Thursday, December 29, 2022

Cinco filmes para acabar o ano

Decisão de Partir


Então, foi assim: choveu durante não sei quantos dias e eu estava já a passar-me de não conseguir sair de casa e, então, no domingo, ou no sábado, já não sei, depois do almoço, avisei a minha malta: vou sair. Mas o tempo continuava manhoso, não dava para confiar. Olhei para o relógio, fiz as contas e decidi ir ver o Ela Disse, da Maria Schrader, sobre o caso Weinstein, mas, depois, entrei no metro e, pimbas, senhores passageiros, devido a um incidente na linha azul a circulação encontra-se interrompida, pedimos desculpa pelo incómodo causado. Felizmente, tinha um livro para ler. Ficámos parados durante 40 minutos. Quando cheguei ao cinema, já não dava para ver o Ela Disse (acabei por não chegar a vê-lo de todo), cusquei o telemóvel enquanto estava na fila da bilheteira e optei por Decisão de Partir, do Park Chan-wook, que é um dos mais conhecidos realizadores sul-coreanos, apesar de não ter as melhores recordações do Oldboy, que é um dos seus filmes mais aclamados mas que não faz, de todo, o meu género. Arrisquei. Nada a ver. Este Decisão de Partir é uma história de amor. A atracção entre um detective da polícia e a suspeita de um homicídio que ele está a investigar. Contado de forma vagarosa. Muito bonito. Muito triste. Li algures, depois, que era um thriller. Não diria tanto. Há um mistério para resolver, mas não sei se isso é o mais importante. Gostei muito. É um filme com muitos silêncios, como se as personagens deixassem sempre algo por dizer. Gosto cada vez mais disso.



Os Fabelmans


Um Spielberg é um Spielberg, há coisas com que contamos logo à partida, como aqueles momentos a puxar à lágrima (pelo menos à minha, que é fácil, fácil) e uma qualquer lição no final (geralmente, é uma lição de moral, aqui é uma lição de cinema). Os Fabelmans é uma autobiografia ficcionada do realizador, que nos mostra o início do seu fascínio pelo cinema, as aventuras dos primeiros filmes, feitos na juventude, com a família e os amigos, até à certeza de que queria que aquela paixão se tornasse mais do que um hobby. É, no fundo, também uma história de amor: do amor de Steven Spielberg pelo cinema - e já sabemos que esta é uma história que acaba bem. Pelo meio, há a história da família, com o divórcio dos pais e toda a dor que isso implica, e há o terror do liceu, com cenas de bullying e amores adolescentes. E até há David Lynch. Pronto, não conto mais. Se quiserem saber mais, leiam este texto, escrito por quem sabe. Ou então vão ver, são quase duas horas e meia mas dá para rir e para chorar e é tão fofinho que nem se dá por isso.



Entretanto, também vi:


Pinocchio de Guillermo del Toro (Netflix) - Muito, muito bem feito. Fez-me lembrar as fábulas tragicómicas do Tim Burton. Não é de todo a minha praia mas não custa a ver. 


A Oeste Nada de Novo, de Edward Berger (Netflix) - A história original é de Erich Maria Remarque e já tinha dado origem a um filme americano em 1930. Esta nova versão, alemã, eleva a recriação dos horrores da Primeira Guerra Mundial a um novo patamar (viram o 1917? agora imaginem 265 minutos praticamente só com cenas nas trincheiras e na frente de batalha). Muito violento, explícito, sangrento. Difícil de ver, em determinados momentos. Exactamente como tem de ser, porque nos dias que correm não há como adocicar as guerras. É impossível chegar ao fim sem sentir um grande nojo dos políticos que decidem coisas nos seus gabinetes dourados (sim, estou também a pensar em Putin, mas não só) enquanto milhares de inocentes morrem por coisa nenhuma. 


Glass Onion: A Knives Out Mystery, de  Rian Johnson (Netflix) - Sinceramente? Um aborrecimento. Tanta estrela junta (Edward Norton, Janelle Monáe, Kate Hudson, Daniel Craig - e até Hugh Grant, por breves instantes - são os nomes mais sonantes, e ainda um tal Dave Bautista que eu desconhecia mas que aparentemente também é uma estrela) mas a mim pareceu-me tudo demasiado falso e forçado. Entretanto, já li análises profundíssimas explicando como o filme é uma crítica aos milionários com pés de barro ao estilo Elon Musk e de como tudo aquilo é uma enorme sátira à nossa sociedade de aparências e criptocoisas. Pode até ser. Mas, para mim, não deixa de ser um aborrecimento.


 


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Na foto, Gabriel LaBelle em Os Fabelmans

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Tuesday, December 27, 2022

"Uma Pequena Vida" - um grande livro

Há muito tempo que um livro não me arrebatava desta forma. Comecei a 1 de dezembro e terminei na noite de 23. Li sofregamente as 683 páginas de Uma Pequena Vida, de Hanya Yanagihara, no pouco tempo livre que tenho, sobretudo à noite, até a cabeça começar a tombar de sono. Ri, chorei, zanguei-me, revoltei-me, fiquei feliz e fiquei triste, e à medida que o fim se aproximava chorei ainda mais com a história destes quatro amigos - Willem, Jude, JB e Malcom. Encontramo-los na faculdade e seguimos com eles para Manhattan, onde cada um persegue a sua carreira, ao mesmo tempo que voltamos atrás no tempo para conhecer melhor as suas histórias. Estes avanços e recuos são narrados de uma maneira extraordinária, com ínfimos detalhes, permitindo-nos construir uma imagem muito completa de cada um deles, cada viagem no tempo a dar-nos mais um pormenor, e ao mesmo tempo vamos conhecendo os seus colegas e amigos (são quase todos homens, há algumas mulheres por ali, mas as personagens que interessam são principalmente masculinas), as suas paixões, os seus medos, as suas aspirações. Dei por mim a pensar naquelas personagens durante o dia, quase como se fossem meus conhecidos, a perguntar-me o que estariam a fazer ou o que iriam fazer a seguir, imaginei-lhe os rostos, visualizei-lhes as casas, atravessei com eles as ruas de Nova Iorque, acompanhei o seu crescimento e o seu envelhecimento, torci pelos seus desafios profissionais, tive vontade de lhes dar conselhos, vai em frente, rapaz, diz o que sentes. Tenho ideia que desde a tetralogia da Elena Ferrante que não me envolvia tanto com personagens de ficção (e há algumas semelhanças entre estas obras, se pensarmos bem).


Hanya Yanagihara aborda aqui temas muito complexos, como o abuso sexual infantil, o abandono, a amizade masculina, a depressão, o sofrimento, a vergonha, os pensamentos suicidas, a dor física e a dor da alma, o envelhecimento, o medo da solidão, o amor entre pais e filhos (e a falta dele), o amor nas suas múltiplas formas (e a falta dele), o modo como o nosso passado determina o que somos e, por outro lado, e quase paradoxalmente, como somos todos mais ou menos iguais apesar das diferentes origens, raças, famílias, orientações sexuais, experiências.


A felicidade neste livro é sempre frágil, passageira, pequenos momentos - os beijos, os jantares, as comidas, os passeios, as cumplicidades, os olhares, a amizade, acima de tudo a amizade - que queremos guardar com todas as nossas forças porque sabemos que vão desaparecer em breve (e não será sempre assim?).


Uma Pequena Vida foi publicado originalmente em 2015 mas só este ano foi traduzido e publicado em Portugal pela Editorial Presença. Tenho a certeza que um dia haveremos de ver esta história no cinema ou na televisão. Para já há uma versão holandesa para teatro e em março estreia uma versão inglesa num teatro em Londres - já há muito poucos bilhetes, se querem saber (sim, eu andei a ver e tive que me controlar para não cometer uma loucura). Mas, tudo bem, também podemos ficar só com o livro que já é tanto.


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Saturday, December 24, 2022

"Calendário do Advento"

Há pessoas que sonham com o estrelato. Em aparecer à frente das câmaras. Dar a cara. Já eu sou feliz nos bastidores. Neste final de ano, tive o privilégio de trabalhar com a Anabela, ajudando-a a fazer pesquisa e a preparar as entrevistas do Calendário do Advento. Uma dupla felicidade. Primeiro, por tudo o que aprendi sobre todos os entrevistados. Depois, por, a cada programa, perceber de que forma ela usava (ou não usava) a informação que lhe dava e como conduzia as conversas, escapando ao óbvio e procurando novos caminhos.


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Aqui, num dia em que fui espreitar as gravações, com o Sandro e o Jorge Feliciano, os entrevistados do último programa, que vai para o ar esta noite, véspera de natal. 
Se não viram, vão sempre a tempo de ver o Calendário do Advento, da Anabela Mota Ribeiro, na RTP Play.


As fotografias são da Estelle Valente.


Para me lembrar porque é que gosto tanto de fazer o que faço.

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