Sunday, November 24, 2024

Amar até morrer

A Vida Secreta dos Velhos, que fui ver hoje à Culturgest, é um espectáculo maravilhoso interpretado por um grupo de actores mais velhos que partilham as suas histórias amorosas, passadas e presentes. Uma das actrizes, com 92 anos, garante-nos que continua a sentir desejo. Outra fala-nos da importância da masturbação. Um homem recorda a sua iniciação sexual, com prostitudas. Outro lembra como os pais o repudiaram quando ele saiu do armário. Uma mulher revela que teve o seu primeiro orgasmo aos 65 anos. Outra que, finalmente, encontrou a felicidade, já depois dos 70. Um homem toma viagra. Outro frequenta saunas. Uma delas fala da importância de se sentir desejada por alguém. Muitas pessoas têm dificuldade em aceitar que os velhos continuam a ter vontades e prazer nos seus corpos flácidos. Eu própria, sentindo os anos a passar, às vezes, pergunto-me: como será quando eu envelhecer? Será diferente do que era quando tinha 20 anos, com certeza. Será diferente do que é aos 50. Mas alguma coisa será. "Agora, de cada vez que faço amor, digo a mim mesmo: Pode ser a última vez, então trata de te aplicares", conta um dos actores. É um belo conselho. O que este espectáculo nos mostra, com humor mas também de forma muito emocionante (e eu chorei muito), é que todas as pessoas, independentemente da sua idade, precisam de amar e ser amadas. Os velhos somos nós (se tivermos sorte). Os velhos que nós seremos serão tanto mais felizes quanto nos deixarmos de merdas e aceitarmos, com naturalidade, a sua (nossa) vida sexual, seja ela como for.


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Infelizmente, não haverá mais apresentações deste espectáculo criado pelo encenador francês Mohamed El Khatib. Mas podem sempre ler o texto do Gonçalo Frota para ficar a saber mais.


Lembrei-me deste texto e também me lembrei muito dos meus velhos amigos da Companhia Maior, de quem eu tanto gosto.


 


Para tentar fintar a neura de novembro, recorri aos amigos e à arte. Para além deste espectáculo, aconteceram coisas como:


Um filme: Por ti, Portugal, eu juro. Documentário da Sofia da Palma Rodrigues com a equipa da Divergente, é um extraordinário documento sobre um tema pouco (nada) falado: os Comandos Africanos da Guiné, jovens guineenses que foram forçados a combater pelo exército português, mas que, depois do 25 de Abril, foram abandonados por Portugal e perseguidos pelo novo poder da Guiné.


Um concerto: Dora Morenlebaum. Foi no Musicbox, levada por uma amiga, que descobri esta artista brasileira que até então desconhecia. Filha do violoncelista e arranjador Jaques Morelenbaum e da cantora Paula Morelenbaum, tem 28 anos e muito boa vibe. Junta bossa nova, jazz, disco, funk e o que mais apanhar à mão. Foi um belo serão.


Um espectáculo: O céu da língua, de Gregório Duvivier. Uma viagem em volta da língua portuguesa e da poesia que se escreve com essa língua. Muito divertido mesmo. Muito inteligente. É tão bom e tão raro ter oportunidade de rir assim com um espectáculo.


Outro espectáculo: Volta para a tua terra, de Keli Freitas (de quem já tinha falado AQUI). A artista brasileira continua a mergulhar na sua história para fazer pequenos espectáculos de teatro documental. Desta vez, sobre a vinda para Portugal e o significado das travessias. Mas também sobre a investigação à sua família e a necessidade de saber de onde vem. Tal como no outro espectáculo que tinha visto dela, voltei a ficar com a sensação de estar "incompleto", uma vez que são colocadas perguntas que ficam sem resposta, começam a contar-se histórias e ficamos sem saber o seu desfecho. Imagino que seja propositado. Percebo que se queira contrariar esta obrigatoriedade de contar histórias com princípio, meio e fim. Mas eu fiquei com vontade de mais. De saber mais. De saber como acabou. Ainda assim, gostei muito.


Claro que nada disto - nem os filmes, nem as músicas, nem os espectáculos, nem sequer os amigos que me deram colo e copos de vinho, que me fizeram rir e desfrutar momentos de verdadeira felicidade, fosse a ouvir poesia ou simplesmente a conversar - resolveu a frustração com o trabalho ou apaziguou as preocupações que me afligem por causa dos meus filhos. Mas estas coisas ajudam. A vida é isto tudo. O bom e o mau misturado. Os problemas e as alegrias, as aflições e as gargalhadas. É preciso ir juntando coisas boas, sempre, para não nos deixarmos abater pelas coisas más.


Hoje, saí do teatro e vim no metro a pensar no que aqueles actores disseram. “Vou amar-te toda a vida, porque a vida pode acabar a qualquer instante", disse um deles. Não é preciso ser velho para perceber isto. Passei no supermercado para comprar ovos, senti umas gotas de chuva no cabelo, enrosquei-me no sofá com o meu filho, fiz um bolo de iogurte, sentei-me a escrever este texto. São tantas as coisas pequenas que me fazem feliz. E, depois, novembro está quase a acabar. 

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Friday, November 08, 2024

Ainda falta muito para o natal?

Odeio novembro tanto quanto gosto de outubro. Não gosto dos dias curtos, deste chove-não-molha, de pagar o IMI e o seguro do carro. Além disso, é aquele mês em que (mais uma vez) perco as ilusões e volto a ter que enfrentar a realidade de mais um ano lectivo complicado. Testes, discussões, testes, mais discussões. Como se isto não fosse já suficientemente deprimente, este novembro voltou a trazer-nos Trump. Estou com uma neura que nem eu me aturo. 


O melhor de novembro é o subsídio de natal, mas ainda falta tanto para lá chegar...


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Washington, EUA, 6 de novembro de 2024


Foto de Jim Lo Scalzo/ EPA

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Tuesday, November 05, 2024

Anora, um sonho de mulher

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Fui ver Anora no dia em que estreou, dia do meu aniversário. Uma matiné às duas da tarde no Nimas, a sala quase vazia, dois casalinhos jovens, uns quantos velhotes sozinhos. Entreolhamo-nos. Somos cúmplices. Somos os desocupados, aqueles que não têm mais nada que fazer numa tarde de sol a não ser enfiar-se numa sala escura, alheados do mundo. Quero lá saber. Gosto muito de ir a matinés, sobretudo durante a semana. 


A protagonista, Anora, ou Ani, como ela prefere ser chamada, é uma "dançarina exótica". Trabalha num clube nocturno onde faz conversa com os clientes, dança para eles, no colo ou no varão, sussurra-lhes aos ouvidos, insinua-se de todas as maneiras possíveis para que eles desembolsem mais umas notas. Eventualmente, quando os clientes lhe agradam, Anora trabalha também como prostituta fora dali. Nas primeiras cenas do filme é só isto que acontece. Anora e as outras raparigas dançam e despem-se e seduzem homens com profissionalismo enquanto mascam pastilha elástica, nas pausas conversam sobre coisas banais e comem em tupperwares. Com desprendimento. Anora é uma operária do sexo, sabe exactamente o que tem de fazer, cumpre a sua função, maquinalmente. E é uma durona, não permite que abusem dela. Tem tudo controlado. As coisas complicam-se quando aparece um puto milionário, russo, disposto a pagar muito para poder estar com ela em exclusivo. A determinada altura, o filme muda de tom. Deixa de ser sobre uma dançarina exótica e passa a ser sobre uma miúda que, afinal, tem sentimentos. Que, quando tira o uniforme do trabalho, se deixa iludir e enganar como todas as outras. Que ainda acredita no sonho da Cinderela. E também uma miúda que não sabe lidar com a simpatia das pessoas porque, provavelmente, sempre foi só um corpo disponível para transação, como se essa fosse a única maneira de se relacionar de forma segura com os outros.


Gostei de AnoraO filme, vecendor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, mistura uma carga emocional com momentos quase cómicos, insinuando mais do que mostrando (e não estou a falar só de sexo). O Jorge Mourinha lembrou Pretty Woman - Um Sonho de Mulher, embora o filme com a Julia Roberts desse uma imagem bastante mais romantizada dessa máquina de vender sonhos que é a prostituição. Realizado por Sean Baker, o mesmo de Florida Project, e protagonizado pela impressionante Mikey Madison, ao lado de Mark Eidelstein como Vanya, Anora surgiu à minha frente precisamente no momento em que andava a ler A Teoria do King Kong, em que Virginie Despentes fala, entre outras coisas, sobre a prostituição, a pornografia e a prisão masculina em que o desejo das mulheres ainda está encerrado. Como feminista de esquerda educada numa sociedade conservadora e moralista, não tenho certezas nenhumas sobre como olhar para a prostituição. Exploração ou libertação? É um trabalho como os outros? Legalizar ou não? Numa tentativa para entender melhor o que estava em causa, escrevi há tempos sobre isso AQUI e AQUI.  Ler a Despentes foi bom para me desassossegar, para me questionar, mas fiquei mais ou menos na mesma, ou seja, cheia de dúvidas. 


Anora, com o seu corpo perfeito e descomplexado, exalando sensualidade, ilustra bem aquilo de que fala Despentes: ela tanto pode ser vista como a depravada que vai para a cama com qualquer um e é criticada pela sociedade por ser uma puta, como a miúda desesperada que faz o que é preciso para sobreviver e até consegue a nossa empatia. Na verdade, ela pode ser as duas ao mesmo tempo. 


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Saturday, November 02, 2024

A melhor maneira de festejar é estar com as pessoas de que mais gostamos

Começou com sol, acabou já de noite e pelo meio choveu bastante. Não houve bolo de aniversário, mas foi bonito, pois foi. Desde os 40 que não fazia uma festa. Esta foi diferente, não foi bem uma festa, foi mais um encontro. Um encontro de pessoas que se gostam. E não podia ser melhor. Estiveram o meu pai, a minha irmã e cunhado, os meus rapazes e muitos amigos do peito. Faltaram algumas pessoas importantes, porque estavam longe ou ocupadas. Mas, ainda assim, reunimos uma bela grupeta. Andei tipo noiva a tentar falar com toda a gente, privilegiando aqueles que vejo menos vezes. Amigos de há mais de 30 anos, amigos de há menos de 3. Gosto tanto destas pessoas todas. As amigas da faculdade, os amigos dos tempos do DN, os amigos que já me deu a CNN, os amigos que vieram com o casamento, os que vieram com a vida, os amigos dos amigos que se tornaram meus amigos. Comemos, bebemos, conversámos. Dei muitos abraços. Ao ver agora as fotos reparo que estou sempre a rir, a felicidade estampada no rosto. 


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Estão encerradas as festividades. Sou uma cinquentona feliz. E, agora, seguimos. Enquanto houver estrada para andar.

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