Lembro-me de ver uma exposição em Serralves, no Porto, há muito tempo, 2002 talvez. E as fotografias e os vídeos dela apareciam de vez em quando noutras exposições. Lembro-me de corpos nus, do desconforto, da crueza. Mas sabia muito pouco sobre Nan Goldin, a artista. Andava a tentar verToda a beleza e carnificina, o documentário de Laura Poitras sobre Nan Goldin, desde que esteve nomeado para os Óscares mas ainda não tinha sido possível. Vi-o hoje e achei-o extraordinário. Está muito bem feito, sim, mas é extraordinário sobretudo por ela, pela sua vida, pelas suas lutas, pela maneira tranquila como fala, pela verdade que se sente naquilo tudo, pelas dores acumuladas, pelo seu olhar desassombrado sobre o mundo e as pessoas que a rodeiam, pela forma como chegou aos 69 anos, por não baixar os braços nem a câmara. Não fazia ideia que tinha sido uma das principais activistas contra a família Slacker e a farmacêutica Purdue (há coisas que me passam ao lado não percebo muito bem como, que vergonha, caramba) e vê-la aos gritos no Guggenheim ou no Metropolitan fez-me gostar ainda mais dela.
O documentário está no Filmin e se subscreverem até dia 3 de setembro apanham uma promoção bem catita (ninguém me paga para dizer isto, mas eu sou uma pessoa simpática, que gosta de espalhar as boas notícias).
(filosofia da treta mas é uma imagem bonita, retirada de Sharp Objects, minissérie bastante viciante e intrigante, com a Amy Adams, que encontrei por estes dias na HBO)
Há uns tempos, revi o filme Os Acusados, realizado por Jonathan Kaplan e protagonizado por Jodie Foster. O filme é de 1988. Devo tê-lo visto pela primeira vez por volta de 1990, mais ou menos, porque naquela altura os filmes demoravam a chegar ao cinema da minha terra. Eu era uma miúda, não sabia nada da vida nem dos homens nem do sexo. E, no entanto, lembro-me de ficar bastante impressionada e revoltada. Lembro-me de ter falado sobre o filme com os meus amigos e de ficar chocada com o facto de alguns defenderem a tese do "ela estava a pedi-las". Era o que se dizia então. Crescemos, nós, as raparigas, a ouvir isso. Que não podíamos fazer determinadas coisas - usar determinadas roupas, ir a determinados sítios, ter determinados comportamentos como beber muito, dançar livremente, andar sozinhas na rua a determinadas horas - porque se as fizessemos algo de mau poderia acontecer e seria culpa nossa. "Estávamos a pedi-las". A palavra "provocante" só existe para as mulheres, nunca para os homens. Durante gerações, as mulheres cresceram sabendo que deviam controlar-se, conter-se, vigiar-se, porque era sua responsabilidade evitar que fossem assediadas ou abusadas. Aos homens nunca era imputada nenhuma responsabilidade porque eles, coitados, já se sabe, são como animais, que quando são "provocados" não se conseguem controlar. Este foi o discurso que todas ouvimos e contra o qual, fomos percebendo, tínhamos que nos revoltar. Isto para mim foi muito claro naquele dia em que vi "Os Acusados" e em que, mesmo sem saber o que era isso de ser feminista, mesmo sem ter lido os livros e sem conhecer as teorias, eu já sabia que não poderia haver desculpa para aqueles homens. Que a culpa nunca é da vítima, mesmo que use minissaia e esteja embriagada e dance como se fosse a maior sedutora do mundo. Nada disto legitima, desculpa ou atenua o comportamento dos homens.
Mais de 30 anos depois, o filme voltou a revoltar-me. Por tudo isto e ainda mais pela sua gritante actualidade. Porque mais de 30 anos depois o que é incrível é que este ainda seja um assunto que se discute. Que ainda haja quem use o estafado argumento do "ela estava a pedi-las" ou "foi ela que o provocou" ou "ela até queria". Que juízes e tribunais continuem a perdoar, que grande parte da sociedade continue a desculpar, que sempre que um homem é acusado de ultrapassar o limite um grupo de homens se una à sua volta para defendê-lo.
* "Se acabó" (acabou-se) é a tag que se tornou popular nas redes sociais acompanhando os protestos contra o vergonhoso comportamento de Luis Rubiales, presidente da federação espanhola de futebol, que beijou nos lábios uma das jogadoras após a vitória no campeonato do mundo. O caso é complexo porque não se reduz a um beijo: primeiro, porque a história começou há muito tempo, com as muitas denúncias das atletas de machismo e discriminação por parte das estruturas directivas, e o beijo acaba por ser a ponta do iceberg ou a gota que entornou o copo, como afirmaram as jogadoras em comunicado; e, depois, porque a reacção dos dirigentes aos protestos apenas serviu para confirmar a sua mentalidade retrógada, machista e abusadora. É só um beijo, dizem, tanto barulho por causa de um xoxo? Só que o beijo não é só um beijo. É um abuso. É um abuso de poder, como o são todos os abusos sexuais. E os abusos não podem continuar a ser tolerados.
Como é que ainda estamos a discutir isto?, essa é a grande perplexidade.
Adenda - este TEXTO da jornalista desportiva espanhola Gemma Herrero descreve bem o ambiente tóxico que nos trouxe aqui
Não sei como, mas tinha passado ao lado desta pequena maravilha: The Last Movie Stars é uma série documental realizada por Ethan Hawke sobre os actores Paul Newman e Joanne Woodward. É sobre cinema e sobre representação e sobre o que é ser uma estrela, mas é também sobre amor, sobre construir uma relação e uma família e sobre a condição das mulheres (até mesmo as mulheres que ganham Óscares e são famosas). Está disponível na HBO e aconselho muito.
Sabia muito pouco sobre J. Robert Oppenheimer, o homem que ficou conhecido como "o pai da bomba atómica", por ter integrado o Projecto Manhattan, o projecto de investigação nuclear dos EUA fundado em 1942, e por ter dirigido o laboratório de Los Alamos, onde a bomba foi criada. Por causa do filme de Christopher Nolan, andei a ler e a ver uns vídeos, o que é algo que me dá sempre um gozo enorme, até para perceber até que ponto o argumento foi fiel à realidade. Por exemplo, eu nunca tinha ouvido falar do tal Lewis Strauss. E, aparentemente, o que o filme conta é, genericamente, verdade. Para quem, como eu, gosta da história do século XX, é sempre fascinante ver um filme sobre uma figura tão importante e que nos permite acompanhar algumas das questões mais relevantes naquele período - anos 30, 40, 50.
O filme tem três horas mas, na realidade, não me aborreci nem olhei para o relógio. E mesmo sabendo como as coisas aconteceram não deixei de ficar nervosa no momento do primeiro teste da bomba atómica - o que é um sinal de que o filme está bem feito, claro. Saí contente da sala. Mais contente do que da Barbie (não que isto seja um concurso, mas, pronto, fica assinalado). Saí a pensar em montes de coisas, o que é sempre bom. Mas com a consciência, no entanto, de que o filme não era assim tão bom quanto várias pessoas me tinham dito. Uma obra-prima? Não para mim.
Demorei algum tempo até encontrar as palavras certas para dizer o que me tinha desgostado. E foi isto: parece que ali é tudo "too much", tudo em grande, em demasia. É um filme em permamente "show-off", um filme-espectáculo-de-si-mesmo, que a cada plano se regozija, se exibe: vejam, aqui estou eu, o grandioso filme sobre Oppenheimer. É a duração exagerada, a música sempre em tom épico, o excesso de grandes planos do actor Cillian Murphy, as incursões na sua mente, a música outra vez, sempre, a fazer-se presente, as constantes mudanças na linha narrativa. Tudo isto são características do cinema de Nolan, que culminam em Oppenheimer. Dá a ideia que ele não se sabe conter - e que, se calhar, algum comedimento teria contribuído para um filme talvez menos espectacular mas, porventura, mais verdadeiro, mais íntimo, mais como eu gosto.
E já que estou a falar do que gosto e não gosto, aproveito para deixar mais duas breves notas:
Asteroid City, de Wes Anderson, é lindo como são sempre os filmes dele, lindo e completamente plástico e falso. Uma beleza artificial com diálogos absolutamente artificiais - diálogos complexos e muito "meta", bons para quem gosta de cinema e de teatro e de pensar a relação entre ficção e realidade. Um filme super-racional com um humor sofisticado. Que se vê bem mas não surpreende nem deixa qualquer marca.
(uma curiosidade: a acção passa-se algures nos anos 50, numa cidade no meio do deserto, a poucos quilómetros do sítio onde se realizam testes nucleares)
Para falar a verdade, o filme que mais gostei de ver nos últimos tempos foi A Tempo Inteiro, um filme francês, realizado por Eric Gravel e protagonizado por uma extraordinária Laure Calamy, que interpreta uma mulher divorciada, mãe a tempo inteiro de dois filhos pequenos, com estudos superiores mas forçada a trabalhar como empregada de limpeza num hotel no centro de Paris, que vive numa permanente corrida contra o tempo, para chegar a tempo e horas ao trabalho, para chegar a tempo e horas a casa, nos subúrbios, para sobreviver às greves dos transportes, para fazer com que o pouco o dinheiro chegue ao fim do mês. O filme acompanha o seu dia-a-dia, num lufa-lufa asfixiante. Sem grandes efeitos, sem manias de grandeza. A vida como ela é pode ser uma aventura extenuante. Um aperto no coração. E nós todas naquele ecrã, nós todas que sabemos exactamente como é viver num sufoco. Um passo em falso e estamos perdidas.
De vez em quando, dou por mim a pensar: tenho de contar isto à minha mãe. É um pensamento rápido. Dura uns segundos, talvez nem isso. Quando dou conta, sorrio por dentro.
Sei que é improvável, mas queria mesmo que isto nunca deixasse de acontecer.
Nunca tive uma Barbie. Tínhamos uma Cindy e duas Tuchas, lembro-me das Nancys e dos Carecas. Talvez a Barbie tenha chegado em força ao nosso mercado quando eu já estava a deixar de brincar com bonecas, não sei. Não me lembro de alguma vez ter desejado ter uma Barbie.
Desde que vi o primeiro trailer de Barbie - o filme que fiquei curiosa. Seguramente isto não seria um filme para crianças. Haveria humor e feminismo. E para que conste: sou bastante fã da Greta Gerwig e do seu companheiro Noam Baumbach, juntos ou em separado. Fui ver o filme no fim de semana, depois de uma semana de muito trabalho, antes de uma semana de ainda mais trabalho com a Jornada Mundial da Juventude. Não tinha lido nada. Levei algumas expectativas mas não me vesti de cor-de-rosa - comportamento que não entendo e que, lamento, acho até ridículo. A sala estava cheia, como aliás tem estado nas muitas sessões do filme em muitos cinemas. O filme começa bem. É muito engraçado imaginar como seria a vida da Barbie se existisse um mundo à semelhança da boneca e dos seus muitos acessórios. Depois, a mudança para o mundo real é talvez a parte mais interessante do filme, pela crítica à nossa sociedade e ao patriarcado. A Barbie percebe que, afinal, o mundo não é dominado pelas mulheres, o Ken descobre que pode ser mais do que um adereço da Barbie. Ri-me, confesso. Há piadas muito boas e inteligentes, referências interessantes. E depois, pronto, o filme perde-se. Começa a perder-se exatamente no momento em que a Barbie foge das garras da Mattel e a partir daí é um descalabro sem fim, torna-se aborrecido e tem falhas de verosimilhança. Os senhores da Mattel são uns palhaços sem qualquer justificação, o comportamento dos homens é uma cambada de estereótipos, a solução das mulheres é uma artimanha de treta. A sensação que dá é que o argumento entrou num beco sem saída e foi preciso encontrar ali qualquer coisa mesmo que não fizesse grande sentido. Arranjaram maneira de incluir às três pancadas os bonecos e bonecas que fogem da norma, mas a mensagem final não é de igualdade entre géneros. E isso custou-me um bocadinho. O feminismo, tanto quanto sei, não é defender a superioridade das mulheres sobre os homens. O final (tirando a parte lamechas, dispensável) acaba por se redimir um pouco: a Barbie-esteréotipo-de-mulher acaba por perceber que pior do que ser de carne e osso, envelhecer e morrer, será viver uma vida completamente estéril, sem qualquer emoção verdadeira. Apesar disso, saí com um travo a desilusão, com a sensação de que se perdeu uma bela oportunidade de fazer um filme mesmo revolucionário.