Friday, January 16, 2026

Duas voltas, outras voltas

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Não tenho tido tempo para muito mais, mas não queria deixar passar a oportunidade de falar aqui da série documental A duas voltas: Mário Soares as Presidenciais de 1986, de autoria de Ivan Nunes e Paulo Pena, que está disponível na RTP Play. Para quem, como eu, andou com autocolantes de "Soares é fixe" ao peito e se lembra bem da campanha, é uma pequena delícia. Além do retrato do país que éramos há 40 anos, ainda deu para ficar a perceber algumas coisas mais políticas que, como eu era ainda uma miúda, com apenas 11 anos, me passaram um bocado ao lado na altura. Num momento em que nos preparamos para eleger o próximo Presidente da República, acho que é um bom programa para o dia de reflexão.

 

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Monday, January 05, 2026

"Sorry, baby"

Sorry, baby é um daqueles filmes onde, à superfície, parece que nada acontece. É só a vida pacata de uma jovem professora numa terrinha perdida da América, com o seu gato, um vizinho esquisito mas simpático, a amiga que entretanto mudou de cidade e casou mas continua a voltar para visitá-la. Mas, depois, Sorry, baby é muito mais do que isso. É um filme sobre uma violação. Sobre como ainda é difícil explicar aos outros o que se passou. Sobre a incompreensão. Sobre o desconforto das instituições que fingem que não vêem. É como se a agressão continuasse, mas de outra forma, uma e outra vez. É por isso que este é um filme sobre como lidar com o trauma. Sobre seguir em frente, ainda que doa. Ou entao fingir que se segue em frente quando, na verdade, não se consegue sair daquele lugar. Sobre as feridas que não saram. Sobre a amizade e como é importante ter quem nos vê como realmente somos e nos ouve e nos acolhe. Sobre isto de ser mulher. Sobre como continuamos a falhar às mulheres. Tudo isto contado sem pressas, com os diálogos reduzidos ao essencial e com a calma transmitida pela música original de Lia Ouyang Rusli.

A actriz Eva Victor, de 31 anos, estreia-se como argumentista e realizadora neste filme baseado na sua própria experiêcia e em que também é protagonista. E que boa estreia esta. 

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"Springsteen: Deliver me from nowhere"

Não é fácil meter a vida toda de uma pessoa qualquer num filme, quanto mais a vida de um artista. É por isso que muitos dos biopics acabam por ser filmes falhados, ficando-se quase só pela caricatura. Os melhores são aqueles que se focam num momento específico, num dilema, numa obra - como vimos no excelente filme sobre o Bob Dylan, de James Mangold. Não é só isso que faz um bom biopic, mas é já um começo de conversa. E é um bom começo de conversa para este Springsteen: Deliver me from nowhere, realizado pelo pouco conhecido Scott Cooper e protagonizado pelo mega-conhecido Jeremy Allen White (o actor de The Bear).

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Em vez de tentar abarcar toda a enorme carreira do The Boss, o filme fica-se pelos anos de 1981-82 quando Bruce Springsteen, depois de terminada a digressão The River Tour, se sente exausto e assoberbado pelo sucesso e decide regressar à sua terra, New Jersey, para compor aquele que viria a ser o seu álbum mais intimista, Nebraska. Sabemos entretanto, porque o músico o contou na sua autobiografia, que naquele período Bruce viveu momentos complicados de depressão, um problema com o qual tem lutado ao longo da vida. 

Li por aí que muita gente ficou desiludida com este filme. Eu gostei bastante. Em parte, talvez porque gosto do Bruce Springsteen e porque tenho vindo a aprender a gostar mais das suas músicas. Mas também porque me parece um filme bem feito, que conta bem a história que quer contar, com boas interpretações - embora não dê para ficar muito impressionada com o Jeremy Allen White porque afinal aquilo é mais ou menos uma versão do Carmy Berzatto, não é? 

Não é um filme que vá ficar para a história do cinema, está bem, mas é um bom filme. E pôs-me a ouvir o Nebraska. Só por isso já valeu a pena.

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Sunday, January 04, 2026

"Foi só um acidente"

A vida do realizador iraniano Jafar Panahi volta hoje ao banco dos réus, com a apreciação do recurso contra a sentença de um ano de prisão e dois anos de proibição de viajar, bem como a proibiçao de participar em grupos ou organizações políticas, que lhe foi aplicada a 1 de dezembro pelo Tribunal Revolucionário Islâmico de Teerão por actividades de propaganda contra o regime - julgado à revelia, uma vez que Panahi se encontrava no estrangeiro. Mostafa Nili, que é também advogado da activista Narges Mohammad, Prémio Nobel da Paz, representa o cineasta. 


Jafar Panahi, actualmente com 65 anos, continua a viver e a trabalhar no Irão embora passe grande parte do seu tempo em França. Já tinha sido proibido de fazer filmes, no entanto, continuou a fazê-los, clandestinamente, e sempre, cada vez mais, políticos. Depois de Três Rostos e do incrível Ursos não há, no início de 2025 ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes com o filme Foi só um Acidente, mais uma vez realizado sem autorizações oficiais, sem apresentar o argumento à censura iraniana, sem o uso do hijab obrigatório para as actrizes.


"Sem autorização, teve de filmar Foi só Um Acidente em apenas 25 dias. A rapidez é decisiva para uma equipa não deixar rastos nem assentar arraiais", conta Vasco Câmara, que entrevistou Panahi aquando da sua passagem por Lisboa, em novembro. "Por isso também não havia cópias do argumento, a não ser de um argumento falso. Os técnicos não o tinham, o produtor também não. E os actores só recebiam as suas páginas na véspera. Era uma forma de os proteger a todos: se fossem apanhados e interrogados, não poderiam mentir. Por isso, ainda, a equipa tinha de ser reduzida, não mais de cinco, seis pessoas, para caberem todos em dois carros."


Desta vez, Panahi não interpreta. Mas a sua experiência e as suas memórias estão no centro deste filme.


Jafar Panahi foi detido pela primeira vez em 2010. Esteve três meses preso. Foi libertado, mas com uma pena de seis anos a cumprir em casa e a interdição de filmar durante 20 se ensaiasse gestos que confirmassem a reincidência em "propaganda anti-islâmica". Em regime de prisão domiciliária realizou Isto Não é Um Filme (2011). Proibido de sair do país, não pôde ir a Cannes, em 2018, receber o prémio de melhor argumento atribuído a 3 Rostos.


No verão de 2022 ficou detido quando se deslocou à prisão de Evin, em Teerão, para protestar contra a detenção dos realizadores Mohammad Rasoulof e Mostafa Al-Ahmad, que haviam denunciado a violência na repressão policial de manifestações populares. Não assistiu por isso à exibição de No Bears/Ursos Não Há em Veneza 2022, onde recebeu o Prémio Especial do Júri.  Esteve sete meses encarcerado, até que entrou em greve de fome: dois dias depois foi libertado sob caução.


É das suas experiências na prisão - e das experiências que outros lhe contaram - que nasce Foi só um Acidente. As detenções políticas, tantas vezes aleatórias, o modo como os presos são tratados, os interrogatórios, a humilhação, a tortura - estas são experiências marcantes, que permanecem com as pessoas mesmo depois de serem libertadas, que determinam a sua vida. Ninguém fica o mesmo depois de ser privado da sua liberdade e de ser torturado. O trauma é real. O medo pode ser paralisante. A ansiedade por tornar-se crónica. O desejo de vingança pode só estar a aguardar uma oportunidade para se concretizar.


No filme, um pequeno acidente de automóvel cria essa oportunidade. E em volta dela junta-se um grupo de pessoas a braços com o passado, a tentar perceber como vão seguir no futuro. Foi só um Acidente é tanto sobre um regime totalitário que oprime os seus cidadãos como sobre o lugar em que as pessoas - no Irão, em todo o lado - se colocam (ou escolhem colocar-se) nesse regime. Sobre como a prisão e a tortura inflingem feridas profundas e nem sempre visíveis no íntimo de cada indivíduo e como superá-las. Sobre a liberdade individual, a liberdade interior, a liberdade de pensamento, aquele reduto que, mesmo nas condições mais adversas, acreditamos que é possível manter. E sobre a importância da comunidade e de sabermos que não estamos sozinhos nesta batalha. Nas ditaduras o trauma é individual e é colectivo. E é isso tudo que nos mostra este filme que é ao mesmo tempo duríssimo e poético e até, por vezes, cómico.


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O filme foi fortemente criticado pelas autoridades iranianas, claro. Mas a França apresentou-o como candidato à categoria de Melhor Longa-Metragem Internacional nos Óscares. Foi só um Acidente está também nomeado para os Globos de Ouro nas categorias de Melhor Filme Dramático e Melhor Filme Internacional.

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Saturday, January 03, 2026

"Batalha Atrás de Batalha": PTA no seu melhor

Correndo atrás do prejuízo dos filmes dos quais ainda não falei, começo com Batalha Atrás de Batalha, o extraordinário filme do Paul Thomas Anderson. Eu sou grande fã do senhor PTA e, portanto, fui ver o filme logo quando estreou nos cinemas - o que foi há já muito, muito tempo, entretanto o filme já está disponível na HBO e tudo. Quando entrei no cinema não sabia nada sobre o que estava prestes a assistir, não tinha lido nada, ia apenas levada pelo nome do realizador, e por isso confesso que ao início fiquei bastante surpreendida e até um pouco desorientada com aquela viagem a uma América em convulsão, onde grupos revolucionários armados defendem a "liberdade, igualdade, fraternidade" e tentam fazer justiça pelas suas próprias mãos. Depois do Licorice Pizza não estava nada à espera disto. Mas, assim que me deixei entrar no filme, tudo passou a fazer sentido.


Batalha Atrás de Batalha adapta Vineland, o livro de Thomas Pynchon. A primeira parte apresenta-nos Perfidia Beverly Hills e Bob Ferguson (interpretações de Teyana Taylor e Leonardo Di Caprio, respectivamente), um casal de fervorosos e apaixonados activistas nas suas actividades revolucionárias filmadas um pouco ao estilo blaxploitation. Mas quando Perfidia é detida, Bob tem de fugir com a filha bebé e passar a viver na clandestinidade.


Avançamos uns anos para encontramos Bob e Willa (interpretada por Chase Infiniti), a filha já uma jovem de 16 anos, com ideias próprias e a tentar escapar à paranoia controladora do pai. A sua vida é colocada de pantanas pelo terrífico coronel Steven Lockjaw (Sean Penn), o polícia de ideias ultra-conservadoras que tinha prendido Perfidia e que volta agora para resolver alguns assuntos pendentes. 


Não existem referências temporais especifícas, embora seja possível relacionar alguns eventos e algumas personagens com a América de Trump, a ideologia MAGA e as intervenções anti-imigrantes do ICE. O racismo é o grande motor do ódio. Mas, para além da crítica social e política, existem os conflitos e as relações pessoais. Desde logo a relação entre um pai sozinho e a sua filha. Devo dizer que não sou a maior apreciadora de Leonardo Di Caprio e esta interpretação entre o cómico e o dramático, mais a descair para a farsa, apesar de estar a ser muito elogiada, não fez mudar a minha opinião. Ainda assim, há momentos muitos bons e, no fundo, este é também um filme onde (como já vimos tantas vezes em tantos filmes de acção) um pai faz de tudo para salvar a sua filha, mostrando-nos que o amor, o tal do amor incondicional, é muito mais do que uma relação genética.


Na altura, quando tentei falar a alguns amigos sobre o filme que tinha acabado de ver, usei a expressão "tarantinesco". Quem me conhece sabe que eu tenho andado de candeias às avessas com o Tarantino. Portanto, um filme de PTA ser "tarantinesco" podia não ser uma coisa boa. Mas neste caso até é. É "tarantinesco" na forma explícita como mostra a violência, com tiros disparados à queima-roupa e as entranhas de fora, mas sem a banalização moral a que Tarantino nos habituou. Não sei bem como explicar isto, lamento. Mas parece-me que PTA consegue o equilíbrio perfeito nesta mistura entre violência e humor, entre crítica e comédia, entre realidade e ficçao. Fiquei presa ao ecrã e àquelas personagens durante 2 horas e 40 minutos e por toda a insane perseguição final na "River of Hills", uma estrada na Califórnia onde, como na vida, tão depressa seguimos confiantes e sorridentes como logo a seguir podemos enfrentar os nossos inimigos.


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