Tuesday, March 29, 2022

Estás sempre a tempo?


Humanos, Muda de Vida

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Friday, March 25, 2022

Este fim-de-semana há Óscares

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Gostei muito de:


A Pior Pessoa do Mundo, de Joachim Trier


A Filha Perdida, de Maggie Gyllenhaal


Flee - A Fuga, de Jonas Poher Rasmussen


Infelizmente, nenhum destes está nomeado para Melhor Filme. Qualquer um deles seria um excelente vencedor.


A Filha Perdida é uma adaptação de um livro de Elena Ferrante. Reconhecemos os temas: o mundo interior das mulheres, a maternidade, a culpa, a emancipação, o envelhecimento. A solidão. Olivia Colman e Jessie Buckley estão óptimas. Acho que todas nós conhecemos bem aquela mulher e os seus conflitos, entre os sonhos por viver e os deveres por cumprir, em busca permanente por um apaziguamento (e quando "eles crescem" não fica mais fácil, acreditem).


A Pior Pessoa do Mundo é sobre a mesma coisa tirando a parte dos filhos (ou incluindo apenas os filhos-enquanto-projecto). Sei que isto pode não fazer muito sentido dito assim, mas faz. A procura da felicidade leva-nos por caminhos sinuosos, ora vamos em frente, ora temos de recuar. A felicidade só existe com um outro? É um filme extremamente bonito na sua forma e no seu conteúdo. Já para não falar da atriz Renata Reinsve.


Flee - A Fuga é um documentário de animação (e algumas imagens reais) sobre um refugiado afegão - mas é também sobre todas as guerras e todos os refugiados, mesmo os que não dão audiências nem cliques. É um filme tocante e impactante, é belo e ao mesmo tempo um murro no estômago.


 


Gostei de:


1. Licorice Pizza, de Paul Thomas Anderson


2. O Poder do Cão, de Jane Campion


3. Belfast, de Kenneth Branagh


4. King Richard - Para Além do Jogo, de Reinaldo Marcus Green


Estes estão todos nomeados para Melhor Filme. É claro que Licorice Pizza não vai ganhar mas é o meu preferido. Sobre o Licorice Pizza e O Poder do Cão já escrevi AQUI.


Kenneth Branagh baseou-se na sua própria história para escrever o argumento de Belfast. Li algumas críticas muito más a este filme. Percebo que se ache um pouco lamechas. E talvez o preto e branco seja um pouco pretencioso. Mas é tão bonito. E o miúdo (Jude Hill) é espectacular. A Caítriona Balfe está linda e tão verdadeira. O Jamie Dorman é tipo aquele homem com quem nos apetece fazer coisas. E ainda tem a Judi Dench e o Ciáran Hinds, tão espectaculares.


O King Richard foi uma agradável surpresa. Gostei bastante deste filme ou não fosse eu uma grande fã de ténis que acompanhou bem de perto a carreira das irmãs Williams. Fiquei com nervos a ver o jogo como se fosse a sério e até me emocionei e chorei um bocadinho no fim. O Will Smith está óptimo, assim como a Anjanue Ellis e as miúdas. 


 


Gostei menos de:


1. Mães Paralelas, de Pedro Almodóvar


2. A Mão de Deus, de Paolo Sorrentino


3. Being the Ricardos, de Aaron Sorkin


Sobre Mães Paralelas e A Mão de Deus também escrevi AQUI.


Being the Ricardos, com Nicole Kidman e Javier Bardem, tem graça por ser sobre a comediante Lucille Ball e o seu marido Desi. Ir ao youtube procurar as imagens reais e compará-las com as cenas do filme é um exercício bem divertido e percebe-se o cuidado com que o filme foi feito. Mas a leveza do filme, a música irritante e a caracterização ostensiva dos actores tira-me do sério. É tudo demasiado fake (a Nicole Kidman não consegue fazer filmes de jeito sem uma "transformação"? faz lembrar a Renée Zellwegger. mas, pronto, sabemos que a Academia gosta de uma boa transformação).


 


Não gostei de:


Don't Look Up - Não Olhem Para Cima, de Adam McKay


Dune - Duna, de Denis Villeneuve (vi 20 minutos e desisti, acho que isso diz tudo)


 


Não vi mas tenho pena:


Drive My Car - Conduz o Meu Carro, de Ryusuke Hamaguchi


CODA - No Ritmo do Coração, de Sian Heder


Os Olhos de Tammy Faye, de Michael Showalter

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Sunday, March 20, 2022

Fantasmas

Ghosting. Não sabia o que era até há uns tempos. Uma amiga disse-me: "Deram-te ghosting". E eu fui à internet procurar. Ghosting. Parece que isso existe mesmo. É uma cena identificada, definida pelos dicionários urbanos e explicada pelos psicólogos. Ghosting é quando uma pessoa desaparece da tua vida sem dar qualquer explicação. Toma chá de sumiço, como se diz na minha terra.


Foi isso que fez o Zé Pedro. Um rapaz simpático, querido, culto. Conhecemo-nos na aplicação, falámos no whatsapp, conversámos ao telefone. Fomos tomar um café numa manhã de sol num desses sítios hipsters num bairro histórico de Lisboa. Depois fomos beber um gin e ver o pôr-do-sol junto ao rio. Depois fomos jantar num restaurante pacato. Depois fomos à praia. Era junho. A vida corre-me sempre melhor no verão, quando os miúdos estão de férias e os dias são compridos e parece que o tempo dá para tudo. Durante três meses fizemos companhia um ao outro. Fomos ao teatro, vimos filmes no sofá, passeámos o cão, fomos ver uma exposição, cozinhámos jantares e até fomos ao Algarve. Era bom ter alguém com quem fazer programas ao fim-de-semana e adormecer em conchinha. O Zé Pedro tinha lá as suas coisas, como toda a gente tem, mas era carinhoso e de esquerda e gostava de música alternativa. Não estávamos perdidamente apaixonados e não fizemos juras de amor nem nada que se parecesse mas tínhamos um entendimento de que continuaríamos a encontrar-nos enquanto fosse bom. Depois, chegou o outono e ele ficou muito ocupado. Hoje não, amanhã não sei. Até que um dia disse: passo aí ao meio-dia. E não passou. E não respondeu às mensagens. E não atendeu o telefone. Nunca mais. Eu, que não estava nada familiarizada com isto do ghosting, achei que o rapaz tinha tido um piripaque qualquer, fiquei morta de preocupação, fui lá tocar-lhe à campainha e já estava disposta a ir procurar a família para lhes dar os pêsames quando ele, provavelmente assustado com a minha insistência, decidiu descansar-me com uma mensagem que dizia qualquer coisa como "desculpa, tive uns problemas para resolver, depois falo contigo". Não falou. Mas eu entendi a mensagem. Não lhe tinha acontecido nada. Ele simplestemente não queria falar mais comigo.


"Deram-te ghosting", disse-me uma amiga.


Ainda nos rimos um bocado à conta desta história. 


Os anos passaram. Não faço ideia o que aconteceu ao Zé Pedro. Se conheceu outra pessoa, se estava com medo que eu o pedisse em casamento, se simplesmente estava farto de mim. Matutei um bocadinho na coisa, na altura, porque odeio não compreender algo. Gosto de pôr tudo em pratos em limpos, sem dúvidas nem zonas cinzentas. Por isso, custou-me admitir que há adultos com mais de 40 anos que não têm maturidade para chegar ao pé de uma pessoa e dizer: "olha, não quero mais". Não me parece complicado. E eu entenderia. 


As pessoas são estranhas.  

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Tuesday, March 15, 2022

O Jorge

Acordei com a notícia triste: morreu o Jorge Silva Melo. O Jorge. Que me mandava mensagens no Facebook: "Não nos queres vir ver?". Ou então alertava-me para coisas que aconteciam noutros teatros que não os dele: "Trata deles". Que me perguntava sempre: "Como está o António?", porque se lembrava de me ver grávida e tinha fixado que o meu filho tinha o nome do seu "rapaz de Lisboa". O Jorge que marcava entrevistas no "Estrela, 60, onde antes era O Bando", dizia, como se eu fosse desse tempo e soubesse. Que tinha sempre consigo um termo de chá. Que fumava cigarros atrás de cigarros. Não gostava de todos os espectáculos dele mas não faz mal. Aprendi tanto a vê-lo e a ouvi-lo. O Jorge que nos mostrou a Sarah Kane (e tanto outros autores) e o Miguel Borges (e tantos outros actores) e nos fez percorrer os caminhos d'A Capital numa altura da minha vida em que ir ver teatro naquelas ruínas no meio do Bairro Alto fazia todo o sentido. Que me falava de filmes e de espectáculos e de actores. Brilhavam-lhe os olhos quando falava dos "seus" actores. Que estava sempre disponível para conversar, sobre a crise na cultura, sobre as peças que ia fazer, sobre os atores desaparecidos, sobre as dificuldades do teatro. "Quando queres?". Só houve uma vez que me disse que não: "Desculpa, são memórias de que não quero falar. Beijos". O Jorge que falava apaixonadamente. E que inventou os ensaios de imprensa feitos à tarde, com cenas para televisão à parte, com semanas de antecedência, para dar tempo para tudo. Até para morrer e deixar um espectáculo pronto a estrear.


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Saturday, March 12, 2022

"I never thought tonight could ever be"

Dançar. Amigos. Conversas. Dançar. Rir. Cumplicidades. Dançar. Não pensar. Só ser. 



The Cure, Close to Me

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Sunday, March 06, 2022

Ucrânia

É muito simples, diz o Miguel Esteves Cardoso: "Há dois países em causa: a Rússia e a Ucrânia. A Rússia agrediu a Ucrânia. A Rússia é maior e mais forte do que a Ucrânia. E a Ucrânia está sozinha."


Podemos discutir tudo, os motivos ou a falta deles, a história, o papel dos EUA e da NATO, podemos lembrar outros conflitos, outras batalhas, outras injustiças, podemos chamar a atenção para a propaganda e a retórica que para aí anda em torno de heróis e da coragem de um povo, podemos sempre manter o espírito crítico e estar alertas para a desinformação, mas daí a defender o Putin e a invasão já me parece que vai um passo de gigante. Os ímpetos imperialistas do presidente russo são bastante assustadores.


Não há guerras boas. Nem que seja porque em todas as guerras as principais vítimas são inocentes. Num momento como este, a empatia é talvez um dos sentimentos mais importantes. Lembrem-se: podíamos ser nós. Podíamos ser nós em Donbass, onde a guerra já começou em 2014. Podíamos ser nós em Kiev ou no resto da Ucrânia, a ter medo, a morrer, a lutar, a fugir. Podíamos ser nós na Rússia, a sentir vergonha e impotência perante o poder. Podíamos ser nós, jovens de 20 anos, em qualquer dos lados da fronteira, obrigados a combater. Podíamos ser nós na Polónia, a receber meio milhão de refugiados numa só semana. 


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Foto de Vadim Ghirda (AP)


A propósito:


Lembrei-de da série Why We Hate? - porque odiamos? 


Não sei muito sobre a história da Ucrânia. Aprendi algumas coisas ao ler a biografia de Clarice Lispector, de Benjamin Moser.  Toda a primeira parte, sobre a família, ajuda a perceber o que aconteceu ali no início do século XX. Aqui estão alguns livros sobre a Ucrânia (e mais aqui) que podem ajudar-nos a contextualizar sem serem demasiado complexos.Também podemos ler os livros da jornalista bielorrussa Svetlana Alexievich, alguns estão traduzidos em português, que nunca é tempo perdido.


O Guardian também fez uma lista com 20 filmes que podem ajudar a entender o que se passa na Ucrânia. Infelizmente, não são fáceis de encontrar. Estive a rever o documentário Winter on Fire (na Netflix) sobre a ocupação e os conflitos na Praça Maidan, em 2013. Talvez fosse uma boa altura para as televisões passarem os filmes do Sergei Loznitsa. Fica a ideia. 


E um conselho: procurem fontes de informação fidedigna. O Twitter pode ser muito útil mas é importante verificar a origem das informações. É muito fácil deixarmo-nos levar pelas emoções, pelos likes e pela partilha rápida. Duvidem. Questionem. Procurem. Recuem. Parem para pensar. Este conselho é para todos mas sobretudo para os jornalistas.

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Tuesday, March 01, 2022

Aos meus amigos

Agradeço a todas as pessoas que, nesta última semana, nos fizeram chegar o seu apoio e o seu carinho, das mais variadas formas. Mas agradeço em especial aos meus amigos. Foram e são todos importantes à sua maneira. E acima de tudo agradeço àqueles, vocês sabem quem são, que são os meus mais-que-tudo de todas as horas, boas e más, que me dão a mão e me amparam as quedas, que me fazem rir, até nas situações mais difíceis, que percebem as minhas palavras e os meus silêncios, que me chamam a atenção quando é preciso e me ajudam a tentar ser melhor, que estão sempre comigo, até mesmo quando estão longe.


No meio de toda a tristeza, é muito bom sentir tanto amor. E, sinceramente, acho que sem vocês não conseguiria.

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