Nas últimas duas semanas, por uma daquelas coincidências de agenda que não conseguimos controlar, fui atropelada por um camião de trabalho que me obrigou a dormir algumas noites fora de casa, noutras a chegar à cama muito tarde, a fazer muitos quilómetros para baixo e para cima, a deixar um pouco os miúdos por sua conta e a fechar os olhos ao caos que se instalava aqui em casa. Nada disto foi fácil, por diferentes motivos. Mas, apesar do cansaço, das dores nas costas e nos joelhos, da ansiedade, da tensão permanente nos ombros, do sono (muito sono) e da culpa (a culpa, sempre), há também aqui uma grande alegria. Porque nestas duas semanas tive oportunidade de fazer algumas das coisas de que mais gosto. Por um lado, a pretexto da campanha eleitoral, pude sair da redacção e andar por aí, descobrindo o país e falando com pessoas. Por outro lado, tive um convite maravilhoso da Patrícia Portela, diretora do Teatro Viriato, em Viseu, para moderar algumas conversas com artistas no NANT - Encontro de Dança Contemporânea. O único problema foi calhar acontecer tudo ao mesmo tempo.
Esta noite dormi pouco mais de três horas e estou podre como não me sentia há muito tempo, jogada no sofá praticamente sem me mexer. Mas, apesar de tudo, é bom quando, de vez em quando, o trabalho não é só um trabalho, é também algo que nos faz sentirmos vivos, que nos desafia e nos leva a arriscar por terrenos desconhecidos, quando nos permite ultrapassar medos (e se me espalho ao comprido e só digo parvoíces em frente daquelas pessoas todas?), quando chegamos ao fim e, mesmo quando temos capacidade de auto-crítica para percebemos onde errámos e onde poderíamos ter feito melhor, sentimos que o balanço até é positivo (e, que alívio, afinal, não nos espalhámos ao comprido). E no meio disto, reencontrei algumas pessoas de que gosto muito e conheci pessoas novas, muito fixes, que quero manter por perto.
Na foto, na conversa com a fantástica Piny. Acho que aquele sorriso diz tudo. Não fui feita para o palco, isso é certo, mas talvez possa aprender a gostar disto em doses moderadas.
Já vi tudo. A terceira temporada de After Life toda de seguida, numa manhã nublada de sábado em que tinha tantas outras coisas mais importantes para fazer. O trabalho pode esperar, a roupa por passar pode esperar e se hoje não sair de casa nem fizer exercício nem fôr comprar pão também não há de ser grave. Comecei com vou só ver um bocadinho e acabei por ver os episódios todos ali entre o riso e a lágrima, uma gargalhada de vez em quando, uma ternura constante, um sentimento enorme de empatia e, depois, no último episódio, não deu mais para conter e foi choradeira do princípio ao fim.
Sobre as duas temporadas anteriores escrevi AQUI e AQUI. Não há muito mais que possa dizer. Só que é muito bom.
E, já agora, se estiverem em mood lamechas, podem ir ouvir a playlist oficial.
Ver Anne Teresa de Keersmaeker a dançar com 61 anos é uma pequena maravilha. Saio dos seus espectáculos sempre com uma alegria profunda e uma crença enorme no mundo. Contra todos os puristas e perfeccionistas, que acham que a dança deve ser avaliada pelo seu virtuosismo, cheia de movimentos muito bem executados e sincronizados, os últimos espectáculos de Anne Teresa parecem ter sempre um certo grau de imperfeição. E de humanidade.
Ontem fui à Gulbenkian ver e ouvir as suites de violoncelo de Bach, dançadas pelos bailarinos da companhia Rosas e interpretadas pelo músico Jean-Guihen Queyras (tão boa a música, tão bom o músico). Uma hora e meia de puro deleite. Esqueci-me de tudo e sorri o tempo todo por baixo da máscara.
Ver Anne Teresa de Keersmaeker a dançar com 61 anos é uma pequena maravilha. Saio dos seus espectáculos sempre com uma alegria profunda e uma crença enorme no mundo. Contra todos os puristas e perfeccionistas, que acham que a dança deve ser avaliada pelo seu virtuosismo, cheia de movimentos muito bem executados e sincronizados, os últimos espectáculos de Anne Teresa parecem ter sempre um certo grau de imperfeição. E de humanidade.
Ontem fui à Gulbenkian ver e ouvir as suites de violoncelo de Bach, dançadas pelos bailarinos da companhia Rosas e interpretadas pelo músico Jean-Guihen Queyras (tão boa a música, tão bom o músico). Uma hora e meia de puro deleite. Esqueci-me de tudo e sorri o tempo todo por baixo da máscara.
Como sempre, aproveito esta época do natal em que estou mais liberta dos afazeres de mãe para tentar ver alguns filmes e desta vez tive muita sorte porque deu para ir ao cinema ver dois dos filmes que mais queria ver em 2021: Madres Paralelas, de Pedro Almodóvar, e Licorice Pizza, de Paul Thomas Anderson. O resto vi em casa, na televisão.
Licorice Pizza
Licorice Pizza é absolutamente delicioso. Eu sou grande fã do Paul Thomas Anderson (na verdade, não consigo lembrar-me de nenhum filme dele de que não tenha gostado) e tinha lido umas coisas sobre o filme mas não sabia exactamente o que esperar. O próprio título não nos dá nenhuma pista. Aparentemente, Licorice Pizza era o nome de uma loja de discos que havia em San Fernando Valley, Los Angeles, onde o realizador cresceu e onde se passa a ação, nos anos 60.
O filme acompanha a amizade entre um rapaz que no início tem apenas 15 anos (interpretado por Cooper Hoffman, que é filho de Philip-Seymour Hoffman - com quem PTA trabalhou e de quem era amigo) e uma rapariga dez anos mais velha (interpretada por Alana Haim, uma das músicas das Haim, para quem PTA realizou vários videoclipes). É a estreia cinematográfica de ambos mas não se nota nada. Os borbulhentos Gary e Alana (assim se chamam as personagens) partilham o sonho de ser ricos (e famosos, afinal, Hollywood está mesmo ali ao lado) e estão dispostos a tudo para isso, vão ser parceiros de negócios, ganhar e perder dinheiro e ter muitas discussões, às vezes pondo em causa a sua amizade. Há momentos em que quase parece estarmos perante um filme de aventuras de adolescentes, mas com óptimos diálogos, uma banda sonora escolhida a dedo e a aparição surpreendente de figuras como Tom Waits, Sean Penn ou Bradley Cooper.
Simples e tocante, como eu gosto. E o Cooper tem o sorriso do pai.
Madres Paralelas
Seria sempre muito difícil a Pedro Almodóvar fazer um filme depois de Dor e Glória, que era magnífico. Ainda assim este filme é muito bom. Madres Paralelas é também uma reflexão sobre a maternidade e, ao mesmo tempo, sobre a importância de sabermos de onde viemos e onde estão as nossas raízes (e o sub-enredo sobre a Guerra Civil de Espanha, com um toque quase documental, não deixa de ser um pouco surpreendente). Mas é sobretudo um filme sobre mulheres, nas suas diferentes facetas e papéis. O filme tem pormenores muito bons, começando pelos actores (Penélope Cruz, Milena Smit e Israel Elejalde - dois rostos que eu não conhecia) e passando pela música, os cenários, as cores, os enquadramentos perfeitos e a ressonância de todos os melodramas que já vimos e que nos dão uma reconfortante sensão de familiaridade. Tudo extraordinariamente belo.
O Poder do Cão
Confesso que ia um pouco desconfiada. Gajos a tomar conta do gado e que se descobrem gay, onde é que já tínhamos visto isto? Mas até que gostei deste O Poder do Cão, de Jane Campion, filme marcado pela lentidão, pelos muitos silêncios, por uma natureza hostil e uma masculinidade "bruta". Mas onde também há subtilezas. Benedict Cumberbatch e Kirsten Dunst estão muito longe daquilo que costumam ser os seus registos e isso, particularmente nela, acaba por ser uma boa surpresa. Na Netflix.
A Mão de Deus
Nápoles, Itália, anos 80. Tudo acontece entre aquela altura em que se especulava sobre a vinda (quase impossível) de Diego Maradona para o clube de futebol da cidade, a chegada do jogador argentino, e o momento em que o Nápoles se sagra campeão italiano. Paolo Sorrentino regressa à sua cidade e ao seu bairro (vale a pena ver o mini-doc de oito minutos com a entrevista ao realizador) para contar a história de Fabietto, um jovem liceal, ainda quase sem barba, fascinado por Maradona e por mulheres voluptuosas (o que - embora me tenha feito alguma confusão, confesso - pode justificar em parte o modo "babado" como Sorrentino mostra as mulheres neste filme). A família de Fabietto é composta por figuras estranhas e exacerbadas, tudo muito barulhento. No entanto, a trágica morte dos pais vai mudar definitivamente a sua vida e obrigá-lo a crescer. Filme de uma beleza muito fotográfica, A Mão de Deus é também uma homenagem aos cineastas italianos que inspiraram Sorrentino e à magia do cinema, que nos ajuda a esquecer a realidade. Este é o filme italiano candidato aos Óscares. Na Netflix.
A Metamorfose dos Pássaros
Candidato português ao Óscar de Melhor Filme Internacional, A Metamorfose dos Pássaros é uma viagem de Catarina Vasconcelos pela história da sua família, centrada nas figuras da sua avó paterna, que ela não chegou a conhecer, e da sua mãe, que morreu quando ela tinha onze anos. Misturando memórias reais e ficção, actores e verdadeiros elementos da sua família, Catarina Vasconcelos presta homenagem a estas mulheres e às mulheres e às mães, de uma maneira geral. Filme sobre o amor, sobre a família e sobre a perda, A Metamorfose dos Pássaros é um filme bastante emocionante e íntimo, o que contrasta com a racionalidade dos planos, belos na sua composição perfeição. Como quadros. Óptimo para quem, como eu, gosta de folhear álbuns de fotografias antigas. Deu ontem na RTP2, por isso é aproveitar.
Não Olhes Para Cima
A comédia de Adam McKay é protagonizada por dois cientistas - interpretados por Leonardo Di Caprio e Jennifer Lawrence - que descobrem que um cometa está em rota de colisão com a Terra e que se nada for feito a vida humana não irá sobreviver ao impacto. Os seus alertas são ignorados pela fútil presidente dos Estados Unidos (Meryl Streep) que está demasiado ocupada a tentar ganhar as próximas eleições, são gozados pelos media (Cate Blanchet é a apresentadora de televisão) demasiado ocupados em entreter as massas e são ignorados pela generalidade das pessoas, demasiado autistas e com as cabeças enfiadas nos seus telemóveis para perceberem o que realmente vai acontecer. A cereja no topo do bolo é um magnata tecnológico, espécie de Steve Jobs misturado com Bill Gates e Elon Musk, que aparece como messias com um solução milagrosa mas que, afinal, se revela um embuste. A paródia à sociedade contemporânea é mais do que óbvia. As caricaturas são, como todas as caricaturas, exageradas. Não Olhes para Cima tem provocado reacções extremadas, de amor e de ódio, como se fosse o grande marco distintivo entre esquerda e direita, mas a mim parece-me que lhe estão a dar demasiada importância. Garanto que sou de esquerda até à medula e posso dizer que o filme me aborreceu de morte e não lhe achei graça nenhuma. Nem me vou incomodar a argumentar. Basicamente, isto os filmes é como os homens: até podia ser perfeito mas não houve química.
Como sempre, aproveito esta época do natal em que estou mais liberta dos afazeres de mãe para tentar ver alguns filmes e desta vez tive muita sorte porque deu para ir ao cinema ver dois dos filmes que mais queria ver em 2021: Madres Paralelas, de Pedro Almodóvar, e Licorice Pizza, de Paul Thomas Anderson. O resto vi em casa, na televisão.
Licorice Pizza
Licorice Pizza é absolutamente delicioso. Eu sou grande fã do Paul Thomas Anderson (na verdade, não consigo lembrar-me de nenhum filme dele de que não tenha gostado) e tinha lido umas coisas sobre o filme mas não sabia exactamente o que esperar. O próprio título não nos dá nenhuma pista. Aparentemente, Licorice Pizza era o nome de uma loja de discos que havia em San Fernando Valley, Los Angeles, onde o realizador cresceu e onde se passa a ação, nos anos 60.
O filme acompanha a amizade entre um rapaz que no início tem apenas 15 anos (interpretado por Cooper Hoffman, que é filho de Philip-Seymour Hoffman - com quem PTA trabalhou e de quem era amigo) e uma rapariga dez anos mais velha (interpretada por Alana Haim, uma das músicas das Haim, para quem PTA realizou vários videoclipes). É a estreia cinematográfica de ambos mas não se nota nada. Os borbulhentos Gary e Alana (assim se chamam as personagens) partilham o sonho de ser ricos (e famosos, afinal, Hollywood está mesmo ali ao lado) e estão dispostos a tudo para isso, vão ser parceiros de negócios, ganhar e perder dinheiro e ter muitas discussões, às vezes pondo em causa a sua amizade. Há momentos em que quase parece estarmos perante um filme de aventuras de adolescentes, mas com óptimos diálogos, uma banda sonora escolhida a dedo e a aparição surpreendente de figuras como Tom Waits, Sean Penn ou Bradley Cooper.
Simples e tocante, como eu gosto. E o Cooper tem o sorriso do pai.
Madres Paralelas
Seria sempre muito difícil a Pedro Almodóvar fazer um filme depois de Dor e Glória, que era magnífico. Ainda assim este filme é muito bom. Madres Paralelas é também uma reflexão sobre a maternidade e, ao mesmo tempo, sobre a importância de sabermos de onde viemos e onde estão as nossas raízes (e o sub-enredo sobre a Guerra Civil de Espanha, com um toque quase documental, não deixa de ser um pouco surpreendente). Mas é sobretudo um filme sobre mulheres, nas suas diferentes facetas e papéis. O filme tem pormenores muito bons, começando pelos actores (Penélope Cruz, Milena Smit e Israel Elejalde - dois rostos que eu não conhecia) e passando pela música, os cenários, as cores, os enquadramentos perfeitos e a ressonância de todos os melodramas que já vimos e que nos dão uma reconfortante sensão de familiaridade. Tudo extraordinariamente belo.
O Poder do Cão
Confesso que ia um pouco desconfiada. Gajos a tomar conta do gado e que se descobrem gay, onde é que já tínhamos visto isto? Mas até que gostei deste O Poder do Cão, de Jane Campion, filme marcado pela lentidão, pelos muitos silêncios, por uma natureza hostil e uma masculinidade "bruta". Mas onde também há subtilezas. Benedict Cumberbatch e Kirsten Dunst estão muito longe daquilo que costumam ser os seus registos e isso, particularmente nela, acaba por ser uma boa surpresa. Na Netflix.
A Mão de Deus
Nápoles, Itália, anos 80. Tudo acontece entre aquela altura em que se especulava sobre a vinda (quase impossível) de Diego Maradona para o clube de futebol da cidade, a chegada do jogador argentino, e o momento em que o Nápoles se sagra campeão italiano. Paolo Sorrentino regressa à sua cidade e ao seu bairro (vale a pena ver o mini-doc de oito minutos com a entrevista ao realizador) para contar a história de Fabietto, um jovem liceal, ainda quase sem barba, fascinado por Maradona e por mulheres voluptuosas (o que - embora me tenha feito alguma confusão, confesso - pode justificar em parte o modo "babado" como Sorrentino mostra as mulheres neste filme). A família de Fabietto é composta por figuras estranhas e exacerbadas, tudo muito barulhento. No entanto, a trágica morte dos pais vai mudar definitivamente a sua vida e obrigá-lo a crescer. Filme de uma beleza muito fotográfica, A Mão de Deus é também uma homenagem aos cineastas italianos que inspiraram Sorrentino e à magia do cinema, que nos ajuda a esquecer a realidade. Este é o filme italiano candidato aos Óscares. Na Netflix.
A Metamorfose dos Pássaros
Candidato português ao Óscar de Melhor Filme Internacional, A Metamorfose dos Pássaros é uma viagem de Catarina Vasconcelos pela história da sua família, centrada nas figuras da sua avó paterna, que ela não chegou a conhecer, e da sua mãe, que morreu quando ela tinha onze anos. Misturando memórias reais e ficção, actores e verdadeiros elementos da sua família, Catarina Vasconcelos presta homenagem a estas mulheres e às mulheres e às mães, de uma maneira geral. Filme sobre o amor, sobre a família e sobre a perda, A Metamorfose dos Pássaros é um filme bastante emocionante e íntimo, o que contrasta com a racionalidade dos planos, belos na sua composição perfeição. Como quadros. Óptimo para quem, como eu, gosta de folhear álbuns de fotografias antigas. Deu ontem na RTP2, por isso é aproveitar.
Não Olhes Para Cima
A comédia de Adam McKay é protagonizada por dois cientistas - interpretados por Leonardo Di Caprio e Jennifer Lawrence - que descobrem que um cometa está em rota de colisão com a Terra e que se nada for feito a vida humana não irá sobreviver ao impacto. Os seus alertas são ignorados pela fútil presidente dos Estados Unidos (Meryl Streep) que está demasiado ocupada a tentar ganhar as próximas eleições, são gozados pelos media (Cate Blanchet é a apresentadora de televisão) demasiado ocupados em entreter as massas e são ignorados pela generalidade das pessoas, demasiado autistas e com as cabeças enfiadas nos seus telemóveis para perceberem o que realmente vai acontecer. A cereja no topo do bolo é um magnata tecnológico, espécie de Steve Jobs misturado com Bill Gates e Elon Musk, que aparece como messias com um solução milagrosa mas que, afinal, se revela um embuste. A paródia à sociedade contemporânea é mais do que óbvia. As caricaturas são, como todas as caricaturas, exageradas. Não Olhes para Cima tem provocado reacções extremadas, de amor e de ódio, como se fosse o grande marco distintivo entre esquerda e direita, mas a mim parece-me que lhe estão a dar demasiada importância. Garanto que sou de esquerda até à medula e posso dizer que o filme me aborreceu de morte e não lhe achei graça nenhuma. Nem me vou incomodar a argumentar. Basicamente, isto os filmes é como os homens: até podia ser perfeito mas não houve química.
Caminhar, voltar aos transportes públicos, andar a pé sempre que possível.
Voltei à terapia. Também sou péssima nisto mas estou a esforçar-me.
Os meus amigos (vocês sabem quem são). Não estive com eles tanto quanto gostaria mas aproveitei todas as oportunidades para encontrá-los, abraçá-los e mostrar-lhes o quanto são importantes para mim.