Friday, December 29, 2023

"Contra todas as evidências em contrário, a alegria"

Podia falar-vos das minhas mil angústias, do trabalho que me faz infeliz quase todos os dias, dos horários terríveis, do ordenado miserável, da prestação da casa a subir, da frustração, podia dizer-vos das noites que passo sem dormir preocupada com os meus filhos, com o futuro que não consigo prever nem controlar, da culpa permanente, sempre a culpa, das saudades, do cansaço, do quão farta estou de decidir o que vai ser o jantar, de preparar marmitas, de estender a roupa, de mandá-los arrumar os quartos e desligar os telemóveis, das listas de compras, da máquina da louça avariada, das luzes que se fundem, do bolor no tecto da casa-de-banho, das obras que queria fazer, que é preciso fazer, mas é tudo tão difícil, tantos problemas, tantas preocupações e ainda mais as guerras, as alterações climáticas, a pobreza, a maldade das pessoas, podia contar-vos dos dias, semanas, meses em que o meu corpo sangra incontrolavelmente por causa da porcaria da perimenopausa, do meu médico a dizer "é só sangue", com um sorriso de desdém, como se por ser mulher tivesse que aguentar todos os incómodos sem me queixar, dos quilos que ganhei, das rugas, das peles flácidas, da exaustão, da apatia que me invade em dias em que me afundo no sofá e não me apetece nada, falar-vos da solidão que se esconde atrás das gargalhadas.


É tudo verdade. E, no entanto, 2023 não foi só isto.


"Contra todas as evidências em contrário, a alegria".


A alegria dos putos nos dias bons. Só isso já basta.


Aprendi a fazer pão. Fiz pão. Voltarei a fazer pão, isso é certo.


Páscoa na praia de sempre. Os putos com pranchas de surf. E o meu pai comeu pizza pela primeira vez na vida.


Quando a Paula me diz: vou passar aí. E vamos as duas. Seja onde for.


Nós os três a jogarmos snooker numa noite de verão.


Um grupo de whatsapp com amigas pode ser um refúgio, um colo, um escape, um conforto. Sabermos que não estamos sozinhas. 


Os poemas que nunca teria descoberto sozinha e as pessoas que dizem esses poemas naqueles encontros que juntam comida e bebida e tantas partilhas. 


Os amigos. Os amigos de sempre, os amigos recentes, os amigos que vêm e que vão. Os que estão sempre aqui. Os que raramente vejo. Os que me levam para copos, jantares, programas, e me obrigam a sair de mim. Aqueles com quem converso e me fazem mergulhar no mais fundo de mim. Os que telefonam e os que mandam muitas mensagens. Os que quase não dizem nada. São todos importantes, à sua maneira.


As vezes em que consegui vencer a preguiça. Ir a uma aula de yoga ou de pilates. Caminhar. Pedalar. Passear. Ir. Não me deixar ficar. Partir a telha.


Os livros (Annie Ernaux, Fernanda Melchor, Anabela Mota Ribeiro, Alia Trabuco Zerán, Catarina Gomes, Susana Moreira Marques, Ruy Castro, Douglas Stuart, Nathan Thrall, outros que agora não me lembro porque não conto os livros que leio); os filmes (tantos, não consigo enumerá-los); os espectáculos (menos do que gostaria, mas ainda assim); os concertos (Chico e Caetano no mesmo ano é como ganhar o totoloto, não é? Mas também Blur, Arcade Fire, Dino D'Santiago, Ana Lua Caiano). As artes todas. Janelas abertas para o mundo. Oxigénio para mim.


A Garota Não. À parte porque é especial. Vi-a três vezes e foi sempre maravilhosa. "A vida fica difícil, o tempo passa tipo míssil, derramado em suor."


Os dias em que o trabalho vale a pena. Poucos mas bons.


Os putos a pintarem as paredes do quarto, com a música em altos gritos.


A viagem a Nápoles. E a Alda.


Os miúdos fizeram-me um "bolo da caneca" e foram acordar-me à meia-noite para me cantarem os parabéns.


Um ano sem aplicações de encontros. Muita tranquilidade.


O António a chegar a casa às quatro da manhã, vai ao meu quarto - "Mãe, já cheguei" - deita-se ao meu lado e conta-me como foi a noite.


O meu pai, de braço dado comigo, a reaprender a andar com a sua anca nova.


Tricotei um cachecol enorme e lindo.


Eu e o Pedro a andarmos de bicicleta junto ao Tejo.


Pôr música a tocar e passar horas a cozinhar. Não por obrigação, mas por prazer.


O Natal. Apesar de tudo. E o privilégio de participar numa festa diferente.


A casa da minha irmã, sinónimo de família, de Alentejo, o sítio onde voltamos sempre. 


A surpresa de encontrar alguém com quem me apetece estar. Aceitar a impossibilidade. Sentir que me poderia apaixonar. Ficar feliz só com a possibilidade.


Ter uma agenda para 2024. Fazer planos.


O verso de Manuel Gusmão que está no título desde post é bem conhecido, mas foi só quando o re-ouvi no espectáculo Bravo 2023!, dos Praga, que percebi que era a frase ideal para descrever este ano (ou esta vida). Contra todas as evidências em contrário, a alegria surge nos momentos mais inesperados. A tal da felicidade nas coisas pequenas, que é o combustível que nos faz continuar todos os dias e não nos deixa desesperar. Que nos salva.


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(nesta foto, a minha maior alegria, o meu maior medo, o meu tudo, para o bem e para o mal)

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Tuesday, December 26, 2023

Bravo, bravíssimo

"Uma obra de arte não responde a questões, provoca-as, e o seu significado essencial está na tensão entre as respostas contraditórias."


A frase de Leonard Bernstein serve de epígrafe ao filme Maestro, realizado por Bradley Cooper. Não achei o filme particularmente estimulante, para ser sincera, apesar das óptimas interpretações de Cooper e de Carey Mulligan (no papel da mulher de Bernstein, Felicia Montealegre). Mas a frase pareceu-me perfeita para falar de Bravo 2023!, o espectáculo do Teatro Praga que fui ver há dias ao São Luiz e que me suscitou imensas perguntas. Uma dessas perguntas é: porque é que eu gostei disto?  


Não é a primeira vez que os Praga fazem uma revista. Em 2014 tinham feito a Tropa Fandanga, com o actor José Raposo. Desta vez,  o espectáculo tem a actriz Marina Mota, mas a receita é a mesma. A "revista à portuguesa" tem um modelo rígido que o grupo segue à risca, com um compère, os quadros cómicos, os números musicais, o número sério, a artista convidada. A revista tem uma visual específico, com telões a servirem de cenário e um guarda-roupa exuberante. Tem um estilo de representação próprio, uma cadência inconfundível. Tem também um humor que lhe é característico. Um tipo de humor "antigo", fora de moda. A tudo isso os Praga são fiéis. O que eles fazem não é uma paródia de uma revista, é uma revista a sério. 


E o que é extraordinário é que tudo aquilo que na revista do Parque Mayer nos parece cheirar a mofo, aqui faz todo o sentido. A interpretação demasido marcada, os estereotipos (de género, de idade, de região, de classe), as piadas xenófobas, que noutro contexto nos fariam revivar os olhos, aqui fazem-nos rir. O que no Teatro Maria Vitória consideraríamos kitsch, no São Luiz é cool. As sessões de Bravo 2023! estiveram todas esgotadas, muito provavelmente com pessoas que nunca foram ver uma revista e que, se fossem, achariam horrível. Mas que se riem desbragadamente da empregada da limpeza que aparece nos interlúdios e da imitação do José Castelo-Branco e da sua Betty a "cair da tripeça" (literalmente).


Um dos motivos porque isto acontece é porque, apesar de esta ser uma "revista a sério", ao mesmo tempo, esta não é uma verdadeira revista. A revista é popular, acessível a todos, básica. Esta é uma revista auto-consciente, que sabe com que linhas se cose, que adopta o formato popular mas é bastante intelectual. Este espectáculo tem um texto de uma enorme profundidade - um texto belíssimo, cheio de referências e meta-referências, cheio de subtilezas, que toca em vários temas do ano que agora termina (conseguir ir buscar os temas mais óbvios como a Jornada Mundial da Juventude mas também aquelas pequenas coisas de que já não nos lembrávamos, como a influencer e o submarino, ter o presidente dos afectos, a crise da habitação, o "Preço Certo" e o ministro da Cultura), que procura chegar a diferentes lugares, que faz críticas contundentes e outras mais ligeiras, que dá alfinetadas das boas mas outras vezes só lança piadas ou faz trocadilhos tontos, um texto inteligentíssimo, sem dúvida, mas bastante elitista. Para conseguir compreender tudo o que ali se diz é preciso estar muito dentro da cultura do "eixo baixa-chiado" (eu ri-me muito e mesmo assim tenho consciência que me passou muita coisa ao lado).


Mas isto também acontece porque os Praga têm lugar de fala. Eles podem gozar com os gay e com os ingleses, podem gozar com quem quiserem pois haverá poucos grupos mais inclusivos, verdadeiramente inclusivos, na sua essência, do que os Praga. Quando olhamos para o palco, a primeira coisa que nos chama a atenção é precisamente a diversidade de corpos que ali estão. Uma diversidade que não é forçada nem fruto de quotas, mas fruto de muitos anos de trabalho em conjunto, em que aquelas pessoas se foram conhecendo e tornando família - uns dos outros e, também, nossa.


O resultado disto tudo é um espectáculo que é muito bom, ainda que desigual, obviamente - ou não fosse este um espectáculo de revista. Para mim, os dois quadros mais bem conseguidos foram os da "Artista está presente" e do "Rabo de Peixona", aqueles onde dei por mim a rir incontrolavelmente, com o texto extraordinário e uma Marina Mota no seu melhor. O número sério, dedicado ao poeta Manuel Gusmão é muito tocante (e a Joana Manuel fá-lo impecavelmente). As músicas de Pedro Mafama são óptimas (queremos ouvi-las outra vez!). Os cenários de João Pedro Vale e Nuno Alexandre e os figurinos de Joana Barrios são muito bons. E o luxo que é ter uma orquestra a tocar ao vivo, dirigida pelo Alex D'Alva Teixeira. Entre os números bons, os falhados e aqueles que tanto faz, o espectáculo tem três horas mas quase não damos por elas, e isso é dizer muito.


No final, quando apanhei o táxi para voltar para casa, trazia a cabeça a mil, com muitas perguntas e poucas respostas. Demorei algum tempo a conseguir estruturar (mais ou menos) um pensamento sobre este Bravo, que tanto é a revista alemã que líamos nos anos 80 como é esfregão para lavar mesmo bem a loiça, como é grito lançado da plateia para um ano que nos trouxe tantos amargos de boca e também tantos motivos para rir.


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Monday, December 18, 2023

Fazer natal

Seria melhor se não fosse necessário. Seria melhor se vivessemos numa sociedade mais justa e onde a pobreza, a fome, a falta de habitação, a solidão não fossem problemas, onde todos pudessem ter uma vida digna. Essa é uma luta que temos de travar, que podemos travar de diferentes formas - por exemplo, escolhendo em quem votar. Até lá, fazemos o que podemos. A solidariedade passa também por darmos algum do nosso tempo, do nosso trabalho, da nossa atenção, da nossa disponibilidade para ouvir e para abraçar, para trazermos alguns sorrisos ao rostos das pessoas que menos têm. Para fazermos uma festa de natal, com música, comida, calor e muita emoção (eu emocionei-me várias vezes), como devem ser as festas de natal.


Este ano, finalmente, os astros alinharam-se e consegui participar na festa de natal para as pessoas em situação de sem-abrigo, organizada pela Comunidade Vida e Paz. Podem ver AQUI como foi.


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Sunday, December 10, 2023

As despedidas deviam ser todas assim

Não sou a maior fã dos Pogues nem tinha nenhuma memória especial de Shane MacGowan (1957-2023), mas, caramba, que me emocionei a ver os vídeos do seu funeral. 


Glen Hansard, Lisa O'Neill e The Pogues interpretam "Fairytale of New York":


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Saturday, December 09, 2023

"With your feet on the air and your head on the ground"

Perder a cabeça de vez em quando, só para confirmarmos que estamos vivos, que ainda temos capacidade de sentir borboletas na barriga e arrepios na pele e o coração a querer saltar do peito e esses clichés todos, quem disse que os clichés são maus?, lembrarmo-nos que somos humanos, para além da vidinha de todos os dias, do trabalho que nos mói e das contas para pagar, deixarmo-nos levar pelos impulsos, pela vontade, pelo desejo, não pensar, só por dois dias, esquecer o mundo lá fora, as guerras, o trânsito, os compromissos, agora não, não quero saber, agora quero só sentir esta urgência. Deixa-me só ser feliz por um bocadinho. Depois, voltamos a pousar os pés no chão. E a vida segue. Como se não tivesse sido nada. Mas tu sabes que foi tanto.


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