Oppenheimer e o resto
Sabia muito pouco sobre J. Robert Oppenheimer, o homem que ficou conhecido como "o pai da bomba atómica", por ter integrado o Projecto Manhattan, o projecto de investigação nuclear dos EUA fundado em 1942, e por ter dirigido o laboratório de Los Alamos, onde a bomba foi criada. Por causa do filme de Christopher Nolan, andei a ler e a ver uns vídeos, o que é algo que me dá sempre um gozo enorme, até para perceber até que ponto o argumento foi fiel à realidade. Por exemplo, eu nunca tinha ouvido falar do tal Lewis Strauss. E, aparentemente, o que o filme conta é, genericamente, verdade. Para quem, como eu, gosta da história do século XX, é sempre fascinante ver um filme sobre uma figura tão importante e que nos permite acompanhar algumas das questões mais relevantes naquele período - anos 30, 40, 50.
O filme tem três horas mas, na realidade, não me aborreci nem olhei para o relógio. E mesmo sabendo como as coisas aconteceram não deixei de ficar nervosa no momento do primeiro teste da bomba atómica - o que é um sinal de que o filme está bem feito, claro. Saí contente da sala. Mais contente do que da Barbie (não que isto seja um concurso, mas, pronto, fica assinalado). Saí a pensar em montes de coisas, o que é sempre bom. Mas com a consciência, no entanto, de que o filme não era assim tão bom quanto várias pessoas me tinham dito. Uma obra-prima? Não para mim.
Demorei algum tempo até encontrar as palavras certas para dizer o que me tinha desgostado. E foi isto: parece que ali é tudo "too much", tudo em grande, em demasia. É um filme em permamente "show-off", um filme-espectáculo-de-si-mesmo, que a cada plano se regozija, se exibe: vejam, aqui estou eu, o grandioso filme sobre Oppenheimer. É a duração exagerada, a música sempre em tom épico, o excesso de grandes planos do actor Cillian Murphy, as incursões na sua mente, a música outra vez, sempre, a fazer-se presente, as constantes mudanças na linha narrativa. Tudo isto são características do cinema de Nolan, que culminam em Oppenheimer. Dá a ideia que ele não se sabe conter - e que, se calhar, algum comedimento teria contribuído para um filme talvez menos espectacular mas, porventura, mais verdadeiro, mais íntimo, mais como eu gosto.
E já que estou a falar do que gosto e não gosto, aproveito para deixar mais duas breves notas:
Asteroid City, de Wes Anderson, é lindo como são sempre os filmes dele, lindo e completamente plástico e falso. Uma beleza artificial com diálogos absolutamente artificiais - diálogos complexos e muito "meta", bons para quem gosta de cinema e de teatro e de pensar a relação entre ficção e realidade. Um filme super-racional com um humor sofisticado. Que se vê bem mas não surpreende nem deixa qualquer marca.
(uma curiosidade: a acção passa-se algures nos anos 50, numa cidade no meio do deserto, a poucos quilómetros do sítio onde se realizam testes nucleares)
Para falar a verdade, o filme que mais gostei de ver nos últimos tempos foi A Tempo Inteiro, um filme francês, realizado por Eric Gravel e protagonizado por uma extraordinária Laure Calamy, que interpreta uma mulher divorciada, mãe a tempo inteiro de dois filhos pequenos, com estudos superiores mas forçada a trabalhar como empregada de limpeza num hotel no centro de Paris, que vive numa permanente corrida contra o tempo, para chegar a tempo e horas ao trabalho, para chegar a tempo e horas a casa, nos subúrbios, para sobreviver às greves dos transportes, para fazer com que o pouco o dinheiro chegue ao fim do mês. O filme acompanha o seu dia-a-dia, num lufa-lufa asfixiante. Sem grandes efeitos, sem manias de grandeza. A vida como ela é pode ser uma aventura extenuante. Um aperto no coração. E nós todas naquele ecrã, nós todas que sabemos exactamente como é viver num sufoco. Um passo em falso e estamos perdidas.
Labels: cinema

1 Comments:
Agradeço as dicas cinematográficas. Depois de ler os seus posts, já não estava a pensar ver a Barbie e agora, não vou de certeza!
Já do cinema francês, sou fã. Há de tudo, mas é um dos cinemas que mais gosto!
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