, quinta-feira, pelas 19:00, vou estar no Goethe Institut, em Lisboa, para moderar uma sessão do Coletivo de Leitura, um clube de leitura criado pela Ana Lúcia Reis e que, todos os meses, tem um moderador diferente.


A Ana Lúcia desafiou-me e, uma vez que já tinha havido uma sessão sobre livros escritos por mulheres, que seria a minha primeira escolha, de caras, sugeri o segundo tema que domina as minhas leituras: a maternidade e a paternidade.


E aqui cabe de tudo: da destemida Mãe Coragem, de Brecht, à tragédia de Édipo, de Sófocles, passando, quem sabe, por Nikolái Petróvitch Kirsánov, o pai viúvo de Pais e Filhos, de Ivan Turguénev. Digam-me vocês, que é para isso que existe este Coletivo de Leitura, para que cada pessoa traga as suas propostas de leitura.


A ideia é que cada pessoa traga um ou dois excertos para ler (ou mais, dependendo do número de pessoas que aparecerem). Iremos ler e depois iremos conversar sobre o que lemos. Se não quiserem ler, podem vir só conversar ou só ouvir. O mais importante é partilharmos leituras, despertarmos a curiosidade uns nos outros e provocarmos perguntas, reflexões e debates enriquecedores.


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Wednesday, November 01, 2023

Nápoles

"Amigos com quem temos vontade de apanhar aviões", diz a Alda. São amigos preciosos esses. Acho que ganhei mais uma amiga dessas, com quem gosto de calcorrear caminhos e descobrir lugares. Fomos juntas a Nápoles. Foi a minha primeira vez em Itália. E foi tão bom. Em primeiro lugar por causa dela, claro. Com outra pessoa seria outra viagem. Fomos com os sentidos todos bem despertos, queríamos ver com olhos de ver, ouvir o italiano e o napolitano, andar pelas ruas a pé, sentir os cheiros todos, até mesmo o cheiro do peixe frito, provar as comidas verdadeiras. E foi tão bom (já disse, eu sei, mas nunca é demais repetir). Foram apenas quatro dias e deixámos muita coisa por ver, como é óbvio. Haveremos de voltar. 


Para memória futura:


Ficámos instaladas mesmo no centro, numa ruazinha ao lado da Piazza Dante. Fantástica localização. Meia dúzia de passos e estávamos na Via Toledo, uma avenida comercial. Muito barulho. Muito trânsito. Todos os dias, a toda a hora. Montes de lambretas. Bastante poluição. Atravessar a rua era sempre um acto de bravura, uma vez que os condutores não páram nas passadeiras. É preciso avançar com determinação. Também vimos muitos condutores sem cinto de segurança e muita gente nas lambretas sem capacete - famílias inteiras, incluindo crianças, encavalitadas numa maquineta minúscula a acelerar por aquelas ruas estreitas, apitando para afastar os peões, desviando-se dos obstáculos. Andámos muito a pé, experimentámos o metro e o comboio que foram uma boa surpresa, o funicular e os autocarros. Não fomos ao bairro da Amiga Genial, da Elena Ferrante, mas "encontrámos" muitas personagens dos livros nas ruas.


O azul forte é a cor predominante em Nápoles, a cor do clube de futebol. Por todo o lado, até nos bairros menos populares, encontramos bandeiras e faixas a exaltar o "Napoli campione" e o Maradona, claro, a cara do Maradona para onde quer que nos viremos, nas paredes e nos cartazes, nas montras e nas camisolas. Não tenho muitas memórias do Maradona mas ajudou ter visto A Mão de Deus, do Sorrentino.


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Diz quem já lá esteve antes que a cidade está cada vez mais turística. Há de facto muitos grupos de turistas, filas gigantes para comer nas pizzarias mais famosas, mil lojinhas de recordações. Domingo de manhã no centro histórico era quase impossível avançar por entre a multidão - fugimos dali o mais rapidamente possível. A gentrificação está a fazer o seu caminho, é visível. O segredo é procurar outros caminhos. E pedir dicas a pessoas de lá.


Como qualquer outra cidade, Nápoles é uma cidade feita de muitas cidades. Os Quartieri Spagnoli são o bairro mais tradicional, com ruínhas estreitas que sobem e descem, prédios quase em ruínas, mercados de rua, peixe em alguidares, legumes de cores garridas. É também aqui que fica o Mural do Maradona, pintado em 1990 pelo adepto Mario Filardi. 


Atravessando para o outro lado da Via Toledo, temos o Centro Histórico. Continuam a ser ruas muito estreitas mas o ambiente é diferente. Todas as paredes e portas estão grafitadas, o que lhes dá um certo ar decadente. Há uma sujidade que faz parte do encanto destes bairros mais antigos. Vale a pena espreitar pelos portões dos pátios, alguns estão muito bem recuperados. A Piazza Bellini é um recanto simpático, a que se segue aquela que me pareceu ser uma zona mais hipster.


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Subimos no funicular até lá a cima, ao Vomero, e é como se estivéssos noutra cidade. Quem leu A Vida Mentirosa dos Adultos, da Ferrante, vai reconhecer. É uma zona mais rica, com prédios bons, árvores, silêncio. Outro tipo de lojas, outro tipo de pessoas. E uma vista fantástica sobre toda a região. Seja do Castel Sant'Elmo ou da Villa Floridiana, um pequeno paraíso verde numa cidade que é quase só cimento. Vemos o Vesúvio lá ao fundo - haveremos de lá ir numa próxima vez, assim como às ilhas de Capri, Ischia e Procida. 


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À medida que descemos as escadinhas (há muitas escadinhas, intermináveis, também podem optar por subir mas é preciso ter fôlego) voltamos ao mundo das ruelas com pouca luz e muita roupa estendida. Passeámos junto ao mar, numa zona com urbanização mais recente - Posillipo e Chiaia - e visitámos o Castel Nuovo. 


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Além dos dois castelos, só entrámos brevemente no Duomo, a catedral, que é bastante bonita, mas não tínhamos tempo para explorar - também não fomos ao Museu Arqueológico nem aos subterrâneos. Guardámos todo o nosso empenho histórico para a visita a Pompeia. Monumental. Por mais que tenha lido sobre Pompeia, não estava preparada para aquela dimensão. Ficámos lá umas quatro horas e temos a noção de que não vimos tudo, mas tentámos ver as casas principais, os murais mais interessantes e bem conservados. Dá mesmo para imaginar a vida naquela cidade. E compensa bem as dores nos pés ao final do dia causadas pelo pavimento irregular.


Comer e beber: Tudo óptimo. Não houve um dia que tivéssemos comido mal. Panini (sandes) maravilhosas, pasta (massa), peixe de todas as maneiras e feitios, pizza frita - de que não fiquei particularmente fã, a verdadeira pizza Margherita, gelados. Aperol Spritz (bebe-se mas não é a minha cena) e Limoncello (melhor, mas não dá para beber tanto). 


Dicas que nos foram úteis e por isso partilho:


O  Spiedo D'oro é um restaurante com comida de todos-os-dias, muita gente a ir buscar para levar para casa. Além da comida, tem a simpatia do Vicenzo, que, assim que descobriu que éramos portuguesas, foi ainda mais simpático.


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Para uma experiência mais turística mas ainda assim compensadora, há a Pescheria Azzurra. É daqueles sítios onde se tem de ir com tempo para desfrutar verdadeiramente. Bom para quem, como eu, gosta de ficar a observar as pessoas e as suas dinâmicas. E a comida é bastante boa.


Entre as várias livrarias-bar, gostámos da Libreria Berisio.


Para a pizza fomos à Dal Presidente que, além de ter um verdadeiro mural do Banksy (cuja fotografia, sabe-se lá como, desapareceu do meu telefone), tem muito menos confusão. 


A Vineria Indovino (para vinho e panini) e o Zazzu - Gusto Sano Napoletano (para vinho e pratos tradicionais) ficam um ao lado do outro, numa rua pouco movimentada, com esplanada e óptimo ambiente. 


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O melhor de viajar é sair da nossa conforto e deixarmo-nos ir. Entrar por ruas que não conhecemos. Levantar os olhos do chão e ver uma nesga de mar lá ao fundo. Surpreendermo-nos com os cartazes colados na parede que anunciam funerais e missas de sétimo dia como quem anuncia o circo. Tentar perceber o que dizem as pessoas na ruas e dizer um "grazzie" sem parecer que estamos a tossir. Conversar com desconhecidos que também estão a ver a final do rugby e descobrir que são jornalistas (aconteceu mesmo). Vestir uma camisola do Nápoles e ir ver o jogo de futebol num café. Ficar só a ver a paisagem, sem olhar para o relógio. Ter conversas profundas ao jantar, enquanto bebemos uma garrafa de vinho, e percebermos que queremos voltar - voltar a Nápoles, voltar a Itália, voltar a viajar, voltar a apanhar um avião ou um comboio ou uma boleia ou o que seja. Assim haja orçamento para cumprir os sonhos.

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